Homem-Aranha – De volta ao lar (2017)

Por André Dick

Depois de o Homem-Aranha ser vivido por Tobey Maguire entre 2002 e 2007, na trilogia de Sam Raimi, ainda referencial, e por Andrew Garfield em dois filmes, um de 2012 e outro de 2014, a partir de Capitão América – Guerra Civil temos seu novo intérprete, Tom Holland. Revelado em O impossível, no qual fazia o filho de Naomi Watts num desastre da natureza, e integrante do elenco do ótimo Z – A cidade perdida, Holland reprisa o papel no seu primeiro filme solo, Homem Aranha – De volta ao lar.
A história tem início logo após a Batalha dos Vingadores contra Loki em Nova York, quando a empresa de Adrian Toomes (Michael Keaton), que ajuda a limpar a cidade, é barrada pelo Department of Damage Control (DODC), que constitui uma parceria entre o governo norte-americano e Tony Stark (Robert Downey Jr.). Toomes decide roubar algumas peças de tecnologia das naves alienígenas para fazer seus próprios artefatos. Esse início é um boa retomada da cena de combate da obra de Joss Whedon, quase esquecida em filmes posteriores da Marvel, com exceção de Homem de Ferro 3.

Oito anos depois, Parker é chamado por Stark para participar da luta contra o Capitão América –  e vemos algumas cenas de Guerra Civil filmadas com um celular, parecendo um making of. Pode-se dizer que, a partir daí, o diretor Jon Watts já esclarece seu caminho: este Homem-Aranha é muito mais bem-humorado do que os anteriores. O de Maguire era um tanto melancólico, e funcionava bem, com momentos pontuais de diversão, enquanto o de Garfield se fazia mais próximo deste, com uma certa adolescência em jogo e interesse por esporte (ele andava de skate, por exemplo). Peter Parker estuda na Midtown School of Science and Technology, à espera de um novo chamado para outra missão.
Ele é muito amigo de Ned (Jacob Batalon) e apaixonado por Liz (Laura Harrier), com quem participa do Decathlon acadêmico do Sr. Harrington (Martin Starr, conhecido por suas participações em Freaks and geeks e Adventureland), apesar de incomodado por um colega, Flash (Tony Revolori, de O grande hotel Budapeste). Sua tia, May (Marisa Tomei), nem desconfia que ele usa um uniforme secreto para combater o crime. Nas suas peregrinações atrás de criminosos, o Homem-Aranha se depara com alguns homens de Toomes, usando máscaras dos Vingadores, numa sátira a Caçadores de emoções, de Kathryn Bigelow. Como se trata do sexto filme do super-herói em 15 anos, Watts resolveu não contar novamente sua origem, ou seja, não temos a figura do tio do personagem, mesmo porque esta versão já aparecia na peça dos irmãos Russo.

O diretor encadeia as ligações de maneira muito ágil e descompromissada, tornando o humor orgânico, sem exageros, assemelhando-se, em proposta, a Homem-Formiga, um dos mais bem resolvidos do universo, por misturar naturalmente ação, drama e humor. Há uma influência visível no timing cômico e de ação dos filmes de Edgar Wright, e a impaciência adolescente de Parker é bem dosada por Holland. Sua participação em Guerra Civil se estendia como uma espécie de trailer antecipado para este filme, e havia um certo nervosismo do ator: aqui o nervosismo se converte, em determinado momento, em apelo dramático, e o ator funciona bem, principalmente no embate com um ótimo – embora subaproveitado – Michael Keaton, brincando com Birdman. Perto do semidesastre que foi o segundo filme com Garfield, com seu excesso de vilões e camadas irresolvidas, este se sente uma realização ainda que sem novidades na estrutura bastante eficiente. Ele se encaixa com o restante do universo sem parecer forçado e a participação de Stark não se sente intrusiva, como poderia antecipar o trailer (Downey Jr., aliás, está bem, assim como Jon Favreau, na pele de seu assessor Happy Hogan).

