Seven – Os sete crimes capitais (1995)

Por André Dick

Em 1992, Alien 3, continuação de Alien e Aliens, foi dirigida pelo talentoso estreante David Fincher, que havia feito até então videoclipes de Madonna, Mark Knopfler, George Michael, Sting, Paula Abdul, Iggy Pop e Billy Idol, entre outros. Ele pode ter salvo uma ficção científica com muitos problemas de produção: estouro de orçamento, abandono de dois diretores – Vincent Ward e Renny Harlin –, muitos roteiros, reclamações de Sigourney Weaver, que não queria voltar à série. Fincher nunca considerou essa sequência de Aliens como realmente parte de sua carreira, porém seu clima claustrofóbico já anunciava um dos cineastas mais interessantes do cinema norte-americano contemporâneo.

Seu filme seguinte, Seven – Os sete crimes capitais, com elementos fortes de suspense e até terror, confirmou isso. Nele, Brad Pitt e Morgan Freeman interpretam a dupla principal de investigadores abalada pelo surgimento de um serial killer em Nova York que se inspira nos sete pecados capitais para guiar o espectador por crueldades cometidas ao longo da narrativa. David Mills (Pitt) recém chegou à metrópole, com sua esposa Tracy (Gwyneth Palthrow).  O veterano policial William Somerset interpretado por Freeman, prestes a se aposentar, vai atrás da Divina comédia, de Dante Alighieri, a fim de buscar pistas. O chefe de ambos (R. Lee Ermey, conhecido por interpretar o sargento de Nascido para matar), não os pressiona – de qualquer modo, as manchetes dos jornais atrapalham ainda mais a progressão.
Trata-se de um duelo surpreendente entre dois policiais e um psicopata que evita deixar qualquer pista, antecedendo outra obra exemplar de Fincher, Zodíaco, e, principalmente, Millennium – Os homens que não amavam as mulheres e sua série exemplar Mindhunter, sobre os primeiros investigadores que mesclaram o entendimento da psicanálise na tentativa de identificar psicopatas.

Além de ser um bom artesão, Fincher sabe compor personagens e criar interesse contínuo. Em Seven, os diálogos não se mostram tão importantes quanto o clima, mórbido e vigoroso já revelado no seu episódio de Alien acentuado pela ótima fotografia de Darius Khondji, trazendo a experiência visual que mostrou em Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet. Ainda assim, ele talvez contenha a escrita mais bem elaborada de um thriller da década de 90, mesclando discussões sobre uma amizade forçada entre os detetives e sua tentativa de convivência em meio a discussões sobre a influência de uma obra literária em crimes horrendos ou para se adentrar na mente de um psicopata. Os sete pecados capitais na obra de Dante são também a ponte para que ele possa adentrar o Paraíso. O que esses personagens teriam a dizer sobre isso?
O que evidencia o talento do roteiro de Andrew Kevin Walker é a perplexidade diante dos acontecimentos. É evidente que Seven adiantou boa parte da obra posterior de Fincher, embora se inspire em Blade Runner, por exemplo, com sua chuva contínua e seus ambientes úmidos. É raro algum momento em que os policiais não estão em algum lugar soturno, com lanternas (antecipando Zodíaco em todos os aspectos), e mesmo ambientes acolhedores e calmos, como a da biblioteca municipal de Nova York, soam ameaçadores. Talvez o momento mais acolhedor seja o do jantar, e é também, por causa das grandes atuações de Freeman, Pitt e Palthrow, aquela sequência em que os personagens mais se revelam, por meio do descompromisso.

Fincher praticamente cria um estilo aqui influenciado por Hitchcock, Jonathan Demme (O silêncio dos inocentes) e novamente Ridley Scott (há momentos que remetem ao seu irregular Chuva negra), principalmente, mas sobretudo dele próprio. Sua mistura entre uma cidade perturbadora e sempre lotada com os ambientes vazios nos quais os detetives ingressam para recolher provas cria um contraste interessante, assim como ele consegue, em momentos detalhados, um certo humor corrosivo, por meio do personagem de Somerset (subentendendo “summer set”, numa espécie de contraponto ao clima chuvoso). Trata-se de uma figura ao mesmo tempo seca e emotiva, a exemplo do diálogo que tem em determinado momento com Tracy, deixando implícita a sua vida anterior àquele momento decisivo. David se mostra sempre jovem e impaciente, entregando também os melhores recursos de Brad Pitt já despontando como astro, e Fincher aproveita a diferença.
Quando a identidade do serial killer é revelada, o roteiro se descostura um pouco, no entanto ainda assim mantém a qualidade. É bastante difícil encarar o final sem deixar se abalar pela estrutura que acaba prendendo a narrativa a uma ideia mais conceitual. Fincher pinta um retrato cruel da sociedade (recebendo recentemente uma homenagem de David Lynch em Twin Peaks – O retorno, num momento decisivo para o agente Cooper em seu duplo), mas sobretudo impactante e que este filme tenha arrecadado quase dez vezes o seu custo mostra o encontro entre qualidade e recepção à altura.

