JFK – A pergunta que não quer calar (1991)

Por André Dick

Este texto apresenta spoilers

Trágica e complexa são palavras que podem definir a morte de John Fitzgerald Kennedy, presidente norte-americano assassinado em 22 de novembro de 1963, no estado do Texas, em Dallas, durante um desfile pelas ruas da cidade. Baseado neste episódio da história americana e em duas obras, Crossfire: The Plot That Killed Kennedy, de Jim Marrs, e On the Trail of the Assassins, de Jim Garrison, com uma montagem que mistura cenas documentadas com outras fictícias, Stone constrói uma teia de personagens ligados a políticas e ideologias e consegue transformar uma rede de imagens em algo ressonante. E o principal: cineasta polêmico, vindo de dois filmes sobre a Guerra do Vietnã (Platoon e Nascido em 4 de julho), ele fornece uma ousadia tão grande que o filme provocou discussões e reclamações reais – igual a A hora mais escura, de Bigelow, que tem elementos dele, e a Todos os homens do presidente, seu precursor mais imediato, no qual Robert Redford e Dustin Hoffman interpretam dois jornalistas tentando desvendar o Watergate envolvendo Nixon.

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Para Jim Garrison (Kevin Costner) e, consequentemente, Stone, quem matou Kennedy foi uma conspiração formada por cubanos anti-Castro, a CIA, a máfia e até o próprio governo, e não o atirador Lee Oswald (no filme, interpretado por um impressionantemente parecido Gary Oldman). Este, depois do assassinato, logo foi preso, num cinema, e se costurou sua história de ligação com a KGB como uma explicação para o que teria acontecido com o presidente. Após um interrogatório feito pela polícia (nunca encontrado), foi morto por Jack Ruby (Brian Doyle-Murray), ligado à máfia, que também não conseguiu se manter vivo.
Oliver Stone coloca a pergunta: por que se desejar encobrir o assassinato de Kennedy, visto como a ação solitária de Lee Oswald? Para isso, tenta desvendar aquilo que ficou encoberto no acontecimento em Dallas, Texas. Num lugar associado à mitologia do velho oeste, o presidente sofreu a emboscada de um inimigo oculto, quando não teve chance de defesa. Mas Stone também está tratando daquele que é considerado como o país que tenta sempre estar à frente de qualquer questão política ou de guerras. No período em que Kennedy estava à frente do cenário político, havia conspirações de toda ordem para que os Estados Unidos organizassem a situação no Vietnã e se contrapusessem à União Soviética. Havia motivos para que se quisesse, segundo Stone e os livros nos quais ele se baseia, a eliminação de JFK, quando ele teria deixado de agir com a firmeza esperada diante desses fatores – e não apenas se restringem a uma ação de Oswald.

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Promotor público de New Orleans, Garrison é casado com Liz (Sissy Spacek ) e, sempre com um cachimbo, nos moldes de um Sherlock Holmes, tenta provar justamente isso desde o acontecimento, interrogando David Ferrie (Joe Pesci), o qual prende em determinado momento. Garrison parece desistir da investigação. Em 1966, conversa, numa viagem de avião, com o senador Long (Walter Matthau), que o leva a conhecer em detalhes o Relatório Warren e procurar outras provas, interrogando também Jack Martin (Jack Lemmon), agredido por ser visto como aliado dos cubanos; Willie O’Keefe (Kevin Bacon), que tinha relacionamento com Ferrie; um advogado (John Candy) chamado para defender Oswald; e Clay Shaw (Tommy Lee Jones), empresário que tinha contato com os cubanos e havia trabalhado na CIA. Tem como apoio dois assistentes, Bill Broussard (Michael Rooker) e Lou Ivon (Jay O. Sanders).
A primeira parte possui uma narrativa mais tensa e ágil, com Garrison, à procura de provas, visitando o local de onde, supostamente, Lee Oswald teria atirado no presidente, e segue indo atrás de todas as testemunhas possíveis, que presenciaram os tiros de perto e se pergunta: “De onde eles vieram?”. Na segunda parte, envolvido pelo caso, o promotor acaba se afastando da família, assim como se encontra com o misterioso Coronel X (Donald Sutherland), que traz as maiores teorias conspiratórias, envolvendo a Máfia, a CIA e o FBI. Além disso, afirma que Kennedy queria tirar as tropas norte-americanas do Vietnã e de que havia lido, na Nova Zelândia, a notícia de que Oswald havia matado o presidente norte-americano sem haver tempo suficiente para a impressão do jornal.

