Os incríveis 2 (2018)

Por André Dick

Há três anos, Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível mostrava mais uma tentativa de Brad Bird em dirigir filmes com humanos. Precedido por desenhos animados importantes, como O gigante de ferroOs incríveis e Ratatouille, Bird estreou em Missão fantasma – Protocolo fantasma à frente de um elenco. Se o episódio que fez de Ethan Hunt não possui a mesma vibração da terceira parte, de J.J. Abrams, pode-se dizer que ele conseguiu acertar nas sequências de movimento incessante e Tomorrowland, apesar do fracasso financeiro, foi uma ficção científica diferenciada. Com grande divulgação da Walt Disney, aos poucos Tomorrowland foi sendo comparado a John Carter, principalmente pela bilheteria, que equivaleu, no momento, a pouco mais de seu orçamento e teria provocado, inclusive, o cancelamento das filmagens de um possível terceiro Tron. Com essa decepção em sua curta e relevante filmografia até agora, Bird voltou à area da animação, com a sequência Os incríveis 2.

Ele retoma a história dos integrantes da família Parr – Bob (Craig T. Nelson), Helen (Holly Hunter), Dash (Huck Milner), Violet (Sarah Vowell) e Jack-Jack (Eli Fucile) – que formam os super-heróis intitulados Incríveis. Durante uma ação contra um ato de vilania, o agente Rick Dicker (Jonathan Banks) avisa que o programa do qual fazem parte será desativado, o que força os super-heróis a terem de se manter secretos o tempo todo. A família em seguida é contatada por Winston Deavor (Bob Odenkirk), fã de super-heróis e dono da DEVTECH, assessorado pela irmã Evelyn (Catherine Keener). Helen é escolhida, com sua identidade Elastigirl, a ser a primeira a ser uma espécie de relações públicas da empresa, por ser mais delicada do que seu marido, Bob, conhecido também por seu temperamento. Weaver, por sua vez, deixa os incríveis morando numa mansão extraordinária, e Bob assume o papel de cuidar dos filhos enquanto a mulher vai combater o crime. Em meios às reviravoltas, também temos o personagem Lucius (Samuel L. Jackson).
Há uma questão preocupante: o bebê da família, Jack-Jack, começa a descobrir também seus poderes, e Bob o leva para Edna Mode (Brad Bird), a estilista de super-heróis que já aparecia na primeira parte. A primeira grande ação de Elastigirl é impedir ataque a um trem sofisticado, numa sequência que remete a Operação França, de William Friedkin, dos anos 70. Surge a verdadeira ameaça: um vilão, Screenslaver (Bill Wise), que hipnotiza as pessoas com telas de TV, celulares e óculos.

Os incríveis 2 tem todos os elementos já vistos no primeiro, de 2004, com um bom humor e ação mesclados e uma família disfuncional muito interessante. Não chego a ter nostalgia do primeiro (não está entre minhas animações preferidas), por isso não me parece tão destoante considerar este segundo mais bem resolvido. Ele ingressa na linha das continuações da Pixar com real qualidade, a exemplo dos subestimados Universidade Monstros e Carros 3. O primeiro tinha os dois primeiros terços bem resolvidos, mas caía um pouco no lugar-comum na última parte. Este, muito em razão de Jack-Jack, o bom humor se espalha em núcleos até a resolução de tudo, brincando com o próprio gênero de maneira bem-humorada. Bird sempre se mostrou um exímio diretor no sentido de utilizar esses elementos na pérola O gigante de ferro, que o levou à Disney, e mesmo em Tomorrowland, muito contestado, conseguia utilizá-los em boa proporção. Bird tem uma leveza para abordar temas que poderiam ser forçados: ele não abdica de uma visão moderna sobre os super-heróis, porém nunca a coloca com uma seriedade pré-programada.

O fato de Helen sair de casa, enquanto o marido tenta cuidar dos filhos, é uma abordagem certamente interessante, à medida que no ano passado Mulher-Maravilha recebeu tanto destaque. Elastigirl fornece, além disso, uma composição de imagens em ação bastante satisfatórias (da família, é certamente aquela com super-poderes mais interessantes). No entanto, Bird tem um verdadeiro encanto em homenagear antigos filmes em suas obras. Se O gigante de ferro possuía referências claras a E.T. – O extraterrestre e Tomorrowland dialogava com Os Goonies, Os incríveis 2, além de sua homenagem constante a 007, como o anterior, evoca Velocidade máxima 2 numa passagem surpreendente, além de desenhar uma aeronave como aquela de Interestelar, de Christopher Nolan. Também temos lembranças, em algum momento do vilão e de sua hipnose, do recente Thelma – uma tentativa sueca de fazer uma mulher com poderes paranormais (embora se lamente que uma animação utilize imagens que podem provocar problemas em quem possui fotossensibilidade, pois seria dispensável esse recurso para fazer a narrativa funcionar) – e de toda obra visual de Tim Burton, especialmente das propagandas do Coringa na televisão de Batman. E, assim como o primeiro, há homenagem constante à discussão do papel do super-herói na sociedade, como em Watchmen. Mesmo a figura de Helen é claramente inspirada visualmente na de Laurie Juspeczyk/Espectral II (vivida no cinema por Malin Åkerman), dos criadores Alan Moore e Dave Gibbons. Visualmente, Bird está entre os melhores diretores da atualidade: Os incríveis 2 mostra isso de maneira notável, com design de produção meticuloso e uma ambientação que leva o espectador a ingressar em cada cenário como se fosse verdadeiro. Seu senso de divertimento nunca se desequilibra e nunca torna os personagens em caricaturas, como poderia acontecer de modo indevido.

