Rocky – Um lutador (1976)

Por André Dick

O primeiro filme da série Rocky, de 1976, teve uma trajetória tipicamente de ascensão de um astro, também responsável pelo roteiro. Sylvester Stallone até então havia tido pouca presença no cinema. Foi mais do que uma simples ascensão. Stallone conduziu Rocky – Um lutador ao Oscar e, mais do que ao prêmio, à vitória, nas categorias de filme e diretor, superando Todos os homens do presidente e Rede de intrigas, sobre os bastidores da política e do jornalismo.
Se o segundo veio na esteira, tendo praticamente o mesmo estilo que encontraremos em Rocky Balboa, não se pode esquecer que se trata de uma das melhores peças de boxe já feitas e, a despeito de ser parte de uma franquia, um dos que têm menos aspecto de blockbuster, para faturar milhões – mesmo porque, na época de seu lançamento, ainda não havia esse conceito firmado.

Este elemento havia em Rocky III e Rocky IV, feitos sob o influxo da estética do video clipe dos anos 80, com belas canções, montagem acelerada, mas com o intuito basicamente de se divertir, sem compromissos.
Rocky – Um lutador é uma espécie de precursor para Touro indomável, de Scorsese, mostrando um lutador chamado Rocky Balboa, morador do bairro de Kensington, na Filadélfia, apaixonado por Adrian Pennino (Talia Shire), que trabalha numa loja de animais e é irmã de seu amigo Paulie (Burt Young). Ele se envolve em lutas amadoras, no entanto trabalha mais cobrando contas para um agiota, Anthony Gazzo (Joe Spinell). Certo dia, o grande campeão mundial Apollo Creed (Carl Weathers) resolve dar oportunidade a um lutador comum, e ele é o escolhido – representando a oportunidade do “sonho americano” –, sendo convidado pelo promotor Miles Jergens (Thayer David). Para que possa enfrentá-lo, ele pede a ajuda do dono de uma academia de boxe, Mickey (Burgess Meredith), seu amigo. É esta amizade a fonte para toda a série no requisito familiar, de aproximação entre personalidades diferentes e que se complementam para partir rumo a uma vitória imprevista por todos.

Se Creed (que se torna seu amigo no terceiro da série) é uma espécie de boxeador com o olho nas finanças, a vida de Rocky é mais soturna e densa. Pode-se imaginar aqui o que se tornaria em Rocky Balboa, já como dono de um restaurante, afastado do mundo do boxe, quando vive bem, andando pela Fidadélfia e sendo reconhecido apenas por fãs antigos.
Os elementos dos outros Rocky estão já neste primeiro, principalmente o humor do boxeador, assim como se assinala o romantismo em relação à mulher e à projeção de constituir uma família. É uma pena que Stallone não tenha se dedicado mais em sua trajetória a filmes como este, ou, mais recentemente, Creed, com um roteiro que encobre suas limitações como ator. Não temos em nenhum momento o caminho mais comercial, como na sequência de “The eye of Tiger”, de Rocky III, porém sim uma Filadélfia acinzentada, com ruas vazias e bares cheios, no entanto prontos para alguma confusão. O diretor John G. Avildsen, com o mesmo talento que mostraria em Karatê Kid e Meu mestre, minha vida, sabe desenhar, mesmo assim, uma atmosfera acolhedora. O primeiro encontro entre Rocky e Adrian que termina num ringue de patinação é um exemplo dessa conciliação entre um romance implícito e uma vontade de desenhar um personagem capaz de criar empatia imediata com o público, por uma certa simplicidade e ingenuidade diante das coisas da vida.

Contudo, o lutador pode trazer essa vida de volta – e ele traz, mas sem a alegria desenfreada da montagem fragmentada e sim sob o aspecto da fotografia e do design de produção casados de maneira efetiva numa Filadélfia introspectiva. Rocky – Um lutador sabe captar, como poucos filmes de boxe, a solidão do lutador, a expectativa para o combate, os dilemas na família, o confronto aberto com o adversário e a pressão da imprensa para criar um espetáculo com o objetivo de tornar homens em mitos. A maneira como Avildsen mostra o treinamento de Rocky com Mickey é justificadamente exitoso em sua maneira de conduzir o espectador ao ápice de uma narrativa bastante simples e francamente honesta em cada uma de suas exposições e discursos, graças não apenas à atuação de Stallone, como também do grande Meredith. O círculo familiar, composto por Adrian e Paulie, e o círculo esportivo, tendo à frente Mickey, tornam o personagem extremamente empático. O flerte inicial ele com Adrian, principalmente conversando sobre pássaros numa gaiola, falam muito de cada um e de suas pretensões para o que vem a seguir. Num ritmo entre o calmo, o melancólico e o otimista e ágil, principalmente na luta final (que certamente fez o filme ganhar o Oscar de melhor edição), Rocky – Um lutador permanece como uma das grandes obras, talvez um tanto subestimada, dos anos 1970. Do mesmo modo, a trilha sonora colabora para um clima de triunfo esportivo: é a obra-prima da trajetória de Bill Conti. Ela torna a corrida de Rocky pela escadaria, num ponto-chave da narrativa, em um sentimento nostálgico e comovente, capaz de preparar o personagem para seu grande embate.

Rocky, EUA, 1976 Diretor: John G. Avildsen Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Joe Spinell Roteiro: Sylvester Stallone Fotografia: James Crabe Trilha Sonora: Bill Conti Produção: Irwin Winkler, Robert Chartoff Duração: 119 min. Distribuidora: United Artists