All That Jazz – O show deve continuar (1979)

Por André Dick

O diretor Bob Fosse fez o musical Cabaret, apontado com um dos maiores da história, no início dos anos 1970, destacando uma jovem Liza Minnelli e uma produção requintada. No entanto, foi no final dessa década que ele lançou All That Jazz – O show deve continuar, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1980, ao lado de Kagemusha, de Akira Kurosawa, e indicado a vários Oscars, inclusive o de melhor filme.
A narrativa acompanha Joe Gideon (Roy Scheider), diretor de teatro e coreógrafo que se divide entre um novo musical da Broadway e um filme que ele aceitou dirigir, sobre um comediante (Cliff Gorman). Trata-se de uma referência à própria obra de Fosse: quando tentava editar Lenny (com Dustin Hoffman), ele dirigia na Broadway o espetáculo Chicago (cuja adaptação para o cinema ganharia o Oscar em 2003 e faz referências a All That Jazz, principalmente no letreiro inicial que forma seu título). De manhã cedo, Gideon já está fumando e tomando seus remédios em peso, assim como tenta conciliar com tudo seu grande vício, o sexo. Seu programa é o seguinte: gotas para os olhos, dexedrina, Alka-Seltzer, chuveiro, o “Concerto Alla Rustica Concerto in G Major”, de Vivaldi, e a frase dita em frente ao espelho com as palmas das mãos abertas e cigarro quase caindo no canto da boca: “Showtime, folks!” (é interessante como essa sequência influenciou Aronofsky em seu Réquiem para um sonho).

Essa rotina de Gideon incorpora nas próprias coreografias que ele vai criando com os integrantes de seu espetáculo, e os gritos de exigências mesclam a sexualidade que insiste em permanecer sempre ao lado dele durante todo a história. Ao seu redor, ele mantém sua namorada Katie Jagger (Ann Reinking), sua ex-mulher Audrey Paris (Leland Palmer) e a filha Michelle (Erzsébet Földi) que tentam controlá-lo, sem efetividade. Ao mesmo tempo, ele fica imaginando um determinado anjo da morte (Jessica Lange). Se há um filme que possa ter antecipado o jogo entre arte e espetáculo visto no recente Birdman é este.
Abalado por problemas de saúde, os produtores querem substituí-lo, não sem antes Gideon transformar sua situação numa espécie de espetáculo pessoal. Para isso, Bob Fosse enquadra imagens que misturam tanto o imaginário de Gideon quanto sua atuação situação de saúde. All That Jazz é exemplo de um musical que se constrói principalmente pela atuação espetacular de Scheider. Quando se vê sua atuação como o xerife Brody, de Tubarão, ou como policial em Operação França, é difícil imaginá-lo num papel como esse.

Não que naquele não mostrasse talento, mas Gideon tem todos os elementos de uma figura que não condiz a princípio com a imagem mais séria e imperturbável de Scheider. Mais eis um ator que se enquadra como nunca num papel, tendo competido com Al Pacino (Justiça para todos) e Dustin Hoffmann (Kramer vs. Kramer) no Oscar, todos eles com excepcionais atuações. O que mais chama atenção, além da atuação magnética de Scheider, é a fotografia magistral de Giuseppe Rotunno, habitual colaborador de Federico Fellini, iluminando os cenários como se de fato constituíssem um show vivo da Broadway. É um dos trabalhos de fotografia mais belos da história do cinema, principalmente o ensaio de abertura, com em torno de cinco minutos, que captura a atmosfera que Fosse deseja para a sua história, no entanto sem esquecer aquele instante em que Gideon ensaia a peça num lugar mais apertado, para os produtores darem seu parecer.
Segundo Stanley Kubrick, este era o maior filme que ele já havia visto, e, sem querer sobrevalorizá-lo, é notável como All That Jazz sobrevive a seu tempo, com uma edição notável, intercalando cenas e sensações de todos os tipos. Por ser um personagem muito ativo e cheio de vida, contudo problemático, Gideon representa a divisão (e o complemento) entre o artístico e a vida mais arriscada. Bob Fosse, ao se autoprojetar no personagem, traz complexidade a ele, não de maneira indulgente e sim humana. Gideon representa não apenas seu show: ele representa também as pessoas que veem esse espetáculo.

Fosse administra tudo como se fosse uma espécie de holofote majestoso sobre a própria vida, e quando Gideon foge pelos corredores do hospital ou simplesmente não se importa com as regras do lugar ele leva junto sua noção de arte incontida pelo próprio corpo. Por isso, All That Jazz, mais do que uma obra sobre um artista, é sobre a arte que se inscreve num indivíduo e se dissemina de todas as formas também nas pessoas que o cercam. Uma reunião em que ele parece desligado ao invés de todos representa o momento em que apenas ele está verdadeiramente concentrado no que deve ser feito, apesar de tudo indicar o contrário. Ou aquele momento em que ele está tentando escolher o elenco e acaba saindo do teatro em busca de uma vida pessoal, mas dá a impressão de ser bloqueado inconscientemente pela porta. De certo modo, ele não consegue lidar com a realidade, apenas com os sonhos que vai projetando, um a um, em suas coreografias inesquecíveis.

All That Jazz, EUA, 1979 Diretor: Bob Fosse Elenco: Roy Scheider, Jessica Lange, Ann Reinking, Leland Palmer, Ben Vereen, Cliff Gorman, Erzsebet Fold, Michael Tolan, John Lithgow Roteiro: Bob Fosse, Robert Alan Aurthur Fotografia: Giuseppe Rotunno Trilha Sonora: Ralph Burns Produção: Robert Alan Aurthur Duração: 123 min. Estúdio: 20th Century Fox e Columbia Pictures Corporation

 

Popeye (1980)

Por André Dick

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Cercado de problemas durante a produção, Popeye, revisto hoje em dia, já com a distância demarcando suas qualidades e defeitos, mostra que poderia, antes de mais nada, haver uma transposição cuidadosa das histórias do marinheiro para o cinema. O roteiro de Jules Feiffer, baseado nos quadrinhos de E. C. Segar, é correto, simples, na medida certa, mas sem nunca cair no excessivamente infantil e o elenco, excepcional, com destaque para Robin Williams, em seu segundo filme, ainda sem os maneirismos característicos e fazendo Popeye com talento, com a direção de Robert Altman. Fazer esta adaptação era uma tarefa bem ao gosto do diretor, que nunca apreciou repetir fórmulas. Ele havia feito cinco anos antes Nashville, considerado sua obra-prima, e acabaria, por causa desse filme, injustamente, tendo sua carreira quase apagada na década de 80, voltando apenas com força em O jogador e Short Cuts no início dos anos 90. Somado a isso, Popeye ficaria marcado com uma obra falha dos estúdios Disney, apesar de ter tido uma boa bilheteria, mas como uma das obras menos consideradas de Altman. Trata-se de uma injustiça.
Depois de mostrar o personagem em desenho animado, dizendo que está no filme errado, mostra sua chegada, em versão humana, a Sweethaven, uma pequena cidade portuária, à procura de seu pai. Ali, conhece Olívia Palito (a brilhante Shelley Duvall, no mesmo ano em que fez O iluminado, com outras características, e que já havia feito Nashville; Altman brigou com os produtores para tê-la no papel), adota o bebê Gugu (Wesley Ivan Hurt, neto de Altman) e vira inimigo do temido Brutus (Paul Smith, o mais parecido com o personagem dos desenhos). As canções são apenas para deixar o filme mais simpático – ele não chega a ser, pelas características, um musical completo – e o clima é de desenho animado, até com alguns sons característicos nas cenas de briga, entre Popeye e os homens de um bar e com um lutador que chega à cidade, acompanhado de sua mãe (Linda Hunt), mas sem nunca cair no previsível. Pelo contrário, desde o início, quando Popeye se hospeda na casa da família de Olívia Palito, defendida pela comunidade por causa de Brutus querer casar com ela – e o ingresso dele na casa, junto aos convidados, é antológico –, o personagem é um solitário, e Williams consegue, em momentos demarcados, mostrar sua insegurança e tristeza por ter sido abandonado pelo pai ainda pequeno (antevendo o talento que mostraria em obras como Bom dia, Vietnã e Sociedade dos poetas mortos), quando chega à festa de Olívia Palito, sem ser cumprimentado, refugiando-se na beira do porto.

