Hereditário (2018)

Por André Dick

A distribuidora A24 vem se tornando o maior exemplo de cinema independente nos Estados Unidos, principalmente depois de Lady Bird e Projeto Flórida, lançados no final do ano passado e com êxito incomum junto à crítica e nas premiações. No início deste ano, estreou seu filme de terror mais conhecido até agora, Hereditário, no Festival de Sundance, sob a direção do estreante Ari Aster, feita dentro dos moldes que vêm repercutindo mais no gênero de terror e suspense: com uma mistura dramática, ligada à família. Isso aconteceu em A bruxa e Ao cair da noite, que normalmente levam o espectador a gostar muito deles ou simplesmente deixá-los em segundo plano.
Annie Graham (Toni Collette) é uma artista que trabalha com miniaturas – em Hereditário, com uma casa de bonecas que parece representar a sua própria habitação. Ela é casada com Steve (Gabriel Byrne) e tem um casal de filhos: o adolescente Peter (Alex Wolff, muito parecido com seu irmão também ator Nat, de Cidades de papel) e a menina de 13 anos Charlie (Milly Shapiro). Já se inicia a história com o funeral de sua mãe, com a qual tinha vários problemas desde a infância.

Sua filha Charlie, com problemas mentais, havia se tornado muito apegada à avó, no pouco tempo em que elas conviveram juntos. Annie passa por dias especialmente difíceis e procura ajuda numa reunião de pessoas que perderam entes queridos. Enquanto isso, Charlie se comporta estranhamente, principalmente quando um pombo bate na janela de sua sala de aula. Interessante como Aster faz uma analogia entre a menina e a figura de um pássaro. Assim como o filme inicia com uma tomada de uma maquete que se transforma na passagem para seus atores, como se eles estivessem dentro dela, em outro momento, durante um funeral, a câmera faz um movimento que lembra um ingênuo stop motion na linha de O fantástico Sr. Raposo.
Peter, por sua vez, quer ir até uma festa e precisa levar sua irmã. Se não se soubesse o que aconteceria, o espectador poderia dizer o que faria uma menina tão nova numa festa de adolescentes, porém Aster mantém o clima de tensão. Essa vai desaguar na amizade entre Annie e uma colega do grupo de apoio, Joan (Ann Dowd). Daí em diante, parece que a narrativa se situa entre a realidade dos personagens e o onirismo das passagens, algumas certamente assustadoras. Annie não sabe mais se vê uma realidade paralela ou se tudo é resultado de seu sonambulismo, tornando-se cada vez mais confusa e entrando em constante rota de discussão com o marido.

Como outros exemplares mais conhecidos do seu gênero, Hereditário vem sendo recebido com entusiasmo, e é possível avaliá-lo sob esse ponto de vista: se ele cumpre o hype. Particularmente, sua narrativa arrisca enveredar por um caminho imprevisto, não apenas porque não segue habitualmente os passos do gênero em seu início, como toda a atmosfera, com a colaboração decisiva da fotografia de Pawel Pogorzelski, é extremamente pesada e angustiante. Nesse sentido, ele lembra muito o alemão Boa noite, mamãe, em que um par de gêmeos morava numa casa de campo junto à figura materna e a relação era, no mínimo, tumultuada. Como aquele filme, Hereditário oferece a sensação de que esses personagens estão isolados em relação ao mundo. Há um clima permanente de luto, de um passado não resolvido. O distanciamento entre os personagens confere um sentimento de que nenhum é verdadeiramente trabalhado, quando esta decisão parece estar ligada justamente ao fato de Aster não querer revelar nenhum traço definitivo. Isso fornece duas camadas. Uma delas é representada pelo fato de nenhum se atrever a mudar o que está acontecendo; a outra é que, quando se tenta fazer algo, pode ser que o caminho seria não fazê-lo. Nisso, se Collette tem uma ótima atuação – exceto com alguns momentos nos quais Aster deseja exagerar determinadas expressões –, Byrne, recentemente em outra família disfuncional, em Mais forte que bombas, e Wolff não comprometem. Já Shapiro é uma revelação, trazendo uma atuação assustadora, e Dowd explora bem sua participação em momentos definidos, presente talvez na sequência mais impactante da história.