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Há, claro, uma dose de exagero de Stone, querendo ver Kennedy como uma espécie de político que gostaria de ter conduzido os Estados Unidos a um acordo com a União Soviética – e não à toa até J. Edgar Hoover aparece no meio da história como contrário a ele –, ou seja, gostaria de ter interrompido a Guerra Fria, assim como impedir a Guerra do Vietnã, o que faria com que o governo não investisse bilhões em armas, helicópteros e outros equipamentos. São questões dificilmente comprováveis, elucubrações de Oliver Stone, algumas tão verdadeiras quanto as viagens de Jim Morrison em The Doors, que ele dirigiu no mesmo ano.
Stone não é um cineasta de sutilezas, e ele funciona melhor assim, como em seus subestimados Um domingo qualquer e Reviravolta. Nisso, Garrison é visto como um modelo combativo de família, pretendendo reconstruir a imagem de Kennedy, destacando uma seleção de homens que escondiam por trás apenas ameaças, e quando os acordes de John Williams soam é como se a perfeição entrasse em cena. Seu comportamento diante da esposa é um tanto idealista – proporciona os diálogos mais inconsistentes do filme – e com os filhos, mas se trata, na verdade, de dar acesso ao espectador a uma trama ao mesmo tempo histórica e sobre a construção familiar. Se a narrativa reúne apenas teorias, ele o faz da maneira mais interessante já vista no gênero, tornando a investigação num thriller policial certamente precursor de Zodíaco. Nesse sentido, torna-se mais difícil negar o fascínio de JFK como cinema, e não aula de história. Dentro dos seus exageros, Stone é de fato um cineasta. Além disso, toca na ferida: a falta de explicação permite a qualquer um imaginar o que pode ter acontecido e, quando um indivíduo toca um sistema inteiro, é bem plausível acreditar que o óbvio não parece ser tão óbvio.

A narrativa é densa, com fotografia escura e os diálogos, extremamente rápidos. A maneira como Stone conta a história, com pistas acertadas, outras falsas, interrogatórios longos ou curtos e uma atmosfera constante de pressão (quando Ferrie tenta pedir auxílio policial para se proteger ou quando Garrison vai a um programa de TV e não pode mostrar as fotos que possui do caso), é extraordinária. Poucas vezes viu-se uma obra tão bem editada (por Pietro Scalia e Joe Hutshing) e fotografada (por Robert Richardson), inclusive mostrando o assassinato de Kennedy (por meio das imagens reveladoras de Abraham Zapruder) nos minutos finais, com uma profusão de detalhes inigualável em filmes desse gênero. Vencedor dos Oscars de melhor fotografia e montagem, tendo concorrido também a melhor filme, direção, ator coadjuvante (Jones), roteiro adaptado, trilha sonora e som, JFK é uma obra-prima.

JFK, EUA, 1991 Diretor: Oliver Stone Elenco: Kevin Costner, Jack Lemmon, Vincent D’Onofrio, Gary Oldman, Sissy Spacek, Michael Rooker, Laurie Metcalf, Gary Grubbs, Beata Pozniak, Joe Pesci, Walter Matthau, Tommy Lee Jones, John Candy, Kevin Bacon, Donald Sutherland Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: John Williams Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone Duração: 205 min. Ano: 1991 Estúdio:  Canal+/Regency Enterprises/Alcor Films Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Batman – O cavaleiro das trevas (2008)

Por André Dick

A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado competência em Amnésia e em Insônia, mas passou a ser visto como cineasta mais popular por meio de Batman begins. Nele, o super-herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (Liam Neeson), que pretende dizimar a civilização decadente com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme.

Ela quer prender os integrantes do crime organizado de Gotham, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman) e a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard, em tom crescente e efetivo). Ou seja, Nolan tem uma clara opção em situar o personagem sob uma luz mais realista.

De qualquer modo, Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan desenha seus personagens de maneira equivalente com seus objetivos. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman, é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher. Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é cuidadosa em todos os seus quesitos.
O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação visual do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Numa nova sessão, de qualquer modo, é uma obra que se encontra cada vez mais contemporânea, além de influência direta na maioria dos filmes adaptados de quadrinhos. É visível a influência de Nolan do cineasta Michael Mann, principalmente aquele de Fogo contra fogo e Miami Vice, de alguns anos antes. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton, com acentos dramáticos funcionais. O não emprego de humor no personagem principal, um super-herói amargurado, talvez deixe a narrativa mais pesada, e isso se reproduz no clima proporcionado pela fotografia belíssima de Wally Pfister, diferenciando-se de suas versões anteriores, mesmo daquela de Burton. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação: os acontecimentos do início do século XXI estão subentendido pelo roteiro. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Heath Ledger, que recebeu um Oscar póstumo merecido de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos, tendo à frente Frank Miller, e decisivamente psicopata. O Coringa de Jack Nicholson no Batman de Burton era tão desequilibrado quanto, mas com nuances mais atenuadas e um humor corrosivo às vezes de tom infantojuvenil. Estamos diante de um vilão que coloca não apenas Batman em xeque, como todo o sistema (policial, jurídico) da cidade. Não se pode acreditar em mais ninguém; tudo está sob suspeita. A vida de Wayne se sente vazia, tanto quanto a de Dent em busca de correção.

Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador quase sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o a trilha sonora tensa de Howard e Zimmer quase não se ausenta, sendo interrompida apenas num ato final um pouco mais expositivo do que o restante.
Algumas das peças cinematográficas de Nolan têm mais de um final, e este tem pelo menos três, no entanto quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. Seu Batman é um super-herói endurecido pela realidade de Gotham, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries, sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa. Há nessas sequências, também, uma referência à tortura de terroristas, bem enfocada em A hora mais escura, alguns anos depois, por Kathryn Bigelow. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Porém, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. O dilema aqui ultrapassa a tendência romântica do super-herói e chega a um ponto em que não consegue mais controlar sua tendência de buscar a todo custo coibir que o crime tome conte de sua cidade.

Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que ateia fogo a uma pilha gigantesca de dinheiro, com o empenho apenas de destruir. Por exemplo, a cena do hospital é grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de uma ficção, e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado, como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros. São momentos em que o gênero de filme de super-heróis se mescla ao thriller urbano. Ao contrário de Batman begins, que preferia mostrar becos enfumaçados e muita chuva, O cavaleiro das trevas prefere a simetria de arranha-céus e esconderijos tecnológicos, além de uma noite asséptica, com grandes avenidas vazias.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred ou o cientista Lucius Fox. Há várias obras coladas nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que toma como fundo a transformação da sociedade, seja com sua horda de gângsteres terroristas, seja com um tom até mesmo otimista diante de tudo. Nolan também está interessado em Batman como alguém que vigia a todos por meio de celulares, antecipando uma era moderna, e constantemente perturbado por um passado que não consegue resolver. Talvez seja ainda aquele filme de super-heróis que conseguiu estabelecer um vínculo direto com a realidade e mesmo por isso fez tamanho sucesso. Seu roteiro responde por vários pontos, inclusive pelo talento de Nolan em transformar o que seria menos respeitoso em algo com certo tamanho irrestrito.

The dark knight, EUA/Reino Unido, 2008 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Eric Roberts, Anthony Michael Hall, Nestor Carbonell, Melinda McGraw, William Fichtner, Nathan Gamble Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: James Newton Howard, Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas, Lorne Orleans Duração: 152 min. Estúdio: Legendary Pictures, Syncopy Films, DC Comics Estúdio: Warner Bros. Pictures

O destino de uma nação (2017)

Por André Dick

Uma das curiosidades de O destino de uma nação é ser lançado no mesmo ano de Dunkirk, de Nolan. Se este filme conta a história das tropas inglesas presas em Dunkirk por causa de aviões alemães, a obra de Joe Wright conta, digamos assim, seus bastidores. Para um diretor que já havia mostrado uma sequência sem cortes passada na praia francesa em Desejo e reparação, indicado ao Oscar de melhor filme como O destino, não se trata de nada surpreendente. Naquela produção de 2008, Wright se situava entre uma história familiar e uma tragédia de guerra; ele não deixa de fazer o mesmo aqui, embora sem tanto espaço para as nuances familiares.
O destino de uma nação começa em maio de 1940, quando o Reino Unido e França são aliados na Segunda Guerra Mundial. O Partido Trabalhista da Oposição no Parlamento inglês pede que o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (Ronald Pickup) renuncie, por ser considerado muito hesitante. No entanto, Neville consegue fazer com que Halifax (Stephen Dillane), seu braço direito, continue num posto do governo.

Para seu lugar, é escolhido Winston Churchill. Casado com Clementine (Kristin Scott Thomas) e tendo como secretária Elizabeth Layton (Lily James), Churchill precisa enfrentar justamente a crise em Dunkirk, com suas tropas ameaçadas pela morte. Ele mantém contato com quem o escolhe para o cargo, rei George VI (Ben Mendelsohn), mas o enfoque de Wright se dá nos discursos e conversas de rotina sobre a guerra entre Churchill e figuras próximas. Todos parecem querer que ele entre, por causa da situações das tropas na praia francesa, em acordo com a Alemanha nazista, por meio da Itália, em relação ao qual ele reluta.
Depois dos criticados injustamente Anna Karenina (uma releitura belíssima de Dostoiévski) e Peter Pan, duas adaptações literárias multicoloridas, Wright escolhe em seu novo filme uma paleta fotográfica assinada por Bruno Delbonnel, baseada no lado soturno da políticas, com fachos de luz entrando pelas janelas. Trata-se de um trabalho de Delbonnel que remete ao que ele fez em Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, e um pouco de Sombras da noite, de Burton. Não é muito atrativo à primeira vista, contudo ajuda a contar a história de um período nebuloso para a Inglaterra e a solidão de um homem que deve tomar decisões que envolvem milhares de pessoas.