Incredibles 2, EUA, 2018 Diretor: Brad Bird Elenco: Craig T. Nelson, Holly Hunter, Sarah Vowell, Huck Milner, Samuel L. Jackson, Bob Odenkirk, Catherine Keener Roteiro: Brad Bird Fotografia: Mahyar Abousaeedi Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: John Walker, Nicole Paradis Grindle Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Pixar Animation Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

Doentes de amor (2017)

Por André Dick

Há alguns filmes que costumam ser caracterizados pela fusão de gênero; quando os assistimos, não conseguimos definir a que gênero exatamente pertencem, e isso torna suas qualidades mais ou menos intensas, dependendo de como a proposta é desenvolvida. Mistura entre comédia, drama e romance assinada por Michael Showalter, Doentes de amor mostra o namoro entre um descendente de paquistaneses, Kumail (Kumail Nanjiani), que trabalha como motorista de Uber enquanto tenta se lançar como comediante de stand-up, e a recém-separada Emily (Zoe Kazan), estudante de psicologia. Os dois moram em Chicago. Se a família dele não sabe que ele está querendo namorar uma moça alheia à sua cultura, tudo se complica quando ela fica doente e ele precisa passar por uma experiência hospitalar junto aos pais dela, Beth (Holly Hunter) e Terry (Ray Romano). Se a primeira parte anuncia apenas um romance leve, com a aproximação de um casal tentando investir numa nova paixão, a partir do segundo ato os detalhes se concentram numa espécie de congregação de culturas diferentes.

O roteiro assinado por Nanjiani, mais conhecido pela série de TV Silicon Valley, e Emily V. Gordon, a partir de sua própria experiência, reserva momentos leves e de afeto, principalmente quando Beth se desentende com Kumail por saber de informações repassadas pela filha, e ele se torna amigo de Terry. Que a atuação de Nanjiani é muito boa, é claro desde o início, assim como de Kazan, sempre despertando empatia com o espectador (a exemplo de Ruby Sparks), mas são Hunter e Romano que de certo modo aplicam a humanidade nessa história. Os dois estão excelentes, roubando a cena: enquanto Hunter (vista este ano rapidamente em De canção em canção) é uma mãe dedicada à filha, o pai feito por Romano (conhecido por sua série de TV exitosa) fica num meio-termo entre a aversão da esposa a Kumail, por ele ter tido um determinado comportamento, e a tentativa de conciliar todos. Pelo cenário do hospital, pode-se imaginar que se evitam os conflitos abertos, no entanto esses se mostram mais amplos de maneira interna.

Os pais de Kumail, Azmat (Anupam Kher) e Sharmeen (Zenobia Shroff) não sabem o que está acontecendo com o filho, nem entendem por que ele não se interessa por Naveed (Adeel Akhtar), pretendente de um casamento arranjado, que tenta fingir um interesse por Arquivo X, a série favorita dele. A reuniões da família durante o almoço ou o jantar configuram exatamente essa troca de ideias sobre a cultura paquistanesa e o quanto elas interagem para que os personagens se sintam individualmente interessantes. Em Doentes de amor, tudo transcorre em ritmo cotidiano, sem grandes mudanças de rumo, apenas visualizando o comportamento de pessoas em meio a uma situação de dificuldade. Compõe-se uma mescla entre o entendimento da vida, dos relacionamentos e a adaptação a determinados ambientes culturais. Há os bastidores da amizade do personagem central com outros comediantes, CJ (Bo Durnham), Mary (Aidy Bryant) e Chris (Kurt Braunohler). Doentes de amor capta bem esse ambiente, de forma muito próxima aos subestimados The comedian, com Robert De Niro em excelente performance, e Sandy Wexler, em sua visão sobre a arte. E está sendo tão bem recepcionado (depois de uma bilheteria que representa 10 vezes o seu custo) que é cogitado, inclusive, para os Oscars principais.