Seven, EUA, 1995 Diretor: David Fincher Elenco: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, R. Lee Ermey, Richard Roundtree, John C. McGinley Roteiro: Andrew Kevin Walker Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Arnold Kopelson, Phyllis Carlyle Duração: 127 min. Estúdio: Cecchi Gori Pictures, Juno Pix Distribuidora: New Line Cinema

Homem-Aranha – De volta ao lar (2017)

Por André Dick

Depois de o Homem-Aranha ser vivido por Tobey Maguire entre 2002 e 2007, na trilogia de Sam Raimi, ainda referencial, e por Andrew Garfield em dois filmes, um de 2012 e outro de 2014, a partir de Capitão América – Guerra Civil temos seu novo intérprete, Tom Holland. Revelado em O impossível, no qual fazia o filho de Naomi Watts num desastre da natureza, e integrante do elenco do ótimo Z – A cidade perdida, Holland reprisa o papel no seu primeiro filme solo, Homem Aranha – De volta ao lar.
A história tem início logo após a Batalha dos Vingadores contra Loki em Nova York, quando a empresa de Adrian Toomes (Michael Keaton), que ajuda a limpar a cidade, é barrada pelo Department of Damage Control (DODC), que constitui uma parceria entre o governo norte-americano e Tony Stark (Robert Downey Jr.). Toomes decide roubar algumas peças de tecnologia das naves alienígenas para fazer seus próprios artefatos. Esse início é um boa retomada da cena de combate da obra de Joss Whedon, quase esquecida em filmes posteriores da Marvel, com exceção de Homem de Ferro 3.

Oito anos depois, Parker é chamado por Stark para participar da luta contra o Capitão América –  e vemos algumas cenas de Guerra Civil filmadas com um celular, parecendo um making of. Pode-se dizer que, a partir daí, o diretor Jon Watts já esclarece seu caminho: este Homem-Aranha é muito mais bem-humorado do que os anteriores. O de Maguire era um tanto melancólico, e funcionava bem, com momentos pontuais de diversão, enquanto o de Garfield se fazia mais próximo deste, com uma certa adolescência em jogo e interesse por esporte (ele andava de skate, por exemplo). Peter Parker estuda na Midtown School of Science and Technology, à espera de um novo chamado para outra missão.
Ele é muito amigo de Ned (Jacob Batalon) e apaixonado por Liz (Laura Harrier), com quem participa do Decathlon acadêmico do Sr. Harrington (Martin Starr, conhecido por suas participações em Freaks and geeks e Adventureland), apesar de incomodado por um colega, Flash (Tony Revolori, de O grande hotel Budapeste). Sua tia, May (Marisa Tomei), nem desconfia que ele usa um uniforme secreto para combater o crime. Nas suas peregrinações atrás de criminosos, o Homem-Aranha se depara com alguns homens de Toomes, usando máscaras dos Vingadores, numa sátira a Caçadores de emoções, de Kathryn Bigelow. Como se trata do sexto filme do super-herói em 15 anos, Watts resolveu não contar novamente sua origem, ou seja, não temos a figura do tio do personagem, mesmo porque esta versão já aparecia na peça dos irmãos Russo.

O diretor encadeia as ligações de maneira muito ágil e descompromissada, tornando o humor orgânico, sem exageros, assemelhando-se, em proposta, a Homem-Formiga, um dos mais bem resolvidos do universo, por misturar naturalmente ação, drama e humor. Há uma influência visível no timing cômico e de ação dos filmes de Edgar Wright, e a impaciência adolescente de Parker é bem dosada por Holland. Sua participação em Guerra Civil se estendia como uma espécie de trailer antecipado para este filme, e havia um certo nervosismo do ator: aqui o nervosismo se converte, em determinado momento, em apelo dramático, e o ator funciona bem, principalmente no embate com um ótimo – embora subaproveitado – Michael Keaton, brincando com Birdman. Perto do semidesastre que foi o segundo filme com Garfield, com seu excesso de vilões e camadas irresolvidas, este se sente uma realização ainda que sem novidades na estrutura bastante eficiente. Ele se encaixa com o restante do universo sem parecer forçado e a participação de Stark não se sente intrusiva, como poderia antecipar o trailer (Downey Jr., aliás, está bem, assim como Jon Favreau, na pele de seu assessor Happy Hogan).

Os quarenta primeiros minutos têm um diálogo com filmes de adolescente recentes, a exemplo de Cidades de papel, com uma participação exitosa de Batalon, como o amigo de Parker, As vantagens de ser invisível e uma brincadeira com O clube dos cinco, de John Hughes – com o Capitão América servindo como uma espécie de guia dos bons valores escolares. Há uma boa solução de romantismo em relação a Liz, embora a atriz, Harrier, não tenha a mesma participação permitida a Kirsten Dunst e Emma Stone, das versões anteriores. Quando o Homem-Aranha procura criminosos, há um misto entre humor e ação bem dosados que faz lembrar o primeiro filme da franquia de Raimi, principalmente na conversa entre habitantes de um bairro (entre eles, Stan Lee). Watts também sabe criar uma boa ambientação, principalmente nas cenas noturnas, com um belo visual destacado pela fotografia de Salvatore Totino. Talvez Homem-Aranha – De volta ao lar comece a parecer repetitivo justamente quando ingresse nas cenas de ação inevitáveis (por vezes exageradas), o que é um problema. Não chega a haver tanta mudança de tom neste Homem-Aranha, mesmo com seis roteiristas, mas principalmente a sequência de embate conclusiva se sente um tanto apressada e sem vibração. Como praticamente o filme se sustenta num diálogo, bem feito, com o humor, a exemplo de Homem-Formiga, ele nunca se sente pesado o suficiente para entendermos que o super-herói está passando por ameaças vigorosas. Isso não prejudica o resultado, certamente um dos mais exitosos do gênero nos últimos anos.