Aster tenta explorar a divisão entre o universo do filho adolescente (escola, festas com amigos) e dos pais, depois de um determinado acontecimento. A maneira como ele trabalha com influências da psicologia e da religião podem ser questionáveis, mas funcionam dentro do contexto trabalhado, ou seja, não é interessante compreender o filme literalmente, e sim por meio de seus símbolos. Chama a atenção como Aster tem uma leve influência de um diretor que nunca trabalhou no gênero de terror, Wes Anderson. As maquetes que Annie faz remetem ao universo de Anderson (também ao subestimado Annabelle 2 – A criação do mal), e do mesmo modo tem-se a impressão de que os personagens estão vagando em ambientes mínimos, cada vez mais congestionados. Também parece que a miniatura da casa representa a própria tentativa de a mãe observar tudo o que está acontecendo e prever possíveis situações, como o personagem Jack Torrance observa o labirinto do Overlook em O iluminado. Visualmente, em sua parte final, a obra dialoga diretamente com A fúria, um dos grandes momentos de Brian De Palma nos anos 70.
Pode-se apontar vários filmes das últimas quatro décadas como referência em temas (não atmosfera e construção narrativa) de Hereditário, sobretudo em sua parte final, mas seria incorrer em spoilers. A resolução é certamente seu momento mais surpreendente e, ao mesmo tempo, talvez desaponte, pois remete especialmente a uma determinada obra clássica já lembrada por diversos cineastas. Ainda assim, é difícil não dizer que o diretor consegue sobrepor várias camadas sem necessariamente tornar a história didática ou simplista, para que o espectador simplesmente entenda o que está acontecendo, sem nenhum interesse a mais do que isso. E a trilha sonora do saxofonista Colin Stetson é uma das melhores do gênero. Cada vez que ela surge, transforma Hereditário realmente num grande filme, capaz de levar o espectador a um universo no mínimo incômodo.

Hereditary, EUA, 2018 Diretor: Ari Aster Elenco: Toni Collette, Alex Wolff, Milly Shapiro, Ann Dowd, Gabriel Byrne Roteiro: Ari Aster Fotografia: Pawel Pogorzelski Trilha Sonora: Colin Stetson Produção: Kevin Frakes, Lars Knudsen, Buddy Patrick Duração: 127 min. Estúdio: PalmStar Media, Finch Entertainment, Windy Hill Pictures Distribuidora: A24

Mais forte que bombas (2015)

Por André Dick

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Logo depois de surgir com Reprise e Oslo, 31 de agosto, cada um com características autorais e uma forte presença da solidão e do sentimento de luto, o cineasta norueguês Joachim Trier chega a um filme de língua inglesa com este drama, Mais forte que bombas, inicialmente lançado no Festival de Cannes do ano passado e desde então aguardado pelo público. O lançamento de filmes arthouse é cada vez mais dificultado pelas grandes produções, no entanto é possível descobrir cada vez mais um espaço para que possam se destacar, independentemente da recepção. Trier é um jovem diretor em que muitos veem reais possibilidades de constituir uma longa trajetória, depois de iniciar como publicitário, e se percebe principalmente em suas obras um estilo muito definido, no tratamento de personagens e na composição de situações inseridas num cotidiano comum.
O roteiro inicia com um jovem pai, Jonah Reed (Jesse Eisenberg), vendo o seu primeiro filho com a mulher, Amy (Megan Ketch). No mesmo hospital, encontra a ex-namorada, Erin (Rachel Brosnahan), cuja mãe veio a falecer, o que reacende lembranças escondidas em Jonah. Corte a cena e já estamos com Gene Reed (Gabriel Byrne). Ele vai ajudar David (David Strathairn) a escrever uma matéria para o New York Times sobre sua mulher falecida há alguns anos, Isabelle Reed (Isabelle Huppert), fotógrafa de cenários de guerra, sobretudo no Oriente Médio.

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Gene tem problemas de relacionamento com o filho menor, Conrad (Devin Druid), e quando recebe novamente a visita do mais velho, exatamente, há uma porção de sentimentos de culpa reunidos na mesma casa onde a mãe está ausente. Junta-se a isso a paixão não correspondida de Conrad por uma colega de aula, Melanie (Rubi Jerins), fazendo com que ele dedique tempo a jogos no computador, principalmente em cenários de guerra, e de ele não saber de fato por que sua mãe morreu (dando espaço a uma cena impressionantemente bem filmada por Trier, com a ajuda de seu habitual fotógrafo, Jakob Ihre). Esta explicação é escondida tanto pelo pai quanto pelo irmão que querem protegê-lo de uma verdade que nem eles gostariam de assumir. David lembra da esposa lhe contando sobre um sonho, que parece dizer mais do cenário de guerra do que seu cotidiano, enquanto o filho menor sonha encontrar o corpo da jovem que diz gostar ao relento, como se estivesse também morta. É o peso do luto que domina essa família, dominada também pelo enquadramento da imagem, seja aquele das fotografias deixadas pela mãe ou dos jogos e escritos do irmão mais novo no computador.
As lembranças da mãe Isabelle, entretanto, se mantêm, em família ou em relações próximas, e Trier acompanha, em flashbacks, a maneira como ela enxergava seu trabalho de fotografia, como algo importante e, ao mesmo tempo, elemento de uma página a ser virada no jornal, sem que se dê importância. Ela é a representação mais próxima do personagem central de Oslo, 31 de agosto, que está querendo sempre voltar para um cenário caseiro sem que isso lhe dê a mesma segurança que poderia ter antes.

