O rei (2019)

Por André Dick

Lançado no Festival de Veneza este ano, O rei é uma adaptação não oficial das partes 1 e 2 de Henrique IV e de Henrique V, de Shakespeare, mas certamente seu correspondente mais imediato é a segunda, que teve duas versões consideradas referenciais: uma dos anos 40, com Laurence Olivier, vencedora do Oscar de melhor filme, e a outra do final dos anos 80 dirigida e interpretada por Kenneth Branagh. A trama, passada no século XV, acompanha, desde o início, o conflito de Henry (Timothée Chalamet), ou “Hal”, com seu pai, o rei Henrique IV (Ben Mendelsohn), da Inglaterra. O jovem não demonstra interesse pelo legado do pai, nem por sua compulsão em travar guerras, preferindo andar ao lado de John Falstaff (Joel Edgerton) por tavernas. Trata-se de um veterano de guerra que cuida do príncipe e de suas recorrentes inclinações etílicas, além da constante falta de rumo em sua vida.

Quando seu pai o procura, já adoentado e sem pronunciar direito suas palavras, é para anunciar que Thomas (Dean-Charles Chapman), o irmão mais novo, assumirá o trono, numa espécie de vingança familiar. Para evitar uma nova guerra, Hal vai até o campo de batalha tentar uma manobra, a fim de que seu irmão não sofra, enfrentando o inimigo Hotspur (Tom Glynn-Carney).
David Michôd se revelou no início desta década através do excelente Reino animal, situado em seu país de origem, a Austrália, um thriller que evocava o melhor estilo de Scorsese com uma sensação de estarmos em meio a um faroeste contemporâneo, cercado por uma paisagem urbana desoladora e coberta pelo crime. Roteirista de O rei ao lado de um dos atores daquele seu filme de estreia (assim como lá o vilão era interpretado por Mendelsohn) e aqui fazendo Falstaff, Joel Edgerton, Michôd parece superar a irregularidade de The Rover – uma ficção apocalíptica mais realista e menos nos moldes de Mad Max – e War machine, filme de guerra subestimado tendo à frente Brad Pitt, um dos produtores deste.

Em O rei, ele aposta no talento que tem para o trabalho visual, lembrando, em muitos momentos, os melhores filmes recentes de época, influenciado diretamente pelo Ridley Scott de Robin Hood, mas dialogando também com Legítimo rei, uma espécie de segunda versão de Coração valente. Atento aos designs de época, ao figurino dos soldados e às locações das batalhas notáveis, próprio de um grande diretor, ele possui ainda o auxílio da fotografia de Adam Arkapaw e da trilha sonora de Nicholas Britell, esta bastante discreta quando surgem as cenas de maior tensão, que colaboram para o tom autenticamente histórico de cada sequência. