Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi (2017)

Por André Dick

Depois de estar à frente de Pariah (muito elogiado no Festival de Sundance) e Bessie, a diretora Dee Rees traz a Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi, produção da Netflix, baseada no romance de Hillary Jordan, o que se esperava: uma espécie de encontro de A cor púrpura com 12 anos de escravidão, mas com características próprias. Esses são dois filmes basilares para o conhecimento da história dos afrodescendentes nos Estados Unidos, sobretudo no que se refere à sua dificuldade de inserção e à tragédia da escravidão, que perpassou gerações. O que Rees faz não é simples: ela traz ao mesmo âmbito de obras consagradas um novo olhar sobre a tentativa de domínio do homem branco, sem abdicar de uma visão humana sobre aqueles que ousaram, diante disso, fazer diferente.

A narrativa do filme começa com a imagem de uma cova sendo cavada em meio a uma terrível tempestade. Do que se trata? Rees não esclarece e se volta a alguns anos antes, para acompanhar a história de Laura (Carey Mulligan), que se casa com Henry McAllan (Jason Clarke) e se muda para o Mississipi, junto com as duas filhas pequenas. Lá, eles conhecem a família de Hap Jackson (Rob Morgan), casado com Florence (Mary J. Blige). O filho deles, Ronsel (Jason Mitchell), vai servir na Segunda Guerra Mundial, assim como o irmão de Henry, Jamie (Garrett Hedlund). Temos ainda uma vizinha, Vera (Lucy Faust), acometida pelos problemas financeiros e as infidelidades de seu marido. Nesta construção, percebe-se um estilo de relato próximo ao épico ou à de passagem de gerações, afastadas pelo tempo: mesmo que haja muita informação na primeira parte, ela nunca é menos do que indispensável para que se crie uma sensação de tempos mesclados e figuras crescendo em conjunto ou separadamente.
Embora com um pai racista, Pappy (Jonathan Banks), Henry tenta se adaptar à comunidade que o cerca e fazer amizade, embora sem o espectador saber ao certo se é verdadeira ou falsa, com Hap e sua família. O fato de suas filhas ficarem doentes faz com que ele precise da ajuda de Florence para cuidá-las. Mudbound trata dessa proximidade dos brancos de afrodescendentes com o intuito de, primeiramente, manter tudo como está e, depois, como tentativa de conciliação.

Baseada em um romance de Hillary Jordan, Rees entrega uma adaptação feita com Virgil Williams com um ritmo próprio decisivo para sua concretização. Com belíssima fotografia de Rachel Morrison (a primeira mulher indicada ao Oscar da categoria), Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi mostra em paralelo a rotina de Henry e Hap nas plantações do lugar onde vivem e a rotina na guerra de Ronsel e Jamie. O mais notável é que a direção de Rees costura tudo com uma fluidez rara, não havendo um choque entre perspectivas, mas um complemento. Isso se dá apoiado nos personagens e atuações extraordinárias de todo o elenco, sem exceção. Hedlund (depois de já se mostrar grande ator em Na estrada e Invencível) e Mulligan (um pouco ausente depois de O grande Gatsby), particularmente, nunca estiveram tão bem, e Mitchell é uma ótima revelação. Além disso, temos Blige, que acabou sendo a escolhida do elenco para representar o filme em premiações, como coadjuvante, com um certo estilo que faz lembrar a grandiosa atuação de Whoopi Goldberg em A cor púrpura.

O tom do filme possui certa melancolia, mas ela nunca é utilizada para uma certa comoção pré-programada e sim como um elo entre esses personagens. O Mississipi é uma paisagem que serve de pano de fundo para os conflitos, no entanto vai, aos poucos, se integrando a cada uma dessas figuras, como se existisse para elas. O tom dado pela fotografia – que remete à terra – segue desde o início seu estilo eficaz. Esse tom não está apenas na própria ambientação, como no horizonte e nos figurinos dos personagens. Rees mostra a dificuldade que era construir uma família e uma casa nesse período com rara eficácia: ela visualiza o trabalho da fazenda como uma espécie de tentativa de o ser humano não ter mais do que outro, e sim poder ter direito de dizer que a terra é mais sua do que do outro.
Outro detalhe que funciona para a história se sentir próxima do espectador é o uso da narração em off de personagens diferentes, não causando confusão e sim um tom de agregação interessante. Quando os personagens partem para a guerra, a visão vai se modificando e o espectador se torna parte dessas famílias. Além disso, Rees não se torna apaziguadora da história: aqui já existe o que seria premissa básica para outro filme baseado nessa localidade, Mississipi em chamas, dos anos 80. Mudbound é realmente notável, possivelmente o melhor já lançado pela Netflix (seguido por Os Meyerowitz) e que promete, pelas indicações ao Oscar (quatro no total), a eliminação definitiva entre filme feito para as grandes telas (é a primeira obra da companhia lançada nos cinemas do Brasil) ou para streaming, pois o mais importante é a preocupação com a qualidade narrativa, da direção e do elenco. Esses elementos decisivamente não faltam à obra de Rees.