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O roteiro, escrito por Joachim Trier e Eskil Vogt, tem uma influência clara dos filmes que mostram a juventude norte-americana, com certa música dos anos 80 (o título original é o mesmo de um álbum da banda The Smiths), e dialoga principalmente com o recente e contestado Homens, mulheres e filhos. Onde Jason Reitman mostra mais humor, Trier é mais comedido e, por meio de Conrad, pretende enfocar a solidão dessa juventude. Sua relação com o irmão é terna, assim como os conflitos com o pai demarcados por uma base real, especialidade de Trier. O momento em que o irmão Jonah lê um relato do cotidiano do irmão, levando o filme a um flashback revelador, se transforma no maior requisito para uma peça dramática que se anuncia em cada linha de roteiro. Mais ainda sua interação depois com um aparelho que configura uma realidade virtual, para onde certamente eles gostariam de ir. Mas nada diz mais do personagem de Jonah, doutor em Sociologia e prestes a se tornar professor, do que tentar ensinar ao irmão como, de fato, funciona a hierarquia no colégio – o que contradiz qualquer teoria do que seria uma verdadeira socialização, ou seja, assim como seu casamento, ele se mantém apenas pela base teórica, nunca enfrentando de fato a realidade. E Trier nunca esteve tão à vontade para mostrar seus elementos autorais, embora continue bastante pessimista no que diz respeito ao comportamento humano, ainda que não tanto quanto em Oslo, 31 de agosto, e consiga, por meio de uma montagem não linear em alguns momentos, fazer com que o espectador confronte diferentes momentos dos mesmos personagens, abrindo um leque de opções para que identifiquemos (ou não) os sentimentos deles.

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Estamos diante da antiga dificuldade de um pai solitário lidar com o filho adolescente, enquanto mantém um relacionamento secreto com sua professora, Hannah (Amy Ryan). Há uma sensação de nascimento, descoberta, autocontrole diante do outro e a morte ao fim de tudo que percorre cada imagem da obra de Trier, e aqui não é diferente. Mesmo momentos que poderiam ser leves (a visita dos irmãos a um campo de educação física escolar) se tornam introspectivos, ainda que nunca exagerados. Trier sabe extrair excelentes atuações de Eisenberg, Byrne e Druid, além de Huppert. Ela é a figura que simboliza um elo para o pai e os filhos, e todos eles querem ou se aproximar ou se afastar das mulheres – eles apenas não conseguem substituir o afeto materno. É exemplar a cena em que um dos irmãos se enxerga ao lado da mãe num espelho, e é possível ver nos braços dela as marcas de alguma bomba estilhaçada durante alguma cobertura jornalística. Jonah, principalmente, quer ser o esteio familiar que não consegue enxergar no pai, e seus diálogos com o irmão constituem esse momento particularmente interessante da obra de Trier. É sobre como os personagens parecem ser testemunhas de uma batalha quando, na verdade, estão inseridos numa, que é a própria compreensão de sua existência.

Louder than bombs, DIN/FRA/NOR, 2015 Diretor: Joachim Trier Elenco: Jesse Eisenberg, Devin Druid, Gabriel Byrne, Isabelle Huppert, Amy Ryan, Rachel Brosnahan, Megan Ketch, David Straitharn, Ruby Jerins Roteiro: Eskil Vogt, Joachim Trier Fotografia: Jakob Ihre Trilha Sonora: Ola Fløttum  Produção: Albert Berger, Alexandre Mallet-Guy, Marc Turtletaub, Ron Yerxa, Suzanne Savoy, Thomas Robsahm Duração: 109 min. Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: Animal Kingdom / Arte France Cinéma / Beachside Films / Bona Fide Productions / Memento Films Production / Motlys / Nimbus Film Productions

 Cotação 4 estrelas e meia