Oldman faz Churchill com notável empenho e, apesar de ser ajudado por uma maquiagem fantástica, é ele que consegue atribuir nuances ao personagem, com alguns maneirismos que o tornam reconhecível logo depois de meia hora. Sua relação de amizade com a secretária é o que mais aproxima o espectador do filme e Lily James está bem, mas é em seus rompantes de bom humor que a narrativa cresce. Oldman concede uma faceta humana e cotidiana ao grande líder, baseado num roteiro interessante, embora às vezes apegado demais aos fatos históricos, no seu andar, passo a passo. Há dois momentos tremendamente emocionais no filme e se aproximam de conversas mais íntimas de Churchill: aquele no qual conversa por telefone com Franklin Roosevelt e outro que resulta de uma conversa com o Rei, fazendo o personagem se misturar a quem deve perguntar pelo verdadeiro destino de uma nação. Deve-se lembrar também um diálogo decisivo que ele tem com o Rei George VI, já mostrado em O discurso do rei, de Tom Hooper, no qual Mendelsohn mostra sua excelência como ator e diante do qual se lamenta o pouco tempo de tela, pois teria muito a acrescentar em termos de nuances históricas.

O roteiro assinado por Anthony McCarten, o mesmo de A teoria de tudo, pode às vezes ser previsível em alguns tópicos autobiográficos, porém ainda assim os discursos e as relações de Churchill com a mulher e o rei resultam eficazes para o resultado final. Tem-se a impressão que Wright não se sente mais tão à vontade no formato histórico depois de seus filmes mais fantasiosos (incluindo o interessante Hanna, com uma jovem Saoirse Ronan, que Wright ajudou a revelar). Mesmo em Anna Karenina, no qual ele misturou elementos teatrais com um multicolorido de cenários e figurinos que evocavam Wes Anderson, Wright já havia feito uma obra diferenciada dos filmes anteriores, e talvez por isso mesmo não tenha sido bem recepcionado. Isso faz com que O destino de uma nação não se sinta tão bem resolvido às vezes, pois não é tão eficaz quanto aquele em nenhum momento em termos de narrativa (nem mesmo como Peter Pan). De qualquer modo, ainda é um retrato histórico atrativo e que merece ser visto por sua competência e construção cuidadosa.

Darkest hour, ING, 2017 Diretor: Joe Wright Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Lily James, Stephen Dillane, Ronald Pickup, Ben Mendelsohn Roteiro: Anthony McCarten Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Dario Marianelli Produção: Tim Bevan, Lisa Bruce, Eric Fellner, Anthony McCarten, Douglas Urbanski Duração: 125 min. Estúdio: Perfect World Pictures, Working Title Films Distribuidora: Focus Features

RoboCop (2014)

Por André Dick

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Em 1987, o primeiro RoboCop apresentava, mais do que a violência conhecida, uma espécie de imaginação referente ao universo futurista, em que os policiais humanos poderiam começar a ser substituídos por robôs. Mas o que mais chamava a atenção é que o filme do holandês Paul Verhoeven lidava, de forma interessante, com uma linguagem de quadrinhos, influenciando de forma decisiva o Batman de Tim Burton, sobretudo pela inserção de noticiários em meio à trama. E era nisto que morava a sua diversão. No entanto, ninguém falava em RoboCop como ícone de um novo cinema, da corrosão (literal) de Verhoeven, da sátira incrivelmente costurada.
Nisto reside a surpresa de, no novo século, RoboCop ser uma espécie de obra-prima da ficção científica e o remake de José Padilha ser uma espécie de ameaça a esta aura de filme inalcançável. Quando soube dessa refilmagem, a primeira sensação foi de temor. RoboCop figura como um dos melhores filmes dos anos 1980, mas basicamente ele é (e foi) um filme que tentava ser pop – e se transformou em cult justamente por essa mistura entre um lado mais popular e a estranheza, com seu elenco original e cenas de extrema violência, o que Verhoeven usaria novamente em O vingador do futuro. O mesmo Verhoeven praticamente afastado de Hollywood por causa de sua joia menosprezada Showgirls – e mesmo com seu Tropas estelares, visto em seu lançamento como apenas um cinema trash no espaço – hoje é exemplo do que deveria ser um diretor de ficção científica. Verhoeven tinha elementos que nem os diretores de Hollywood do gênero possuíam: uma vontade de misturar elementos de filme B com uma sofisticação. É isto que vemos em vários de seus filmes, mesmo de outros gêneros, como Instinto selvagem. Mas o RoboCop original não tem a dose fora de série de humor pelo qual é conhecido nem esta crítica ferina implacável – ele tem, aqui e ali, elementos de crítica ao sistema, contanto nada extraordinário – e tem um ambiente muito mais perverso, com violência explícita, não necessariamente uma qualidade, e drogas sendo usadas. Ou seja, era uma visão pessoal de Verhoeven.

