Mogli – Entre dois mundos (2018)

Por André Dick

Em 2016, a Walt Disney lançou o live-action de Mogli – O menino lobo, cuja adaptação para o cinema mais conhecida era a animação de 1967, dirigida pelo alemão Wolfgang Reitherman. que transformou a história original de Rudyard Kipling em algo realmente universal. Foi a caixa mágica que se esperava: depois de se aproximar do 1 bilhão nas bilheterias, o estúdio planejou inúmeros live-actions para os próximos anos.
Ao contrário do filme de 67, Favreau prefere atenuar a parte do humor e os números musicais (mantendo alguns, é verdade) para fazer uma espécie de épico, em que a animação muitas vezes se parece com cenários reais mais do que vemos em filmes – e a sensação é a de que estávamos vendo uma mistura entre As aventuras de Tintim e Avatar. Favreau e sua equipe se esmeraram em criar uma atmosfera realmente de selva para o filme. Os seus detalhes são, nesse sentido, espetaculares e, apesar de a animação de 1967 ter um trabalho de cores belíssimo, é a versão de Favreau que dá a sensação de estarmos mesmo em meio aos perigos de uma floresta, tendo merecido o Oscar de efeitos visuais.

Era muito cedo para uma novo olhar sobre a história, mas aqui está ela: Mogli – Entre dois mundos foi produzido pela Warner Bros. Diante da versão da Disney e o risco de não conseguir uma boa bilheteria, quem o lança diretamente em streaming é a Netflix. O curioso é que ele foi rodado em 2015 e seu primeiro lançamento se daria exatamente no ano em que foi liberado o filme de Favreau, sendo adiado por motivos óbvios. Enquanto a obra da Warner começou a ser discutida em 2012 (tendo como possível diretor, entre outros, Iñárritu), o anúncio de que a Disney faria uma nova adaptação foi oficializado em 2013, então não se sabe o que, nos bastidores, uma influenciou a outra. Estamos diante, aqui, ao que parece, de um estúdio ter trabalhado mais rapidamente do que o outro para lançar antes.
A história mostra Mogli (Rohan Chand) sendo inicialmente salvo por Bagheera (Christian Bale) – uma pantera –, enquanto seus pais são mortos por uma fera, quando é levado a uma matilha de lobos, na qual é adotado por Nisha (Naomie Harris), Vihaan (Eddie Marsan) e o chefe Akela (Peter Mullan). Ele vive ao lado de seus irmãos lobos e do amigo Bhoot (Louis Ashbourne Serkis) quando surge o ameaçador tigre Shere Khan (Benedict Cumberbatch), auxiliado pela hiena Tabaqui (Tom Hollander). Já o urso Baloo (com voz do próprio Serkis) tem um papel diferente nesta versão: ele ensina a matilha em técnicas de caça e corrida pela floresta. Serkis, ao contrário de Favreau e Reitherman, não lida tanto com o humor.

Esta visão de Andy Serkis, conhecido principalmente pela desenvoltura como ator na captura de imagens de personagens como Gollum (O senhor dos anéis e O hobbit) e César (na recente trilogia do Planeta dos macacos), trabalha mais num plano às vezes de uma escuridão, e personagens que pareciam apenas bem-humorados no primeiro se transformam em ameaçadores aqui, como a cobra Kaa (Cate Blanchett). A adaptação de Serkis também remete a algumas passagens do Apocalypto, de Mel Gibson. A violência é acentuada: animais são devorados e os machucados do pequeno herói se mostram presentes durante toda a metragem.
A sequência em que o menino precisava escapar de um determinado confronto e se via no meio de um estouro de búfalos da obra de Favreau lembrava um pouco a cena dos dinossauros de King Kong (2005), e Serkis, que trabalhou na versão de Peter Jackson dando movimentos ao gorila gigante, repete algumas linhas do cineasta que praticamente o consagrou, com o Gollum, também colocando o personagem perto de desfiladeiros. A hiena lembra exatamente o Gollum de O senhor dos anéis, enquanto a cena com os macacos (engraçados nas versões anteriores) evocam os Orcs, assim como os melhores momentos da versão de Serkis incluem os elefantes – e se destaca mais a violência contra esse animal, quando Mogli entra em contato com os humanos, principalmente John Lockwood (Matthew Rhys), ecoando Nas montanhas dos gorilas, dos anos 80. Por sua vez, Messua (Freida Pinto) representa a maternidade que Mogli não teve e os cantos dos indianos, assim como certo design de produção, remetem a Indiana Jones e o templo da perdição e a As aventuras de Pi.

