Sicario – Dia do soldado (2018)

Por André Dick

É no mínimo surpreendente que Sicario – Terra de ninguém, um dos melhores filmes sobre tráfico de drogas, dirigido por Denis Villeneuve, tenha recebido uma continuação tão interessante pelas mãos do italiano Stefano Sollima. Isso talvez se deva ao fato de Taylor Sheridan, roteirista do primeiro, regressar aqui, para mostrar a trajetória novamente de Alejandro Gillick (Benicio del Toro) e Matt Graver (Josh Brolin), do Departamento de Justiça.
Se o primeiro barrava os limites entre o certo e o errado, entre a ética do Estado ou seu rompimento, para evocar indagações internas na agente do FBI Kate Macer, interpretada por Emily Blunt, isso, de certo modo, ganha um grande potencial, até maior, em Sicario – Dia do soldado, com uma configuração notável dos problemas no México. Sheridan, mais uma vez, depois dos trabalhos exibidos em A qualquer custo (pelo qual foi indicado ao Oscar) e Terra selvagem (o qual escreveu e dirigiu), mostra seu interesse por personagens vivendo uma experiência à parte do mundo conturbado, em lugares afastados, no entanto sempre afetados pela realidade mais explosiva. Toda a sua narrativa poderia ser equiparada, como A qualquer custo, com um faroeste contemporâneo, no qual os mocinhos e bandidos não são bem definidos, os cavalos são helicópteros ou caminhonetes e as regras da lei são constantemente quebradas para que se imponha o mínimo de ordem.

Graver é chamado novamente à ação depois de um atentado terrorista num supermercado de Kansas City, pelo secretário de Defesa dos EUA, James Riley (Matthew Modine). Supervisionado por Cynthia Foards (Catherine Keener), Graver, depois de uma passagem pela Somália (em cenas que lembram A hora mais escura), tenta colocar traficantes de drogas uns contra os outros dentro do México. Ele pede a participação do antigo companheiro no sequestro de Isabel Reyes (Isabela Moner), filha adolescente de 16 anos de um dos mais poderosos líderes de um cartel de drogas mexicano, mas dando a entender que são os rivais dele que o realizam – quando o espectador sabe se tratar de agentes ligados ao governo, com ou sem lei. A maneira como Sollima grava essas sequências, nas quais a verdade existe para o espectador, não para Isabel, numa espécie de metalinguagem bem-sucedida (tudo é uma grande encenação), se faz fidedigna do talento de Villeneuve em compor um clima de tensão, localizável anteriormente em Incêndios, tanto dentro de pavilhões militares quando em estradas em meio ao deserto. Esta característica se revela nos momentos de emboscada, que Sollima roda com uma urgência incomum no cinema norte-americano sem se expor a lugares-comuns excessivos.

Esta continuação de Sicario guarda em parentesco com o primeiro, além da fotografia extraordinária de Dariusz Wolski (utilizando suas lentes já testadas nesse cenário com O conselheiro do crime, de Ridley Scott, uma influência clara para o original de Villeneuve), a sua maneira discreta de tratar de temas familiares, como se mostra no comportamento de Gillick, em mais uma atuação irrepreensível de Del Toro. Sua amizade com Isabel é parecida com aquela que tinha com a agente feita por Blunt no primeiro e os maneirismos do ator mexicano nunca perdem para sua convicção em interpretá-los. Ao recordar novamente de sua filha, impossível não registrar o domínio da figura da mulher num ambiente petrificado.
Muitos apontam este filme como uma sequência desnecessária, contudo é possível ver os personagens sendo explorados de uma maneira interessante. Pode-se ver certa influência de Traffic, de Soderbergh, e de Heli, à medida que a trama cria raízes no México. No original de Villeneuve, quase tudo se concentrava em Macer e em seus amigos, a exemplo de  Reggie Wayne (Daniel Kaluuya), ficando para os personagens aqui enfocados apenas um mistério. Eles surgiam sempre à espreita, sem terem muito o que dizer; aqui, eles dizem, porém quando não se expressam é que seus sentimentos vêm mais à flor da pele. O destino de Gillick é um ponto realmente bem trabalhado, além de ressoar para além das imagens.