Mudbound, EUA, 2017 Diretora: Dee Rees Elenco: Carey Mulligan, Jason Clarke, Jason Mitchell, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jonathan Banks, Garrett Hedlund Roteiro: Dee Rees e Virgil Williams Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Tamar-kali Produção: Carl Effenson, Sally Jo Effenson, Cassian Elwes, Charles King, Christopher Lemole, Kim Roth, Tim Zajaros Duração: 134 min. Estúdio: Elevated Films, Joule Films Distribuidora: Netflix

Peter Pan (2015)

Por André Dick

Peter Pan 6Se o espectador acompanha adaptações para o cinema de obras literárias, sabe que uma das que mais receberam esse bônus foi Peter Pan, de James Matthew Barrie. Ela já foi lançada em diferentes vertentes, embora a mais conhecida seja a clássica animação dos estúdios Walt Disney feita nos anos 50. Nos anos 90, Spielberg procurou renová-la trazendo-a para o universo moderno, em Hook – A volta do Capitão Gancho e em 2003 quem a adaptou foi o australiano P.J. Hogan.
Na adaptação de Joe Wright, o criador de peças como Desejo e reparação e o ótimo Anna Karenina, a história se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando Londres está sob ataque frequente. Num orfanato coordenado por freiras pouco acolhedoras, Peter (Levi Miller) é cuidado depois de ser abandonado pela mãe, Mary (Amanda Seyfried), e tem como melhor amigo Nibs (Lewis MacDougall). A rotina do lugar e a constante falta de comida, devido ao racionamento provocado pela guerra ou, segundo Peter, por uma das freiras, Madre Barnabas (Kathy Burke), estar estocando os alimentos num lugar escondido, fazem com que se imagine um universo à parte e, principalmente, em reencontrar a mãe.  Daí é um passo para que surja um navio de piratas no céu de Londres, em meio aos ataques, para capturar algumas crianças do lugar. Possivelmente não seja preciso muito conhecimento do mundo da fantasia de Barrie para perceber que este filme eleva à máxima potência a estranheza do universo de Peter Pan.

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Quando todos, finalmente, vão para a Terra do Nunca, e o menino herói precisa enfrentar a exploração numa mina, num diálogo claro com Indiana Jones e o templo da perdição, sob o comando de Barba Negra (Hugh Jackman), com o auxílio de Bishop (Nonso Anozie), o filme traz até mesmo um determinado hino do Nirvana à cena. As crianças, trabalhando como mineradores, devem encontrar o pó de pixum, que seria o pó das fadas. No lugar, Peter faz amizade, mesmo que forçada, com James Hook (Garrett Hedlund), sempre acompanhado pelo braço direito Sam Smiegel (Adeel Akhtar).
O que se tem dito, com base neste conjunto de cenas, é que a narrativa se perde. Se há, no entanto, fantasia capaz de misturar As aventuras do Barão de Münchausen (de modo geral, do universo de Terry Gilliam), Avatar e a profusão de cores que Wright já apresentava em Anna Karenina, é esta. Dificilmente se percebe em outras obras uma tentativa de fazer com que um clássico se reproduza em sua essência, mesmo que com liberdades evidentes, constuindo-se num prólogo. Este Peter Pan não apenas inicia com uma homenagem a um dos clássicos de Guillermo del Toro, passado num orfanato durante a Guerra Civil Espanhola, com suas bombas ameaçadoras caindo do céu, como leva o espectador a um encontro com uma certa indefinição entre gêneros que proporciona suas melhores características.