Temos a pressão da plateia para que o comediante seja engraçado e um certo rompimento entre o privado e o público, com histórias pessoais em meio ao tumulto. Em certos momentos, no entanto, falta mais pretensão por parte do diretor, fazendo com que tudo se mostre encaixado em excesso, para que o espectador se satisfaça. Não há, por exemplo, um desenvolvimento tão interessante no ato final que poderia conciliar todas as possibilidades no mesmo rumo. Se há algumas gags um pouco forçadas, como as que se referem ao fatídico 11 de setembro, e fazem lembrar a do previsível O ditador, ainda assim os personagens são tão simpáticos e bem delineados que o espectador acaba tendo vontade de voltar à narrativa mais uma vez. Tendo como produtor Judd Apatow, o filme lembra as narrativas desse diretor, a exemplo de Bem-vindo aos 40, retratando a tentativa de um casal de amadurecer por meio de dificuldades, embora este enfocado aqui seja mais novo do que o daquele filme. A preocupação aqui relacionada à saúde, no entanto, adquire um contorno mais dramático e ressonante, tornando Doentes de amor numa história realmente atrativa.

The big sick, EUA, 2017 Diretor: Michael Showalter Elenco: Kumail Nanjiani, Zoe Kazan, Holly Hunter, Ray Romano, Adeel Akhtar, Anupam Kher Roteiro: Emily V. Gordon, Kumail Nanjiani Fotografia: Brian Burgoyne Trilha Sonora: Michael Andrews Produção: Judd Apatow, Barry Mendel Estúdio: FilmNation Entertainment, Apatow Productions Duração: 117 min. Distribuidora: Amazon Studios, Lionsgate

De canção em canção (2017)

Por André Dick

Depois de A árvore da vida, Terrence Malick resolveu partir para um cinema baseado essencialmente na solidão da vida contemporânea, mesmo que busque, como em toda sua filmografia, a formação de casais. Foi assim em Amor pleno, Cavaleiro de copas e agora em De canção em canção. Se em Amor pleno, o personagem central casava com uma europeia e ambos iam morar no Texas edênico de Malick, em Cavaleiro de copas acompanhávamos um roteirista em Hollywood, Rick, que tinha problemas familiares e não conseguia nunca estabelecer ligações afetivas verdadeiras com as mulheres. Em De canção em canção, Malick apresenta quatro personagens centrais, embora o principal pareça ser Faye (Rooney Mara). Ela se apaixona inicialmente por BV (Ryan Gosling), um aspirante a músico igual a ela, bastante promissor, na cena musical do Texas.

Ambos se conhecem numa festa – no qual ela estende o fone de ouvido para BV ouvir a música que está ouvindo – e têm por perto o empresário Cook (Michael Fassbender), que se sente a ameaça, nesse sentido, para um amor que possa existir entre eles. Faye trabalhou desde a adolescência como assistente no escritório de Cook. As ligações entre eles são indefinidas, a não ser quando Cook e BV viajam com Faye para o México, e se subentende que possa haver um relacionamento entre eles – que se manifesta com clareza mais adiante. Cook, no entanto, tem inveja dos dois e parece haver uma separação. Quando ele entra em contato com a garçonete Rhonda (Natalie Portman, nunca tão bem fotografada e com uma atuação do nível de Cavaleiro de copas), junta-se uma figura que irá estabelecer a ligação entre o universo musical solto e uma tentativa de transcendê-lo, com suas frequentes idas à Igreja. Além disso, Rhonda busca a segurança material que Cook pode lhe conceder.

Novamente com fotografia do grande Emmanuel Lubezki, De canção em canção é, de longe, o filme mais difícil, em termos de estrutura, da trajetória de Malick: mesmo que nos anteriores não tivéssemos histórias lineares, o novo Malick se sente realmente um produto experimental da indústria. Quase ignorado em seu lançamento (não arrecadou sequer 450 mil dólares nos Estados Unidos) e desabonado pela crítica, cuja característica é lembrar de filosofia apenas quando escreve sobre filmes do diretor, esse é um cinema que não se preocupa com a recepção. Depois de mostrar um pôster gigante de Arthur Rimbaud na parede da casa de Faye, Malick está mais interessado no “desregramento dos sentidos” que pregava o poeta francês, uma visão simultânea desses personagens e de suas peregrinações pela vida. Rimbaud tem um livro de poemas em prosa chamado Illuminations, no qual registra diversas viagens que fez e Faye inicia dizendo que a ela importa qualquer experiência no lugar de nenhuma. Tudo se sente ao mesmo tempo desencaixado, solto e vinculado. Faye está à procura de um amor, mas não sabe exatamente o que deseja e há um núcleo do filme que trata da traição. Sozinha, procura numa artista francesa, Zoey (Bérénice Marlohe), como Rimbaud (em seu caso, era o poeta Verlaine), uma tentativa de se encontrar consigo mesma. Baseada em um verso do poeta, “Engoli uma notável poção de veneno”, ela diz em determinado momento a BV que Rimbaud esgotou todas as poções.

