Forrest Gump – O contador de histórias (1994)

Por André Dick

Se há uma obra-prima do diretor Robert Zemeckis, não é De volta para o futuro, Uma cilada para Roger Rabbit ou Contato, e sim esta peça vencedora do Oscar em 1994, mais lembrada por ter derrotado Pulp Fiction, de Tarantino, e Um sonho de liberdade, o que não deixa de ser uma injustiça, pois apresenta muitos méritos. Forrest Gump é o melhor filme de Spielberg não feito por Spielberg; é dirigido por um de seus “alunos” (Zemeckis escreveu o roteiro de 1941), acertado em todos os níveis de emoção, tanto pela atuação de Tom Hanks quanto pela trilha sonora vitoriosa de Alan Silvestri.
A história conta os passos de Forrest Gump (Michael Conner Humphreys quando criança e Tom Hanks quando adulto), um rapaz com QI abaixo da média, que vive com sua mãe (Sally Field) numa fazenda de Savannah, na Georgia. Sua melhor amiga é Jenny Curran (Hanna R. Hall na infância e Robin Wright quando adulta) e ambos estão interligados ao longo de vários períodos da história dos Estados Unidos.

Desde criança, quando tem problemas para se locomover, Forrest enfrenta colegas que não gostam dele, mas consegue chegar ao time de futebol norte-americano na universidade depois que, de forma espetacular, se torna um corredor. Vai para a guerra do Vietnã, onde se torna o melhor amigo de Bubba (Mykelti Williamson) e tem como tenente Dan Taylor (Gary Sinise). Essas cenas são muito bem feitas, com efeitos visuais notáveis, além da fotografia de Don Burgess, lembrando mesmo Apocalypse now em determinado momento, embora veja a guerra com um olhar corrosivo, sobretudo o exército (Zemeckis brinca especialmente com Nascido para matar, de Kubrick). No entanto, o espectador fica sempre desconfiado se o que está assistindo parte da imaginação do personagem central, quando se esclarece que ele é de fato imprevisível.

O diretor Robert Zemeckis foca, com poesia, o salto de um ser humano da infância para a maturidade, quando esta parece nunca chegar. Forrest não é um simples sujeito que não percebe a importância dos fatos. Para Zemeckis, a simplicidade e o olhar sobre pequenas coisas exemplificam determinada maturidade. Sua relação com a mãe é primordial – numa grande atuação de Sally Field. Não é à toa, Forrest vira, por força do destino, uma estrela do futebol americano, herói do Vietnã, campeão de pingue-pongue, exímio pescador de camarões e uma figura idolatrada. Forrest não vê importância nisso tudo, ficando feliz em assistir ao programa Vila Sésamo. Zemeckis reverte a expectativa do personagem diante da história sempre com sua visão particular de mundo, e a história maior é sempre colocada em segundo plano. Isso oferece ao personagem uma sensação não de completude e sim de certa melancolia, de deslocamento no tempo e no espaço, criando nele uma nostalgia estranha. Ele é como se fosse um referencial histórico que não pertencesse a essa história, ou, inserido nela, nunca soubesse exatamente sua dimensão. O que poderia soar ofensivo se torna extraordinariamente sagaz: Zemeckis está mostrando que a história parte da imaginação de cada um em primeiro lugar.

De maneira ágil, o diretor joga com a realidade em muitos planos: normalmente, o que é imaginado por Forrest se aproxima de uma idealização (quando ele acredita no fato de Jenny ter se transformado numa cantora, por exemplo), no entanto é justamente essa idealização que o faz ver exatamente as grandes coisas. E, talvez em razão disso, o filme é desapreciado por alguns críticos dedicados à “arthouse”. Forrest Gump lida com humor e emoção com certos caminhos, principalmente quando envolve figuras políticas (Nixon, Kennedy) ou culturais (John Lennon, Elvis Presley). O roteiro de Eric Roth, baseado em novela de Winston Groom, estabelece uma circularidade envolvente, vinculando infância e vida adulta de maneira competente. Determinados cenários conferem esse sentimento (as casas de infância de Forrest e Jenny), parecendo sempre trazê-los de volta a um sentimento mais antigo e emotivo. É como se as lembranças estivessem sempre com esses personagens, estabelecendo uma ligação que foge ao lugar onde estão. Nesse sentido, não apenas Hanks oferece um desempenho definitivo, como Wright e Sinise são grandes em seus papéis. Este é um filme de coração, capaz de fazer lembrar de nossos pais e da casa da infância como poucos que foram feitos. Pode ser sentimental e mesmo manipulador, no entanto foi realizado com perspicácia e olhar amplo para o cinema como expressão de vida.

Forrest Gump, EUA, 1994 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Tom Hanks, Robin Wright, Gary Sinise, Mykelti Williamson, Sally Field Roteiro: Eric Roth Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Wendy Finerman, Steve Tisch, Steve Starkey Duração: 142 min. Estúdio: Wendy Finerman Productions Distribuidora: Paramount Pictures