Hellboy (2019)

Por André Dick

Logo depois do díptico Hellboy, dirigido por Guillermo del Toro, com Ron Perlman no papel central, o personagem se tornou um dos grandes destaques das adaptações dos quadrinhos para o cinema. Sem que voltasse para a direção do terceiro, Del Toro implicou também a desistência de Perlman na continuidade à frente do personagem. Coube aos roteiristas escrever uma nova versão, com colagem de várias histórias da criatura configurada por Mike Mognola e se direcionando para uma espécie de reboot. O filme inicia na Idade das Trevas, quando a Rainha Vivian Nimue (Milla Jovovich) espalha uma praga, sendo impedida por Rei Arthur e sua espada Excalibur.
A narrativa se transporta para os dias atuais, quando Hellboy (agora David Harbour, o xerife da série Stranger Things) está à procura, em Tijuana, no México, do agente Esteban Ruiz (Mario de la Rosa), rendendo uma das sequências mais interessantes da história.

Depois de um incidente, Hellboy vai se encontrar com o líder do BPRD Trevor Bruttenholm (Ian McShane), o humano que o adotou. Ele pede que o filho ajude o Clube Osiris na busca por três gigantes. Lá, Hellboy encontra Lady Hatton (Sophie Okonedo), uma espécie de vidente, mas a caminho de uma missão ele se depara com um imprevisto. Ao mesmo tempo, uma estranha criatura em forma de javali tem as ordens de Baba Yaga (Emma Tate, com voz de Troy James) para colher os restos de Nimue, para poder se vingar de Hellboy.
Este acaba sendo resgatado por Alice Monaghan (Sasha Lane), uma médium que ele ajudou quando ela era bebê. Juntos com o agente M11 Ben Daimio, os personagens partem para o enfrentamento com uma possível volta de Nimue, com diálogos ágeis escritos por Andrew Cosby. O mais plausível desta versão é justamente a ligação de Hellboy com Alice, fazendo com que suas ações sejam sugeridas pelo passado estabelecido com os humanos, mesmo em seu surgimento, incluindo também a presença de Lobster Johnson (Thomas Haden Church, quase irreconhecível).

Nos moldes do que acontece com algumas criaturas que aparecem ao longo de sua narrativa, Hellboy foi destroçado pela crítica e já desponta, na opinião de muitos, como pior filme do ano. Talvez isso fosse diferente se Kevin Feige fosse seu produtor: talvez, inclusive, fosse indicado ao Oscar. Certamente a nova versão não tem a condução criativa de Del Toro, com seu tato especial para o trabalho de design de produção, porém a obra não deixa a desejar em termos de direção ou elenco e mesmo na parte técnica. Se Harbour apresenta uma boa atuação central, Sasha Lane (a revelação de Docinho da América) e Ben Daimio (Daniel Dae Kim) fazem uma boa equipe, trazendo certa humanidade que faltava mesmo nos episódios dirigidos por Del Toro. No design dos cenários e nos efeitos visuais, além da fotografia captando bem os interiores de Lorenzo Senatore, o filme apresenta qualidade, demonstrando a experiência do diretor Marshall à frente de episódios de Game of Thrones. As passagens em que se mostra o surgimento de Hellboy é possível ver um diálogo com Os caçadores da arca perdida, ao mesmo tempo que as referências ao Rei Arthur vão ao encontro da versão recente de Guy Ritchie e também há referências a Constantine – mais ao início.

Também há boas cenas de ação. Uma delas, em que Hellboy enfrenta seres ameaçadores, é óbvio o diálogo com Jack, o caçador de gigantes, com uma faceta violenta. Em outro momento, no topo de uma montanha e uma estranha árvore, temos a presença de A lenda do cavaleiro sem cabeça. Enumeram-se essas obras não para mostrar uma diluição, e sim para mostrar com o diretor Neil Marshall trabalha com referências cinematográficas que tornam sua obra também interessante. Aliás, ao contrário das obras de Del Toro, Hellboy de Marshall é mais gore. Del Toro concentrava o horror na viscosidade das criaturas que apresentava, quase que como uma extensão do universo que desenvolvia em O labirinto do Fauno. Tudo isso proporciona um ritmo contínuo e agradável, com uma atmosfera de mistério. Jovovich, apesar de não ser grande atriz, tem uma boa participação como Nimoe, assim como McShane, com pouca participação, convence no papel de pai humano de Hellboy. E Harbour, apesar dos poucos diálogos, confere sua presença no papel central, em boa parceria com Lane e Dae Kim. Ele insere um lado cômico que não estava tão sobressalente com Perlman, assim como uma certa ingenuidade em seu tratamento com os humanos. Algumas gags parecem, inclusive, improvisadas, no entanto soam orgânicas em meio ao contexto despretensioso. Ele ajuda a impedir que a edição apressada do ato final se torne menos estranha, estabelecendo uma ponte entre as histórias desses personagens que o cercam e soando como entre dois filmes, King Kong e Indiana Jones e a última cruzada. Nesse sentido, é interessante perceber como esta versão teria potencial para uma franquia se não tivesse sido, de maneira injusta, tão mal recebida.