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Além disso, temos o elenco, sustentado pela revelação infantil Levi Miller, que convence durante todo o filme e nunca soa um personagem sob encomenda para tentativa de venda de brinquedos, assim como Jackman está particularmente bem como o vilão, e Garrett Hedlund finalmente tem uma nova chance de mostrar o talento comprovado como Dean Moriarty em Na estrada, desta vez com elementos de humor e um certo overacting sem prejudicá-lo no contexto. E Rooney Mara, que surge no papel coadjuvante de Tiger Lily, não desaponta por sua qualidade dramática já revelada em outro registro no ótimo Millennium, apesar de estar visivelmente desconfortável com sua premissa entre ser uma guerreira e um interesse amoroso. Wright põe em movimento esse elenco com a colaboração de seu diretor de fotografia habitual Seamus McGarvey e da trilha sonora excelente de John Powell, que evoca o alcance da imaginação proporcionada pelos figurinos, design de produção e efeitos especiais não menos do que notáveis.
Peter Pan contrapõe, de forma elegante, o ambiente cinza da Segunda Guerra Mundial com um universo de imaginação em grande escala de cores e variações. Há, igualmente, uma opção de Wright em fazer as cenas sem violência, mas sem abdicar de uma imaginação própria – principalmente numa determinada cena de confronto do Barba Negra. Claro que Peter Pan também tem outra qualidade bastante atrativa: embora não adapte Barrie de forma fiel, servindo tudo como um prólogo da história oficial, ele consegue estabelecer uma conexão entre o drama pessoal do personagem de querer reencontrar a mãe. Não deixa de ter uma clara relação com o perturbador Hanna, em que Wright expunha uma jovem aos experimentos que a transformaram numa máquina de guerra.

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Toda a história de Peter Pan gira em torno do menino querendo encontrar a sua mãe. O fato de a história de Barrie ser conhecida como a do menino que não queria crescer mostra que, na verdade, ele está sempre ligado a uma infância e à figura materna. No entanto, ao localizar este filme durante a Segunda Guerra e as crianças serem transformadas em mineradoras por um pirata explorador, e mesmo quando estão na Terra serem punidas, mostra que Wright indica a infância eterna como uma espécie de fuga aos problemas do dia a dia. É uma espécie de elogio localizado ao escapismo, que Wright explora por meio de cores e formas extraordinárias. Há três anos, John Carter foi rechaçado e fazia as mesmas tentativas de entregar um material diferenciado.
Se em alguns momentos o roteiro de Jason Fuchs não tem os diálogos mais explorados, pelo menos na caracterização dos personagens, nunca o faz por falta e sim por um ritmo contínuo – e avaliar que Peter Pan nesse sentido teria problemas de montagem ou seria tedioso é inevitavelmente uma surpresa. Do mesmo modo, ele tem algumas soluções criativas de plasticidade belíssima, como a memória que traz uma árvore (e não se trata de um ent) ou o momento em que por um lado temos a ameaça de um crocodilo e a presença tranquila de uma sereia (Cara Delevingne). Assim, num escopo abrangente, Wright trabalha com imagens como se fossem resquícios de uma infância perdida, seja no vislumbre de um navio de pirata encalhado ou em pássaros gigantes que parecem trazer apenas seu esqueleto como se fossem esboços inacabados, ou simples caravelas que flutuam no espaço e parecem vigiar com luzes à noite como se estivéssemos numa versão adiantada do novo Blade Runner, além de mostrar batalhas entre elas e aviões da Segunda Guerra com a profundidade daquelas que vemos em Invencível, e cenas no fundo das águas capazes de evocar um lugar desconhecido – quando as águas recuperam, para Wright, todas as lembranças, remetendo ao fio da corda em que Peter Pan fica em determinado momento preso no espaço, como se estivesse renascendo. Nesse sentido, esta visão para o clássico de Barrie se transforma numa fantasia memorável.

Pan, EUA/Reino Unido, 2015 Diretor: Joe Wright Elenco: Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Levi Miller, Amanda Seyfried, Adeel Akhtar, Nonso Anozie, Cara Delevingne Roteiro: Jason Fuchs Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: John Powell Produção: Greg Berlanti, Paul Webster, Sarah Schechter Duração: 111 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Berlanti Productions

Cotação 4 estrelas

 

Invencível (2014)

