New York, New York (1977)

Por André Dick

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A década de 1970 possivelmente foi a derradeira no que se trata da evolução dos musicais, com títulos como Um violinista no telhado, Cabaret, Jesus Cristo Superstar, All That Jazz e Hair. Não por acaso, no final dela, mais precisamente em 1977, Martin Scorsese decidiu fazer sua obra musical. Depois do superestimado Caminhos perigosos, o diretor realizou os ótimos Alice não mora mais aqui e Taxi Driver, pelo qual recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Foi este prêmio, num período pessoalmente difícil para Scorsese, que deve tê-lo feito aspirar a realizar uma síntese dos musicais em New York, New York. Fala-se que os atritos nos bastidores, inclusive pelo problema de Scorsese com drogas, prejudicaram sua realização, e Marcia Lucas, mulher à época de George, abandonou a montagem de Star Wars para tentar salvar o filme do amigo.
Numa primeira visualização, ficam claros os problemas de montagem: o longa teria quatro horas de duração inicialmente, mas foi lançado com 155 minutos (a versão lançada em DVD teria 163), tornando-se um fracasso no mesmo ano em que os amigos de Scorsese, Lucas e Spielberg, lideraram nas bilheterias com Guerra nas estrelas e Contatos imediatos do terceiro grau.

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Quando se inicia a história, Jimmy Doyle (Robert De Niro) tenta conquistar Francine Evans (Liza Minnelli), numa festa de vitória dos Estados Unidos sobre o Japão, em 1945. Este longo início é talvez aquilo que sintetize New York, New York: há um nervosismo no comportamento dos personagens, e Doyle pretende convencer Francine a aceitá-lo. O clube em que se encontram está tomado de gente, assim como as ruas, como se fosse uma contraposição ao estado solitário dessas figuras, que ainda não encontraram o amor e a arte que tanto buscam. Aos poucos, descobrimos que ele é um saxofonista e ela, cantora. Depois de uma apresentação de Jimmy no Palm Club ao seu proprietário (Dick Miller), ele é chamado para um emprego e ela chamada para uma turnê com a banda de Frankie Harte (Georgie Auld); ele depois vai alcançá-la. O casal se sente um complemento sob o ponto de vista do figurino e dos trejeitos, mas há uma larga distância entre os dois na maneira de agir.
No entanto, Scorsese transforma a diversão de Doyle em uma espécie de raiva insuspeita contra o talento de Francine. New York, New York torna-se não um musical exatamente clássico, mas um estudo sobre como um músico não consegue aceitar o talento de sua mulher. Isso leva o espectador a ter dificuldades de aceitar principalmente Doyle, com seu comportamento agressivo em relação a Francine e ao que ela pode acrescentar artisticamente. Trata-se, à primeira vista, de um incômodo, mas, em segundo plano, de uma grande aceitação de Scorsese para o plano psicológico, o que se tornou característico em sua carreira: o músico não deixa de lembrar Pupkin (de O rei da comédia), também interpretado por De Niro, no entanto, há aqui um trabalho psicológico perturbador que deve ter escapado a análises sobre o filme.

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Há sequências, nesse sentido, bastante interessantes, como a briga de trânsito ou o momento em que Doyle, enciumado de sua namorada, arranja briga num clube noturno e é levado para um túnel de neons. Até então, Scorsese alternava o interesse pelas figuras masculinas mais do submundo, em Caminhos perigosos, com retratos de mulheres, em Sexy e marginal, com uma Barbara Hershey ainda muito jovem, e Alice não mora mais aqui, sobre uma mãe que tenta criar seu filho sozinha. Em New York, New York é como se ele procurasse uma síntese sobre uma relação de casal, o que viria a desenvolver  em sua trajetória mais no sentido do conflito, como em Touro indomável e O lobo de Wall Street.
O compositor John Kander e o letrista Fred Ebb fizeram aquele que é o tema mais marcante sobre a cidade de Nova York, mas outros temas, como “Happy endings”, ajudam a colocar New York, New York no rol dos grandes musicais já feitos em Hollywood. A textura proporcionada por suas imagens abre um diálogo em homenagem tanto à antiga Hollywood quanto ao que viria depois, com Coppola, por exemplo, em O fundo do coração. E tende-se cada vez mais a dizer que uma das grandes influências de Chazelle para seu La La Land é esta obra de Scorsese.

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A fotografia de László Kovács ajuda a criar essa mescla entre cidade real e cenários imaginários, principalmente do interior do país, onde o casal vai excursionar. Este fragmento de filme que se passa durante a turnê costuma ser confundido com uma espécie de sonho de seus personagens, tanto no design de produção quanto em seus figurinos. É quando eles realmente parecem adotar um caminho idealizado que, depois, vai se manifestar em novos conflitos, na tentativa de um dos personagens em se isolar da realidade e ver tudo conforme sua percepção, sem importar-se com qualquer resquício de sentimento compreensivo quanto às atitudes alheias. Scorsese lida com esses elementos de maneira muito interessante, fazendo com que os personagens não se tornem nunca previsíveis, no entanto cada vez mais instáveis para a própria narrativa. Ele faz isso para construir um final absolutamente inovador e ressonante, conduzido com tanto cuidado que o espectador se sente assistindo a um musical definitivo sobre como fazer musicais. Talvez esteja aí a maior essência de New York, New York: sem ter sido reconhecido na época de seu lançamento, atraindo pouca bilheteria e críticas contundentes, ele se tornou, com o passar dos anos, num movimento interessante para compreender o próprio gênero e suas ambições temáticas, tal como Doyle via na verdadeira artista que o cercava.

New York, New York, EUA, 1977 Diretor: Martin Scorsese Elenco: Robert De Niro, Liza Minnelli, Lionel Stander, Barry Primus, Mary Kay Local, Frank Sivero, Georgie Auld, George Memmoli, Harry Northup, Dick Miller, Clarence Clemons, Casey Kasem, Adam Winkler, Jack Haley Roteiro: Earl MacRauch, Mardik Martin Fotografia: László Kovács Produção: Irwin Winkler, Robert Chartoff Duração: 163 min. Estúdio: Chartoff-Winkler Productions Distribuidora: United Artists