50 melhores filmes dos anos 80

 Por André Dick

Abaixo, uma lista dos 50 melhores filmes dos anos 1980 segundo o Cinematographe. As listas completas dos melhores filmes de cada ano dessa década estão nesta página. E os cartazes dos 50 escolhidos nesta. Importante assinalar que o visual das imagens é baseado naquele utilizado pelo MUBI.

Meu amigo Totoro.Melhores filmes dos anos 80

Não amarás.Melhores filmes dos anos 80O urso.Melhores filmes dos anos 80

De volta para o futuro.Melhores filmes dos anos 80

Furyo.Melhores filmes dos anos 80

Betty Blue.Melhores filmes dos anos 80

Nascido para matar.Melhores filmes dos anos 80

Era uma vez na América.Melhores filmes dos anos 80

Nostalgia.Melhores filmes dos anos 80

Aliens.Melhores filmes dos anos 80

Os Goonies.Melhores filmes dos anos 80

Scarface.Melhores filmes dos anos 80

Duna.Melhores filmes dos anos 80

Gremlins.Melhores filmes dos anos 80

Ran.Melhores filmes dos anos 80

Império do sol.Melhores filmes dos anos 80

Sociedade dos poetas mortos.Melhores filmes dos anos 80

O retorno de Jedi.Melhores filmes dos anos 80

O segredo do abismo.Melhores filmes dos anos 80

O homem elefante.Melhores filmes dos anos 80

Blade Runner.Melhores filmes dos anos 80

A cor púrpura.Melhores filmes dos anos 80 2

Tootsie.Melhores filmes dos anos 80

A missão.Melhores filmes dos anos 80 2

Pecados de guerra.Melhores filmes dos anos 80

Cinema Paradiso.Melhores filmes dos anos 80

Batman.Melhores filmes dos anos 80

Os eleitos.Melhores filmes dos anos 80

Paris, Texas.Melhores filmes dos anos 80

Os caçadores da arca perdida.Melhores filmes dos anos 80

Sangue ruim.Melhores filmes dos anos 80

Minha vida de cachorro.Melhores filmes dos anos 80

O fundo do coração.Melhores filmes dos anos 80

A história sem fim.Melhores filmes dos anos 80

O barco.Melhores filmes dos anos 80

O rei da comédia.Melhores filmes dos anos 80

A mulher do aviador.Melhores filmes dos anos 80 3

O iluminado.Melhores filmes dos anos 80

Amadeus.Melhores filmes dos anos 80

Pelle.Melhores filmes dos anos 80

Os intocáveis.Melhores filmes dos anos 80

Fanny e Alexander.Melhores filmes dos anos 80 2

Veludo azul.Melhores filmes dos anos 80 2

Vá e veja.Melhores filmes dos anos 80

O portal do paraíso.Melhores filmes dos anos 80

E.T. Melhores filmes dos anos 80 2

80 anos de Ridley Scott

Por André Dick

O cineasta britânico Ridley Scott comemora hoje 80 anos de idade. Algumas críticas sobre filmes dele, publicadas no Cinematographe e no Letterboxd, como homenagem a um dos grandes cineastas da história.

Alien – O 8º passageiro (1979)

Blade Runner – O caçador de androides (1982)

Thelma & Louise (1991)

Gladiador (2000)

Cruzada (2005)

Um bom ano (2006)

Prometheus (2012)

O conselheiro do crime (2013)

Êxodo – Deuses e reis (2014)

Perdido em Marte (2015)

Alien: Covenant (2017)

Abaixo, um TOP 10 de sua carreira:

O siciliano (1987)

Por André Dick

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A lamentável morte de Michael Cimino, aos 77 anos, no dia 2 de julho me lembrou o quanto eu admirava os filmes dele e sua maneira de fazer cinema. De O franco-atirador, passando por O portal do paraíso e O ano do dragão, até Na trilha do sol, são todos bem construídos e interpretados. Não havia visto, porém, O siciliano, mais uma obra dele que rendeu polêmica antes de seu lançamento, pois Cimino gostaria de lançar a versão sua de 150 minutos, e a Fox optou por uma mais sintética, de 115 minutos. Desentendimentos vieram à tona, e a questão foi levada à via judicial. Assisti à versão em Blu-ray do filme, lançada em março deste ano, com 146 minutos, ou seja, mais próxima da visão de Cimino. Este é um cineasta infelizmente rotulado como aquele que passou do Oscar de melhor filme e diretor a uma obra que decretou a falência da United Artists, e quase nunca analisado pelo que de fato fez, e O siciliano prova que é preciso realmente conhecer seu legado.
Baseado em romance de Mario Puzo, o mesmo de O poderoso chefão, o roteiro de Steve Shagan e Gore Vidal (não creditado), mostra a trajetória de Salvatore Giuliano (Cristopher Lambert, que pouco tempo antes fizera Greystoke e Highlander), nos anos 40, que se transforma numa referência da Sicília. Nascido em Montelepre, oeste de Palermo, uma cidade muito pobre, ele rouba dos ricos para dar aos mais necessitados, como uma espécie de Robin Hood.

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Ele já começa em alta velocidade, em Crotone, mostrando ele e seu parceiro e primo Gaspare “Aspanu” Pisciotta (John Turturro) carregando um caixão com milho para levar aos famintos camponeses, mas barrados por dois policiais. Na fuga, eles chegam ao pátio de uma duquesa local, Camilla (Barbara Sukowa), onde roubam dois cavalos para escaparem. Ferido, Giuliano se esconde num mosteiro, aos cuidados do abade Manfredi (Tom Signorelli), amigo de Aspanu. Acontece que o local é já dominado por um chefe mafioso, Don Masino Croce (Joss Ackland). Na região de Montelepre, também há o príncipe Borsa (Terence Stamp) e um interesse amoroso de Giuliano, Giovanna Ferra (Giulia Boschi), irmã de Silvio (Stanko Molnar). Suas ações passam a ser vistas com repreensão por Don Masino, do tipo que pretende obter um diploma de médico para o sobrinho sem que ele estude.
De qualquer modo, ele parece admirar Giuliano, mesmo que este se conserve escondido com seu numeroso grupo no alto das montanhas Cammaratta e faz lembrar que ninguém consegue ter domínio sobre ele: nem a máfia, nem os donos de terras nem a Igreja. Para libertar os prisioneiros do lugar, dos quais se destacam Passatempa (Andreas Katsulas) e Terranova (Derrick Branche), Giuliano enfrenta Silvestro Canio (Michael Wincott) e, aos poucos, ele precisa confrontar algumas pessoas que o traem, como o barbeiro Frisella (Trevor Ray). E sempre protegido pelo padrinho Hector Adonis (Richard Bauer), professor de literatura na Universidade de Palermo. Por sua vez, cada vez mais descontente com Giuliano, Don Masino se junta ao ministro da Justiça da Itália, Franco Trezza (Ray McAnally).

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O siciliano trabalha com alguns temas comuns na filmografia de Michael Cimino, sobre a disputa de terras, com uma discussão política e ideológica por trás, a exemplo do clássico O portal do paraíso, e a temeridade dos homens por meio da violência. Aqui, especialmente, essa temeridade se junta a uma crítica em relação à Igreja, como Coppola faria alguns anos depois em O poderoso chefão III, assim como enxerga em Giuliano uma espécie de messias totalitário, sem leis e sem discurso claro, para o povo oprimido, utilizando a violência quando bem entende. Os personagens de Cimino sempre estão em guerra, não tendo certeza sobre seus objetivos. Se dois de seus filmes remetiam diretamente ao Vietnã (O franco-atirador e Horas de desespero), este se sente mais próximo de uma análise sobre a sociedade dos anos 40 e 50 feita nos anos 70 das mais diversas formas – e que Cimino traduz para uma linguagem mais contemporânea, usando muitos cortes de montagem e não deixando exatamente clara a trama, recaptando certa simbologia (e não por acaso em plena Guerra do Afeganistão dos anos 80 há tantas referências ao comunismo). Por exemplo, Cimino retrata um acontecimento importante do 1º de maio, quando surge um grupo de pessoas nas cidades de Piani dei Greci e San Giuseppe Jato, até chegarem a uma planície chamada Portella della Ginestra. É um momento típico da filmografia de Cimino, remetendo à batalha final de O portal do paraíso.