Por André Dick

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É comum, todo ano, escolherem um filme com todos os componentes para o Oscar e em 2014 foi o caso do segundo trabalho de Angeline Jolie à frente da direção, Invencível. Anunciado meses antes de sua estreia como o mais fácil candidato aos prêmios da Academia de Hollywood, parecia estranho, depois de seu lançamento, que a crítica e o público já haviam diminuído a expectativa. A questão é que qualquer excesso de expectativa pode ser prejudicial, ainda mais quando estamos lidando com uma das atrizes mais conhecidas de Hollywood ainda pouco experiente na direção e foi protagonista recentemente de um sucesso infantojuvenil, Malévola, dos estúdios Disney.
Particularmente, não chego a apreciar Jolie nem mesmo nos filmes em que ela despontou, como Garota, interrompida, pelo qual recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Dito isso, não estava aguardando especialmente esta obra, apesar do interesse pela reprodução de época, à medida que Invencível se enquadra naquele tipo de biografia histórica tão aos moldes da Academia de Hollywood. Trata-se de um projeto, por tudo que o cercou, muito pessoal para a atriz e cineasta: a vida de Louis Zamperini (Jack O’Connell), que foi um atleta olímpico. O filme inicia mostrando-o como soldado, num avião B-24, em meio a uma batalha sobre o Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, contra japoneses. Esses minutos iniciais já compõem o que será Invencível: é um filme bastante econômico na montagem e com uma fotografia inacreditavelmente bela assinada por Roger Deakins.

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É difícil recordar outro filme recente com uma batalha aérea tão detalhada e compassada como esta que abre Invencível e, se ela é cortada por flashbacks do personagem central em direção à sua infância na Califórnia (então interpretado por CJ Valleroy), quando era perseguido por colegas e, devido à necessidade, precisava correr, passando por isso a ser treinado pelo irmão Peter (John D’Leo), logo Jolie nos coloca em meio aos objetivos de Zamperini: tornar-se atleta olímpico, para competir nas Olimpíadas de 1936. Há, nesta parte de filme, muito claramente um diálogo com Carruagens de fogo, um dos filmes de esporte mais fascinantes de todos os tempos, apesar do comum desapreço por ter recebido justamente o Oscar de melhor filme de 1981. A partir daí, é mostrada a trajetória de Zamperini, tendo de enfrentar inúmeras adversidades, tanto em alto-mar, quando está ao lado de Russell Phillips (Domhnall Gleeson) e Francis McNamara (Finn Wittrock), quanto num campo de concentração japonês, para onde é mandado e conhece Mutsuhiro“Bird”Watanabe (o músico Miyavi), que se torna seu inimigo, além de Fitzgerald (Garrett Hedlund).
Jolie, de forma reveladora, tem um olhar bastante claro para o que pretende mostrar, independente do discurso que contenha: não são poucas as vezes que Invencível dá a impressão de não ter um roteiro sólido. A cineasta deixa de se concentrar em diálogos para narrar o filme por meio de imagens, e elas nunca são menos do que impressionantes, não apenas pelo trabalho fotográfico de Deakins, mas porque o astro Jack O’Connell se coloca como uma extensão entre o espectador e o cenário. São aparadas todas as arestas, e Invencível se desenvolve de maneira ágil, mesmo ignorando sua duração. Escusado será dizer que em alguns momentos o excesso de castigos imputados a seu personagem parecem exceder o bom senso, mas O’Connell nunca deixa de carregar uma fagulha de emoção em sua atuação física que, pelas circunstâncias mostradas, lembra a de Christian Bale em O sobrevivente, de Herzog. Porém, se o filme de Herzog ainda tem uma linha de diálogos mais extensa, os silêncios de Invencível remetem mais à obra-prima de Nagisa Oshima, Furyo – Em nome da honra, que mostrava um soldado neozelandês (feito por David Bowie) enfrentando um capitão japonês (o também músico Ryûichi Sakamoto), numa estranha relação.

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Os silêncios da narrativa, entrecortados por imagens de uma ponte, interligando o campo de concentração com a civilização ou uma pintura de Hokusai num restaurante onde vai se alimentar, dialogando com as cenas em que o personagem central precisa enfrentar problemas em alto-mar, mostram uma complexidade, tornando Invencível sobre um grito recolhido, não de vitória (como Zamperini gostaria de ouvir na pista de corrida), mas de desespero, diante da barbárie a que é submetido. Angelina Jolie tem um olhar muito claro em relação ao que deseja mostrar a partir de um roteiro adaptado por Richard LaGravenese e William Nicholson, e também pelos irmãos Joel e Ethan Coen, do romance de Laura Hillenbrand (autora de Seabiscuit): para ela, a história é feita da insistência em não ser esquecido e os elementos da natureza que são dispostos (do ar, passando pela água, depois pelo fogo e pela terra, quando é preciso enfrentar o trabalho forçado) ajudam a formar não apenas a narrativa, como o próprio personagem central. E a arte e os esportes são uma maneira muito clara de eternizar a própria condição efêmera da guerra. Invencível se propõe a colocar o personagem dentro dessa rede de conceitos interessante, fazendo com que ele possa se autossolucionar independendente de sua imagem ligada à guerra. Apenas se lamenta que, com esse destaque dado ao personagem central quase de forma absoluta, alguns personagens coadjuvantes não possam ter um desenvolvimento maior, como o de Fitzgerald.