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Padilha é precedido pelos dois Tropa de elite e teria sugerido assumir a refilmagem de RoboCop a produtores da MGM. Depois de recusar o roteiro da versão de Darren Aronofsky, que se retirou para dirigir Cisne negro, ficou claro que ele próprio tinha uma concepção particular do projeto. A questão passaria a ser as inevitáveis comparações com o filme de Verhoeven. Onde este é mais violento, o novo RoboCop passaria a ser mais asséptico; onde o do diretor holandês era mais bem-humorado e agressivo, mostrando o uso de drogas, o novo seria menos intenso e mais comedido. Quando se inicia o filme com os drones ED-209 nas ruas de Teerã, tentando garantir a segurança da população, com uma equipe de filmagem do programa de Pat Novak (Samuel L. Jackson) a postos, e os olhares de alguns moradores pela janela, fica claro que o novo RoboCop não agradaria quem esperava uma espécie de figura do futuro, mas afastada da política. No entanto, o novo RoboCop não chega a ser um filme estritamente político – como foram os filmes anteriores de Padilha, inclusive Ônibus 174. Nem mesmo quando logo se mostra, em seguida, a inoperância da polícia em perseguir um traficante na Detroit de 2028. O policial Alex Murphy (Joel Kinnaman) se culpa pelo ferimento do parceiro numa cena de guerra e, depois de voltar para casa e reencontrar a mulher, Clara (Abbie Cornish), e o filho, David (John Paul Ruttan). O que acontece daí em diante o levará para a sala de pesquisas do dr. Dennett Norton (Gary Oldman), que está a serviço de Raymond Sellars (Michael Keaton), dono da OmniCorp. O governo americano não quer aprovar uma lei que permita uso de robôs em combate policial, e Sellars pede a Norton um robô com certa percepção humana. Murphy acaba servindo a isso – e é nisto que o novo RoboCop se baseia.
Mais do que um filme de ação ou do que um remake da obra de Verhoeven, o novo RoboCop discute a fusão possível entre o homem e a máquina. Quando Murphy se conhece pela primeira vez com a armadura, há um salto considerável da obra de Verhoeven para a obra de Padilha. Não há, nessa conversão, artifícios de um mero blockbuster, com orçamento milionário. O filme tem, e isso é considerável, uma alma definida. Ele mostra o reconhecimento de um homem diante de sua nova vida, não apenas alguém que é utilizado por uma corporação para se tornar um exemplo de policial do futuro.
Mas Padilha não se concentra especificamente no drama familiar, pois isso tiraria a mitologia do personagem, também ligada à ação. E, se há um equilíbrio bastante claro entre as questões científicas e vilões ambíguos de todos os tipos, temos também um filme de ação vigoroso, cuja montagem (com a presença de Daniel Rezende, que colaborou em Cidade de Deus e A árvore da vida) é não menos do que perfeita. Embora tenham deslizes e um excesso de narração em off, não se pode falar que os dois Tropa de elite sejam filmes sem uma autoria. Em RoboCop, o excesso de diálogos se converte numa síntese, como a armadura do personagem central, e se o poder da versão de Verhoeven era sua autenticidade o de Padilha é justamente um trato emocional. O momento especialmente em que RoboCop surge é simbólico, sobretudo quando ele se encontra, em determinado momento, em meio a um campo de plantações semelhante àqueles do Vietnã, embora na China – não antes sem uma homenagem clara a Avatar, de James Cameron. No futuro, a corporação norte-americana não consegue fugir de seu passado. Nesse sentido, os diálogos sobre salvar vidas humanas ou não, usando robôs sem uma porção emocional ou não, são muito interessantes, e Padilha vai além do que imaginou Verhoeven nos anos 80. Quando se importa em quantos milésimos de segundo alguém será morto, o filme pergunta se a vida de uma criança em cena de guerra será realmente importante para quem fabrica armas – e a relação do RoboCop com o filho estabelece uma ligação direta com o início do filme em Teerã. Padilha trata o personagem não com reverência, mas como parte de um contexto, sem afastá-lo, no entanto, de sua mitologia e da diversão. E talvez toda essa comparação com o anterior e um certo saudosismo ofusque o mais evidente: o novo RoboCop é impressionante.