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Lamenta-se que o roteiro hesita no momento de mesclar tais referências com os diálogos e mesmo algumas situações se sintam deslocadas. Também as figuras femininas não são trabalhadas da maneira mais interessante, colocando Giuliano em algumas situações ambíguas e não tão bem exploradas, como aquela em que encontra a duquesa Camilla, rendendo uma sequência involuntária de humor. E, mesmo nesta versão estendida, O siciliano se sente com lacunas em determinados pontos. Há elementos de grandeza, mas elas não são às vezes aproveitadas como poderiam.
Entretanto, a belíssima fotografia de Alex Thomson (Excalibur, Labirinto) capta bem a Sicília reimaginada por Cimino, assim como a trilha de David Mansfield, seu habitual colaborador, se equilibra entre a calmaria e a tensão. Fala-se que Lambert não está bem no papel (seu nome foi uma aposta pessoa do diretor), e ele nunca foi realmente um ator expressivo, mas ao mesmo tempo isso lhe proporciona a uma certa humanidade (principalmente quando se esconde entre os padres para retomar seus planos na comunidade). O siciliano tem qualidades que o afastam de qualquer consideração de que seria um desastre, pelo menos em sua versão estendida; pelo contrário, é um cinema apaixonado por imagens e tem outras atuações muito boas, como as de Bosch, Ackland, Turturro e Stamp. Cimino mais uma vez apresenta uma tentativa de dialogar com Coppola (com quem competia), e deve-se esclarecer que o romance original de Puzo trazia também os Corleone em certos pontos da história, apesar de, definitivamente, não atingir o patamar de O poderoso chefão. Ainda assim, é fascinante como Cimino consegue captar o clima dos anos 40 e 50 com uma produção menos suntuosa, baseado apenas em impressões com o trabalho de fotografia de Thomson e no desenho de produção cuidadoso de Wolf Kroger. O siciliano, como toda a filmografia de Cimino, merece uma reavaliação. É um cinema autoral cada vez mais raro.

The sicilian, EUA, 1987 Diretor: Michael Cimino Elenco: Christopher Lambert, Terence Stamp, Joss Ackland, John Turturro, Richard Bauer, Giulia Boschi, Andreas Katsulas, Derrick Branche, Michael Wincott, Trevor Ray, Ray McAnally Roteiro: Steve Shagan e Gore Vidal Fotografia: Alex Thomson Trilha Sonora: David Mansfield Produção: Joann Carelli, Michael Cimino, Bruce McNall, Sidney Beckerman Duração: 115 min. (original); 146 min. (estendida) Distribuidora: 20th Century Fox

Cotação 4 estrelas

 

Duna (1984)

Por André Dick

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Este texto é dedicado à minha mãe, Cenira Dias Dick, admiradora da obra de David Lynch

Dino de Laurentiis e sua filha Raffaella produziram este filme, baseado no romance de Frank Herbert, que vinha de uma sucessão de projetos não concluídos (Ridley Scott dirigiria o filme em determinado momento, além de Jodorowsky, o que rendeu um documentário recente sobre como seria sua versão). Anos atrás, o diretor Peter Berg (de Hancock, Battleship…) teria desistido de uma nova versão, considerando uma obra infilmável, mesmo avaliando que a versão de Lynch não tinha a ação que ele imaginava quando leu Duna, o que é estranho, já que o romance de ficção científica de Herbert pode ser considerado mais psicológico do que propriamente de aventura – e é difícil pensar que Berg conseguiria realizar um trabalho como o de Lynch.
Superprodução de 40 milhões de dólares que não encontrou muito público nas bilheterias, embora tenha se tornado, com o passar dos anos, cult movie, Duna tem uma versão estendida (de 177 minutos) feita para a TV, acompanhada, ainda, por algumas cenas deletadas (que somam em torno de 10 minutos) que Lynch não assina, mas é melhor o filme ser visto na versão de cinema, mais curta (137 minutos), em DVD e Blu-Ray (neste formato, temos a melhor apresentação, assim como algumas cenas deletadas que não estão nos demais meios).
A introdução da versão oficial, por exemplo, é muito superior, pois não menospreza o entendimento do espectador, enquanto a versão mais extensa tem uma narração entre os blocos e a eliminação de uma ou outra cena mais pesada para o meio televisivo, além de cenas repetidas e o aspecto inacabado das imagens que não entraram na versão lançada nos cinemas, apesar de ter novas cenas-chave (interessantes para compreender melhor a relação entre alguns personagens). Ou seja, é difícil ter uma ideia exata do que Lynch queria, pois nenhuma das versões é aquela que gostaria de ter feito efetivamente, mas o que existe em Duna mostra seu brilhantismo como cineasta.
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Cheguei ao romance por meio do filme e é comum se dizer que Lynch não explica nada. Esqueçamos, inicialmente, a montagem imposta pelos De Laurentiis. Em parte, o filme não consegue a expansão dos detalhes de Herbert, entretanto a tentativa é válida, pois Lynch respeita o material de origem, assim como acrescenta seu estilo, tratando com respeito a opulência visual que desperta o romance – não parece por acaso que o próprio Herbert diz ter gostado da adaptação.
A história se passa em 10.191 e remete ao povo do planeta Arrakis – completamente deserto –, chamado Fremen, que aguarda a chegada de um Messias, que seria Paul Atreides (Kyle MacLachlan, muito bem, com sua frieza, misturada com ingenuidade, característica), do planeta Caladan, cheio de mares – e sua água terá papel decisivo no filme. Porém, a família precisa agir sob as ordens do imperador do universo, Shaddam IV, que, querendo dar o poder de Arrakis aos Harkonnens, do Planeta Gide Prime, trai os pais do messias: o Duque Leto Atreides (Jürgen Prochnow) possui um anel de poder cobiçado, e Lady Jessica (Francesca Annis), sua mulher, é uma Bene Gesserit, linhagem de sacerdotistas que tenta impedir a chegada desse messias, querendo sempre resguardar uma magia estranha. A Madre Reverenda (Sian Phillips), que serve ao Imperador, lembra que Jessica não podia ter gerado um filho, pois ele pode ser o Kwisatz Haderach, aquele que pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. “O adormecido deve despertar”, diz Duque Leto ao filho, que vive cercado por professores, de Gurney Halleck (Patrick Stewart), passando por Wellington Yueh (Dean Stockwell), até Thufir Hawat (Freddie Jones). É justamente o que teme a Guild Navigator, que deseja destruir os Atreides.
O vilão é o Barão Vladimir Harkonnen (Kenneth McMillan, excelente), que tem dois seguidores, Rabban e Feyd Rautha (Paul Smith e Sting, muito bem) a seu lado – com comportamento pervertido – e outros ajudantes estranhos (entre as quais, Brad Dourif e Jack Nance), todos interessados na especiaria existente em Arrakis, que ajuda na locomoção das naves no espaço e pode representar o domínio do universo.

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Comenta-se que o filme é confuso por já começar explicando o que acontecerá dali em diante. Se formos ao livro de Frank Herbert, veremos, ao longo dele, trechos do diário da Princesa Irulan (Virginia Madsen), que conta o que acontece com os personagens. Lynch acerdatamente começa com essa narração e, mesmo seguindo quase fielmente as sequências do livro, reordena de forma com que o filme vá ganhando um tom crescente (não por acaso, a câmera se afastando do olhar de Irulan para mostrá-la contra o espaço sideral cria um contraponto ao final com a câmera se aproximando dos olhos de Paul Atreides), Herbert tem um estilo interessante de apresentar os personagens, mas o filme não pode entrar no universo sem antes tentar explicá-lo.
Identifica-se também como um problema os pensamentos em off dos personagens. Lynch não é Malick, contudo o fato é que aqui também ele é fiel ao livro. Os pensamentos parecem óbvios, mas tanto no livro quanto no filme criam um elemento de onirismo (os personagens não estão completamente acordados).
Ao mesmo tempo, o vocabulário seria complicadíssimo (quando passou nos cinemas dos Estados Unidos, parece que os espectadores recebiam uma espécie de manual para acompanhar a história!). Tratando-se de uma ficção científica mitológica, não parece haver obrigação de Lynch explicar o sentido de cada termo dado por Herbert, nem de, por respeito aos fãs do livro, escondê-lo.

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E os personagens, também no livro, são diversificados, surgem e desaparecem em alguns casos, ou seja, algumas vezes não desenvolvidos suficientemente. Quase não há ação ou humor – costuma-se comparar O senhor dos anéis com Duna, mas são, afora o universo mitológico, muito distintos, cada um possui qualidades específicas –, e sim muitos diálogos sobre intrigas de poder e política, com um tom, ao mesmo tempo, ecológico e religioso, quase teatral e profético. Há uma espécie de tensão de domínio entre os personagens (o Barão cujo destino está nas mãos das reverendas; o adolescente que precisa despertar para seu destino e salvar seu pai; a relação estranha entre o Barão e seu sobrinho; a tentativa de subjugar o povo Fremen). Além disso, no filme, Lynch tenta equilibrar, levantando uma tensão a respeito do anel que carrega o Duque Leto e é cobiçado pelo Barão Harkonnen, assim como guarda um mistério sobre quem pode ser o traidor infiltrado entre os Atreides (algo que se revela de início no livro). Alguns personagens de destaque no livro, como Dr. Kynes, Guy Halleck, Shadout Mapes e pai de Paul Atreides, aparecem mais na versão do filme feita para a TV. Outros, como o Imperador Shadam IV e a reverenda que o acompanha, pouco aparecem no livro, entretanto Lynch tenta destacá-los nas versões existentes do filme.
Já  alguns personagens têm suas características acentuadas, como o do próprio Barão, que no livro não parece ter toda a perversidade imaginada por Lynch.
Talvez Lynch tenha se equivocado com a inserção dos módulos de destruição, efetuados por meio da sonoridade da voz, o que é elementar em seu cinema (o poder do som), mas não existe no livro e não encaixa bem na história, sobretudo sem mostrar como são construídos, mesmo Paul Atreides tendo sua planta. Ainda assim, esses módulos de voz têm a ver com sua obra cinematográfica, em que o som humano sempre exerce um poder (não por acaso, a ação de Veludo azul é desencadeada depois da descoberta de uma orelha num capinzal).

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A maior falha do filme Duna, porém, é que depois de 90 minutos de filme (na versão mais curta; quase duas horas depois na versão estendida), a trama passa a ganhar um ritmo mais intenso, impedindo que conheçamos melhor os personagens. Muitos acontecimentos se sucedem em poucos minutos (por isso, a versão estendida é curiosa). Na parte que precede seu final, está a maioria das cenas deletadas de Duna (o duelo entre Paul Atreides e um fremen; a conversão de um corpo em líquido; o nascimento da irmã de Paul; a perseguição de Rabban aos fremen no deserto; a descoberta de como é produzida a Água da Vida). Raffaella De Laurentiis, filha de Dino, acrescenta que isso se deu, também, porque foi pedido a Lynch que fizesse sete cenas em apenas uma, o que prejudicaria um projeto como este, elaborado em três anos e meio. Também, claro, porque a montagem final não foi a desejada por Lynch. Raffaella explica que a Universal, depois, tentou fazer uma versão estendida, embora Lynch não tenha participado, sem explicar se era opção do diretor, dela ou da Universal. O fato é que até hoje Lynch se nega a falar do filme, e a revisitá-lo, sobretudo porque foi feita essa versão de três horas para a TV sem a sua autorização.
De qualquer modo, Duna é – com ou sem falhas – fascinante, o que o torna um grande filme. Não há a confusão sugerida pela crítica à época, ainda menos uma alegada falta de produção (direção de arte, figurino, fotografia) caso o espectador se deixe levar pelas imagens já oníricas aqui do diretor, misturando água, fogo, terra e ar, mas sobretudo as dunas do planeta. Da metade para o final, é certo que estamos diante de um sonho de Paul Atreides – como os personagens de vários filmes de Lynch (no roteiro original de Duna, lá está, em determinada parte: “O sonho continua”). Por isso, os filmes posteriores do cineasta parecem explicar melhor Duna, e mesmo o contrário. Já no início, Paul Atreides sonha com o que irá acontecer a ele: a mulher que irá conhecer e o corpo flutuando no espaço – depois da experiência que terá com a Água da Vida –, a risada de Feyd Rautha (Sting). Em outro momento, depois da queda de sua nave no deserto, antes de conhecer os Fremen, Paul terá um sonho acordado (e numa das cenas da versão estendida há outro momento em que ele visualiza a lua, que determina seu destino). Ele pode ser Muad’ib ou o Kwisatz Haderach, aquele adormecido que deve despertar.

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Nesse sentido, Lynch também é fiel, aqui, a Herbert, que explora vários diálogos sobre o sonho. As cenas de imagens esfumaçadas remetem a O homem elefante e Cidade dos sonhos, assim como a caixa da Bene Gesserit – em que Paul precisa colocar sua mão, a fim de passar por um teste – tem muito da caixa da atriz Rita, de Cidade dos sonhos, e o anel ducal que carrega o pai de Paul influenciaria, certamente, o anel com que Laura Palmer sonha na versão cinematográfica de Twin Peaks (aliás, na primeira cena de sonho de Twin Peaks, temos Jürgen Prochnow, o ator que faz o Duque Leto, num canto da sala). Isso sem falar na óbvia ligação com Eraserhead, primeiro filme de Lynch – a tomada de um verme se abrindo é idêntica à deste filme (o nascimento de Alia lembra o bebê de Spencer).
O elenco, apesar de a maioria ter participações rápidas, é muito bem escolhido, sobretudo Jürgen Prochonow e Francesca Annis, como os pais de Paul Atreides, Max von Sydow, na pele de um Fremen, Sian Phillips, no papel da reverenda ameaçadora, Brad Dourif e Kenneth McMillan – como harkonnens – e Sting (numa participação curta e eficiente). A atriz Sean Young, como Chani, namorada de Atreides, acaba tendo uma boa presença plástica, embora o roteiro não permita mais participação, e a meia hora final é muito bem pensada – com uma cena surpreendente, que suplanta alguns efeitos especiais mais precários (não se sabe se as naves são mais estáticas para ser uma contraposição à movimentação de Star Wars, pois Lynch pediu a todos que não queria um ar de ficção científica em sua obra, preferindo um futurismo passadista, e já que Duna é mais uma ficção psicológica, entretanto na maior parte das vezes não convencem, servindo mais como imagens pictóricas). Nesse sentido, o filme consegue retratar melhor as batalhas na areia e dos vermes do que revelar imagens de naves espaciais, ainda mais diante das ficções científicas de destaque feitas anteriormente (como 2001, Star wars e Blade Runner) e, sobretudo, posteriormente – embora sua direção de arte de Anthony Masters (de Lawrence da Arábia e 2001), as maquetes perfeitas de Emilio Ruiz del Río, e as imagens dos vermes (criados por Carlos Rambaldi, o mesmo responsável pela concepção de E.T. e do King Kong de 1976) compensem isso, criando um universo muito mais amplo do que 2001 e Blade Runner, situados em lugares definidos.

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Nesse sentido, há boas cenas de ação (como aquelas que mostram os vermes gigantes) e, no plano técnico, direção de arte, maquiagem e figurino notáveis, além da fotografia do mesmo Freddie Francis de O homem elefante. Destaque-se que Duna concorreu apenas ao Oscar de melhor som. Nessas categorias referidas, talvez ele tivesse como concorrente, em 1984, apenas Amadeus e 2010 – sendo, a meu ver, superior em todas essas categorias em relação a esses dois, sobretudo por criar um universo, e não simplesmente recriar um já existente. No prêmio Saturn Awards, mais importante da ficção científica, ele foi reconhecido com indicações (melhor filme, melhor maquiagem, melhores efeitos especiais) e recebeu um (melhor figurino, Idade Média e futurismo, foi feito de forma notável por Bob Ringwood (responsável pelos figurinos de Excalibur, Império do sol e Batman).
Impressiona como Lynch, reunindo uma grande equipe em estúdios do México, em 1983, conseguiu reproduzir o universo imaginado por Herbert, sobretudo nas cavernas e palácios, inclusive porque o romance não descreve detalhadamente os cenários, preferindo concentrar-se nos personagens. Esses cenários como que simbolizam os personagens, frios e simétricos, esperando um sentido para a Água da Vida. Consequentemente, cada planeta de Duna corresponde a uma concepção visual: Caladan tem mares e chuva, com plantas, vento e umidade; Gied Prime tem um ambiente de máquinas, correntes, fios e iluminações futuristas, além de uma cor verde doentia nas paredes; Arrakis tem o clima de deserto, com coloração amarela, e cavernas escuras; e Kaitain, onde fica a sede do imperador, tem edifícios tecnológicos.

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Não há dúvida de que a concepção de Masters, baseada em muitos desenhos de Lynch, cria um universo magnífico.Eu diria que vale a pena conhecê-lo, pois tem imagens notáveis, que lembram pinturas – sua força é, sem dúvida, pictórica e sonora –, explicando o fato de Lynch ter preferido fazer este filme a dirigir O retorno de Jedi, fazendo com que não desenvolva alguns aspectos, que soariam repetitivos, e o cineasta não queira mais, hoje, falar do filme em entrevistas. Além disso, tenho especial apreciação pela trilha de Toto, misturando um tom épico com algumas sonoridades dos anos 80, mas sem ficar datado. Lynch construiu a maior ficção científica com elementos do rock no figurino e na música.
Duna e a obra de Herbert certamente influenciariam Lynch para toda sua carreira, sendo uma pena que ele não reconheça mais o filme. Mesmo com o desinteresse da Universal, é certo que os admiradores da obra gostaria de ver um dia seu corte final. E parece algo espantoso, embora reserve-se o direito, que, mesmo com esse desejo, Lynch pareça não dar importância – apenas pareça, pois ele produz diálogos com Duna em outras obras suas. Nesse sentido, não se trata de uma obra aprovada plenamente por ele, mas o que conhecemos, ainda assim, forma uma peça única de ficção científica, que parece sempre melhorar numa releitura, além de sua fascinação.