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Embora haja alguns elementos patrióticos no filme, eles não são excessivos quando condicionados pela atuação de O’Connell, que realmente representa esse elenco com a força necessária individual (e parecem menos previsíveis do que a crítica ao patriotismo ianque de um Foxcatcher). Deakins faz um passeio pela história proporcionando ao espectador imagens aproximadas a quadros de ambientes que realmente existiram, e para isso o desenho de produção e o figurino atuam com perícia. Jolie, num terreno já frequentado antes por grandes e renomados cineastas, como Clint Eastwood, consegue encontrar emoção e estranheza na condição de Zamperini diante do que precisa enfrentar.
Não se trata de um caminho fácil; assim como mostra a contemplação diante de cenas fortes graficamente, Jolie compõe algumas cenas de movimento com grande êxito, como aquelas em alto-mar, que se aproximam do trabalho de Ang Lee em As aventuras de Pi, no entanto com uma tensão própria. É notável, em igual escala, o modo como a claridade é captada por Deakins no início do filme, com os flashbacks da infância de Zamperini, e o quanto ela vai desaparecendo, embora não totalmente, ao longo do filme, até se conciliar à frieza dos trabalhos forçados num cenário completamente cinza. Se está sendo feito um filme com base na história, esta não pode ser colocada em segundo plano, assim como a narrativa, em busca sempre de um equilíbrio. Mesmo que Invencível se sinta de algum modo como um projeto em construção (comenta-se que a montagem não teve concordância completa da diretora), principalmente ao final, quando cede a um intervalo mais pop, ele tem uma força e ressonância próprias, capazes de fazer o espectador se interessar não apenas pelo tema, como também pela própria figura enfocada e sua constante superação pessoal. Este filme é um relato de sobrevivência transparente tanto de um indivíduo quanto de um tipo de cinema que retoma o passado procurando esclarecer os caminhos a seguir.

Unbroken, EUA, 2014 Diretor: Angelina Jolie Elenco: Jack O’Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Finn Wittrock, Jai Courtney, Alex Russell, Luke Treadaway, Miyavi Roteiro: Richard LaGravenese, William Nicholson, Joel e Ethan Coen Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 137 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: 3 Arts Entertainment / Jolie Pas / Legendary Pictures

Cotação 4 estrelas

Na estrada (2012)

Por André Dick

O novo filme de Walter Salles parece sintetizar toda sua trajetória como cineasta, ao mesmo tempo em que aponta novos rumos. Baseando-se na célebre obra de Jack Kerouac, o diretor brasileiro – o que é ainda mais interessante, pois tentou-se levar o projeto adiante anteriormente com outros cineastas dos Estados Unidos, a exemplo de Gus Van Sant, sem nunca ter dado certo – mostra um período importante da cultura – sobretudo literatura – norte-americana. Kerouac é, até hoje, uma espécie de escritor (romancista e poeta) que ajudou a trazer novos autores à cena, e sua trajetória ajuda a contar um pouco da história da América.
Em “Notas sobre a geração beat” (Re-habitar, Azougue Editorial, 2005), o excelente poeta Gary Snyder escreve sobre o autor: “Quando seu romance On the road foi publicado em 1957, a palavra beat se tornou famosa da noite pro dia, e a América se deu conta de que tinha nas mãos uma geração de escritores e intelectuais que estavam rompendo com todas as regras. Esta nova geração era educada, mas se recusava a seguir carreiras acadêmicas ou negócios ou o governo. Ela publicava seus poemas em suas próprias pequenas revistas, e nem mesmo se preocupava em submeter obras aos grandes jornais pseudointelectuais estabelecidos, que por tanto tempo retinham o monopólio sobre a escrita de vanguarda”.
Para Snyder, as pessoas que leram a obra de Kerouac ficaram “ou assustadas ou encantadas”. Muitos dos que gostaram se mudaram para São Francisco, mas, segundo Snyder, os intelectuais de esquerda e os editores de jornais falaram que os beats eram irresponsáveis, apontando o jazz como decadente (“ao passo que ele é”, atesta Snyder, “uma das coisas mais criativas e profundas da América”), além de escrevem sobre “a imoralidade sexual e a delinquência e o uso de drogas pelos escritores jovens de São Francisco e de Nova York”.
Poetas como Snyder e Allen Ginsberg, autor do notável Uivo, e de muitos livros que influenciaram a tradição poética norte-americana, além de Michael McClure, Gregory Corso e Lawrence Ferlinghetti (autor de Um parque de diversões da cabeça, traduzido no Brasil tanto por Eduardo Bueno quanto por Paulo Leminski), reafirmam a importância da literatura beat, pois investem numa recriação da linguagem sem desperdiçar o que foi feito antes.
Portanto, diante de todo esse quadro, não era fácil a empreitada de Walter Salles. Livros como Duna e a trilogia de O senhor dos anéis foram adaptados, com muita expectativa gerada por fãs,  com recepção boa ou não por parte de público e críticas. Mas nenhum deles representa tanto para a cultura norte-americana quanto Na estrada – e talvez ele represente, para a literatura sobre jovens, a imagem que James Dean tem para o cinema. Pode-se dizer que Salles, com o apoio e a escolha do produtor Francis Ford Coppola (que detinha os direitos sobre o livro há décadas e tem interesse especial pelo cenário da juventude, a julgar por Vidas sem rumo e Peggy Sue), sai-se muito bem e, mesmo não tendo nascido dentro dessa cultura, tem um olhar universal. O primeiro elemento em que Walter se sai bem é não considerar esses personagens como gênios românticos. Mostrando a trajetória de Sal Paradise (Sam Riley) e Dean Moriarty (Garrett Hedlund), que são pseudônimos para Jack Kerouac e Neal Cassidy, da vida real, eles não  mostram nenhum elemento espetacular em sua trajetória. Pode-se ter a impressão de que esses personagens deveriam ser incríveis, pois antecipavam um movimento de grandes proporções culturais. Mas, na realidade, nenhum deles imaginava fazer parte do início de um movimento, ou seja, até certa medida, não havia nenhum tipo de ilusão de um sucesso posterior – caso contrário, essa experiência seria mecânica, não verdadeira. Deste modo, Walter Salles respeita esses personagens como respeitava Josué e a escrevedora de cartas Dora, de Central do Brasil. Para ele, não é porque esses personagens de Na estrada tinham aspirações culturais que eram melhores ou mais interessantes do que os de Central do Brasil.