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Padilha extrai das reações humanas e não dos diálogos a peça para seu filme funcionar, o que não seria possível sem o elenco. Gary Oldman é um excelente Norton, provando novamente ser um grande ator, capaz de extrair emoção de um material que nas mãos comuns se tornaria indefensável, e Joel Kinnaman é uma revelação como RoboCop. Peter Weller, do primeiro, nunca foi grande ator (pelo menos até sua atuação no recente Star Trek). Kinnaman não é apenas mais ator, como também consegue transparecer emoção num roteiro que pode ser considerado, dentro de determinados limites, um clichê (embora quando se ouve falar que Ela, de Spike Jonze, é um filme de clichês, os parâmetros ficam mais delicados). Sua transformação de simples policial no personagem-título é grande. Por sua vez, o até então desaparecido Michael Keaton consegue fazer uma mistura entre Miguel Ferrer e Ronny Cox da primeira versão, assim como Jennifer Ehle consegue desempenhar a assessora do cientista Liz Kline com grande eficácia, e Jackie Earle Haley também consegue boas linhas como Rick Mattox. Samuel L. Jackson, por sua vez, como o Pat Novak, colabora com a porção de crítica, discutindo o militarismo, embora alguns instantes de sua participação soem um pouco artificiais e encaixados de forma mais esquemática diante do restante. Mas a questão está lá: desde Fahrenheit 11/9, a obsessão norte-americana pelo militarismo não era tão criticada e, se Padilha não tem o sarcasmo de Verhoeven, as farpas de seu RoboCop ressoam muito mais do que a Detroit imaginada em 1987.
Todos esses personagens são envolvidos numa narrativa que se costura rapidamente, sem grande complexidade, mas que soa verdadeira e sem deixar pontas soltas, com o auxílio de efeitos visuais preciosos e uma direção de arte urbana alternando com corredores e salas de pesquisa. Há alguns elementos do início do filme que mostram uma certa dificuldade de adaptação ao cenário, uma certa experimentação com a atmosfera (e entre dedilhados de violão e uma música de Frank Sinatra não parecemos estar num filme de ficção científica), mas aos poucos se percebe que este tratamento é proposital, para que Murphy passe de sua forma humana a uma fusão com seu futuro, e tente se adaptar a ela. Em nenhum momento, sente-se o filme como um arremedo solto, tentando agradar infalivelmente a plateia, e mesmo onde há falhas logo a montagem consegue preencher a lacuna. Os sentimentos de Alex Murphy conseguem sustentar com segurança todo o ato final, com uma sequência de cenas de ação compactadas e bem resolvidas, e sentimos que há uma mão coordenando tudo, sem menosprezar o espectador. O mais importante parece ser que este RoboCop não pede desculpas a seu original e tenta seguir seu próprio caminho. O de Verhoeven sempre vai habitar a imaginação como um filme brutalmente original, mas este de Padilha possivelmente será mais reconhecido – não tanto agora, pois é muito recente – por seu impacto em termos de emoção e angústia humanas.

RoboCop, EUA, 2014 Diretor: José Padilha Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Samuel L. Jackson, Abbie Cornish, Jackie Earle Haley, Michael K. Williams, Jennifer Ehle, Jay Baruchel, John Paul Ruttan Roteiro: James Vanderbilt, Joshua Zetumer, Nick Schenk Fotografia: Lula Carvalho Trilha Sonora: Pedro Bromfman Produção: Eric Newman, Gary Barber, Marc Abraham, Roger Birnbaum Duração: 117 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Strike Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia

Batman – O cavaleiro das trevas ressurge (2012)

Por André Dick

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A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado certa competência em Amnésia e um policial fraco em Insônia. Depois dos dois Batman e do irregular (e, a meu ver, monótono) A origem, ele regressou com Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Mas seria interessante rever o que ele apresentou nos dois primeiros.
Em Batman begins, o herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (o antipático, por isso perfeito para o papel, Liam Neeson), que pretende limpar a terra de assaltantes com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (o ótimo Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman, sempre eficiente), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme. Ela quer prender os piores bandidos na cadeia, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy, extremamente estranho e adequado para o papel), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman), a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard) e o figurino original (bem mais criativo do que aqui, basicamente uma reprodução do dia a dia). Ou seja, Nolan tem uma dificuldade clara em situar o personagem num universo fantástico, preferindo colocá-los à luz natural. Mesmo a maneira como revela o surgimento do herói é menos fantasiosa.
De qualquer modo, este Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan, aqui, não é ainda tão maneirista. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman (o oposto de Michael Keaton, embora este tivesse qualidade, vencendo suas limitações), é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher (os filmes que dirigiu, Batman eternamente e Batman e Robin são os mais fracos das franquias). Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é extremamente cuidada.