Dune, EUA, 1984 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Kenneth McMillan, Jürgen Prochnow, Sean Young, Francesca Annis, Leo Cimino, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Freddie Jones, Max von Sydow, Virginia Madsen, Richard Jordan, Patrick Stewart, Sting Produção: Raffaella de Laurentiis Roteiro: Eric Bergren, Christopher de Vore, David Lynch, Rudolph Wurlitzer Fotografia: Freddie Francis Trilha Sonora: Toto Duração: 137 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis

Cotação 5 estrelas

O rei da comédia (1983)

Por André Dick

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A parceria entre Martin Scorsese e Robert De Niro rendeu alguns dos melhores filmes que ambos já fizeram: embora Touro indomável seja ainda o mais respeitado e elogiado, e Taxi Driver tenha o status mais forte de cult, não se pode menosprezar a importância de Os bons companheiros e Cabo do medo, e um pouco menos Cassino. Há também aquelas parcerias mais desconhecidas (New York, New York). No entanto, pode-se dizer que a mais subestimada é justamente aquela que apresenta o melhor momento dos dois em toda a sua trajetória: O rei da comédia é uma obra-prima quase esquecida em meio a todo esse punhado de grandes filmes. É curioso que, depois dele. Scorsese ficou alguns anos atrás de financiamento para seus projetos seguintes em razão do seu fracasso nas bilheterias. Mais ainda é imaginar que Scorsese ganhou o Oscar tão perseguido em sua carreira com o bem menos interessante Os infiltrados, da fase cansativa com DiCaprio (com a exceção de Gangues de Nova York).
Possivelmente também, em nenhum outro filme Scorsese conseguiu utilizar o nervosismo de uma trama com a humanidade correspondente do personagem principal, Rupert Pupkin (De Niro), um aspirante a estrela de comédia, que determinado dia consegue entrar no carro de Jerry Langford (Jerry Lewis), um famoso apresentador de TV, para tentar convencê-lo a lhe dar uma chance. Langford lhe promete um encontro, como uma espécie de despiste, enquanto Pupkin imagina que realmente ele conseguirá um espaço em seu programa. Interessado por Rita (Diahnne Abbott), que trabalha num bar, ele imagina a sua vida transformada com o acontecimento de se apresentar na TV. Pupkin passa a procurar Langford, em seu escritório, todos os dias, a fim de tentar revelar o seu trabalho. Primeiro, tenta encontrá-lo como uma extensão do primeiro encontro; depois, quando pedem que prepare uma fita com sua apresentação, tenta se mostrar feliz.

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A sala de recepção do programa é um primor visual, com um ambiente asséptico e um tanto futurista, áspero em se tratando de um ambiente onde trabalha um comediante, com a atendente por trás de um vidro que parece mais uma cabine de espaçonave, escondendo uma sucessão de escritórios organizados o suficiente para manter um programa que pode trazer, inclusive, bom humor. Pupkin é insistente. Volta ao lugar todos os dias e tenta se livrar da parceria com Marsha (Sandra Bernhard), que também se mostra excessivamente presa à figura de Langford. Uma assistente de produção, Cathy (muito bem interpretada por Shelley Hack) tenta se livrar da sua presença. Na verdade, ele quer mostrar o quanto consegue, por meio de suas piadas, relatar a sua história e seu cotidiano. No entanto, o seu cotidiano também se mistura com a fantasia, e se destaca aquela cena em que ele contracena com os cartazes de Langford e Liza Minnelli.
O rei da comédia é um filme de roteiro e montagem, da parceira habitual de Scorsese, Thelma Schoonmaker, sempre se mostrando eficiente nos cortes de cena e no crescente. Não apenas em razão do personagem de Pupkin, mas também em razão de Langford, a trama não se mostra aberta a um stand-up, com piadas. No entanto, há uma ironia cáustica em cada comportamento de Pupkin, e, depois de um início em que Scorsese tenta equilibrar esse humor negro com um lado mais cômico (sem se perder como em comédias de humor negro em que o personagem central persegue alguém, e lembro especificamente daquele The cable guy, com Jim Carrey), ele vai, aos poucos, colocando na superfície do filme uma segunda camada de existência e tragédia. Embora Scorsese tenha um especial talento para desenvolver personagens com problemas psicológicos – e De Niro encarnou vários nesses filmes que fez em parceria com o diretor –, talvez ele nunca tenha conseguido, como aqui, desenvolver poucos personagens em poucas situações de maneira tão convincente.

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Isso se deve ao trio principal, De Niro, Lewis e Bernhard. Especialmente De Niro consegue uma atuação que deixa mesmo o seu Jake La Motta, de Touro indomável, em segundo plano, com uma dosagem equilibrada entre a comédia e a excentricidade do personagem, compondo um Pupkin antológico, com seu figurino colorido (sobretudo a cor dos sapatos e da gravata contrastando com o terno); a ele dá respaldo o mau humor do cotidiano de Pupkin diante da situação inusitada de ser perseguido. Durante boa parte do filme, não vemos Langford, já que ele tenta escapar do fã, porém isso só desenha ainda mais o distanciamento desejado por Scorsese entre o universo televisivo e sua contrapartida do lado do espectador. Por sua vez, Bernhard é um misto entre espanto, obsessão e oportunismo, e pertence a ele a sequência, mais ao final, mais inusitada, embora eu prefira ainda o clímax.
Scorsese consegue fazer com que Pupkin seja uma espécie de contador de histórias impulsivo, como é o próprio diretor, entretanto isso em nenhum momento faz com que o espectador se afaste de sua condição, por repulsa ou algo parecido. Se no início há um sentimento de paranoia no ar – e a paranoia é o elemento-chave de Travis Bickle, de Taxi Driver, sendo De Niro apto para dar este movimento –, com elementos que remetem mesmo a Psicose, no seu restante O rei da comédia vai colhendo algumas características de um drama agridoce, contido em seu olhar, mas ainda assim original ao extremo no tratamento que dá ao show business e à visão que se tem da comédia. Claramente, estamos diante de um personagem que vive isolado e se alimenta da imagem de pessoas que riem congeladas no corredor de sua mente. Langford, com sua mesa vazia e o telefone inconveniente tocando, não deixa de ser seu mais claro contraponto. É de se imaginar por que esse roteiro de Paul D. Zimmerman atraiu tanto Scorsese, e pode-se imaginar que foi justamente na fase do diretor em que as dificuldades não foram atenuadas por Touro indomável, e tentar sorrir em cima das dificuldades ainda era um caminho, numa época em que ainda estava tentando se situar num mercado em que seus companheiros Spielberg e George Lucas praticamente lideravam. Para Pupkin, como para Scorsese, o sucesso não é mais do que um prato que se come frio.

The king of comedy, EUA, 1983 Direção: Martin Scorsese Roteiro: Martin Scorsese, Paul D. Zimmerman Elenco: Robert De Niro, Jerry Lewis, Diahnne Abbott, Sandra Bernhard, Shelley Hack, Bill Minkin, Cathy Scorsese, Ed Herlihy, Tony Randall Produção: Arnon Milchan Fotografia: Fred Schuler Trilha Sonora: Robbie Robertson Duração: 101 min. Estúdio: Embassy Pictures / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 5 estrelas

Hammett (1982)

Por André Dick 

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Quando Wim Wenders começou a se destacar, com filmes excelentes como No decurso do tempo e O amigo americano, Francis Ford Coppola o procurou para que pudesse dirigir Hammett, baseado numa história fictícia envolvendo o escrito Dashiell Hammett, em torno de 1978. Com vários problemas durante a produção e estouros de orçamento, comuns nas antigas produções de Coppola, houve desentendimentos, e Wenders acabou tendo de ceder à presença do produtor. Coppola não teria gostado do final e avaliou, segundo entrevista de Wenders à revista Indiewire, que era um filme com excesso de lirismo e “muito lento, sem ação suficiente”.
Em outra entrevista à Indiewire, Wenders comenta que isso aconteceu e apenas 10% das cenas da versão final são de sua versão original, depois de realizar a segunda filmagem, basicamente em estúdio e não em cenários reais, como a primeira (antes de o trabalho ser refeito, Wenders dirigiu O estado das coisas, que tratava exatamente de uma equipe de cinema com problemas financeiros e psicológicos). Quando se vê Hammett é difícil imaginar onde começa a obra e a visão de Wenders ou daquela que seria de Coppola, pois o filme é exatamente muito lento, à sua maneira e, com exceção de alguns elementos visuais, seu ritmo é próprio de uma obra de Wenders: a questão parece mais ligada aos bastidores e não tão importante, pois o resultado, independente disso, é único. Hammett é uma das obras que homenageiam os filmes de gângsteres dos anos 40 como nenhum filme fez antes ou depois, e foi certamente referência para obras posteriores, como Dick Tracy (em seu cuidado visual de cores).

