Foxtrot (2017)

Por André Dick

Drama israelense que ficou entre os pré-finalistas ao Oscar de filme estrangeiro, depois de iniciar uma trajetória exitosa no Festival de Veneza do ano passado, Foxtrot, como muitas produções de qualidade, não chegou aos cinemas brasileiros, sendo lançado diretamente em vídeo. Com sua história contundente, ele mostra Michael (Lior Ashkenazi) e Dafna Feldmann (Sarah Adler), importante casal de Tel Aviv que recebe a notícia de militares israelenses de que seu filho Jonathan (Yonathan Shiray), que serve como soldado, morreu. Eles possuem outra filha, Dafna (Ilia Grosz), inserida no mesmo drama.
No entanto, acontece uma reviravolta, e se descobre que o Jonathan Feldman que morreu é outro. O diretor irá mostrar, a partir daí, exatamente Jonathan com seus colegas no posto onde trabalha, em situação precária, vigiando a entrada de pessoas vindas da Palestina. O filme desliza para um tom crescente de pessoas perdidas no meio do nada que remete muito a Incêndios, de Villeneuve, no entanto com elementos mais bem-humorados.

O diretor Samuel Maoz está em busca claramente de uma síntese para um tema espinhoso – o da guerra nas fronteiras de um país –, escolhendo como pressuposto uma família em ordem desestabelecida por uma notícia contrária a qualquer expectativa. O diretor localiza a família em ambientes bem arejados e esteticamente belos, enquanto no deserto tenta focar essa estética nas cores dentro de um contêiner onde ficam os soldados e em vidros quebrados de uma construção a distância. Do mesmo modo, contrapõe o ambiente de dança onde está a mãe idosa de Michael (Karin Ugowski), sobrevivente de Auschwitz, um deles com um rifle em meio à estrada, que dá passagem, num momento aparentando certo surrealismo, a um camelo, indo em direção a um horizonte infinito.
Se ele coloca o pai no início maltratando um cão depois de saber da morte do filho, Foxtrot lida com a raiva de modo a canalizá-la em um sistema já entregue pela sociedade: a guerra está presente, no entanto os pais do filho soldado não estão preparados justamente para carregá-la em seu cotidiano. A mãe está desperta, no entanto à base de remédios; o pai tenta se punir no banheiro abrindo uma torneira com água quente, fazendo ferida em sua mão.

Essa espécie de busca pela punição vai no sentido oposto do cotidiano de Jonathan com seus amigos: enquanto eles esquentam latas congeladas de carne e contam os segundos que levam para uma delas rolar no trailer precário onde ficam, elas não antecipam o que irá ocorrer a eles numa determinada noite. Há um determinado receio no ar do que pode acontecer a esses personagens, como se tudo estivesse no limite de um embate não configurado de forma explícita, sendo quase uma faceta mais realista de Cães do guerra, a obra subestimada de Todd Phillips de alguns anos atrás.
O diretor Maoz certamente traz para o filme sua participação na Guerra do Líbano, mostrando essa divisão entre um cenário familiar e um cenário de adversidade. Jonathan também representa, por meio dos seus desenhos, uma lembrança, para seu pai, de um passado já distante. É interessante como a figura da mulher se torna manifesta quase que praticamente por meio dos desenhos – e uma conversa de Jonathan, que os realiza, ao lembrar para seus colegas de exército sobre uma revista particular encontrada por seu pai, desencadeia no ato final uma animação que lembra ligeiramente Valsa para Bashir, voltado a um reencontro familiar no imaginário.

A dor com a qual Foxtrot lida envolve não apenas a família, como também a própria tradição da qual ela faz parte. Por isso, é tão espetacular quando, de maneira discreta, Maoz costura o primeiro ato com o ato final, como se tudo fizesse parte de uma história a ser recontada por gerações. A descoberta de pequenas lembranças, objetos deixados para a posteridade, se encaixa com uma notável sensibilidade voltada à culpa pelo que se escondeu. Preocupado com um certo discurso poético subliminar, Maoz lida com o destino dos personagens como parte daquilo que os antecedeu não apenas no cargo do qual se encarregam e sim do passado que recontam às pessoas próximas. Nesse sentido, a visita de Jonathan à sua mãe adquire toda uma carga simbólica, fazendo de Foxtrot um registro documental da sensibilidade.

פוֹקְסטְרוֹט, ISR/ALE/FRA/SUI, 2017 Diretor: Samuel Maoz Elenco: Lior Ashkenazi, Sarah Adler, Yonathan Shiray, Ilia Grosz, Karin Ugowski Roteiro: Samuel Maoz Fotografia: Giora Bejach Trilha Sonora: Ophir Leibovitch, Amit Poznanky Produção: Eitan Mansuri Duração: 112 min. Estúdio: Bord Cadre Films