Hellboy, EUA, 2019 Diretor: Neil Marshall Elenco: David Harbour, Milla Jovovich, Ian McShane, Sasha Lane, Daniel Dae Kim Thomas Haden Church Roteiro: Andrew Cosby Fotografia: Lorenzo Senatore Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch Produção: Lawrence Gordon, Lloyd Levin, Mike Richardson, Philip Westgren, Carl Hampe, Matt O’Toole, Les Weldon Yariv Lerner Duração: 121 min. Estúdio: Milennium Media, Lawrence Gordon Productions, Dark Horse Entertainment, Nu Boyana, Campbell Grobman Films Distribuidora: Lionsgate

John Wick 3 – Parabellum (2019)

Por André Dick

Em 2014, foi lançado o personagem de John Wick em De volta ao jogo, com Keanu Reeves, que se caracterizava pelo visual potencialmente distinto e com violência extrema. Sua vingança se dava em nome  da morte de seu cão. John Wick – Um novo dia para matar começa apenas quatro dias depois dos acontecimentos do original, com o personagem indo atrás de seu Mustang 1969 totalmente escuro, que se encontra com Abram Tarasov (Peter Stormare), irmão dos principais antagonistas da primeira história. Achando que voltou à tranquilidade, com um novo cão, John recebe a visita do italiano Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), que lhe apresenta um medalhão que obrigaria John a lhe prestar serviços. No entanto, é o que ele menos quer: seu desejo é ficar recolhido em sua casa, recordando da esposa. O roteiro apresentava os personagens com agilidade e, embora não soubéssemos muito sobre eles, as principais características eram desenhadas. Agora, ele está de volta em John Wick 3 – Parabellum.

O diretor Chad Stahelski, dublê de Reeves em Matrix e coordenador na área das sequências, novamente mostra cenas que parecem saídas de um filme de arthouse de ação. Se eu imaginasse um Nicolas Winding Refn fazendo uma obra urbana com uma sequência impressionante de mortes seria esta, em que Stahelski busca claramente inspiração, principalmente no uso de cenários com neons. E, mais do que trazer uma influência de Johnnie To – uma referência para filmes de máfia oriental e que se liga a um certo exagero cênico –, John Wick 3 já começa apresentando uma sequência impressionante de lutas e com fundo metalinguístico: vai de Wick lutando artes marciais na Biblioteca Pública de Nova York até ele andando de cavalo pelas ruas da cidade, lembrando um faroeste, e em seguida participando de uma perseguição de motos. Uma juíza (Asia Kate Dillon) da High Table, órgão global do crime, surge para tentar punir quem o liberou de pagar por um determinado crime, colocando sua cabeça a prêmio por 14 milhões de dólares, ameaçando Winston (Ian McShane), que é o dono do hotel Continental em Nova York, sempre assessorado por Charon (Lance Reddick), onde a trilogia, até agora, tem cenas substanciais.