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A atmosfera de Hammett, com a fotografia de Joseph Biroc e direção de arte de Dean Tavoularis (que colaborou com Coppola em O fundo do coração, com um clima que parte das cenas deste possui), é envolvente e memorável. Frederic Forrester (também de O fundo do coração) interpreta o escritor Samuel Dashiell Hammett, entre bebidas, cigarros e a a ameaça da tubercolose, que se mudou de Pinkerton, onde trabalhava como detetive (uma espécie de alter ego às avessas de seu personagem Sam Spade) para São Francisco, habitando um quarto de hotel barato, e no início está criando uma história em frente à sua máquina de escrever. Ele recebe a visita de Jimmy Ryan (Peter Boyle), um antigo amigo e detetive, que teria lhe ensinado tudo o que sabe, e ambos saem pela noite, em direção a Chinatown, a fim de procurarem uma prostituta chinesa, Ling Cristal (Lydia Lei). Hammett o faz por considerar que tem uma dívida com Ryan, e este movimento é feito minuciosamente por Wenders (continuamos a considerá-lo o diretor final), introduzindo o personagem numa noite fantasiosa e logo anunciando a mistura entre literatura e realidade: o escritor já teria trabalhado como detetive, e está sendo obrigado a voltar, mesmo que ainda inconscientemente, à ativa. As coisas logo se complicam com um perseguidor noturno, The Punk (David Patrick Kelly) e uma troca de tiros logo se anuncia, seguida pelo surgimento de outro incauto, Gary Sal (o ótimo Jack Nance, de Eraserhead). É interessante como Forrester lida bem com o personagem, apresentando-o com uma pronúncia e uma dicção semelhante à dos atores dos anos 40, e um clima de romantismo com Kit Conger (Marilu Henner), uma vizinha que trabalha como bibliotecária, e volta às antigas histórias pulp fiction com o taxista Eli (Elisha Cook), com o tenente O’Mara (RG Armstrong), o detetive Bradford (Richard Bradford) e as possíveis ameaças de Fong Wei Tau (Michael Chow). Em termos de trama, as comparações com Chinatown são justas, mas o filme de Wenders tem uma atmosfera muito mais fantástica.

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A mistura entre os acontecimentos e a fantasia de Hammett tentando recompor a história de uma narrativa que se perdeu, e pode estar nas mãos de gângsteres chineses. Esta fantasia se mistura, também, a uma espécie de atmosfera onírica, em que a noite parece estar separada do dia, inclusive nos cenários focados (veja-se o céu azul quando Hammett chega em casa pela manhã), ou seja, em determinados momentos não sabemos se Hammett está sonhando ou realmente vivendo as situações (Hammett deve ser visto antes de Vício inerente, a nova obra-prima de Paul Thomas Anderson). Nisso, Wenders revela seu talento em lidar com a cultura dos Estados Unidos, o que ficaria claro não apenas em Paris, Texas, como também no ótimo e quase esquecido Estrela solitária, em que Sam Shepard fazia uma estrela de cinema que desaparecia dos sets de filmagem para tentar encontrar um filho que não conhece.
Os cenários de Chinatown e de clubes noturnos ou escritórios em que Hammett entra são excepcionalmente revelados com uma estética de cinema dos anos 40, uma espécie de bruma cobrindo tanto os personagens quanto suas ações, e um notável jogo de espelhos em pelo menos dois momentos, revivendo uma época noir, tanto quanto a ficção científica Blade Runner. Na sua avaliação do filme, Vincent Canby considera que não é alcançado o clima de Corpos ardentes e Cliente morto não paga. A comédia com Steve Martin é realmente de uma grande raridade, mas Kasdan, em Corpos ardentes, apenas recicla clichês com a pretensão de ser original. Hammett, ao menos, não sofre deste problema: sua referência às pulp fiction e aos romances do escritor homenageado é generosa e antológica. Os personagens também são ambíguos e há uma fascinante vida paralela na maior parte deles, ou seja, o que eles se mostram certamente não revelam a verdade. Hammett é, talvez de modo paradoxal, uma das grandes obras feitas depois da Nova Hollywood, capaz de assumir um estilo que certamente seria ignorado em outras superproduções, conservando, mais de trinta anos depois, sua originalidade.

Hammett, EUA, 1982 Diretor: Wim Wenders Elenco: Frederic Forrester, Peter Boyle, Lydia Lei, David Patrick Kelly, Jack Nance, Elisha Cook, RG Armstrong, Richard Bradford, Michael Chow Roteiro: Ross Tomas e Dennis O’Flaherty Fotografia: Joseph Biroc Trilha Sonora: John Barry Produção: Fred Roos, Ronald Colby, Don Guest, Francis Ford Coppola, Mona Skager Duração: 95 min. Distribuidora: Orion Pictures/Warner Bros.

Cotação 4 estrelas e meia

Flashdance – Em ritmo de embalo (1983)

Por André Dick

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Musical que deu origem a inúmeras cópias, Flashdance tem na direção Adrian Lyne, que se dedicaria a um cinema baseado em relacionamentos proibidos, a julgar por 9 ½ semanas de amor, Atração fatal, Proposta indecente, Lolita e Infidelidade. Suas exceções foram Alucinações do passado, filme com Tim Robbins, de linha espiritual e bastante interessante, e Foxies, que tinha Jodie Foster e Cherie Curie (cuja história é contada em The Runaways). Seu filme mais conhecido, Flashdance, fica num meio-termo entre o universo musical e o universo romântico, embora ambos se completem em sua narrativa. Ela mostra o dia a dia de Alexandra “Alex” Owens (Jennifer Beals), que trabalha como soldadora numa fábrica de aço em Pittsburgh, Pensilvânia, e se apaixona por seu chefe, Nick Hurley (Michael Nouri).
Alex dança, à noite, num clube noturno, Mawby, e tem dois amigos: uma quer ser patinadora, Jeanie (Sunny Johnson), e o namorado dela, Richie (Kyle T. Heffner), pretende seguir a carreira de humorista de stand-up, em Hollywood. Sem estudos formais na área da dança, Alex também procura a ajuda de Hanna Long (Lilia Skala), uma bailarina aposentada, para tomar conselhos, a fim de entrar no Conservatório Pittsburgh de Dança e Repertório. Em termos narrativos, o filme tem um diálogo claro com Fama, de Alan Parker, de 1980, filme excepcional sobre jovens que querem se dedicar à dança, mas se Parker ainda possui um estilo baseado numa montagem, embora frenética, baseada numa concepção de cinema clássico, Flashdance é uma vertente da geração MTV. Com talento para realizar filmes banhados por um ar de videoclipe, Lyne apresenta em Flashdance uma estética que ajudaria a demarcar o estilo dos anos 80, e não se pode dizer que isso seria dispensável, mesmo que seus produtores, Jerry Bruckheimer e Don Simpson tenham formado, basicamente, uma dupla de filmes comerciais (e divertidos, como Top Gun e Um tira da pesada), até a morte do segundo (hoje Bruckheimer segue em carreira solo, sobretudo na série Piratas do caribe).

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Há boas canções, mesmo contagiantes (como “What a feeling”, que marcou época, de Giorgio Moroder, o mesmo de “Take my breath away”, de Top Gun) e a revelação de Jennifer Beals, mesmo que dublada nas cenas de dança. Não parece desnecessário dizer que o filme, inclusive, teve uma boa aceitação no Globo de Ouro – foi indicado aos prêmios de melhor filme de comédia ou musical e de atriz (Jennifer Beals), ganhando os de melhor trilha sonora e melhor canção – e no Oscar – foi indicado nas categorias de melhor montagem e fotografia e venceu o de melhor canção –, sendo, nesse sentido, mais bem-sucedido que suas cópias posteriores.
Lyne é um diretor com limitações, mas o problema central está na história de Joe Eszterhas (que assinaria, quase uma década depois, o roteiro do sucesso Instinto selvagem, e ainda, um pouco depois, Showgirls, do mesmo Paul Verhoeven, desenvolvendo características que já existem em Flashdance): basicamente é a vida dessa dançarina, cercada pelos sonhos dos amigos e a busca pela realização particular. No entanto, Lyne tem uma certa visão sobre como havia melancolia nos anos 80, e não por acaso seu filme dialoga diretamente com Footloose e Dirty Dancing, sobre a tentativa de permanecer numa adolescência perene, mas sobretudo de adotar a dança como uma libertação.
Se baseado numa história de James Dearden, Lyne cultivou, em Atração fatal, os problemas que um pai de família (Michael Douglas) enfrenta após se envolver com uma amiga (Glenn Close) num final de semana longe da mulher e do filho, com cenas dramáticas de pouca intensidade, e se no videoclipe em forma de filme 9 ½ semanas de amor trazia a relação obsessiva entre a funcionária de uma galeria de arte (Kim Basinger) e um corretor da bolsa de Nova York (Mickey Rourke), em Flashdance ele mostra que uma jovem quer apenas encontrar o amado, mas, principalmente, se tornar independente, enfrentando a realidade de maneira própria.