Sal, que acabou de perder o pai e se encontra melancólico e sem inspiração para escrever – a escrita, no filme, representa uma etapa difícil, de crescimento, e sempre é preciso recolher os pedaços de texto espalhados ao longo da estrada –, conhece Moriarty, ex-presidiário, por meio do poeta Carlo Marx (pseudônimo de Allen Ginsberg, interpretado por Tom Sturridge), que ainda espera escrever um grande poema. Moriarty está em Nova York, recém-casado com Marylou (Kristen Stewart) e logo os dois se transformam em amigos: gostam ambos de jazz, e Moriarty quer aprender a escrever como Paradise, além de, afora suas aventuras sexuais, ter a expectativa de reencontrar o pai. Não por acaso, esses jovens pensam continuamente naqueles que chamam de “velhos”.
Carlo – apaixonado por Moriarty – sai em viagem com o casal e, quando Sal – querendo desbravar o Oeste – os reencontra, Moriarty já está com outra mulher, Camille (Kirsten Dunst). É o início de uma série de idas e vindas e reencontros, entre São Francisco, Nova York e outras cidades menores. Talvez a melhor parada seja na casa de Old Bull Lee (pseudônimo de William S. Burroughs, interpretado por Viggo Mortensen) e de sua mulher (Amy Adams). Mas o foco é sempre em Sal Paradise e suas mudanças de rumo ao longo da trajetória, precisando trabalhar em lugares diferentes – inclusive colhendo algodão, com uma jovem mexicana, Terry (interpretada por Alice Braga) com quem se envolve. E há as experiências sexuais, sobretudo a partir de Moriarty (e Walter Salles consegue, ao mesmo tempo, apresentar cenas mais fortes, até mesmo fora do padrão que vemos atualmente no cinema, sem em momento algum vulgarizar as imagens; a cena em que Moriarty está com outro personagem, feito por Steve Buscemi, é um trunfo de direção).
Como o poeta Snyder assinala, os “participantes [da geração Beat] viajavam livremente, vadiando de Nova York até a Cidade do México e até São Francisco – o grande triângulo – e viajavam ligeiro. Eles ficavam com amigos em North Beach, São Francisco, ou no East Side, em Nova York (a Greenwich Village dos beats, realmente uma favela) – e ganhavam seu dinheiro com quase qualquer tipo de trabalho. Carpintaria, trabalhos na via férrea, cortando madeira, serviços em fazendas, lavando pratos, controle de cargas – qualquer coisa servia”.
Nesse ponto, de ser fiel a todo um contexto (fazendo referências à economia americana do presidente Truman e ao comunismo, como no momento em que Sal para em frente a uma vitrine com televisões), Walter Salles acaba comprometendo em certa parte a narrativa, repetindo alguns cenários e algumas situações (sem desenvolver personagens, como o da mãe de Sal), o que não afeta a qualidade final de Na estrada.
Isso porque as viagens retratam, além da perda inicial, a perda da juventude, que se dá por meio da urgência e da constante insatisfação. É notório que Salles quer mostrar esse registro do que deve ser mantido pelo romantismo das ações, pelo ímpeto de mudança, em alternância com o que escapa da vida desses personagens. O que eles deixam para trás não será recuperado, e se isso já foi desenvolvido de forma interessante pelo cineasta em sua filmografia, ganha aqui uma amplitude ainda maior. Pois parece que esses personagens não estão na estrada para modificar especificamente suas vidas – tampouco, reitera-se, para constituir um movimento –, mas para entenderem que, em sua tentativa de esquecimento, do que deixam, a princípio, para trás, existe aquilo que mais permanece e os acompanha. Como a própria figura mítica do Oeste, que Sal Paradise, no início, quer conquistar – mas mítica não porque represente uma conquista de terras, por meio da violência, de combate a imigrantes e índios, e sim porque envolve o desenvolvimento da maturidade do personagem.
Ao longo do filme, Sal não se vê como grande escritor e, em determinado momento, quando Moriarty o visita, pedindo para que ele o ensine a escrever, acaba datilografando em sua máquina: “O caubói acha que sou gênio”. Não há – e ele sabe disso – genialidade: há, como mostra sua escrivaninha, muito mais leituras de Proust (de No caminho de Swann, o primeiro volume de Em busca do tempo perdido), de Joyce e de Rimbaud. Pois, para Walter Salles, que capta esse movimento beat de maneira exemplar, a criação conjuga experiência e leitura – e quem a coloca em prática não está afastado da estrada. Esses são personagens autocentrados, pouco complacentes e emotivos apenas por alguma circunstância que desconhecem. No entanto, provam que não há nenhuma espécie de literatura que não nasça da experiência.