Não se sabe se por causa da adaptação de Favreau Serkis divide a sua obra em dois atos: a primeira passada numa selva tão imaginária e espetacular quanto a da versão de 2016 e a outra passada numa tribo de indianos. E, nisso, é lamentável que o filme de Serkis, com efeitos visuais realmente excelentes e uma bela fotografia de Michael Seresin (da série Planeta dos macacos), acabe sendo tomado em pontos comparativos tão determinados com o de Favreau, mas a questão é que a Warner parece ter lamentavelmente se atrasado na confecção de sua ideia – e seria este o filme que se destacaria – e, mesmo talvez ela sendo original, aparenta ser uma cópia principalmente no plano visual, com exceção de certa temática sobre a identidade do personagem central mais adulta e cenas mais violentas. Isso a prejudica em parte, no entanto se o espectador der uma oportunidade para uma atuação muito boa de Rohan Chand, no papel central (melhor do que Neel Sethi, da obra da Disney) e para o trabalho de vozes acertado de todo o elenco, além da homenagem ao universo de Kipling, terá uma boa experiência.

Mowgli – Legend of the jungle, EUA/ING, 2018 Diretor: Andy Serkis Elenco: Christian Bale, Cate Blanchett, Benedict Cumberbatch, Naomie Harris, Andy Serkis, Matthew Rhys, Freida Pinto, Rohan Chand Roteiro: Callie Kloves Fotografia: Michael Seresin Trilha Sonora: Nitin Sawhney Produção: Steve Kloves, Jonathan Cavendish, David Barron Duração: 104 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, The Imaginarium Distribuidora: Netflix

Cavaleiro de copas (2015)

Por André Dick

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É cada vez mais difícil se separar quem é admirador de Terrence Malick e por isso gosta de seus filmes de quem se afasta totalmente deles para tentar examinar cada obra sua como uma peça única. Parece ser esta a questão: nenhum filme de Malick responde por si só. Ele é como se fosse uma nova peça que explicasse melhor escolhas dos filmes anteriores, sobretudo A árvore da vida e Amor pleno, com uma autoconsciência dispersa. Em Cavaleiro de copas, que foi, de forma surpreendente, lançado pela Netflix, sem passar pelos cinemas brasileiros (o que mostra o estado atual de coisas, em que comédias sem valor estreiam com divulgações especiais), ele mostra o universo de Hollywood por meio de um roteirista, Rick (Christian Bale), e utiliza a fotografia de Emmanuel Lubezki para um panorama detalhado e desesperançoso da cidade de Los Angeles. Onde Drive, de Refn, é fantasioso, apesar de violento, Cavaleiro de copas ingressa numa espécie de personagens sem um direcionamento claro, inclusive todos aqueles que se atravessam no caminho de Rick, como o pai, Joseph (Brian Dennehy), e o irmão, Barry (Wes Bentley).

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Esta parte dialoga muito com Amor pleno e a história pessoal de Malick, já exposta de maneira clara em A árvore da vida: sua culpa em relação à morte do irmão e o peso do pai sobre seus ombros. É a matiz dramática mais esclarecida de Cavaleiro de copas, enquanto a vida entre festas e caminhadas na praia de Rick não sossega nem com a presença de Helen (Freida Pinto), Della (Imogen Poots), Karen (Teresa Palmer), Nancy (Cate Blanchett) e Elizabeth (Natalie Portman). Que o elenco feminino é fantástico em termos de atuação, principalmente Blanchett e Teresa Palmer, não é novidade na trajetória de Malick, mas quem realmente oferece uma grande atuação, depois de anos, é Dennehy, como o pai do personagem principal, apesar de sua brevidade na narrativa.

Se havia algum filme anterior que encantava com o glamour de Hollywood, com exceção de Cidade dos sonhos, Cavaleiro de copas dispara na direção de que este universo está previamente condenado, pela figura de Rick e sua trajetória vaga e sem nenhuma possibilidade de encontro, pelo menos aparente. É notável como, por meio, novamente, de pensamentos soltos, e um fio de ligação muito tênue entre os personagens, que Malick mostre um personagem tão solitário e trágico como o de Rick, e Bale faz por merecer uma interpretação quase sem falas e ainda assim impressionante.

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O misto entre a infância – logo no início – e as tentativas de Rick em reencontrá-la, seja por meio de uma visita a um aquário gigantesco, seja pelos encontros conflituosos com o pai (no qual visualiza o temor de também ter um filho), se mostra principalmente por suas caminhadas pela praia, à noite ou de dia. Há um sentido cósmico e religioso como no personagem de Affleck em Amor pleno, entremeado aqui por cartas e símbolos do tarô (e lances de cultura oriental). De qualquer modo, Cavaleiro de copas se sente ainda com uma narrativa mais fina do que a de Amor pleno, no sentido de que deixa ao espectador amarrar totalmente as pontas, ao som de uma trilha perturbadora e bela de Hanan Townshend.