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Alex tem os elementos de uma nova visão feminina, uma certa provocação ausente nos anos 70, principalmente quando a heroína não acredita em si mesma e quer desistir do seu sonho. Ela é uma visão mais sensível, embora trazendo certos elementos mais revigorantes, daquela personagem Nomi Malone, escrita por Eszsterhas para Showgirls. Há uma certa preocupação de Lyne em situar o mundo da fábrica de um lado, com sua paisagem cinza e soturna, e outro o lado da vida noturna, quando ela se apresenta à noite e é como se fosse um sonho, em meio a números musicais excêntricos e uma profusão de neons, maquiagens e luzes oblíquas. Nesse aspecto, Beals atinge uma interpretação interessante e convincente, sendo uma pena que, excetuando A prometida (em que contracena ao lado de Sting), não tenha conseguido desenvolver seu potencial como atriz revelado aqui. O número da água caindo sobre seu corpo ficou antológico, mas o mais impactante é aquela em que ela dança contra um fundo xadrez, numa espécie de transição do punk para o new wave. Tanto o clube onde se apresenta quanto a sua casa, com os neons na sala, guardam também essa transição, e a fotografia de Donald Peterman é excepcional, conseguindo registrar sensações de cada ambiente. Isso faz com que o filme Lyne não seja apenas um produto cultural de determinada época, mas uma obra que sobrevive a seu tempo, apresentando uma dose de lamento europeu na apresentação da Pittsburgh onde Alex mora. Esta melancolia e seus raios de luz vazados contra um salão em que o sonho é colocado à prova ainda permanece, com todos os seus excessos.

Flashdance, EUA, 1983 Diretor: Adrian Lyne Elenco: Jennifer Beals, Michael Nouri, Lilia Skala, Sunny Johnson, Kyle T. Heffner, Robert Wuhl Roteiro: Joe Eszterhas, Thomas Hedley Jr. Fotografia: Donald Peterman Trilha Sonora: Giorgio Moroder Produção: Jerry Bruckheimer, Don Simpson  Duração: 95 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia

O fundo do coração (1982)

Por André Dick

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No início dos anos 1980, Francis Ford Coppola era visto como um dos maiores cineastas de Hollywood, capaz de escolher cada projeto. Se com Apocalypse now ele deixou o estúdio em dívidas, era de se esperar que quando tentasse fazer um grande musical, com uma Las Vegas reconstruída nos estúdios Zoetrope, em O fundo do coração, a recepção não seria interessante para sua carreira, como aconteceu. Parecia difícil encontrar alguém disposto a ver um Coppola que parecia mais dedicado ao visual do que à densidade de uma história dramática. Ele também nunca foi conhecido por filmes de pouca metragem e O fundo do coração parecia mais leve – e excessivamente leve. Com isso, vinha o próprio posicionamento de Coppola, que via a indústria como próxima do fracasso e investindo um orçamento milionário sem certeza de retorno (como em Apocalypse now). Na época, ele também considerava que seu filme seria uma referência para os cineastas que fossem trabalhar com imagens em vídeo. Hoje em dia, fica mais claro, depois de peças como Hammett (que coassina sem créditos com Wim Wenders), Vidas sem rumoCotton Club, Tucker, Drácula de Bram Stoker Virgínia, que Coppola, cuja preocupação foi nunca se ver como um cineasta autoral, é um grande esteta, um grande realizador de imagens, que realmente trazem inovação ao cinema.

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A história inicia mostrando Frannie (Teri Garr) montando um cenário na vitrine de sua loja, seguindo-a até em casa, a fim de encontrar Hank (Frederic Forrest). Ambos estão a um dia do 4 de julho dos Estados Unidos e indefinidos entre uma viagem a Bora Bora e a compra da casa. Frannie deseja a viagem, mas Hank concretizar o negócio. Isso é motivo para uma briga e o rompimento. Frannie vai para a casa da amiga Maggie (Lainie Kazan) e Hank para a casa do amigo Moe (Harry Dean Stanton). Coppola já mostra essa briga como uma espécie de fuga à fantasia que caracteriza os primeiros momentos: quando o casal se deita na sala, a luz da janela é preenchida por uma cor vermelha, e assim Coppola segue durante toda a narrativa: a fotografia extraordinária de Vittorio Storaro (numa preparação para seu trabalho também referencial de cores visto em Dick Tracy, quase uma década mais tarde) e Ron García (Twin Peaks) e a direção de arte antológica de Dean Tavoularis modelam os ambientes conforme as ações e os sentimentos dos personagens. Onde O fundo do coração parece mais visual do que conteúdo, é possível ver uma fusão entre esses elementos, ou seja, por meio do visual, é possível desenhar o conteúdo do filme e dos personagens. A fotografia e a direção de arte, a partir daí, participam, em iguais condições, da composição do filme.
É interessante como Coppola mostra Frannie como uma sonhadora dos musicais da Metro, mas que demora a cair na realidade, mesmo que puxada para ela. Quando está novamente organizando a vitrine de sua loja, surge Ray (Raul Julia), um conquistador latino que a convida para vê-lo tocar, como pianista, num clube da mesma rua de Las Vegas. Enquanto ela sonha com uma noite mágica, Hank conhece Leila (Nastassja Kinski), lembrando uma imagem circense, a quem convida para sair. Coppola, então, irá mostrar os encontros de ambos, quase que simultaneamente e intermediados pela paisagem fantasiosa (no duplo sentido) de Las Vegas. Os personagens desejam, na verdade, incorporar essa linguagem de sonho que é Las Vegas, e tanto Frannie quanto Hank surgem como figuras aptas para isto, mesmo porque Ray e Leila imaginam que eles também os levam para uma linguagem de sonho. Leila, em determinado momento, subirá num trapézio quase felliniano, em meio a uma paisagem de deserto, com  cisnes abandonados; Hanks ficará parado, como um cowboy, em frente a um neon gigantesco, que incorpora a imagem de Frannie; e esta imagina dançar com Ray em frente a um transatlântico (num diálogo evidente com Amarcord). Não existe aqui o universo da máfia tão bem desenvolvido na série O poderoso chefão nem o clima de Nova Hollywood de A conversação (um filme que, apesar do interesse, não chega ao impacto de O fundo do coração).

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Coppola claramente não está interessado em seguir o encaminhamento dado ao gênero musical, mas torná-lo contemporâneo: a trilha ao fundo de Tom Waits é discreta e presente durante todo o filme, e os personagens não dançam na maior parte das vezes (como quando estão nas ruas de Las Vegas), e sim se encontram. O movimento e não a coreografia é destacada, e Coppola orquestra um passeio de Frannie e Hank embaixo dos neons de Las Vegas, mas, às vezes, se encontrando, como se estivessem também numa peça de teatro. Esses encontros, no entanto, ficam sempre indefinidos entre a fantasia e a realidade. Nesse sentido, os personagens estão fantasiando dentro de uma fantasia que já compõe suas vidas, imaginando figuras que despertam o sonho de uma juventude que já passou, sobretudo a Leila de Nastassja Kinski, como se fosse a representação onírica de um universo feminino. O belo momento em que Ray senta em frente a um piano, com a imagem de um sol entrando pela janela, em plena noite de Las Vegas, lembrando de Clark Gable em Casablanca, ajuda a esclarecer ainda mais esta composição mesclada. No momento em que Hank está com Leila no deserto, há um corte quando ele deseja rever a mulher, e volta-se à realidade (mas não tanto: quando Moy surge para buscá-lo, vão de carro contra uma paisagem de deserto de Las Vegas de estúdio, como se Paris, Texas fosse anunciado aqui, também pela presença de Harry Dean Stanton e Nastassja Kinski). Uma tentativa de reencontrar a amada lembra também uma animação – como a que é despertada pelas próprias cores do filme ou sua simbolização das nuvens, por exemplo.

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Frannie quer deixar Hank também porque ele não sabe cantar como Ray – ou seja, ele não é a realização de sua fantasia, e Coppola filma um ato final capaz de trazer densidade a uma narrativa que parece apenas ligeira e despretensiosa. Não apenas pela impossibilidade de canto, no sentido que nos acostumamos a ver, mas no sentido de que a fantasia, aqui, pode também incorporar a realidade. O final é em aberto, transformando O fundo do coração não numa realização completa, mas num ato do verdadeiro musical dessas figuras do dia a dia. Depois de três décadas, o filme de Coppola não apenas pode ser revisto, mas reconsiderado como um dos grandes filmes dos anos 80, uma obra de um Coppola apaixonado tanto pelo risco de seus gastos quanto por seus personagens e seu cenário fantasiosos. Isto começaria lentamente a desaparecer em Hollywood, mas Coppola estava certo de o quanto seu filme influenciou não apenas a estética do videoclipe na TV como diversos filmes que sofreram, injustamente, da mesma crítica de que privilegiavam a forma em detrimento do conteúdo. O fundo do coração simplesmente faz com que essa diferença desapareça; mais do que uma referência, é a obra-prima mais subestimada de Coppola.