Os quarenta primeiros minutos têm um diálogo com filmes de adolescente recentes, a exemplo de Cidades de papel, com uma participação exitosa de Batalon, como o amigo de Parker, As vantagens de ser invisível e uma brincadeira com O clube dos cinco, de John Hughes – com o Capitão América servindo como uma espécie de guia dos bons valores escolares. Há uma boa solução de romantismo em relação a Liz, embora a atriz, Harrier, não tenha a mesma participação permitida a Kirsten Dunst e Emma Stone, das versões anteriores. Quando o Homem-Aranha procura criminosos, há um misto entre humor e ação bem dosados que faz lembrar o primeiro filme da franquia de Raimi, principalmente na conversa entre habitantes de um bairro (entre eles, Stan Lee). Watts também sabe criar uma boa ambientação, principalmente nas cenas noturnas, com um belo visual destacado pela fotografia de Salvatore Totino. Talvez Homem-Aranha – De volta ao lar comece a parecer repetitivo justamente quando ingresse nas cenas de ação inevitáveis (por vezes exageradas), o que é um problema. Não chega a haver tanta mudança de tom neste Homem-Aranha, mesmo com seis roteiristas, mas principalmente a sequência de embate conclusiva se sente um tanto apressada e sem vibração. Como praticamente o filme se sustenta num diálogo, bem feito, com o humor, a exemplo de Homem-Formiga, ele nunca se sente pesado o suficiente para entendermos que o super-herói está passando por ameaças vigorosas. Isso não prejudica o resultado, certamente um dos mais exitosos do gênero nos últimos anos.

Spider-man – Homecoming, EUA, 2017 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori, Bokeem Woodbine, Tyne Daly, Abraham Attah, Hannibal Buress, Kenneth Choi, Martin Starr, Selenis Leyva Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers Fotografia: Salvatore Totino Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Amy Pascal, Kevin Feige Duração: 133 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures

Pets – A vida secreta dos bichos (2016)

Por André Dick

Pets 1

Sem o selo da Pixar ou da Disney, Pets – A vida secreta dos bichos conseguiu um grande feito: com orçamento de 75 milhões, ele arrecadou até agora 674 milhões de dólares. Dirigido por Chris Renaud (dos dois Meu malvado favorito e produtor executivo de Minions) e Yarrow Cheney, sua história é bastante simples: um cão terrier, Max (Louis CK) vive feliz com sua dona, Katie (Ellie Kemper), quando ela traz para casa outro cão, Duke (Eric Stonestreet), uma espécie de Chewbacca canino, pelo tamanho. No início, ele está preocupado e quer se livrar o quanto antes de seu novo companheiro, que logo ocupa sua cama. Max tem alguns vizinhos, entre os quais o gato gordo Chloe (Lake Bell), o pug Mel (Bobby Moynihan), Buddy (Hannibal Buress), um dachshund, e um canário (Tara Strong). Além disso, há Gidget (Jenny Slate), uma spitz, que decide ir atrás de Max com a ajuda de Tiberius (Albert Brooks), um falcão ameaçador, e do experiente basset Pops (Dana Carvey) quando ele desaparece e a história adquire um ritmo ininterrupto, tendo ainda como figura um coelho excêntrico, Snowball (Kevin Hart). Este coelho deseja liderar uma revolução dos animais contra a humanidade. Nesse sentido, de brincar com os humanos e com a vida “pessoal” dos animais, o roteiro de Cinco Paul, Ken Daurio e Brian Lynch é trabalhado.

Pets 4

Pets 2

Pets 3

Se ele parece simples e as ideias adquirem um ar de sessão da tarde, Pets nunca deixa de ser interessante ao longo de sua curta-metragem (pouco mais de 80 minutos), com uma sucessão de gags, sobretudo na meia hora inicial, mostrando o comportamento dos animais quando seus donos saem (o que já aparecia no trailer irresistível do filme), assim como desenvoltura em sua ação. Recentemente, em se tratando de animais, tivemos o excelente Zootopia, a terceira parte interessantíssima de Kung-fu panda, a memorável refilmagem de Mogli – O menino lobo e também o quinto e não tão bem-sucedido A era do gelo: o Big Bang. Mais do que esses filmes, porém, o de Renaud e Cheney tem algo que se aproxima de experimentos antigos, como Aristogatas, 101 dálmatas, Bernardo e Bianca, A ratinha valente, Fievel – Um conto americano e Todos os cães merecem o céu, esses três últimos de Don Bluth, animador de grande destaque dos anos 80. Há também uma proximidade particular com o primeiro Rio, de Carlos Saldanha, que unia aves e cães pelas ruas da cidade brasileira.
O êxito do trabalho de voz, num elenco que inclui grandes astros, a começar por Louis C.K., fazendo uma boa performance como Max, e Jenny Slate (que já fez este ano a voz da vice-prefeita ovelha de Zootopia, com a mesma competência mostrada aqui), e vai até o quase esquecido Dana Carvey (de Quanto mais idiota melhor), culmina nas participações indispensáveis do engraçado Kevin Hart, como um vilão absurdo e imprevisível, e de Albert Brooks (antigo comediante, mais lembrado ultimamente por sua presença, por exemplo, como o vilão de Drive).