Um exemplo é o de Carlo Marx/Allen Ginsberg, que deseja fazer a trajetória de Rimbaud pela África, enquanto o amigo Sal tem consciência de que a aventura de sua geração está em descobrir seu próprio país, querendo, na verdade, entender a perda de seu pai. No início, com o intuito de ter epifanias joycianas e paixões amorosas, Carlo ainda não sabe que esta estrada está de passagem. E, quando Sal vai para o México com Moriarty, talvez nos perguntemos se ele vai atrás de novas experiências ou se quer, inonscientemente, encontrar o resquício de Terry, a qual abandona. De qualquer modo, se para os personagens, parar é se estabelecer, apenas no caso de Moriarty ela significa o desespero de saber que a juventude está passando e que o compromisso se estabelecerá. Não é possível, como Moriarty observa desde o encontro com Walter, um saxofonista (Terrence Howard), no início, parar o tempo, mesmo com a música – o próprio ciclo das estações na estrada denuncia isso. Pois a Geração Beat, mais do que sua ligação com as drogas, a música e a liberdade sexual (“sexo, drogas e jazz”), esclarece o que realmente está por trás de uma pretensa irresponsabilidade, filtrada pelo tempo, pela dança – de Moriarty com Marylou e com Sal, no México – e a fúria do jazz, captada de modo poético e realista, em ambientes noturnos. Na ida para a Cidade do México, em 1950, Kerouac lia bastante Os cantos, poema épico de Ezra Pound, e fez um longo poema, intitulado “Mexico City Blues”. Em sua contracapa, quando o publicou, escreveu: “Quero ser considerado um poeta de jazz soprando um longo blues numa jam session de domingo. Faço 242 refrões; minhas ideias variam e às vezes passam de refrão em refrão ou da metade de um refrão para a metade do seguinte”. No primeiro deles, diz: “Cume Mágico da Ignorância / Cume Mágico / É o mesmo que não-Cume / Tudo uma luz / Velhas estradas esburacadas / Uma Estrada de Ferro / Linha Principal” (A nova visão: de Blake aos beats, Azougue Editorial, 2005).
Com uma direção de arte exemplar, reproduzindo fielmente o período em que se passa a história, figurinos notáveis e uma trilha sonora de impacto, assinada por Gustavo Santaolalla (também de Diários e de 21 gramas), Na estrada tem um estilo que, por vezes, lembra o de Na natureza selvagem, de Sean Penn, emulando, ao mesmo tempo, imagens captadas por Edward Hopper (em plantações à beira de estradas desertas; em trilhos de trem; em casas perdidas no campo; em postos de gasolina quase abandonados). Não é por acaso: o fotógrafo é o mesmo Eric Gautier (que trabalhou com Walter em Diários de motocicleta). Foi no filme de Penn que Walter viu Kristen Stewart e a convidou para o fime, e talvez seja com aquele  que Na estrada tente se parecer em determinados momentos, sobretudo em seu tom crescente de melancolia (também existente no livro). Havia, em Na natureza selvagem, um sentimento de Jack Kerouac e de Henry David Thoreau, mas ainda mais radical – o combate era contra a estrutura da sociedade, entretanto num ponto em que ela já não é mais aceitável sob nenhum aspecto, o que não acontece em Na estrada, que é um encontro com a própria cultura que desperta ao redor. Ainda assim, Gautier apresenta uma textura de imagens ainda mais impressionante do que em Na natureza selvagem e Diários de motocicleta: as estradas e paisagens do interior norte-americano nunca foram tão bem fotografadas – registrando, inclusive, a mudança das estações – do que aqui (talvez David Lynch tenha chegado próximo em História real).