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O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton. O não emprego de humor no personagem principal, um herói amargurado, talvez deixe o filme mais pesado. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Hutch Ledger, que recebeu um Oscar póstumo de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos (sobretudo de Frank Miller) e decisivamente psicopata (o de Jack Nicholson era um brincalhão perigoso).
Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador excessivamente sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o som não se ausenta por um minuto sequer – mas mesmo alguns trailers cansam.
Alguns de seus filmes têm o defeito de durarem uns 30 minutos a mais (como Insônia e A origem), e este tem pelo menos três finais, mas quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. De qualquer modo, não mais poético: o Batman, aqui, é um herói endurecido pela realidade, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries (sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa), o que reduz um tanto a complexidade do personagem. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Mas, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que coloca fogo em dinheiro, isto é, não tem nenhum senso de ganância material, apenas o empenho de destruir (por exemplo, na cena do hospital, grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de um filme) e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado – como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, sem nenhuma fantasia, mas querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred, mordomo de Bruce Wayne, ou o cientista Lucius Fox, feito por Morgan Freeman. Há vários filmes colados nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que deixa a desejar, de qualquer modo, no acabamento: há excessos neste filme, e no final tenta-se uma certa lição de moral que não condiz com o que aparece antes.

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No novo filme, Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, Nolan tinha A origem como imediatamente seu precursor, o que era preocupante. Não apenas porque se podia contaminar uma adaptação de um herói em quadrinhos com novas filosofias sobre o onirismo, excessivamente calculadas e com personagens pouco interessantes. Desde o início do terceiro Batman – cuja estreia teve, como se sabe, um acontecimento trágico –, parece que Nolan está interessado em deixar as tentativas de configurar uma realidade, como havia nos outros dois, para realmente uma narrativa configurada no fantástico, mesmo que, como nos demais, com cenários parecidos com a realidade, em certos momentos até terrivelmente parecidos. Em primeiro plano, o novo vilão, Bane (Tom Hardy), com sua voz ecoando como a de Darth Vader, também atrás de uma máscara, apesar de violento e chocar, não tem a mesma participação do Coringa e nem a mesma tentativa de realismo ou de psicopatia. É um vilão dentro dos moldes que já vimos, mas Nolan, claro, se preocupa em conceder uma violência extra a ele nos momentos em que aparece, desnecessária – e com um início que é um grande furo, apenas para justificar a situação. A cidade de Gotham City vive um momento de paz, oito anos depois da segunda parte. O Comissário Gordon (Oldman) está para ser demitido, como informa o vice-comissário Peter Foley (Matthew Modine),  não tem coragem de contar a verdade sobre Dent, e o milionário Bruce Wayne vive uma espécie de exílio em sua mansão, na companhia de Alfred (Michael Caine, excelente). Até o dia em que tem uma de suas joias roubadas por uma mulher que se disfaça de empregada, Selina Kyle (Anne Hathaway, tornando o filme mais leve), e depois de uma visita de um policial, John Blake (Joseph Gordon-Levitt, levemente deslocado), que morou num orfanato bancado pela família Wayne. Há muitas coisas implicadas desta vez. Wayne não quer mais enfrentar a realidade depois da morte da amada no filme anterior, até que descobre a vinda de Bane para Gotham City. Sua empresa está passando por problemas, e a ricaça Miranda Tate (Marion Cotillard) precisa assumir o cargo. Para isso, ela deve saber como funcionam algumas pesquisas das empresas Wayne que lidam com energia nuclear, a critério de Lucius Fox (novamente Morgan Freeman).