Pets 5

Pets 12

Pets 9

Pets apenas aparentemente é um desenho sem créditos como de grande estúdio (uma vez que a Illumination Entertainment/Universal não é tão reconhecida por animações), pois, além do trabalho de vozes, possui um trabalho de cores muito vivo e detalhes técnicos irrepreensíveis, como a trilha sonora excepcional de Alexandre Desplat, o habitual colaborador de Wes Anderson e responsável por dezenas de trilhas de qualidade nos últimos anos, apresentando uma atmosfera de Nova York, em que se passa a história, e que por vezes remete a Woody Allen.
Nem só de leveza é feito o desenho, no entanto. Snowball, o coelho, leva Max e Duck a uma visita aos esgotos da cidade, em momentos nos quais Pets se sente quase um ambiente para as marionetes de Frank Oz em O cristal encantado, com um ar verdadeiro de ameaça, mesmo que a graça prevaleça. E pode-se ficar feliz que, mesmo não sendo da Pixar ou da Disney, este desenho tenha sido bem recebido, não apenas pela qualidade como por sua homenagem a Grease – Nos tempos da brilhantina, com “We Go Together”. E se sente uma real emoção em alguns dos momentos que tratam da amizade entre os humanos e animais e entre esses, a começar por Max e Duke, tanto em relação à dona quanto a um antigo dono do segundo. Se existe um problema nessa amizade é o pouco tempo que Renaud e Cheney se dispõem a apresentá-la, levando em conta possivelmente futuras sequências (que, pela bilheteria espetacular do filme, estão garantidas). Pela voz especialmente simpática de Louis CK, Max é ótimo.

Pets 10

Pets.Filme

Pets 14

Ao mesmo tempo, há um delicado trabalho da imagem da cidade, não apenas de Nova York e Manhattan, como também de algo que remete a “Avenida Dropsie”, de Will Eisner, misturando, aqui, passado (a noite) e futurismo (o cenário diurno), utilizando muito bem a arquitetura dos prédios para dar mobilidade aos personagens e à ação, com uma certa lembrança nas imagens de Ninguém segura este bebê, comédia produzida por John Hughes nos anos 90, quando eles saltam de um prédio para o outro. Há uma real vontade de mostrar os parques, os barcos que partem para Manhattan e como os animais poderiam se inserir nesse cenário, assim como a solidão da metrópole, em que os humanos se ausentam durante o dia, para regressarem às suas casas apenas à noite – e o filme dificilmente os mostra. O engraçado justamente é que os animais parecem viver em torno deles quando possuem uma vida agitada por si própria. De maneira geral, Pets é uma animação descontraída e uma moderada surpresa, apesar de seu trailer ter sido muito efetivo para seu sucesso e reservar alguns de seus melhores momentos.

P.S.: Antes de Pets, há um curta-metragem, “Mower Minions”, de Bruno Chauffard e Glenn McCoy. Particularmente, não acrescenta muito e não apaga a decepção que já havia sido o longa-metragem deles.

Pets, EUA, 2016 Direção: Chris Renaud, Yarrow Cheney Elenco: Louis CK, Eric Stonestreet, Kevin Hart, Jenny Slate, Ellie Kemper, Albert Brooks, Lake Bell, Bobby Moynihan, Hannibal Buress, Dana Carvey, Albert Brooks, Bobby Moynihan Roteiro: Brian Lynch, Cinco Paul, Ken Daurio Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Christopher Meledandri, Janet Healy Duração: 87 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Illumination Entertainment / Universal Pictures

Cotação 3 estrelas e meia