E o elenco escolhido por Walter Salles, mesmo aquele que aparece em pontas, é de grande qualidade, a começar por Garrett Hedlund (que atuou de forma inexpressiva em Tron – O legado, ou seja, aqui parece outro ator), num desempenho sensível e extraordinário – sobretudo pela mudança de tom em diversas cenas, passando da alegria e do descompromisso à gravidade e preocupação, e pela cena final –, mas Sam Riley (como Sal Paradise) não faz por menos, sobretudo com seu olhar de complacência. Kristen Stewart se arrisca num papel difícil, sobretudo pelas cenas de sexo, das quais mesmo atrizes experientes fogem, mostrando que é uma atriz com condições de crescer (seus desempenhos em O quarto do pânico, Na natureza selvagem e The runaways já mostravam isso) – o momento em que ela reflete sobre as viagens olhando para um cantor country é memorável. Tom Sturridge, como Carlo Marx, é preciso, mesmo que com pouca participação, e Kirsten Dunst, cada vez melhor atriz (acentuando o tom dramático já visto em Maria Antonieta e Melancolia). Viggo Mortensen parece um tanto exagerado, forçando o sotaque interiorano, no papel de Old Bull Lee, numa participação inferior à de Amy Adams – porém, não chega a destoar e tem uma última participação em cena antológica.
Diante do que vemos, vale a pena lembrar o que diz o poeta Gary Snyder sobre a geração beat: ela seria “particularmente interessante porque não é um movimento intelectual, mas um movimento criativo: pessoas que cortam seus laços com a sociedade respeitável para viver um modo independente de vida, escrevendo poemas e pintando quadros, cometendo erros e se arriscando – mas não encontrando nenhum motivo para apatia ou desânimo”. De certo modo, como em toda transgressão, os autores beats viajavam (em todos os sentidos) porque também fugiam – o que Walter Salles sutilmente apresenta ao longo de todo Na estrada – e acabaram sendo inseridos também no universo que combatiam, por exemplo, o universitário, sendo, em certa medida, institucionalizados – como o foi Rimbaud, poeta recorrente no filme, em menções ou fotografias, que terminou a vida traficando armas e escravos na África e com a perna gangrenada. Mas eles são inseridos já com o significado de que algo entre as idas e vindas se modificou e de que o corte completo com a sociedade não é necessário quando por trás de um gesto existe um senso de mudança. Não é preciso concordar com suas atitudes para perceber que em qualquer fuga ou reencontro existe toda uma transformação. Mesmo que seja imperceptível para a maioria, é ela que realmente move.

On the road, EUA/BRA/FRA, 2012 Diretor: Walter Salles Elenco: Garrett Hedlund, Kristen Stewart, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Amy Adams, Steve Buscemi, Elisabeth Moss, Terrence Howard, Alice Braga, Tom Sturridge Produção: Charles Gillibert, Nathanaël Karmitz, Jerry Leider, Rebecca Yeldham, Walter Salles Roteiro: Jose Rivera Fotografia: Eric Gautier Trilha Sonora: Gustavo Santaolalla Duração: 137 min. Estúdio: American Zoetrope / Film4 / MK2 Productions / Video Filmes

Cotação 4 estrelas e meia

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