Spider-man – Homecoming, EUA, 2017 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori, Bokeem Woodbine, Tyne Daly, Abraham Attah, Hannibal Buress, Kenneth Choi, Martin Starr, Selenis Leyva Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers Fotografia: Salvatore Totino Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Amy Pascal, Kevin Feige Duração: 133 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures

Os vingadores (2012)

Por André Dick

Os vingadores.Filmes 3Embora Os vingadores seja uma criação de Stan Lee, nesta adaptação para o cinema Joss Whedon conseguiu confeccionar uma espécie de imaginário para o que se restringe, sob certo ponto de vista mais apressado, a um universo em que os super-heróis Thor, Capitão América, Hulk e Homem de Ferro pretendem salvar a Terra de terríveis ameaças. Em seus filmes isolados, Thor e Capitão América tinham certas qualidades – embora nunca totalmente viabilizadas, apesar de seus diretores Kenneth Branagh e Joe Johnston –, Hulk, nem tanto, enquanto Homem de Ferro certamente se destacava, pela interpretação de Robert Downey Jr. Foi preciso que Joss Whedon, um dos criadores de Buffy e um dos roteiristas de Toy Story, conseguisse dar uma unidade a eles. A dificuldade seria justamente esta: reunir tantas figuras no mesmo espaço e ainda dar uma certa importância determinada a cada uma (daqui em diante, spoilers).
Locki vem de novo do planeta Asgard, a fim de roubar o Tesseract, um aparelho capaz de colocar a Terra em polvorosa e permitir uma invasão alienígena. Diante de armamentos militares, Locki, já no início, interrompe qualquer chance de defesa, trazendo para o seu lado o cientista Erik Selvig (Stellan Skarsgård) e Clint Barton, o arqueiro (Jeremy Renner), e se movimenta sobre uma caminhonete para um deserto, perseguido pelo helicóptero de Nick Fury (Samuel L. Jackson). Ele escapa. Para detê-lo, é preciso uma medida mais urgente: a convocação de heróis que possam eliminar qualquer ameaça à integridade das pessoas. Não só à integridade: Locki é interpretado com um misto de caricatura e ódio por Tom Hiddleston (ótimo ator, como comprova também em Amor profundo), cujo desejo é fazer os outros se ajoelharem diante dele, quase como o trio que persegue o homem de aço em Superman II.

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Há sequências não leves, mas a apresentação de cada personagem, ou a simples retomada de episódios anteriores de cada herói, traz humor, incluindo-se, aqui, a presença de Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson). Ela, depois de um encontro com gângsteres, no qual usa os pés da cadeira como arma de combate, precisa ir à Índia e convocar o Dr. Banner para a batalha e quando este se transforma, sabe-se, vira Hulk. Quando Locki é capturado, Thor surge no ar, mas logo entra em atrito com o Homem de Ferro. Brigando, caem em meio a árvores de uma montanha. Stark, o Homem de Ferro, lhe pergunta: “O que é isso? Shakespeare no parque?” (certamente Muito barulho por nada).
Todos são levados para um porta-aviões, também uma espécie de nave espacial, para onde se leva Locki quando ele é preso. O Homem de Ferro dá choques no braço de Dr. Banner com o intuito de ver a fera; quando se dão por conta, fazem parte do plano de Locki em destruí-los. Há um fã desses heróis, principalmente de Steve Rogers, o Capitão América, que trabalha para Nick Fury, Philip Coulson (Clark Gregg), que guarda as cartas de cada um como se quisesse reprisar a infância. “O uniforme não é antiquado?”, pergunta Steve sobre o uniforme do herói que encarna. “Talvez seja o que as pessoas esperam”, lhe responde Phillip. No entanto, Whedon, em meio aos subterfúgios do roteiro, consegue amplificar um cenário de guerra: o porta-aviões se transforma num palco para os confrontos desastrados dos heróis com Locki, ou entre eles mesmos, desentendendo-se. Não há nada tão espetacular assim no cinema recente e amplificado, sonoramente, em todos os níveis, ao som da trilha de Alan Silvestri, uma espécie de mistura entre seus trabalhos de De volta para o futuro e Forrest Gump. A destruição não chega a ser gratuita, mas é pomposa, e Whedon acelera os níveis de ação em cada herói que traz à cena para a grade de duelo e, em seguida, tenta guiá-los para um caminho mais afeito a defenderem em conjunto a Terra.