Sollima oferece a eles mais diálogos e transparência, ao mesmo tempo que os conserva à distância do espectador. É como se ele tivesse conseguido acertar naquilo que Ridley Scott não conseguiu, em Hannibal, continuação de O silêncio dos inocentes. Utiliza a ação como um soco, não deixando de lado a violência, mas sem utilizá-la com exagero. Tanto a trilha sonora de Hildur Guðnadóttir lembra a composição de Jóhann Jóhannsson (infelizmente falecido) quanto a fotografia de Wolski repete tons daquela de Deakins. Em termos narrativos, é claramente diferente do primeiro (mais lento e com transições discretas, uma especialidade de Villeneuve), com uma linearidade mais ligada a um cinema de ação, sem nunca deixar de ser igualmente interessante. Talvez sua recepção menos entusiasmada tenha se dado em razão de uma certa visão política que seria prejudicial ao país focado. Isso, porém, não se expande na abordagem de Sollima: ele apenas confere problemas que estão localizados nesse combate entre personagens ligados aos Estados Unidos e seus vizinhos, sem querer indicar nenhuma solução.

Sicario – Day of soldado, EUA, 2018 Diretor: Stefano Sollima Elenco: Benicio del Toro, Josh Brolin, Isabela Moner, Jeffrey Donovan, Manuel Garcia-Rulfo, Catherine Keener Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Hildur Guðnadóttir Produção: Basil Iwanyk, Edward L. McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill Duração: 122 min. Estúdio: Black Label Media, Thunder Road Pictures Distribuidora: Columbia Pictures, Lionsgate

Transformers – O último cavaleiro (2017)

Por André Dick

A franquia Transformers já trouxe milhões a seus produtores e ao diretor Michael Bay e, apesar de perder fôlego, ainda traz boa resposta do público. Em poucas semanas de exibição, Transformers – O último cavaleiro já chegou a 517 milhões. Desde seu primeiro filme, nunca cheguei a ficar entusiasmado com os experimentos de Bay: visualmente confusos, narrativamente precários, mesmo com um visual belíssimo, principalmente o quarto, A era da extinção. Na sua origem, a grande diversão era o personagem de Shia LaBeouf e a produção de Spielberg, sempre cuidadosa na parte técnica, e ver o personagem principal correndo para todos os lados pelo menos serviu para que muitos soubessem quem são os The Strokes. Nas seguintes (O lado oculto da lua e A vingança dos derrotados), sempre nos moldes de Bay, as lutas se intensificavam, com uma porção notável de destruição, sem, por outro lado, um avanço na costura dos personagens e da mitologia dos robôs. No quarto, havia uma espécie de melhora com a troca do protagonista: Wahlberg se encaixou bem como Cade Yeager, um fazendeiro que transforma sucata em robôs, tendo de ajudar Optimus Prime contra figuras governamentais e proteger a filha, mesmo em disputa com o namorado dela, do mesmo modo que cenas de ação na China de grande competência, mais do que nos anteriores.

A história do quinto filme da série inicia em 484 d.C., mostrando o mago que acompanha o Rei Arthur (Liam Garrigan), Merlin (Stanley Tucci, já presente no anterior como Joshua Joyce, em outra participação muito boa), tendo conhecimento de uma civilização tecnologicamente avançada – pode-se adivinhar qual é. Trata-se de uma sequência interessante, remetendo também a um fragmento inicial de Prometheus, quando os cientistas buscam outras civilizações no espaço sideral.
Na Terra contemporânea, os Transformers são considerados ilegais e Optimus Prime (voz de Peter Cullen) saiu do Planeta à procura do seu criador. Um grupo de crianças, liderado por Izabella (Isabela Moner), sobrevivente da Batalha de Chicago, é salvo de uma cena de guerra por Bumblebee e Cade Yeager (Mark Wahlberg), que surgiu em A era da extinção, depois de passarem por um estádio destruído, imagem que remete diretamente a Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Quando Yeager leva Izabelle para um ferro-velho onde lida com alguns conhecidos, Bay movimenta a trama para uma espécie de semiapocalipse.