Embora haja participações do Red Hot Chili Peppers, Patti Smith e Iggy Pop em diferentes momentos, De canção em canção não pretende construir um mosaico musical da vida moderna. Ele pretende mostrar mais como cada existência é governada por dissonantes acordes, que às vezes não seguem a mesma faixa. Mas, como a família musical, a Malick interessa a família em si. Rhonda tem uma relação próxima da mãe (Holly Hunter), assim como Gosling tem da sua (Linda Emond) – e em determinado momento precisa cuidar do pai (Neely Bingham) – e Faye do seu pai (Brady Coleman), todos sem nome próprio, como convém à tentativa de Malick em ser universal. O único que parece sem vínculos familiares é exatamente Cook. Esses personagens entram e saem do filme no mesmo fluxo contínuo da vida sendo revelada. As figuras dos pais eram determinantes em A árvore da vida e Cavaleiro de copas, quando se ausentavam particularmente em Amor pleno. Aqui, como em Cavaleiro de copas, BV troca ideias com um irmão (Tom Sturridge), sobre o pai, que parece ter prejudicado a sua família. Ainda assim, BV é visualizado entrando numa igreja no México, tentando se conectar com um ser superior que possa solucionar suas dúvidas, e é um traço que o aproxima dos personagens de Brad Pitt e Ben Affleck em A árvore da vida e Amor pleno.

Mesmo para um filme de Malick, De canção em canção se mostra surpreendentemente sem um eixo certo: ele não caminha estabelecendo pontos evidentes e sim sensações, como a entrada em determinado momento da personagem Amanda (Cate Blanchett), uma mulher solitária e que vê as pérolas de seu colar se espalharem no chão (e lembre-se que a pérola era um símbolo de Cavaleiro de copas).
Também se percebe que Ryan Gosling fez o filme em diferentes anos: em algumas passagens, ele aparenta estar com o visual de Drive e O lugar onde tudo termina, de seis, sete anos atrás, mais do que o restante do elenco – e comenta-se que Malick iniciou as filmagens de maneira aleatória, gravando concertos diferentes no Texas, e não oferecia nenhum roteiro concreto aos atores. Também confunde o espectador a maneira como a personagem de Faye vai mudando seus cortes de cabelo (no início, Mara parece ter o visual que usa em Millennium, de 2011), mas é como se Malick fosse registrando suas relações com BV e Cook em fases diferentes, talvez até mesmo antes do início dessa história. Ajuda saber que Faye, além de tentar carreira musical, “mostra apartamentos e passeia com cães”, como diz em determinado momento, por isso muitas vezes as locações mudam sem explicação.

Malick, como em Cavaleiro de copas e Amor pleno, usa a arquitetura das casas para falar dos personagens, cria analogias entre pássaros na natureza e de madeira pendurados no teto da sala, distribui uma porção de cenários em que os personagens se sentem ou mais solitários ou em busca de companhia: rios, piscinas de casas, estacionamentos, casas onde moram ou de suas famílias, o contraste entre interior e cidade, a tranquilidade da varanda e o caos dos shows. Todo o cuidado cênico se manifesta em cada sequência, e, além da referência a Rimbaud, em outro momento Malick filma uma parede com a palavra “Howl” gravada – o título do famoso poema de Allen Ginsberg da geração beat. Malick, aliás, faz algumas breves menções à geração beat, quando Cook e BV viajam com Faye para o México, com a mesma busca pela contracultura (e quando Cook se entrega finalmente aos experimentos alucinógenos já temos a outra face desse caminho), embora atenuada por imagens dos personagens ajudando pessoas nas ruas. Do mesmo modo, ele se entrega a uma viagem pessoal, mesmo sendo casado. Cook representa uma espécie de ameaça aos demais: ele personifica algo próximo da tentação, quando tenta separar Faye de BV, sugerindo um contrato de gravadora a ela, e oferece um cogumelo a Rhonda envolto em mel, por exemplo, ou quando usa sua piscina para festas particulares. Rhonda gostaria de ser professora infantil e, quando dialoga com uma garota de programa (Christin Sawyer Davis) e esta lhe fala que também gostaria de ser professora, parece que a personagem tem a consciência sobre o lugar para o qual Cook vai levá-la.