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Os vingadores se ressente de ser um filme bastante específico em suas partes: início (apresentação dos heróis), meio (todos no porta-avião) e fim (a ida para Nova York), mas há abrigado nessa estrutura previsível um filme bastante divertido e mais equilibrado do que aparenta. Há um uso frequente de CGI e montagem frenética, demorando a criar um corpo próprio, em razão de uma determinada direção de arte apressada e pela própria inclusão de vários heróis, com alguns personagens sendo relegados necessariamente a segundo plano (uma esposa de Stark, Gwyneth Palthrow, isolada do marido; um arqueiro na pele de um ator sem carisma, Renner), mas ainda assim formando uma coesão nos momentos de luta e enfrentamento. Há detalhes que impactam (a descida de Thor por força de Loki) e divertidíssimas (o expressivo e imprevisível Harry Dean Stanton tenta acordar Banner do meio de escombros, perguntando se ele tem algum tipo de problema), ao mesmo tempo em que o mote – uma invasão alienígena a partir dos arranha-céus de Nova York – é previsível, embora nem por isso menos espetacular, lembrando dragões gigantes de Chinatown planando sobre toda a cidade.
Whedon é um diretor com referências pop, mas que não consegue ainda não consegue elaborar a narrativa de forma mais expansiva, ainda preso a referências externas (dos outros filmes da série). É interessante que ele tenha dirigido recentemente sua pontaria para Spielberg e Lucas, falando de piadas autorreferentes de Indiana Jones e o templo da perdição e do final inconcluso de O império contra-ataca, quando ele deve sua formação a esses nomes. Mas isso possivelmente aconteceu pelas conferências de Spielberg e Lucas, este também, de forma indireta, dentro da Walt Disney, não reconhecendo uma nova geração, além do nome de J.J. Abrams. Whedon tem em seu currículo o roteiro de Toy Story e ajudou a criar a série Buffy, mas suas contribuições de roteiro para O segredo da cabana e Alien – A ressurreição (que ajudou a terminar com a primeira franquia) são bastante problemáticas, embora Muito barulho por nada seja uma curiosidade entre as adaptações de Shakespeare e sua ideia de lançar o filme In your eyes, do qual é autor do roteiro, também via internet certamente terá influência.

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Os vingadores confere por meio de sua trama, uma espécie de alma aos quadrinhos, ao contrário das maquetes militarizadas de Transformers, e uma espécie de reminiscência do que foi Superman um dia, não em sua versão de 2006, mas numa tentativa de volta aos tempos primordiais de tranquilidade, sem contar as rotações que devem ser feitas ao redor da Terra para que tudo volte a como era antes. Isso se deve ao elenco que faz os heróis. Robert Downey Jr., Mark Ruffalo e Chris Hemsworth são atores que conseguem expressar uma espécie de dramaticidade contida em meio a uma sucessão de explosões, enquanto Johansson, com sua limitação já conhecida (pelo menos antes de Ela), consegue, de determinado modo, mostrar uma espécie de mescla entre receio e bravura, quando precisa, afinal, se deparar com Hulk. Se Evans, na pele de Capitão América, consegue transparecer um homem dos anos 40 congelado para enfrentar os dias presentes, o melhor nome para reuni-los é, sem dúvida, Samuel L. Jackson, com sua presença cênica entre o trágico e o cômico, mas sem decepcionar o espectador.
Diante desses personagens, o filme de Whedon se constitui numa espécie de retomada de um instinto humano de sobrevivência e de crença na fantasia, como lembra Coulson em determinado momento. Parece ser, basicamente, em meio ao roteiro com poucos diálogos, uma síntese da hora final, com direito até à participação de Stan Lee, disfarçado em meio a pessoas, ou um refúgio para os heróis num lugar a ser reconstruído, para que, finalmente, os super-heróis possam se reunir numa taverna em que os donos recolhem os escombros da guerra.

The avengers, EUA, 2012 Diretor: Joss Whedon Elenco:Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Scarlett Johansson, Chris Evans, Samuel L. Jackson, Jeremy Renner, Stellan Skarsgård, Cobie Smulders, Gwyneth Paltrow, Tom Hiddleston, Paul Bettany (voz), Amanda Righetti, Lou Ferrigno (voz), Clark Gregg, Jenny Agutter, Walter Perez, Alicia Sixtos, Evan Kole, Sean Meehan, Carmen Dee HarrisRoteiro: Joss Whedon Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora:Alan Silvestri  Produção:Kevin Feige Duração: 136 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Marvel Enterprises / Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

 

Os excêntricos Tenenbaums (2001)