No espaço, Optimus Prime descobre que o mundo dos Transformers, Cybertron, se dirige à Terra, sendo que está sob o controle de Quintessa (voz de Gemma Chen). Por sua vez, um membro do TRF e ex-aliado dos Aubots, William Lennox (Josh Duhamel), negocia um acordo com Megatron (voz de Frank Welker), liberando vários Decepticons, que podem ajudar a recuperar um talismã que caiu nas mãos de Yeager. Na escapada deste, ele é abordado por Cogman, enviado por Sir Edmund Burton (o ótimo Anthony Hopkins), para que vá à Inglaterra, onde fica conhecendo a ligação que tem com os cavaleiros da Távola Redonda, assim como Viviane Wembly (Laura Haddock), professora de Oxford.
Com um humor insuspeito nos demais filmes, Transformers – O último cavaleiro mostra que 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi não foi fruto do momento. Mesmo Sem dor, sem ganho, no qual Bay iniciou sua parceria com Wahlberg, já havia sinais de que o diretor conseguia desenvolver um bom humor interessante. Embora mantenha maneirismos inconvenientes, como a quantidade de destruição notável (e Bay é mestre nisso desde Armageddon e Pearl Harbour), este é o melhor filme da franquia, conciliando boas atuações, principalmente de Wahlberg, Haddock e Hopkins, com efeitos visuais extraordinários e uma fotografia belíssima de Jonathan Sela, quase artística, num blockbuster feito para faturar milhões.

Bay concilia imagens em interiores com externas reais ou em CGI de maneira que o espectador ingressa num universo mesclando caos e beleza plástica. Não havia até o quarto uma preocupação maior em estabelecer vínculos com a ideia de família e ela se acentua aqui. Os diálogos que estabelecem conexão com a história do rei Arthur são verdadeiramente interessantes, fazendo um apanhado mitológico interessante por meio da figura de Sir Burton – e se imagina, pela sequência inicial, o que Bay faria num filme de Idade Média em termos de ação e visual. Também há belas referências a O segredo do abismo, de James Cameron, em algumas sequências passadas no fundo do mar, com uma destreza técnica muito boa, e a Aliens – O resgate, com Yeager e Viviane em túneis segurando tochas, mais ao final. Este é um típico filme de ação pesada e fantasia, mas com certo sentimento não encontrado nos outros. Sim, há a mensagem robotizada em todos os sentidos de Optimus Prime, parecendo por vezes um anúncio de Budweiser, mas aqui ressoa algo a mais, mesmo porque ele voltou a seu planeta e deseja que a Terra não seja destruída. Para Peter Travers, é o filme “mais tóxico” do verão norte-americano; eu diria que é realmente um dos momentos de fúria em ação mais bem feitos e divertidos do ano.

Transformers – The last knight, EUA, 2017 Diretor: Michael Bay Elenco: Mark Wahlberg, Anthony Hopkins, Peter Cullen, John Goodman, Frank Welker, Laura Haddock, Josh Duhamel, Isabela Moner, Jerrod Carmichael, John Turturro, Liam Garrigan, Stanley Tucci, Erik Aadahl Roteiro: Art Marcum, Matt Holloway, Ken Nolan Fotografia: Jonathan Sela Trilha Sonora: Steve Jablonsky Produção: Matthew Cohan, Tom DeSanto, Lorenzo di Bonaventura, Don Murphy Duração: 149 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Paramount Pictures