Temos os personagens novamente à procura de afeto: Malick utiliza sua obsessão em filmar o corpo humano em momentos descompromissados e atrativos, com narrações em “voice over” (muito bem utilizadas) que alternam a descrição de cada personagem para o que estão sentindo. Como em Cavaleiro de copas, Malick não está interessado exatamente pela indústria que serve de pano de fundo para tais personagens e seus comportamentos: tudo é motivo para vislumbrar fragmentos da tentativa de pessoas diferentes existirem. Trata sobretudo de escolhas sendo feitas, de como as pessoas lidam com suas perspectivas. Particularmente exitosa é a referência muito discreta de Malick ao filme Cada um vive como quer, com Jack Nicholson, de 1970. Lá, Nicholson interpretava um ex-pianista com problemas de relacionamento com o pai enfermo, justamente o que acontece com o personagem BV, feito por Gosling. Mara, para isso, tem uma contribuição notável para o filme, assim como Gosling, com quem mais contracena e se mostra em determinadas cenas um ator mais versátil ainda do que se mostrou em Drive e La La Land. Portman é tremendamente humana, numa atuação ao nível de Cisne negro e Jackie, e Fassbender, por sua vez, retrata o próprio vazio que parece cercá-lo. Um destaque também para o elenco coadjuvante de pais ou mães desses personagens, notável, mesmo com pouco tempo de atuação, e a inspirada Blanchett, embora com pouco roteiro (Christian Bale teria gravado cenas, mas foram descartadas, e Val Kilmer aparece brevemente como um roqueiro, lembrando um Jim Morrison que pretende integrar o Sonic Youth).

É notável que, mais do que em Amor pleno e Cavaleiro de copas, os atores se sintam numa espécie de jazz session de atuação, fazendo gestos e tendo comportamentos abertos para a história, sempre movimentando as peças para todos os lados possíveis. Percebe-se, também, como, desde A árvore da vida, Malick registra algumas cenas como parte de uma ficção científica cotidiana: quando Faye, BV e Cook voltam do México, Malick filma os dois últimos flutuando no jato, como astronautas; os estacionamentos vazios que Malick apresenta parecem pertencer a uma paisagem pós-apocalíptica, na qual todos estariam sozinhos; as montanhas onde Faye e BV caminham lembram aquelas de Cavaleiro de copas, afastadas de tudo. De canção em canção requer novas visualizações para se obter mais das camadas que Malick entrega. Talvez seja melhor assisti-lo como um conjunto de peças que vão se encaixando mais por meio da sensação visual e dos temas enfocados e pelas atuações, não se dando tanta importância à ordem em que isso acontece: melhor seria acompanhar os trajetos indefinidos dos pássaros no céu, mostrados ao longo de todo o filme, em momentos diferentes. Como a vida, Malick não esclarece onde as relações começam ou terminam: é a própria viagem que se faz o importante. O que se tem é mais um dos grandes momentos do cinema, uma amostra de como tornar um filme numa verdadeira experiência, muito em razão novamente da arte conjunta de Malick e Lubezki. De canção em canção é uma obra-prima.

Song to song, EUA, 2017 Diretor: Terrence Malick Elenco: Rooney Mara, Ryan Gosling, Michael Fassbender, Natalie Portman, Cate Blanchett, Holly Hunter, Bérénice Marlohe, Val Kilmer, Lykke Li, Olivia Grace Applegate, Dana Falconberry, Linda Emond, Iggy Pop, Tom Sturridge, Neely Bingham, Brady Coleman Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Emmanuel Lubezki Produção: Ken Kao, Sarah Green Duração: 129 min. Distribuidora: Supo Mungam Films Estúdio: Buckeye Pictures / FilmNation Entertainment / Waypoint Entertainment

Batman vs Superman – A origem da justiça – Edição definitiva (2016)

Por André Dick

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Este texto apresenta descrições de algumas cenas incluídas

Passados alguns meses depois do lançamento no cinema, a versão estendida, anunciada desde antes da estreia, de Batman vs Superman – A origem da justiça começa a ganhar os primeiros espectadores. A Warner Bros sofreu críticas de quem queria assisti-la na tela grande, mesmo porque a versão original desagradou a muitos fãs e críticos. A metragem agora é de 182 minutos, enquanto a versão dos cinemas é de 151 minutos (Snyder já havia feito duas versões estendidas para Watchmen, sendo que a segunda tem 215 minutos). Batman vs Superman poderia ser um filme polarizador se não tivesse sido lançado numa época estranhamente desigual também no cinema, em que alguns filmes sem tanta qualidade adquirem status de clássicos instantâneos, enquanto outros, como ele, são considerados fracassos de realização.