Por André Dick

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Este filme de Wes Anderson consegue exemplificar em detalhes seus talentos: roteiro inteligente, elenco disposto em cena com cuidado exemplar e belas direção de arte e fotografia, que lembram, tanto pelo aspecto teatral quanto pelos quadros e pela forma de narração, uma fábula contemporânea. Nesse sentido, é uma continuação exemplar de Rushmore e a origem tanto de A vida marinha com Steve Zissou quanto Moonrise Kingdom. O foco (daqui em diante, possíveis spoilers) é na família dos Tenenbaums, que reúne um grupo de gênios: um mestre em economia, Chas (que cresce e vira Ben Stiller) – com obsessão pela segurança dos filhos e com figurino igual ao deles, da Adidas –, uma dramaturga, filha adotiva, Margot (Gwyneth Paltrow, em seu melhor momento), e um tenista de grande talento, Richie (Luke Wilson), tendo à frente um pai amoral, advogado, Royal (Gene Hackman) e uma mãe dedicada, Etheline (Anjelica Huston). São seguidos e admirados, até em excesso, por um vizinho, que cresce e vira escritor de best-sellers, Eli Cash (Owen Wilson), além de se envolver com drogas. Tudo muda quando, todos já adultos, um colega de trabalho da mãe, Henry Sherman (Danny Glover) resolve pedir Etheline em casamento. Mas ela precisa se divorciar oficialmente de seu ex-marido, o pai dos Tenenbaums, que está afastado, depois de ter se envolvido em vários problemas. Então, ele – com um misto de bondade, oportunismo e certo interesse em se reaproximar dos membros da família –, finge estar com câncer e em fim de vida, para voltar à sua casa, onde todos se reúnem novamente, em sua homenagem. Interessado em reatar com Etheline, tentará criar uma nova condição, procurando afastar Sherman do caminho, e Gene Hackman é um ator excelente quando soa entre o cômico e o trágico.

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Enquanto isso, o marido de Margot, a dramaturga, Raleigh St. Clair (Bill Murray), pesquisa a vida de um menino com características de autismo, Dudley Heinsbergen (Stephen Lea Sheppard). Já ela gosta do irmão tenista, constituindo outro conflito do filme, com momentos de humor na medida certa, pois sempre provocados por um determinado elemento de tédio.
Os excêntricos Tenenbaums é uma comédia agridoce, em que os personagens, com a ajuda do elenco exato, tentam crescer, mas na verdade querem ser lembrados quando eram crianças ou jovens – nem por isso tentam abandonar a mudança, mesmo que ela incorra em atos extremos. Stiller faz o pai preocupado em afastar os filhos de Royal; Paltrow, a moça que fuma sem ninguém saber, há décadas, escondida no banheiro e não consegue reeditar o talento para escrever peças de teatro; e Luke, Richie, o tenista que desistiu da carreira durante uma partida, para surpresa de todos, colocando-se em viagem permanente e é, na verdade, apaixonado pela irmã adotiva – a sequência em que eles se reencontram depois de anos, com a câmera lenta de Anderson se aproximando do rosto de cada um, é memorável, por toda sua composição e híbrido de fábula com videoclipe (difícil não pensar que o filme é do mesmo ano de Is this it, disco marcante dos Strokes, emergindo de uma Nova York que havia recém passado pelos ataques de 11 de setembro, e uma inegável tentativa de volta a uma margem de descanso, entre os anos 70 e 80).
Com um estilo ao mesmo tempo de fábula e de pop, em homenagem aos anos 70 (nos cabelos e roupas dos personagens), tem diversas cenas realmente marcantes. Além desta que mostra o reencontro entre Richie e Margot, no melhor estilo e figurino setentista, temos aquela em que a família está reunida à mesa, discutindo sobre a volta de Royal, e aquelas em que este, que alega ter câncer estomacal, é surpreendido comendo cheesburger, sendo desmascarado pelo namorado da ex-mulher, rendendo grande constrangimento para toda família, em seguida sendo esfaqueado pelo assessor, Pagoda (Kumar Pallana), para poderem ficar num asilo para idosos: vai do perdão familiar ao ódio em poucos minutos, diante dos olhares atônitos, mas ao mesmo tempo, entendiados – pois o humor de Anderson é patético e melancólico, com densidade para cada um desses elementos – de cada filho, e em que ele tenta conquistar os netos, os quais Chas quer afastar, pendurando-se na traseira de caminhões de lixo. Além daquela, sobretudo, em que, depois de colocar um detetive atrás de Margot, Richie e Raleigh descobrem o passado de Margot, ocasionando um dos momentos mais decisivos do filme.

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O diretor Wes Anderson dispõe a história em capítulos, como se estivéssemos diante de um livro com imagens em movimento, mesclando cores aos figurinos e personagens. A barraca montada pelo tenista num dos cômodos da casa, além de dialogar com aquelas dos escoteiros de Moonrise Kingdom, corresponde à infância que ele não queria que tivesse ido embora, assim como a águia, que soltou quando criança e regressa quando ele está conversando com o pai sobre o amor que não pode declarar. Não por acaso, Anderson coloca o escritor Eli Cash como uma pessoa que tenta se sentir um Tenenbaum, sem sê-lo – o seu desejo, no entanto, passa a ser atendido em todas as escalas de companheirismo, amizade e paixão –, mas nunca se comprometendo o suficiente para mudar, pois a mudança significa uma perda da infância e do que aconteceu ou poderia ter acontecido, além do fato de que ser finalmente ajudado pelos Tenenbaums não significa sua glória e saída mais exitosas.
O filme trata da perda de uma fase que não volta mais, assim como os personagens de Anderson, ao final, não podem pertencer mais a uma fábula inocente ou ingênua. Todos eles têm a noção exata do que vivenciam: o jogo foi finalmente entendido, e o abandono do tenista, esclarecido em cada personagem – mais do que uma situação, a trajetória de cada personagem  é simbólica. Para o diretor, as peças de armar correspondem exatamente às dispostas na infância, restando ao universo dito adulto embaralhá-las, mas elas estarão lá, intactas, no quarto ou na despensa. Assim como a filmografia de Anderson, Os excêntricos Tenenbaums é de uma rara sensibilidade.