Nisso, há o visual situado entre um presente amargamente solitário e um futuro que aparenta calmaria no tamanho imponente das casas envidraçadas e nos enormes salões e casas pelas quais Rick passa (inclusive pela mansão de Tonio, o alter ego de Antonio Banderas). Este personagem pouco tem daqueles que Antonioni mostrava em seu cinema, ou de qualquer metalinguagem: ele é simplesmente um roteirista que não vê razão em nada ao redor, mas procura, de fato, descobrir algo que o faça emergir. Malick não está oferecendo nenhuma resposta quando mostra esse personagem entre paisagens urbanas e paisagens naturais, assim como num carro pela estrada ( e a direção de arte do habitual colaborador de Malick, Jack Fisk, é extraordinária).

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Há cenas absolutamente belas, como aquelas em que mostra Portman e Bale indo a uma galeria de arte e depois a uma plataforma marítima. Malick, por outro lado, joga essas belas imagens com uma sede de repetição constituindo a rotina exasperante de Rick, como se a novidade só pudesse ser oferecida por um terremoto assustador ou por idas a clubes noturnos de mulheres (em certos momentos, ele lembra o personagem de Sam Shepard em Estrela solitária, de Wim Wenders).

Malick, ao transformar seu filme num certo momento numa sessão de fotografias, faz uma crítica não apenas a seu universo como a sua obra, que precisa dessa beleza aparentemente atordoante para poder se representar, fora a rotina que carrega em cada palmo da história. Nessa rotina Malick, ingressa símbolos enigmáticos e divinos, também representados pela figura do Fr. Zeitlinger (Armin Mueller-Stahl).

A montagem elíptica e mais lenta do que a de Amor pleno, feita a oito mãos (A.J. Edwards, Keith Fraase, Geoffrey Richman e Mark Yoshikawa), concede à fotografia de Lubezki e ao roteiro de Malick uma espécie de segunda camada: as cenas de água, recorrentes, parecem contrastar com os edifícios e as estradas com o asfalto rachado pelo sol, assim como parecem indicar o nascimento dos personagens. Depois de receber os Oscars por Gravidade, Birdman e O regresso, Lubezki revela mais uma vez seu poder de visualizar o universo de maneira irretocável e criar quase um à parte, dentro do cotidiano a que estamos acostumados.

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É muito comum se dizer que não há nada verdadeiramente humano nos experimentos mais recentes de Malick, apenas uma sequência de imagens belas. Isso certamente não corresponde à verdade, e o que Cavaleiro de copas mais apresenta é certamente uma sensação vaga referente a todos os personagens assim como o cenário que os rodeia: tudo é tão imenso que parece impalpável e do mesmo jeito o espectador se sente em relação às suas ações, como se elas fizessem parte de uma rotina pré-programada e sem novidades. Desde o início, numa narração em voice over, o personagem busca o sentido da vida como, numa história infantil, um príncipe busca sua “pérola”. Esta pérola pode ser encontrada em vários rostos, mas Rick não parece querer permanecer com eles, assim como o personagem de Affleck no filme anterior.

Mas, ao contrário de A árvore da vida  e Amor pleno, este filme parece menos esperançoso no sentido de que Malick empresta a esta palavra principalmente desde Dias de paraíso, ou seja, ele concede uma determinada abertura ao final que parece manter certas dúvidas. Há um sentimento constante de perda e de isolamento em relação ao personagem de Rick e, se não soubesse que Malick é um cineasta que costuma se esconder de eventos, eu poderia imaginar que é um alter ego dele. Eis uma Hollywood com todos os brilhos e luz intensa do sol, mas, ao mesmo tempo, sem brilhos ou sol, pois a vemos apresentada pelos olhos de Rick. É um dos filmes definitivos sobre a cidade, sobre o que ela esconde (principalmente) ou revela, da maneira como apresenta seus espaços e estúdios a céu aberto, em meio a rochedos que poderiam capturar algo da velha Hollywood (do faroeste nostálgico) e, no entanto, só trazem um pouco mais de indefinição para o personagem central.

 

Knight of cups, EUA, 2016 Diretor: Terrence Malick Elenco: Christian Bale, Brian Dennehy, Wes Bentley, Cate Blanchett, Natalie Portman, Imogen Poots, Teresa Palmer, Isabel Lucas, Freida Pinto, Antonio Banderas, Nick Offerman, Jason Clarke, Joel Kinnaman, Kevin Corrigan, Cherry Jones, Armin Mueller-Stahl Roteiro: Terrence Malick Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Hanan Townshend Produção: Nicolas Gonda, Sarah Green, Ken Kao Duração: 118 min. Distribuidora: Broad Green Pictures

 

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