Popeye 6

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Ele é recebido como realmente um forasteiro, com desprezo por estar no lugar, e perseguido por um fiscal (Donald Moffat), que cobra multas por cada pergunta e anda numa bicicleta com a bandeira norte-americana. Trata-se não apenas uma referência à depressão dos Estados Unidos – o filme se baseia mais nas tiras de quadrinhos dos anos 30 do que os desenhos posteriores de Max Fleischer –, mas aos efeitos da Segunda Guerra Mundial, e Sweethaven aparenta parece estar alheia a isso. Brutus, que manda no fiscal, segue as ordens de um comodoro misterioso, o qual ninguém vê e que coloca ordem no lugar. Dudu (Paul Dooley), que come continuamente hamburgueres, ao ver que o nenê deixado para Popeye numa cena – com a promessa da mãe vir buscá-lo depois de pagar todas suas dívidas, em 25 anos – pode fazê-lo acertar em corridas de cavalos de brinquedo, porque teria uma espécie de “paranormalidade” (numa tirada episódica do roteiro), decide sequestrá-lo. Com os ganhos na casa de jogos, em que vigora também um bordel, avisa que poderá comer hamburgueres por um longo tempo. Quando Popeye acaba jogando o fiscal na água, a cidade se reúne para erguê-lo como um libertador da opressão, mas ele, na verdade, continua querendo reencontrar apenas o pai.
O seu romance com Olívia Palito se desenrola de maneira quase ingênua, desde o flerte quando chega à casa dela, e tem suas malas jogadas para fora da cama, até o momento em que ela canta a bela “He Needs Me” (que Paul Thomas Anderson reproduziria com Adam Sandler e Emily Watson em Embriagado de amor; Anderson era, sabe-se, um seguidor de Altman, a julgar também por seu Magnólia).

Popeye.Robin Williams

Popeye.Filme.Robert Altman

Altman sempre foi muito vivo ao situar os personagens em cenários reais. A cidade de Sweethaven é fantasiosa, mas Altman a construiu cuidadosamente na ilha de Malta, e ela existe hoje, conhecida como Vila Popeye, com um fabuloso desenho de produção de Wolf Kroeger (O último dos moicanos, O feitiço de Áquila). Há, nela, um aspecto teatral minucioso, e os personagens se movimentam como se estivessem num palco representando, assim como reproduzindo os movimentos das histórias em quadrinhos e do desenho animado. No momento, por exemplo, em que Popeye carrega as malas de Olívia Palito e ambos não sabem ao certo para onde ir a presença dos quadrinhos é evidente. E algumas brigas são evidentemente circenses, como aquela que envolve Castor Palito (Donovan Scott), assim como o comportamento de alguns moradores da ilha.
No entanto, Altman está mais interessado no que se passa nas entrelinhas do seu filme do que na própria adaptação do personagem antológico, assim como fez em seus mais notáveis filmes. Ainda assim, em momento algum, desconfiamos que os atores não se parecem extremamente com seus desenhos de origem – suas ações são, por outro lado, mais humanas. Altman consegue dar um sentido exato e criativo às saídas que o roteiro oferece, embora a última meia hora passe apressadamente (a produção teve problemas de financiamento), mas sem esconder a belíssima fotografia de Giuseppe Rotunno, colaborador habitual de Fellini, transformando Popeye numa peça a ser redescoberta e uma referência de seu tempo.

Popeye, EUA, 1980 Diretor: Robert Altman Elenco: Robin Williams, Shelley Duvall, Ray Walston, Paul Smith, Paul Dooley, Donovan Scott, Wesley Ivan Hurt Produção: Robert Evans Fotografia: Giuseppe Rotunno Trilha Sonora: Harry Nilson e Tom Pierson Distribuidora: Walt Disney e Paramount Pictures Duração: 92 min.

Cotação 4 estrelas