1900 (1976)

Por André Dick

Demorei tempo para assistir a esta obra de Bernardo Bertolucci não exatamente por não apreciar filmes de extensa duração, mas porque este possui nada menos que 317 minutos. Também não há grande entusiasmo geral em torno de 1900, ou Novecento, conforme seu título original, pelo menos em comparação a O conformista e O último tango em Paris, as peças mais lembradas do diretor da década de 1970, que veio a falecer, lamentavelmente, ontem, aos 77 anos de idade.
Um traço desse épico é, sem dúvida, tornar sua trama uma soma de diversos fragmentos, sem querer tecer demais longas linhas de diálogos ou traçar ligações exatamente duradouras entre alguns personagens. O roteiro mostra inicialmente o nascimento, no mesmo 27 de janeiro de 1901, na região de Emilia-Romagna, Norte da Itália, de Alfredo Berlinghieri, neto abastado de Alfredo (Burt Lancaster), e Olmo Dalcò, neto de uma família de camponeses que trabalha para os Berlingheri, tendo à frente Leo (Sterling Hayden). O filme mostra o crescimento dos dois (na juventude, Alfredo é interpretado por Paolo Pavesi e Olmo por Roberto Maccanti), até a vida adulta (quando Alfredo é interpretado por Robert De Niro e Olmo por Gérard Depardieu). Olmo se alista na Primeira Guerra Mundial, em 1917, enquanto Alfredo cuida da administração dos negócios de sua família.

O pai de Alfredo acaba por contratar Átila Mellanchini (Donald Sutherland), casado com Regina (Laura Betti), seguidor do fascismo, não havendo nenhuma contraposição por parte dele. Ao final da década de 20, Alberto se casa com Ada Chiostri Polan (Dominique Sanda), que pretende ter filhos com ele. Olmo, por sua vez, se casa com Anita (Anna Henkel-Grönemeyer).
Como o título indica, o roteiro segue esses personagens ao longo de grande parte do século XX, inclusive chegando à Segunda Guerra Mundial. Apesar dos temas políticos por trás da narrativa (fascismo versus comunismo), eles são o que menos interessa: 1900 é um grande painel, um mosaico retocado pela fotografia brilhante de Vittorio Storaro e pela trilha sonora de Ennio Morricone. Repare-se o início luminoso, seguindo a infância dos amigos de classes distintas, com enquadramentos dos camponeses nas plantações ou dançando em meio a fileiras de árvores. Depois, quando chega a Guerra, o tom acizentado das imagens se torna mais presente, e o sexo se torna o mote para a ligação entre eles (embora se sugira uma relação mais próxima entre os dois, Bertolucci não a explora).

Também vemos o primeiro contato de Alfredo e sua esposa com drogas – no casamento, ela ganha de presente um cavalo chamado de Cocaína. Há, ao longo de 1900, a exploração da amizade entre esses amigos, mas também a solidão de Ada, na melhor interpretação do elenco, de Dominique Sanda. No filme, existe uma constante variação entre o sentimento na vida adulta e na vida infantil, mesclado às mudanças de cada época, sendo, neste sentido, mais bem realizado que O leopardo, de Visconti, uma obra que certamente o influenciou.
Pauline Kael foi muito feliz quando comenta que o 1900 é resultado de um “cinéfilo romântico” tentando fazer um “filme de massa recorrendo à mitologia do cinema”, com “sequências tão fantásticas quanto quaisquer outras jamais filmadas”, sintetizando-o como uma “loucura utópica”. Percebe-se aqui muito do que Cimino tentou transplantar para o Oeste norte-americano em O portal do paraíso, um interesse em colocar personagens não apenas como símbolos de um período e sim de toda a existência. Ele não se restringe a mostrar uma determinada luta de ideologias ou classes. Bertolucci apanha elementos políticos como pano de fundo para uma genealogia maior: a da composição familiar e do círculo de amigos.

Por causa de suas mais de cinco horas originais e depois de estrear sob desconfiança no Festival de Cannes, 1900 foi remontado e ganhou uma versão menor (247 minutos) no seu lançamento nos Estados Unidos, quando ocorreu um desentendimento entre o diretor e o produtor, Alberto Grimaldi (que também trabalhou com Fellini). Como O portal do paraíso, foi rechaçado em grande parte, mas, normalmente, teria concorrido a diversos Oscars por sua parte técnica e de atuações, além da direção notável de Bertolucci, que o filmou por mais de um ano para obter o material. Embora em nenhum momento ele busque comover, um traço do diretor italiano, há uma ressonância permanente em suas imagens, uma visão impactante do universo rural, campestre, em choque com o mundo moderno, do surgimento da eletricidade, modulado em tons extremistas. Sutherland, como o grande vilão e que no mesmo ano esteve em Casanova de Fellini (diretor que o conheceu exatamente nas filmagens de 1900), às vezes recebe uma visão exagerada, no entanto ele é um bom contraponto aos personagens de Alfredo e Olmo, em boas atuações de De Niro e Depardieu. Bertolucci enxerga a história familiar de maneira muito interessante e ampla, reproduzindo na passagem dos anos os mesmos olhares sob determinadas questões sociais.
O que mais impressiona, no entanto, em 1900 é sua absoluta fluidez e o fato de suas cinco horas transcorrerem parecendo no máximo três. Numa década em que os dois O poderoso chefão foram tão bem recebidos, com merecimento absoluto, ser visto apenas como uma curiosidade chega a ser surpreendente. Bertolucci constrói um épico no qual o mote é a saga de uma família e seus contornos sem abdicar da competência narrativa e da construção cinematográfica como poucas vezes se viu.

Novecento, ITA/FRA/ALE, 1976 Diretor: Bernardo Bertolucci Elenco: Robert De Niro, Gérard Depardieu, Dominique Sanda, Francesca Bertini, Laura Betti, Werner Bruhns, Stefania Casini, Sterling Hayden, Anna Henkel, Ellen Schwiers, Alida Valli, Romolo Valli, Stefania Sandrelli, Donald Sutherland, Burt Lancaster, Paolo Pavesi, Roberto Maccanti Roteiro: Franco Arcalli, Giuseppe Bertolucci e Bernardo Bertolucci Fotografia: Vittorio Storaro Trilha Sonora: Ennio Morricone Produção: Alberto Grimaldi Duração: 317 min. Estúdio: Produzioni Europee Associati (PEA), Les Productions Artistes Associés, Artemis Film Distribuidora: 20th Century Fox (Itália e Inglaterra), Paramount Pictures (Estados Unidos), United Artists (Internacional)

 

As aventuras de Pi (2012)

Por André Dick

As aventuras de Pi 5

Baseado num romance de Yann Martel (que, depois de ganhar o prêmio Prêmio Booker, confessou que havia se inspirado no livro Max e os felinos, do escritor brasileiro Moacyr Scliar), esta aventura dramática antecede a temporada dos bons filmes potencialmente favoritos a concorrer ao Oscar, depois do decepcionante Argo. O diretor chinês Ang Lee assumiu o filme depois de alguns cineastas serem cotados para o projeto, como M.Night Shyamalan e Jean-Pierre Jeunet, e imprimiu seu habitual talento para cenas de aventura dramática, o que já havia mostrado em O tigre e o dragão e em alguns momentos de Hulk (sua contestada adaptação, prejudicada pela atuação de Eric Bana e pelos efeitos especiais exagerados).
Ele inicia o filme com Piscine Molitor Patel (Irrfan Khan), batizado com este nome por causa de uma piscina de Paris que encantou seu pai (Adil Hussain), contando o motivo de seu nome ser assim e sobre sua vida até a adolescência em Pondicherry, na Índia, a um escritor que o procura em busca de uma história interessante, o próprio Martel (Rafe Spall, em papel que seria de Tobey Maguire). Parte de uma família que não aprecia a religião, Pi, como começa a ser chamado depois na escola – em razão de seu conhecimento matemático –, pelo contrário, quer aprender sobre todas as religiões: desde o hinduísmo, passando pelo islamismo até o cristianismo. Sua família também cuida de um zoológico, em que o maior atrativo é Richard Parker, um tigre de Bengala.
É Suraj Sharma que passa a interpretar Pi na adolescência, quando a família precisa ir para o Canadá, a fim de vender seu zoológico e recuperar dinheiro. Durante a viagem, no entanto, acontece um naufrágio, e esta é a sequência mais impressionante do filme, no duelo entre as ondas gigantes e o enorme cargueiro que transporta a sua família, e Pi precisa se refugiar num bote com uma hiena, uma zebra, um orangotango e o tigre de Bengala Richard Parker. O tigre, no entanto, quer devorá-lo, começando um duelo pela ocupação de espaço, fazendo com que Pi precise ficar em uma balsa ao lado do bote. Todo esse desenvolvimento é feito por Ang Lee da maneira mais detalhada, com Pi descobrindo, aos poucos, como se manter em alto-mar e como lidar com o tigre, com o qual passou um momento delicado na infância. Ainda mais: Ang Lee costura algumas das cenas mais belas do ano, em que o azul do céu se funde ao da água, e em que surgem os animais mais exóticos e espetaculares. Tudo, no entanto, parece mesclado com a fantasia, pois Pi deseja se ausentar também daquela condição terrível.

As aventuras de Pi

Se a primeira parte, com seu fundo religioso, parece um tanto esquemático demais, para dar entrada à segunda parte, em que as palavras se traduzem em imagens, As aventuras de Pi nunca desce a um fundo de fábula com uma lição de moral para encantar a plateia, como poderia. É verdade que Ang Lee parece um pouco desconfortável com o cenário da Índia – não o fotografa da maneira mais interessante, como o faz Madden em O exótico Hotel Marigold –, e com uma fotografia às vezes que esconde os grandes planos, contudo, quando chega em alto-mar, sua visão detalhista nos traz o filme especial que parecia escondido.
Com a fotografia de Claudio Miranda (o mesmo de O curioso caso de Benjamin Button) e os movimentos de câmera para mostrar o personagem à deriva, em sua luta pelo território com o tigre, As aventuras de Pi ingressa num terreno pouco vislumbrado no cinema: a ligação entre o sentido de uma aventura inesperada com uma busca por um Deus que seja comum para o universo que o personagem cultiva. Ang Lee consegue contrabalançar a relação entre a água e a carne. A família de Pi é vegetariana e ao chegarem ao navio logo se desentendem com o cozinheiro (Gérard Depardieu) e há um momento em que Pi é levado a beber água benta numa igreja – quando tem o primeiro contato com a figura de Jesus Cristo. Depois, ele diz à família que deseja ser batizado. A carne e a água simbolizam a humanidade e também a sobrevivência. E quando Pi precisa enfrentar os temores no mar que se defronta com a falta de comida e a necessidade de caçar peixes. Os animais, principalmente o tigre de Bengala, também precisa se alimentar – como reflete Pi, ele precisa, como era tratado no zoológico, de toneladas de carne. Depois da tormenta, Pi precisa colher água com os baldes, enquanto toma a água que cai do céu ao mesmo tempo. O tigre de Bengala precisa, em determinado momento, caçar, e o alimento pode ser, também, um convite a ficar ao relento. Este momento remete a quando Pi tentou, na infância, lhe dar um pedaço de carne com a mão, e o pai quer que os filhos vejam, para aprender, uma cabra sendo devorada pelo animal.
Tudo é feito de maneira muito discreta por Lee, um cineasta especializado em simbologias, lembrando tambem o belo O segredo de Brokeback Mountain. Ele é um cineasta que consegue lidar com personagens em situações isoladas e representar este isolamento da melhor forma. Mais do que a vida de Pi que somos atraídos a olhar, Lee tece uma ligação dele com os personagens humanos que nunca se confirma, nem mesmo em seu olhar adulto.

As aventuras de Pi 2

É assim que Lee condiciona a que olhemos sua relação com os animais da melhor forma possível, pois cada detalhe pelo qual passa ajuda a explicar melhor essa jornada que se faz no exterior, mas na verdade é interna. Como em O tigre e o dragão, Lee dispõe essas informações mais subjetivas de modo calibrado, sem cair num tom sentencioso. Se lá ele contava com um elenco excelente, aqui seu apoio é Suraj Sharma, o ator que interpreta Pi, estreante, mas de grande talento. Ele consegue passar as emoções, que poderiam ser inconstantes, na dose exata, empregando o mesmo ritmo do diretor, ou seja, sem fazer a narrativa se perder mesmo nos momentos de menos intensidade. Nos momentos derradeiros, sobretudo, ele consegue criar um paralelo de tudo o que aconteceu com seu destino – já na atuação de Khan, mais elogiado do que Sharma, embora não com o mesmo impacto.
Não existe aqui um experimentalismo vazio, ou seja, Lee basicamente exerce o experimentalismo de imagens com efeitos especiais notáveis (talvez só percam este ano para os de O hobbit), mas ainda assim o final consegue surpreender e deixar o espectador em suspenso, para que possa refletir o que passou. É possível se enganar, achando que o filme tenta convencer o espectador a ter uma determinada religiosidade. Parece que Lee transparece mais o ímpeto do ser humano em acreditar em algo, na própria fantasia que carrega e da qual pode se alimentar a fim de que não perca sua força. É disso que trata a terceira parte do filme. Ou seja, não é um jogo de Lee com uma espécie de densidade sem fundo nem solidez. Quando ele mostra as estrelas à noite, acima de Pi, rodando a câmera, ou mostra os peixes em círculos embaixo do bote, ele revela uma espécie de círculo completo, que se completa, com o olhar ao horizonte. Neste instante, as aventuras se transformam realmente na vida de Pi, como está no título original. E torna-se possível sentir cada momento do personagem, em toda sua amplitude.

The life of Pi, EUA, 2012 Diretor: Ang Lee Elenco: Irrfan Khan, Gérard Depardieu, Suraj Sharma, Adil Hussain, Ayush Tandon Produção: Ang Lee, Gil Netter, David Womark Roteiro: David Magee, baseado na novela de Yann Martel Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: Mychael Danna Duração: 129 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Fox 2000 Pictures / Rhythm and Hues

Cotação 4 estrelas