The Royal Tenenbaums, EUA, 2001 Diretor: Wes Anderson Elenco: Gene Hackman, Danny Glover, Anjelica Huston, Bill Murray, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Luke Wilson, Owen Wilson Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Duração: 103 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Touchstone Pictures

Cotação 5 estrelas

Publicado originalmente em 13 de maio de 2013

Os excêntricos Tenenbaums (2001)

Por André Dick

Os excêntricos Tenenbaums.Filme

Este filme de Wes Anderson consegue exemplificar em detalhes seus talentos: roteiro inteligente, elenco disposto em cena com cuidado exemplar e belas direção de arte e fotografia, que lembram, tanto pelo aspecto teatral quanto pelos quadros e pela forma de narração, uma fábula contemporânea. Nesse sentido, é uma continuação exemplar de Rushmore e a origem tanto de A vida marinha com Steve Zissou quanto Moonrise Kingdom. O foco (daqui em diante, possíveis spoilers) é na família dos Tenenbaums, que reúne um grupo de gênios: um mestre em economia, Chas (que cresce e vira Ben Stiller) – com obsessão pela segurança dos filhos e com figurino igual ao deles, da Adidas –, uma dramaturga, filha adotiva, Margot (Gwyneth Paltrow, em seu melhor momento), e um tenista de grande talento, Richie (Luke Wilson), tendo à frente um pai amoral, advogado, Royal (Gene Hackman) e uma mãe dedicada, Etheline (Anjelica Huston). São seguidos e admirados, até em excesso, por um vizinho, que cresce e vira escritor de best-sellers, Eli Cash (Owen Wilson), além de se envolver com drogas. Tudo muda quando, todos já adultos, um colega de trabalho da mãe, Henry Sherman (Danny Glover) resolve pedir Etheline em casamento. Mas ela precisa se divorciar oficialmente de seu ex-marido, o pai dos Tenenbaums, que está afastado, depois de ter se envolvido em vários problemas. Então, ele – com um misto de bondade, oportunismo e certo interesse em se reaproximar dos membros da família –, finge estar com câncer e em fim de vida, para voltar à sua casa, onde todos se reúnem novamente, em sua homenagem. Interessado em reatar com Etheline, tentará criar uma nova condição, procurando afastar Sherman do caminho, e Gene Hackman é um ator excelente quando soa entre o cômico e o trágico.

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Os excêntricos Tenenbaums.Filme 8

Enquanto isso, o marido de Margot, a dramaturga, Raleigh St. Clair (Bill Murray), pesquisa a vida de um menino com características de autismo, Dudley Heinsbergen (Stephen Lea Sheppard). Já ela gosta do irmão tenista, constituindo outro conflito do filme, com momentos de humor na medida certa, pois sempre provocados por um determinado elemento de tédio.
Os excêntricos Tenenbaums é uma comédia agridoce, em que os personagens, com a ajuda do elenco exato, tentam crescer, mas na verdade querem ser lembrados quando eram crianças ou jovens – nem por isso tentam abandonar a mudança, mesmo que ela incorra em atos extremos. Stiller faz o pai preocupado em afastar os filhos de Royal; Paltrow, a moça que fuma sem ninguém saber, há décadas, escondida no banheiro e não consegue reeditar o talento para escrever peças de teatro; e Luke, Richie, o tenista que desistiu da carreira durante uma partida, para surpresa de todos, colocando-se em viagem permanente e é, na verdade, apaixonado pela irmã adotiva – a sequência em que eles se reencontram depois de anos, com a câmera lenta de Anderson se aproximando do rosto de cada um, é memorável, por toda sua composição e híbrido de fábula com videoclipe (difícil não pensar que o filme é do mesmo ano de Is this it, disco marcante dos Strokes, emergindo de uma Nova York que havia recém passado pelos ataques de 11 de setembro, e uma inegável tentativa de volta a uma margem de descanso, entre os anos 70 e 80).
Com um estilo ao mesmo tempo de fábula e de pop, em homenagem aos anos 70 (nos cabelos e roupas dos personagens), tem diversas cenas realmente marcantes. Além desta que mostra o reencontro entre Richie e Margot, no melhor estilo e figurino setentista, temos aquela em que a família está reunida à mesa, discutindo sobre a volta de Royal, e aquelas em que este, que alega ter câncer estomacal, é surpreendido comendo cheesburger, sendo desmascarado pelo namorado da ex-mulher, rendendo grande constrangimento para toda família, em seguida sendo esfaqueado pelo assessor, Pagoda (Kumar Pallana), para poderem ficar num asilo para idosos: vai do perdão familiar ao ódio em poucos minutos, diante dos olhares atônitos, mas ao mesmo tempo, entendiados – pois o humor de Anderson é patético e melancólico, com densidade para cada um desses elementos – de cada filho, e em que ele tenta conquistar os netos, os quais Chas quer afastar, pendurando-se na traseira de caminhões de lixo. Além daquela, sobretudo, em que, depois de colocar um detetive atrás de Margot, Richie e Raleigh descobrem o passado de Margot, ocasionando um dos momentos mais decisivos do filme.