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De fato, não criou uma polarização: enquanto há admiradores do filme, grande parte do público (pelo menos a maior parte de quem se manifesta) o rejeitou, embora a média do IMBb seja razoável: 7/10. Em termos de crítica, no Rotten Tomatoes, ele recebeu 27% de aprovação. Esta marca é um pouco superior à de Batman e Robin e Superman IV – dois filmes bastante fracos com esses super-heróis. No Letterboxd, impressiona a quantidade de cotações de meia estrela até duas estrelas, como se fosse um dos piores do ano, até antes da estreia da versão definitiva – e, desde então, a média passou para três a quatro estrelas. Antes mesmo de o filme não chegar à marca respeitável – embora inferior às expectativas – de 900 milhões de dólares nas bilheterias, houve pedidos pela saída de Zack Snyder dos projetos da DC Comics. A Warner subentende que, nos bastidores, haverá mudanças para A Liga da Justiça.
Mas Batman vs Superman é merecedor desse status de filme problemático? Merece que elogios a ele se tornem raros e quase proibitivos? Minha crítica feita à época do lançamento está aqui. Continuo, desde lá, achando que depende do ponto de vista – que, para mim, é claro e talvez não agrade. Se o espectador não está disposto a ver mudanças da linguagem dos quadrinhos para o cinema e escolhas artísticas de Snyder, ele passa a ser incômodo. Se ele não aceita o roteiro menos linear do filme, também. E, se não concordar que o universo de Snyder para esses personagens é realmente mais soturno, não haverá uma boa recepção. E é muito difícil imaginar se um espectador que desgostou do original irá aproveitar mais este. A questão é que Batman vs Superman não precisaria de uma versão estendida para ser de fato um grande filme, um dos melhores do ano. Mas, se esta versão já estava anunciada, o correto é realmente lançá-la e vê-la como a ultimate edition (no Brasil, edição definitiva).

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Muitos reclamaram de lacunas na trama de Batman vs Superman e que a versão estendida tenta resolvê-las. Não acredito que haja tantas lacunas, nem que houvesse a montagem caótica. Tenho em mente uma dúzia de filmes com montagem realmente confusa que foram ganhadores de prêmios importantes e elogiados por espectadores e público. Mas qualquer acréscimo a um grande filme é bem-vindo. Batman vs Superman dá destaque, principalmente, à narrativa de Lois Lane (Amy Adams) no país africano de Nairomi, que agora passa com mais agilidade – e estabelece uma relação clara com Lex Luthor (Jesse Eisenberg), além de enfocar um cenário de guerra que remete a A hora mais escura, com a presença destacada de um personagem chamado Jimmy Olsen (Michael Cassidy) e cenas de destruição de drones. São passagens que ajudam a aprofundar detalhes que desembocam na política, um dos temas da obra. Do mesmo modo, temos mais cenas de momentos de reflexão do Superman. Esta é uma reclamação comum: que o Superman (Henry Cavill) de Snyder não possui muitas falas. Pelo filme, percebe-se que não se sente nem humano nem alienígena; sente-se, de fato, deslocado. Há uma cena muito bem feita nesta versão estendida, quando ele sai do Capitólio com uma das vítimas da explosão e observa os feridos à sua volta. Ela revela o quanto Snyder não possui visão apenas para cenas de fantasia, como trabalha com o choque diante de uma realidade incontornável. Também vemos um prólogo ao encontro de Clark Kent com seu pai no alto de uma montanha.

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O vilão, Lex Luthor, recebe algumas cenas a mais, inclusive ao final, quando tem um encontro um pouco mais prolongado com Batman, e uma de suas subtramas se sente mais resolvida, embora no original não seja especialmente necessária, envolvendo a figura de uma mulher, Kahina Ziri (Wumni Mosaku), que recorre à senadora Finch (Holly Hunter). E também temos breves detalhes interessantes, como Alfred (Jeremy Irons) cortando lenha do lado de fora da mansão, numa contradição com o universo de tecnologia que habita.
De maneira geral, a versão estendida de Batman vs Superman se concentra mais na investigação inicial de Lois sobre o que aconteceu em Nairomi e também a de Clark Kent atrás de informações de Batman (Ben Affleck) – quando encontra um homem que lhe mostra uma raspadinha com o contorno do símbolo do morcego –, investigando um prisioneiro, Cesar Santos (Sebastian Sozzi), que foi marcado pelo símbolo do justiceiro de Gotham City na pele e isso significa morrer na prisão. Esses dois acréscimos tornam o filme mais interessante no sentido de que há uma explicação mais bem conduzida para Superman se contrapor a Batman, principalmente. Também há um acréscimo nas consequências da explosão do Capitólio, com a técnica de laboratório Jenet Klyburn (Jena Malone) trazendo uma explicação-chave. A versão estendida possui, como se previa, mais cenas de violência, alguns detalhes, como no assassinato dos pais de Wayne ou no confronto entre os super-heróis – nada, no entanto, que lembre a violência, por exemplo, de Watchmen. Snyder, ao final, reserva algumas cenas do luto público pela morte de Superman, assim como de seu funeral, criando uma atmosfera ainda mais melancólica, e assinalada com beleza.