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Por não entender que o segundo da trilogia tenha sido o melhor, acredito que este Batman consiga traduzir, como o primeiro, uma relação do personagem com uma vertente mais humana, apesar de em certos momentos parecer um coadjuvante em sua própria história. Nolan, por meio da sua figura, e isso é acentuado neste, pretende, na verdade, lidar com a história de personagens como o Comissário Gordon, Blake e o mordomo Alfred (que tem pelo menos dois momentos antológicos, que se ligam, sobretudo, a Batman begins). Não consegue ser totalmente efetivo porque o roteiro, desde o primeiro filme, com suas referências a medo, destruição, máscaras, não revela o quanto haveria nos personagens para ser abordado e cai, às vezes, num plano de condescendência (como num momento em que Bruce Wayne precisa novamente enfrentar seus temores; sabemos, desde o primeiro, que ele não confia totalmente em si mesmo, mas nos perguntamos se haveria mais enfrentamento para os temores do que ele acaba tendo de fazer pela cidade de origem). Outro plano de abordagem parece o político: Bane quer liderar uma revolução às avessas em Gotham – ele começa atacando a Bolsa de Valores – e em certos momentos é questionada a diferença entre bandidos e policiais; até que ponto a mentira não é a maior destruição da sociedade; a riqueza é colocada em xeque, pois é preciso se revoltar. Parece falso considerar que Nolan coloca Batman como um mero playboy que deseja manter um status quo. Seria tornar o personagem fora ainda mais de seu contexto. Não se trata de uma discussão levantada também por Burton quando poderia – em comparar Bruce Wayne e Oswald Cobblepot, o personagem do Pinguim, abandonado pelos pais nos esgotos da cidade –, e portanto me parece um um tanto deslocada. Mas é uma leitura possível. Parece-me, de qualquer modo, que Nolan, como Cronenberg em Cosmópolis, está fazendo uma sátira a movimentos de libertação do povo – o que só pode ser feito pelo próprio povo, e não por tribunais livres colocados por uma espécie de guia. Mesmo no fato de, em determinado momento, ele dizer que a decisão do destino está nas mãos do povo, feito da forma mais pomposa possível num estádio de futebol. Neste ponto de vista, Batman apenas tenta oferecer outras opções, mas sem deixar de temer que, pela lenda deixada depois da morte de Harvey Dent, o povo o massacre em praça pública.

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Bane, em nenhum momento, soa um vilão real – como se refere acima, sua voz lembra a de Darth Vader (é difícil dizer o que o personagem realmente tem de interpretação de Tom Hardy). Ainda assim, os momentos em que ele precisa se confrontar com Batman são muito bem feitos (pela interpretação de Bale), como também as perseguições e os quarenta minutos finais (com efeitos realmente extraordinários, apesar de a trilha sonora abafar excessivamente os outros sons, fazendo com que seja uma espécie de trailer), com uma tensão que faz com que se destaquem diante do restante da série. Não tenho certeza, por outro lado, se a metragem longa (164 minutos), típica desde o sucesso de O senhor dos anéis, era necessária ou apenas para dar um sentido mais épico à finalização da trilogia. Se em certos momentos a montagem flui, há um ou outro momento, sobretudo naquele mais delicado pelo qual passa Wayne, que Nolan parece repetir demais a mesma situação (colocando, inclusive, um personagem para traduzir o que um outro fala para Wayne, sem este pedir). Em outras sequências, a montagem é ágil demais, quebrando uma cena que poderia ser interessante, mas acaba dando espaço a outra. A própria colocação de alguns personagens, como o de Miranda e o de Folley, soa, às vezes, um tanto dispersa e confusa, limitando-se a alguns diálogos sem força, o que é de se lamentar pela metragem.
Mas, de modo geral, isso não prejudica Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Há qualidades que o costuram como um filme de ação contida, mais do que o segundo filme, e sem o clima apocalíptico deste, apesar de várias cenas dizerem também o contrário – é impressionante a direção de arte do filme, muito superior às dos outros dois, além de mais diversificada, além da fotografia requintada de Wally Pfister (O homem que mudou o jogo), habitual colaborador de Nolan e muito talentoso, dando classes a imagens que poderiam ser rotineiras e mistura ruínas atrás do colégio de órfãos com arranha-céus gigantescos e iluminados, com a chegada do inverno e do calor que se anuncia.
A ligação da narrativa com o primeiro filme também dá uma sensação de fechamento de uma fase de Batman feita por Nolan (o que não havia na primeira quadrilogia, sobretudo pela troca de Burton para Schumacher). E não me parece que este se leve a sério demais – os outros também tinham um ar de cinema mais sóbrio e contido – ou que Batman é visto como algum personagem de proporções trágicas; pelo contrário, o que me parece é que, ao fim de tudo, Nolan só queria realmente mostrar uma humanidade que pode haver para um garoto órfão na persona de um herói.
Não parece ser uma obra-prima, mas tampouco deixa de ser, sobretudo como o primeiro, muito divertido, encerrando a trilogia de forma bastante satisfatória.

The Dark Knight Rises, EUA/Reino Unido, 2012 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Gary Oldman, Morgan Freeman, Michael Caine, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Liam Neeson, Tom Hardy, Cillian Murphy, Marion Cotillard Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 165 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: DC Entertainment / Legendary Pictures / Syncopy / Warner Bros.

Cotação 4 estrelas