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O diretor Wes Anderson dispõe a história em capítulos, como se estivéssemos diante de um livro com imagens em movimento, mesclando cores aos figurinos e personagens. A barraca montada pelo tenista num dos cômodos da casa, além de dialogar com aquelas dos escoteiros de Moonrise Kingdom, corresponde à infância que ele não queria que tivesse ido embora, assim como a águia, que soltou quando criança e regressa quando ele está conversando com o pai sobre o amor que não pode declarar. Não por acaso, Anderson coloca o escritor Eli Cash como uma pessoa que tenta se sentir um Tenenbaum, sem sê-lo – o seu desejo, no entanto, passa a ser atendido em todas as escalas de companheirismo, amizade e paixão –, mas nunca se comprometendo o suficiente para mudar, pois a mudança significa uma perda da infância e do que aconteceu ou poderia ter acontecido, além do fato de que ser finalmente ajudado pelos Tenenbaums não significa sua glória e saída mais exitosas.
O filme trata da perda de uma fase que não volta mais, assim como os personagens de Anderson, ao final, não podem pertencer mais a uma fábula inocente ou ingênua. Todos eles têm a noção exata do que vivenciam: o jogo foi finalmente entendido, e o abandono do tenista, esclarecido em cada personagem – mais do que uma situação, a trajetória de cada personagem  é simbólica. Para o diretor, as peças de armar correspondem exatamente às dispostas na infância, restando ao universo dito adulto embaralhá-las, mas elas estarão lá, intactas, no quarto ou na despensa. Assim como a filmografia de Anderson, Os excêntricos Tenenbaums é de uma rara sensibilidade.

The Royal Tenenbaums, EUA, 2001 Diretor: Wes Anderson Elenco: Gene Hackman, Danny Glover, Anjelica Huston, Bill Murray, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Luke Wilson, Owen Wilson Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Duração: 103 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Touchstone Pictures

Cotação 5 estrelas

Homem de ferro 3 (2013)

Por André Dick

Homem de ferro 3.Filme 4

Em 2008, Robert Downey Jr., como o Homem de Ferro, enfrentou um grande vilão, Obadiah Stane (Jeff Bridges). Em 2010, novamente sob a direção de Jon Favreau, ele regressou ao papel de herói, tendo como rivais dois vilões interessantes, Ivan Vanko (Mickey Rourke) e Justin Hammer (Sam Rockwell). Ainda assim, o que se destacava, ainda mais do que o primeiro, era o bom humor de Downey Jr., além da aparição de Samuel L. Jackson e da cena de boxe com a personagem de Scarlett Johansson.
Se este segundo filme subestimado já começava no tribunal, com o Homem de Ferro sendo pressionado a dividir os segredos de sua invenção com o Estado, aqui o herói, já estabelecido e fazendo novos experimentos com sua armadura, começa se lembrando de um episódio ocorrido em 1999 (daqui em diante, spoilers) quando dormiu com uma bióloga, Maya Hansen (Rebecca Hall), na virada do ano em Berna, depois de ser abordado por um homem estranho, Aldrich Killian (Guy Pearce), a fim de tratar de negócios.
Com coadjuvantes de luxo, Favreau se saiu bem nos dois filmes que dirigiu, aliando técnica nos efeitos visuais e uma montagem eficiente, enquanto neste terceiro Shane Black tem uma dificuldade especial de dosar o ritmo. Com essa questão episódica demais – o passado que retorna com todos os seus problemas –, ele parece não conseguir, como Favreau, inserir os personagens em conjunto, apesar de a primeira meia hora ser agradável, e afasta alguns deles da trama durante muito tempo. A relação entre o Homem de Ferro e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow, eficiente como nos outros filmes) parece ter congelado no final do segundo filme. Ela está à frente, nas empresas, enquanto ele está em sua mansão, trabalhando no porão, escondido. Ele também não conversa pessoalmente uma vez sequer com aquele que, em determinado momento, de modo irônico, vai provocar nele um espírito de revanche (nem conversará no fim, o que parece indicar problemas no roteiro).