Como o segundo, este John Wick 3 acentua a tragédia do personagem, aprisionado num universo violento. O anterior tinha cenas inusitadas passadas em Roma,este não fica para trás. No momento em que se encontra com a superiora de Wick da Ruska Roma (Anjelica Huston, com figurino que remete a Cidade dos sonhos, de David Lynch), aquela que dá a porção Cisne negro à história (e talvez a analogia mais óbvia da trama, que não passa, no fundo, de um balé de cenas coreografadas de maneira espetacular e ultraviolenta), ele se mostra como no fim do primeiro filme, pertencente a um novo Matrix, principalmente quando mostra Rei Bowery, numa boa atuação do mesmo Laurence Fishburne que fazia Morpheus na série das hoje irmãs Wachowski.
Quando ele se desloca para o Marrocos, mais exatamente Casablanca, onde encontra Sofia (Halle Berry, um pouco deslocada) e depois no deserto, em cenas que dialogam de maneira imprevisível com a série Indiana Jones e O céu que nos protege, de Bertolucci, o personagem adota uma linha entre Neo e 007. Reeves se apresenta bem no papel e, mesmo não havendo nenhuma sequência que rivalize com a da estação de trem do anterior, e em geral seja estilo total sobre substância (o que o segundo escondia com um corte abrupto em relação ao original de 2014, de uma violência mais urbana e menos estilizada), John Wick 3 se sente um filme de ação especial pela tentativa de continuar esboçando uma mitologia. Ainda surge um sushiman especializado em artes marciais, Zero (Mark Dacascos), com dois assessores pouco simpáticos (Cecep Arif Rahman e Yayan Ruhian).

Também Stahelski volta a investir num visual extraordinário, com um jogo de luzes primoroso, concedido por Dan Laustsen (que vem fazendo uma parceria exitosa com Guillermo del Toro, em trabalhos como A forma da água), aqui destacando a chuva sobre a cidade de Nova York, fazendo lembrar, com seus neons e luminosos, o futurismo de Blade Runner. Reeves, ator que se sente muito bem nesses papéis, faz de maneira exata seu John Wick. Seu semblante entre a passividade e a fúria joga com o duplo que seu personagem desempenha: em nenhum momento o espectador se pergunta por que ele age dessa maneira; ele apenas se pergunta por que querem tanto que ele aja assim. Acentua o drama de modo adequado. E, em meio a tudo, há sempre cães rondando Wick, como se o simbolizassem, desde o primeiro filme. Há, nesta terceira parte, contudo, os diálogos breves não fazem mais tanto sentido e algumas cenas de ação excessivas, mesmo que conduzidas com uma técnica impressionante, o que o torna relativamente menos interessante e surreal do que o segundo. Talvez porque Stahelski deveria dividir a direção novamente com David Leitch, do primeiro, que fez depois os criativos Deadpool 2 e Atômica. Ainda assim, é uma conquista do gênero, estabelecendo uma franquia recente capaz de rivalizar com Missão: impossível.

John Wick: Chapter 3 – Parabellum, EUA, 2019 Diretor: Chad Stahelski Elenco: Keanu Reeves, Halle Berry, Laurence Fishburne, Mark Dacascos, Asia Kate Dillon, Lance Reddick, Anjelica Huston, Ian McShane Roteiro: Derek Kolstad, Shay Hatten, Chris Collins, Marc Abrams Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Tyler Bates, Joel J. Richard Produção: Basil Iwanyk, Erica Lee Duração: 131 min. Estúdio: Thunder Road Pictures, 87Eleven Productions Distribuidora: Summit Entertainment

John Wick – Um novo dia para matar (2017)

Por André Dick

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Em 2014, foi lançado o personagem de John Wick em De volta ao jogo, com Keanu Reeves, que se caracterizava pelo visual potencialmente distinto e com violência extrema. A crítica e o público o elegeram como um destaque, fazendo com que houvesse logo essa continuação. John Wick – Um novo dia para matar já começa apenas quatro dias depois dos acontecimentos do original, com o personagem indo atrás de seu Mustang 1969 totalmente escuro, que se encontra com Abram Tarasov (Peter Stormare), irmão dos principais antagonistas da primeira história.
Achando que voltou à tranquilidade, com um novo cão e a ajuda de Aurelio (John Leguizamo), para arrumar seu carro, John recebe a visita do italiano Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), que lhe apresenta um medalhão que obrigaria John a lhe prestar serviços. No entanto, é o que ele menos quer: seu desejo é ficar recolhido em sua casa, recordando da esposa. O roteiro de Derek Kolstad tem a qualidade de apresentar os personagens com agilidade e, mesmo que não saibamos muito sobre eles, as principais características estão desenhadas e se pode focá-las com evidência.