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Esta versão se mostra ainda mais soturna e com temas raros para algo que as pessoas desejariam que fossem apenas de super-heróis. É ainda menos infantil, certamente desagradando a um público dessa idade. E, ao contrário da trilogia de Nolan, este Batman vs Superman se sente ainda mais num universo em que os super-heróis parecem não ter certeza para onde devem se dirigir. Isso parece o principal incômodo para certo público: Snyder realmente arriscou fazer um filme em que duas figuras que representam a salvação não parecem saber indicar um caminho. Bastante revelador quando, depois da morte de Superman, aparece uma capa de jornal sobre o assassinato de Kennedy, como se ele representasse um sinal de esperança. As ruas de Metrópolis estão vazias: todos lamentam a morte daquele que trazia segurança. É complexo e humano, muitas vezes, além de denso. A versão estendida, diga-se, melhora ainda mais um filme que já era excelente. Não é simplesmente para um público mais adulto, como já foi a trilogia de Nolan. Ao mesmo tempo que ele homenageia alguns quadrinhos, ele apresenta um traço novo. Poucas vezes se tem certeza de que uma obra foi injustiçada, e Batman vs Superman é um desses casos.

Batman v Superman – Dawn of justice – Ultimate Edition, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy, Jena Malone, Michael Cassidy, Wumni Mosaku, Sebastian Sozzi Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 182 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas

 

Batman vs Superman – A origem da justiça (2016)

Por André Dick

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Se as lições no que diz respeito à ação foram aprendidas com a versão de Bryan Singer em 2006, e atores melhores foram colocados nos papéis principais, O homem de aço tentava contrabalançar toda sua expectativa com doses maciças de movimento, ao mesmo tempo com uma tentativa de humanizar o personagem que remete a filmes mais contidos. A primeira impressão visual indicava que a paleta de cores frias foi um risco – independente de os primeiros filmes serem dos anos 70 e 80, uma época considerada mais ingênua, e o atual existir em meio a acontecimentos deste século. O primeiro Superman teve a fotografia de Geoffrey Unsworth (2001), e O homem de aço possuía o trabalho de Amir Mokri, que criou uma amplitude especial para os cenários, destacando as cores cinza e azul, com um tempo quase sempre chuvoso, úmido, sobretudo quando mostra a infância de Superman, com imagens que lembram A árvore da vida, mas que não chegam a contrastar com o restante, além de luzes em ambientes escuros.
Havia por trás dessa nova visão do super-herói um diretor autoral. Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com uma das melhores obras já feitas a partir de quadrinhos, exatamente o original de Richard Donner.

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Anos antes ele já havia realizado Watchmen – O filme, uma espécie de prévia de seus projetos atuais, um passo à frente de 300. Snyder certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente quando tem liberdade. Essa característica voltaria no menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse. E regressa novamente neste Batman vs Superman – A origem da justiça.
Como na obra de 2013 e Watchmen, Snyder poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, mas escolhe um tom mais próximo da fantasia, auxiliado pelo design de produção irretocável e pela fotografia de Larry Fong, novamente com uma paleta de cores soturna, fazendo uma boa combinação com o primeiro filme, além de oferecer o tom granulado já existente em Super 8. Este Batman vs Superman é uma espécie de extensão dos toques sombrios de Watchmen com uma ação de incalculável poderio, tentando trazer o melhor de dois super-heróis que se tornam referência para contar o início da Liga da Justiça. São personagens de destaque que Frank Miller colocou em campos opostos num dos quadrinhos mais memoráveis já feitos. É costume se falar que este tipo de filme é para um público específico, assim como O senhor dos anéis e O hobbit são para admiradores das obras de J.R.R. Tolkien, mas, sob esse ponto de vista, pode-se perder algo que independe de se conhecer ou não os seus personagens.
Com um início bastante interessante, estabelecendo ligação com o primeiro O homem de aço, Snyder coloca Bruce Wayne correndo de caminhonete em meio à destruição nas ruas de Metrópolis. Ele logo se torna um potencial adversário para deter o que entende como ameaça de Superman de trazer uma batalha que não é da Terra para o planeta, ameaçando destruí-lo.

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Enquanto combate o crime em Gotham com requintes ainda não vistos nos filmes de Burton e Nolan, tornando-o tranquilo em se considerar um fora da lei, Superman é visto como um potencial risco para o governo, na figura da senadora Fich (Holly Hunter, muito bem), assim como instiga o jovem Lex Luthor (Jesse Eisenberg, melhor do que possa aparentar e construindo um vilão interessante) a querer combatê-lo. Snyder, no início, apresenta uma montagem muito rápida das cenas, conduzindo o espectador ao centro da ação, trazendo ainda o personagem Wallace Keefe (Scoot McNairy, ótimo), um ex-funcionário de Wayne.
Se, por um lado, Clark Kent tenta se manter no Daily Planet, sob a direção de Perry White (Laurence Fishburne), e namorar a colega de trabalho Lois Lane (Amy Adams), não sabe mais o que pode fazer para não ser visto como um chamado à destruição de Metrópolis. No que corresponde às relações, Wayne prefere as efêmeras, a não ser, ao que parece, quando se depara com uma misteriosa mulher, Diana Prince (Gal Gadot) – e Snyder coloca o encontro dos dois ao som da “Waltz nº 2”, de Dmitri Shostakovich, a mesma utilizada por Stanley Kubrick em De olhos bem fechados. Como no filme de Kubrick, os personagens se disfarçam por trás das máscaras, e mesmo quando estão sem elas não se mostram como verdadeiramente são. Interessante também como Snyder consegue mesclar os sonhos de Bruce Wayne a seu comportamento: ele em nenhum momento se mostra como alguém com certeza do que pretende construir em Gotham City. São visões perturbadas, manifestando como o próprio personagem se sente, e a casa que dá para um lago cercado de sereno parece ser o contrário dele: não se pode enxergá-lo de fato. Trata-se de um dos acertos do roteiro de Goyer e Terrio (este o mesmo de Argo, mostrando a influência de Affleck sobre o projeto).