Homem de ferro 3

Homem de ferro 3.Filme 3

Desta vez, ele guarda pesadelos da batalha de Nova York de Os vingadores, mas o afastamento continua o mesmo, e não há exatamente um aprofundamento em sua psicologia, o que havia antes do clímax do segundo. Ou seja, se antes Stark e Pepper estavam quase sempre juntos, aqui parece que eles não têm vínculo estabelecido, apenas uma necessidade de dividir diversas piadas na sala de estar e no quarto. Nesse sentido, o filme não deixa a desejar.
A vida do Homem de Ferro começa a ser ameaçada quando surge um terrorista, Mandarim (Ben Kingsley, que parece saído diretamente do set de O ditador), que remete sobretudo a Bin Laden, e ele consegue invadir, com seus vídeos, todas as redes de televisão, depois de atentados em que não se consegue descobrir a origem das bombas. Embora aqui não estejamos tratando de A hora mais escura, e sua polêmica com as cenas de tortura, há cenas de humor um tanto estranhas (sobretudo aquelas que acontecem no Paquistão), pois trata-se de um filme de diversão que evoca diretamente um contexto muito mais sério. O aspecto cômico do filme acaba abalado por sua tentativa de estabelecer um contato com acontecimentos reais, que não são divertidos. Em algumas dessas sequências, entra em cena aquele que se denomina Patriota de Ferro, que na verdade é Jim Rhodes (Don Cheadle, menos efetivo do que no segundo filme).
Depois de uma catarse sonora e de efeitos especiais, é preciso, para Black, dar vazão ao filme e cultivar seus elementos externos, colocando o Homem de Ferro como amigo de um menino, Harley (Ty Simpkins, bom ator), o que, apesar de soar simpático e render momentos divertidos (sobretudo um diálogo que deve ter sido feito de forma improvisada por Downey Jr.), acaba extraindo boa parte do núcleo do filme e parece querer agradar, de forma apressada, o público infantil. O herói precisa recuperar-se para enfrentar o vilão: porém, o que ele faz é decorar uma garagem como laboratório. Claro que não se deseja achar que filmes que almejam o divertimento têm necessariamente uma faceta dramática, mas pode haver uma pausa para recuperar as ações. Quando acontece a catarse com sua mansão – e ela aparece no trailer –, tratando-se de uma sequência impressionante, com a ótima fotografia de John Toll (Cloud Atlas), onde ele, afinal, abrigava seus projetos, parece não haver a justa medida de sofrimento.

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Homem de ferro 3.Filme 2

Num filme de ação, é preciso temer os vilões e se torcer para o herói superar suas dificuldades. Quando o herói parece não sentir dificuldades nem tem desejo de reparar a realidade em que vivia, a tensão, em boa parte, se perde (evidente no fato de que muitas vezes ele não está diretamente envolvido na ação e na conversa final, depois dos créditos). E quando o vilão, Mandarim, revela sua verdadeira faceta, vemos um lado de Kingsley constrangido (o extraordinário ator não escapa ileso da brincadeira).
Black, que fez o roteiro de todos os filmes da série Máquina mortífera (os dois primeiros são especialmente bons), mas também dos fracos O último boy scout e O último grande herói, e antes fez apenas um filme, justamente com Downey Jr., Beijos e tiros, que brincava com o cinema noir e tinha um estilo interessante, demonstra mais competência do que o esperado para cenas de ação grandiosas (e há pelo menos três no filme que parecem superar qualquer outra da série), mas acaba destoando justamente onde se esperava mais: no roteiro bem delineado e com diálogos eficientes. O que se vê é uma sucessão de gags, de todos os estilos, algumas delas divertidas, sobretudo pela atuação de Downey Jr. E, vendo de forma distanciada, um diretor que fez apenas um filme e não dirigia há oito anos não seria a melhor alternativa para imprimir ritmo.
O Homem de Ferro de Downey Jr. não pode ser levado totalmente a sério, mas tampouco soa sem elementos dramáticos ou sem uma relação paterna que o acompanha na criação da própria empresa. Aqui, a porção dramática diminui consideravelmente em passagens com maior tendência à autossátira, quase como o que fez Richard Lester em Superman III, e a crise de ansiedade inventada para Stark parece aleatória. Existe, inclusive, uma sequência que lembra a do personagem de Tom Cruise em Encontro explosivo, satirizando ele próprio em Missão impossível. Pelos trailers, parecia, inclusive, que haveria uma espécie de influência do terceiro Batman pela escuridão das imagens. Não é o que acontece (nem deveria), mas trailers certamente ajudam a estabelecer uma concepção visual prévia para o que irá se assistir. Não se espere, portanto, nenhum traço sombrio. Mas, particularmente, o que tira a energia que deveria haver no duelo entre Homem de Ferro e o empresário Killian é justamente Guy Pearce, ator que tem dificuldade de estebelecer uma ligação com a plateia e parece soar em muitos momentos exagerado. Sua atuação é, particularmente, equivocada, ainda mais por causa do roteiro e quando comparada às de Jeff Bridges, no primeiro, e de Rourke e Rockwell no segundo.
Existe emoção em Homem de ferro 3 quando Downey Jr. consegue mesclar o elemento do bom humor com o drama, quando ele está numa situação delicada e percebe que Pepper pode correr um perigo indesejado. É justamente quando estabelece ligações humanas que Homem de ferro 3 cresce. Quando ele soa com elementos de sátira a outros filmes, inclusive aos da série, ele acaba por não conseguir fazer o que mais quer: divertir.

Iron man 3, EUA, 2013 Diretor: Shane Black Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Ben Kingsley, Paul Bettany, Rebecca Hall, Jon Favreau, Don Cheadle, James Badge Dale, Ashley Hamilton, Yvonne Zima, William Sadler, Ty Simpkins, Miguel Ferrer Produção: Kevin Feige Roteiro: Shane Black, Drew Pearce Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Brian Tyler Duração: 130 min. Distribuidora: Disney Estúdio: DMG Entertainment / Marvel Studios / Paramount Pictures

Cotação 2 estrelas e meia