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Winston (Ian McShane), que é o dono do hotel Continental em Nova York, onde o primeiro filme tinha cenas substanciais, lembra a Wick que ele não pode rejeitar o medalhão, pois senão estará colocando em risco sua figura no submundo. D’Antonio quer que Wick mate sua irmã Gianna (Claudia Gerini), em Roma, para que possa ingressar numa espécie de alto conselho da criminalidade. Ares (Ruby Rose) é uma guarda-costas de D’Antonio que segue o assassino profissional, e Cassian (Common) também segue em seu encalço, sem a princípio o espectador entender o motivo. Gianna é uma das personagens mais marcantes num filme de ação, apesar da breve presença, porque parece retratar todo o mistério desse submundo que persegue o personagem central, do qual ele não consegue se desvencilhar em nenhum momento, precisando estar sempre preparado para o combate. Gerini contribui com uma cena verdadeiramente impactante.
Desta vez, o diretor Chad Stahelski mostra um personagem envolvente e cenas de ação que parecem saídas de um filme de arthouse de ação. Se eu imaginasse um Wong Kar-Wai ou um Nicolas Winding Refn fazendo uma obra urbana com uma sequência impressionante de mortes seria esta (e Refn de certo modo já fez uma de forma mais simbólica, Apenas Deus perdoa, em que Stahelski busca claramente inspiração, principalmente no uso de cenários com neons). E, mais do que trazer uma influência de Johnnie To – uma referência para filmes de máfia oriental e que se liga a um certo exagero cênico –, John Wick – Um novo dia para matar parece envolver mais bom humor embutido na tragédia.

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Desde o início, quando o personagem sai com seu carro capenga do confronto com os inimigos, isso fica bastante claro, mas se acentua ainda mais na ida para Roma, onde vira uma espécie de perseguido pelas ruas. Há algo de engraçado e trágico, ao mesmo tempo, na figura do personagem central, e Keanu Reeves consegue desenvolvê-lo com rara perspicácia. As cenas são coreografadas de maneira espetacular e talvez aqui estejam algumas das melhores cenas de embate filmadas neste século.
O primeiro filme ficou conhecido como aquele em que um homem se vingava daqueles que mataram seu cão, e aqui John Wick parece estar mais associado a uma espécie de linhagem da qual não consegue se livrar e, ao contrário do original, cada cena segue outra com grande naturalidade.
E, naturalmente, surge uma aproximação com James Bond num encontro num museu de Wick com D’Agostino, que remete a uma conversa entre o agente inglês e Q (Ben Widshaw) em 007 – Operação Skyfall. Com isso, há uma tentativa de tornar o personagem praticamente invencível, uma espécie de Matrix.

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Não são poucas vezes que se lembra da trilogia das hoje irmãs Wachowski, não apenas porque Reeves está à frente em cada cena, e sim porque o jogo que se desenha por trás de sua presença perturbadora é bastante focada numa mitologia, embora aqui, claro, mais real, em locações de Roma. Também há uma longa sequência numa estação de trem que recorda tanto elementos de Brian De Palma em O pagamento final e Um tiro na noite, como, exatamente, Neo em Matrix reloaded e Matrix revolutions, quando ficava preso entre mundos diferentes.
Nisso, há uma espécie de lembrança da saga O poderoso chefão, com seu punhado de personagens envolvidos em tragédias passadas em escadarias. É natural, ao longo da narrativa, o jogo de espelhos do filme, pelo visual extraordinário, com um jogo de luzes primoroso, concedido por Dan Laustsen (que trabalhou para Del Toro no fantástico A colina escarlate), e pela maneira que o próprio personagem se vê, sempre preso dentro de si mesmo, do seu próprio labirinto. Reeves, ator que se sente muito bem nesses papéis, faz de maneira exata seu John Wick. Seu semblante entre a passividade e a fúria joga com o duplo que seu personagem desempenha: em nenhum momento o espectador se pergunta por que ele age dessa maneira; ele apenas se pergunta por que querem tanto que ele aja assim. Isso é um dos mistérios de John Wick e, pelo que se percebe, com sua recepção, dessa franquia.

John Wick – Chapter 2, EUA, 2017 Diretor: Chad Stahelski Elenco: Keanu Reeves, Common, Laurence Fishburne, Riccardo Scamarcio, Ruby Rose, John Leguizamo, Ian McShane, Bridget Moynahan, Lance Reddick, Thomas Sadoski, David Patrick Kelly, Peter Stormare Roteiro: Derek Kolstad Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Joel J. Richard, Tyler Bates Produção: Basil Iwanyk Duração: 110 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Lionsgate Films / PalmStar Media / Thunder Road Pictures

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