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A primeira hora de Batman vs Superman remete muito a Watchmen, em que havia a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia. O tom empregado é mais soturno do que na trilogia de Nolan, e dá espaço para Bruce Wayne ser um interessante contraste para a imagem de Batman. O mordomo Alfred (um ótimo Jeremy Irons) ajuda o patrão a desenvolver equipamentos de combate – conduzindo também à cena as características o personagem de Morgan Freeman na trilogia de Nolan – e lamenta a sua inclinação para a bebida. Ben Affleck, nesse sentido, compõe um super-herói menos esperançoso do que o de Bale, além de mais introspectivo. Nunca ficam muito claras suas intenções, e isso contribui para a sua dualidade. Surpreendentemente, Affleck consegue se apossar do personagem, oferecendo uma de suas melhores atuações. Além disso, a caverna onde esconde seus equipamentos dialoga com a de Nite Owl, de Watchmen, e mostra a capacidade de Snyder de lidar com um imaginário enriquecedor de adaptação dos quadrinhos.  No lado oposto, Cavill novamente entrega um Superman mais humano e suscetível ao que se espera dele.
É, aliás, surpreendente como Snyder coloca Batman como um personagem mais aliado ao fantástico do que o próprio Superman, que gostaria de ter uma vida sem incidentes e sem a consciência de ser um estrangeiro, como Clark Kent, mas precisa sempre retomar sua imagem de justiceiro da humanidade. Ambos, de qualquer modo, estão intrinsecamente ligados aos pais: Bruce teve a fatalidade de ter seus pais mortos na saída de um cinema (cena já mostrada no de Burton), e aqui o filme se chama Excalibur, como se Wayne se transformasse numa espécie de Rei Arthur, enquanto se visualiza um cartaz de A máscara do Zorro. Clark Kent, por sua vez, tem Jonathan Kent (Kevin Costner), em seus sonhos, e Martha (Diane Lane), desde o primeiro, sob ameaça de Zod, a sua fuga da realidade de Metrópolis para o Kansas. As armaduras escondem apenas a infância: a de Bruce numa mansão solitária e a de Clark numa fazenda que anoitece em meio às estrelas (numa das belas imagens que Snyder oferece aqui).

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Snyder desenha essa aproximação dos heróis de seus pais de maneira discreta e ainda assim enfática: estamos diante de dois heróis que lutam contra si mesmos para tentarem ser normais diante da incapacidade de atingir isso. E, embora esta obra pareça mais uma continuação de O homem de aço, sua narrativa pertence mais à figura do homem-morcego.
Não apenas por essa faceta simbólica, e sim por encadear uma sequência de cenas muito bem pensadas e arquitetadas, principalmente em sua meia hora final, Snyder se mostra mais uma vez um diretor capaz de mesclar ação e emoção. Seus personagens, apesar de parecerem indestrutíveis, não são robóticos ou unidimensionais e, mesmo com cenas de ação que parecem sempre sobressair aos caracteres, Snyder dá uma razão ao movimento ininterrupto por meio de simbologias, principalmente aquelas familiares, a fim de que cada ação pareça ter um sentido, com uma trilha sonora destacada de Hans Zimmer e Junkie XL. Este é um dos filmes do gênero melhor montados, com pouco mais de 2 horas e meia que passam sem que se perceba, com uma coleção de imagens realmente significativas. Ele consegue mesclar os melhores elementos do Batman de Nolan e do primeiro O homem de aço, sem diluir nenhum dos dois, e ainda apresentar novos personagens sem perder o fio da meada. Ao contrário do que diz quase a maioria esmagadora da crítica, Batman vs Superman não é uma possível falha de ignição: é um dos melhores filmes de super-heróis já realizados.

Batman vs Superman – Dawn of justice, EUA, 2016 Diretor: Zack Snyder Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Amy Adams, Jesse Eisenberg, Diane Lane, Laurence Fishburne, Jeremy Irons, Holly Hunter, Gal Gadot, Scoot McNairy Roteiro: Chris Terrio e David S. Goyer Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Hans Zimmer, Junkie XL Produção: Charles Roven, Deborah Snyder Duração: 153 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: DC Entertainment / Dune Entertainment / Syncopy  

Cotação 5 estrelas