One from a heart, EUA, 1982 Diretor: Francis Ford Coppola Roteiro: Armyan Bernstein, Francis Ford Coppola Elenco: Frederic Forrest, Teri Garr, Harry Dean Stanton, Nastassja Kinski, Raul Julia Fotografia: Ronald Víctor García, Vittorio Storaro Trilha Sonora: Tom Waits Produção: Gray Frederickson e Fred Roos Duração: 107 min. Distribuidora: Columbia Pictures

Cotação 5 estrelas

Batman (1989)

Por André Dick

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Determinados filmes conseguem, por um motivo às vezes também secundário ao cinema, marcar uma determinada época. Em 1989, o trailer de Batman, de Tim Burton, tinha uma presença destacada em salas de cinema. A diferença do mês de estreia nos Estados Unidos para o do Brasil ainda era considerável (nos Estados Unidos, a estreia se deu em junho, aqui em outubro), auxiliando num dos mais bem feitos trabalhos de marketing da história. A expectativa se dava não apenas em razão dos fatores de produção e da presença de Jack Nicholson no elenco, mas por se tratar do primeiro grande filme de Tim Burton, que havia assinado um ano antes a comédia Os fantasmas se divertem e tinha estreado em 1985 com As grandes aventuras de Pee-wee, com um personagem mais familiar para os norte-americanos. E pelo menos desde 1978, de Richard Dooner, não era feito um filme baseado em herói dos quadrinhos tão esperado. Precedido ainda por críticas elogiosas da imprensa estrangeira, a estreia de Batman se deu num ambiente receptivo – e a questão seria se sua qualidade corresponderia ao marketing.
A primeira surpresa de Batman é que se tratava de um trabalho autoral: do início ao fim, estamos diante de uma obra de Tim Burton. E, no que também inspirou a série Batman assinada por Cristopher Nolan, o trabalho de Burton era baseado na adaptação do herói feita por Frank Miller, com um tom muito mais sombrio (embora no mesmo ano, 1989, tenha sido lançado a que me parece ser a peça em quadrinhos mais vital, Asilo Arkham, de Dave McKean e Grant Morrison). Este Batman possui elementos do dia a dia (gângsteres modernos que tentam movimentar o comércio de produtos químicos, em uma metrópole dominada pela criminalidade), mas o que predomina é a indefinição histórica – ou seja, não tem a concepção mais realista (em determinados termos) daquele de Nolan, o que é uma característica de Burton. Sua Gotham City tem um ambiente europeu entre o início do século XIX e o início do século XX: muita fumaça de fábricas, como na Revolução Industrial, e os ambientes enevoados, semelhante a um filme noir, preenchidos por um design que evoca não exatamente Blade Runner, ao qual foi comparado, mas o expressionismo alemão.

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Esta proximidade aumentaria, inclusive, na continuação de Batman, em que o vilão interpretado por Cristopher Walken se chamava Max Schreck, mesmo nome do antigo ator que fez Nosferatu, em 1922. Se o Batman de Nolan parece mais um policial moderno, o de Burton ainda lembra um detetive em meio a policiais de capote. A influência mais direta no visual de Batman é o trabalho de Hammett, feito também em 1982, por Wim Wenders, em que o escritor trabalhava como detetive e tentava descobrir uma quadrilha de mafiosos no bairro Chinatown. Nesse sentido, o diálogo entre figurinos e ambiente do filme de Burton, sintetizado na direção de arte (de Anton Furst) premiada com Oscar, com cenários montados no lendário estúdio Pinewood, estabelece uma atmosfera adequada para o desenvolvimento da narrativa. Combinado com uma trilha de Danny Elfman em seu início, ainda sem os maneirismos de sua trajetória, e os efeitos especiais de Derek Meddings (Superman e Duna), numa era ainda sem a tecnologia atual, mas com uma fusão orgânica em relação à narrativa, e temos um Batman certamente interessante.
A mitologia do herói criado por Bob Kane, que participou da construção do roteiro, também é mantida (daqui em diante, possíveis spoilers). Durante o dia, Bruce Wayne (Keaton) é um milionário, mas à noite enfrenta o crime de sua cidade, como Batman, sobretudo porque aconteceu um fato em sua infância que o conduziu a este caminho. O único a saber de sua dupla identidade é o mordomo de sua mansão, Alfred (Michael Gough). Já entre os gângsteres, Jack Napier (Nicholson) faz jogo duplo com seu chefe, Carl Grissom (o ótimo Jack Palance), obedecendo suas ordens, mas o traindo com sua esposa, Alicia (Jerry Haal). Para investigar as histórias de Batman, chega à cidade a jornalista Vicki Vale (Basinger), da Time, juntando-se ao repórter desajeitado, Knox (Wuhl), para extrair informações do comissário Gordon (Hingle), próximo a Harvey Dent (Billy Dee Williams). Enquanto o departamento de jornal de Gotham City se baseia novamente nesta concepção noir, não ficam para trás as reuniões da polícia e dos políticos: os ambientes suntuosos mesclam, ao mesmo tempo, um peso atmosférico, por trás de figurinos e maquiagens. Também não se deve esquecer que o primeiro encontro entre Wayne e Vicki Vale acontece num salão com armaduras medievais, cercado de espelhos: nesta sequência, filmada com grande talento por Burton, introduzindo cada diálogo de maneira ao mesmo tempo divertida e irônica, o personagem de Bruce Wayne revela sua dualidade e antecipa que o uso de armaduras não faz parte apenas de sua história, mas foge ao limite histórico.

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As coisas vão mudar em Gotham City. Durante um roubo à empresa de produtos químicos da cidade, Napier, depois de cair num tonel cheio de ácido, fica com o rosto deformado, com um sorriso permanente, voltando para acertar contas com seu chefe. Vicki conhece Bruce Wayne e se apaixona, e ele passa a enfrentar o maior rival, o Coringa, a nova personalidade de Napier. Então, acontece o choque: Batman criou o Coringa, e quem criou Batman? Este fio de narrativa administrado por Burton de maneira efetiva guarda mais do que estamos acostumados num filme de herói. Não existe apenas o duelo entre dois personagens, mas também a tentativa de entender a origem deles.
Outra característica de Burton é a maneira como lida com a dualidade dos personagens. Talvez Bruce Wayne seja o personagem melhor delineado por Burton ao lado de Ichabod Crane de A lenda do cavaleiro sem cabeça e de Ed Wood no filme homônimo, ambos protagonizados por Johnny Depp. E isto se dá com o auxílio direto de Michael Keaton, ator que não compromete depois da pressão dos fãs, que não o queriam no papel, mas no ano anterior havia feito não apenas Os fantasmas se divertem, com Burton, mas o dramático Marcas de um passado (e neste ano, depois de sua excelente participação em RoboCop, regressa com um filme que também brinca com sua atuação aqui, em Birdman). Keaton oferece uma discrição eficiente, ao mesmo tempo em que desenvolve bem seu traço familiar, perturbado por um acontecimento decisivo.
Por sua vez, o personagem do Coringa – e antes dele de Jack Napier – é solucionado de maneira adequada por Nicholson, com sua tendência a ser o primeiro artista homicida do mundo, apesar do exagero, perfilando-se ao lado daquelas que o ator emprega em Um estranho no ninho e O iluminado, e hoje infelizmente, algumas vezes, menosprezada em relação à de Heath Ledger. Suas atitudes colaboram na condução do personagem e sua entrada num restaurante com seu grupo transformando as obras de artes expostas nele num rascunho para Duchamp, e a solução de preservar uma obra de Francis Bacon, com a música de Prince ao fundo, parece uma síntese de um certo cinema dos anos 80 e a passagem para os anos 90, em que o colorido é borrado ou ganha um tom mais soturno. Apesar de o Coringa ser certamente perigoso, Burton concede uma veia mais cômica a ele, fazendo com que seu comportamento assustador seja atenuado em favor de uma visão mais voltada à série antiga de TV, não tanto aos quadrinhos, embora Nicholson realmente traga sua carga para o papel. E, mesmo que o Superman de Donner tenha desencadeado o universo de adaptação de super-heróis para o cinema, Batman é, sem dúvida, a confirmação de que se pode fazer um filme neste campo com um peso autoral, e, sem negar a influência dos quadrinhos, fazer referência ao próprio cinema: é a principal influência de, por exemplo, Dick Tracy, dirigido por Warren Beatty no ano seguinte, com suas homenagens aos filmes de máfia e musicais dos anos 40 e 50, com cenários equivalentes aos dos quadrinhos.

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A necessidade de diálogo entre os personagens e o cenário ganha o ponto máximo na sequência da catedral de Gotham City, uma construção gótica e que destaca, por seu abandono, o principal: a cidade desses personagens não tem nenhuma espécie de religião. Com seu habitual talento para imagens, Burton faz discretamente um filme em que os temas são suscitados por cenários. Temos um senso de design onipresente ao longo do Batman de Burton e não se anuncia nenhum elemento deslocado, mesmo em cenários que nos anos 80 talvez pudessem ser menos elaborados, como o da caverna em que ele guarda suas criações e armas para o combate ao crime organizado. Este senso se encaixa de maneira equilibrada com o comportamento dos personagens: enquanto Bruce Wayne é mais afeito ao cálculo e ao comedimento, mas também avesso ao tamanho de sua mansão, Jack Napier e sua porção extravasada, o Coringa, se comporta como um anunciante de produtos e mesmo de dinheiro jogado aos ares de Gotham City. Além do seu interesse por fotografias e obras plásticas, ele tem outro: recorta fotografias até que preencham o piso do chão. Em Burton, o Coringa é a própria infância (desvirtuada) que Bruce Wayne não teve. Mas o próprio Batman não deixa de ser, para o Coringa, uma personificação da infância: “Onde ele consegue esses brinquedos?”, pergunta o Coringa em determinado momento. Há uma provocação neste comportamento de cada um que não foge a Burton, com seu olhar atento para detalhes que poderiam escapar de um cineasta comum.
De algum modo, o duelo estabelecido (também nas atuações) entre Keaton e Nicholson, ao mesmo tempo, beneficia o elenco. A descompromissada Basinger está bem – no melhor momento da sua trajetória, junto com Los Angeles – Cidade Proibida –, e Wuhl tem uma participação divertida como Knox. Mesmo Jack Palance, com o pouco tempo em cena, é marcante (dois anos antes de receber um Oscar de ator coadjuvante por um caubói em Amigos, sempre amigos), além de Michael Gough (em papel que seria na nova franquia de Michael Caine). Trata-se de uma qualidade de Tim Burton, que ele tem em comum exatamente com Donner, do primeiro Superman: seus filmes, apesar de contarem com grande orçamento, valorizam não apenas as ideias, como as atuações, e tudo acaba soando como um conjunto estabelecido. E não se tem dúvida de que, assim como muitos, Nolan sentou-se muitas vezes em frente a este Batman de Burton para imaginar como seria o seu, principalmente o ótimo Batman begins. Apesar de um tanto esquecido em relação à trilogia mais recente, o filme de Burton continua a figurar entre as maiores adaptações de quadrinhos já feitas, um verdadeiro feito diante das expectativas que se tinha em relação a ele.

Batman, EUA/Reino Unido, 1989 Diretor: Tim Burton Elenco: Jack Nicholson, Michael Keaton, Kim Basinger, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Jack Palance, Robert Wuhl, Michael Gough, Lee Wallace, Tracey Walter, Wayne Michaels, Bruce McGuire, Del Baker, Philip O’Brien, Rocky Taylor, Vincent Wong, Steve Plytas, Liz Ross, John Sterland Roteiro: Sam Hamm, Warren Skaaren Fotografia: Roger Pratt Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Peter Guber, Jon Peters Duração: 126 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Warner Bros. / The Guber-Peters Company / Polygram Filmed Entertainment

Cotação 5 estrelas

Flash Gordon (1980)

Por André Dick

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Desde o início, com a trilha do grupo Queen, cantando a música-tema de Flash Gordon, já se percebe que estamos diante de um filme que traz na bagagem não apenas os anos 70, como também a sua ligação com os anos 80. Não demora muito para se perceber que o diretor Mike Hodges, escolhido por Dino de Laurentiis para levar às telas o personagem criado por Alex Raymond, fará uma mescla entre ficção científica e um ar bem-humorado que dificilmente vemos nas produções atuais, com um visual ao mesmo tempo exagerado e grandioso – o que seria kitsch para alguns –, mas que exatamente pela extravagância confere um clima irrepreensível de HQs. Flash Gordon é um jogador de futebol norte-americano que viaja em companhia de Dale Arden (Melody Anderson), num avião. Logo na decolagem, há um eclipse, tudo fica vermelho e surge a figura de Ming (Max von Sydow), que desaparece com os pilotos. Gordon precisa aterrisar o avião e, quando o faz, é justamente perto do laboratório de pesquisas de Hans Zarkov (Topol). Este pretende partir de foguete para o espaço, a fim de salvar a Terra, o que sempre tentou avisar, sem ninguém acreditar. Quando Flash Gordon pergunta onde há um telefone, e o cientista indica o foguete, fazendo o personagem central entrar nele, já temos a séria impressão de que dali em diante nada pode ser levado muito a sério. O espaço e tempo do filme são rápidos e logo o foguete – que recorda imagens de Viagem à lua, de Georges Méliès – é sugado por um buraco negro.

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A falta de seriedade própria e individual de Flash Gordon é intransferível para qualquer outro filme. O produtor Dino de Laurentiis vinha de um sucesso, King Kong, refilmagem do clássico com Jeff Bridges e Jessica Lange – mais divertida, embora bem menos produzida do que a de Peter Jackson – e já planejava realizar a adaptação de Duna (que seria feito por David Lynch) e dos quadrinhos de ConanFlash Gordon é uma espécie de antecipação de Duna, no sentido da grandiosidade dos cenários – e até de alguns módulos que voam e acompanham os personagens em determinados momentos –, assim como da série Conan, no sentido de ser uma obra despretensiosa, apesar de bem feita. Os figurinos de Danilo Donati (de SatyriconAmarcord), a direção de arte de John Graysmark (Na época do Ragtime) e a fotografia de Gilbert Taylor (Guerra nas estrelas) dão um tom original – e o elenco, que vai de Von Sydow a Topol – nomes ligados ao cinema europeu – indicam um interesse em fornecer bons atores a alguns personagens.
Quando Flash Gordon, a moça que logo se transforma em sua companheira e o cientista chegam a Mongo, cujo líder é Ming, com toda sua maldade, interessado em provocar vários desastres naturais na Terra, por diversão, eles são enfeixados como ameaça ao poder dele. “Planetas ingênuos eu não ataco”, diz Ming. “Apenas quem me ameaça.” “Esse cara é um psicopata”, reflete Flash Gordon, sendo reproduzido em alta escala. A prisão do cientista e a máquina para apagar sua memória – enquanto ele acompanha imagens que vivenciou, inclusive da Segunda Guerra Mundial – é o momento mais cruel e sério de Flash Gordon, e lamentamos por ele, sobretudo porque as recordações que se sucedem rapidamente são interessantes e conectam o espectador ao personagem de modo decisivo. Von Sydow é um ator excelente e, mesmo com um figurino cujo vermelho combina com o prateado dos cenários e o lápis nos olhos para aparentar ser de origem oriental, é notável e consegue fazer mais do que qualquer outro com um roteiro propositadamente infantil, embora sem nenhuma brecha.

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A filha de Ming, Aura (Ornella Mutti) se apaixona por Flash Gordon, embora quem pretenda conquistá-la seja Barin (Timothy Dalton), do planeta Arboria – com as cabanas construídas em árvores, o que remete a O retorno de Jedi (sobretudo a este, pela cenografia) e Avatar. Ela tenta salvar Gordon depois de ele passar por uma morte numa câmera de gás, justamente levando-o para Arboria, num momento em que o filme evoca alguma coisa que seria repetida depois em filmes de fantasia como A história sem fimKrull e A lenda e, naquele mesmo ano, teria semelhança com o Planeta Dagobah, de O império contra-ataca. E passará por uma sequência realmente forte, em que precisa enfrentar o que chama de vermes que perfuram.
Há também homens com asas do Planeta Sky City (evocando outra produção de De Laurentiis, Barbarella, com Jane Fonda). Todos se submetem a Ming, porém sem nenhum interesse em continuar assim. Mesmo a filha de Ming está ameaçada de castigo, e o personagem posiciona-se, como fala em alto e bom som Flash Gordon, num “psicopata”. “Ele é o rei do impossível”, diz a música de Queen, e Flash Gordon, mesmo pela interpretação de Sam Jones – satirizada na comédia Ted, assim como o próprio filme –, é um personagem unidimensional. De qualquer modo, mesmo porque o tom do filme não pretende ser sério, Sam Jones acaba se encaixando – e em momento algum consideramos que ele destoa demais das atuações exageradas do elenco feminino, sobretudo de Ornella e Anderson, preenchendo bem os seus papéis, e mesmo Timothy Dalton.
Há um impressionante sentido de mistura teatral com homenagem a uma época determinada do cinema em Flash Gordon que não pode ser ignorado. Talvez não tenha sido nem objetivo de Hodges ou do produtor De Laurentiis, mas tudo no filme que poderia não parecer vivo, na sua tentativa legítima de homenagear os primórdios do cinema com seus cenários e figurinos, ganha outro significado.

Flash Gordon, EUA/ING, 1980 Diretor: Mike Hodges Elenco: Sam J. Jones, Melody Anderson, Max von Sydow, Ornella Muti, Timothy Dalton, Brian Blessed, Peter Wyngarde, Mariangela Melato, John Osborne, Richard O’Brien, John Hallam, Philip Stone, Suzanne Danielle, William Hootkins Roteiro: Alex Raymond, Michael Allin Fotografia: Gilbert Taylor Trilha Sonora: Howard Blake Produção: Dino De Laurentiis Duração: 111 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis Entertainment Group (DEG)

3 estrelas e meia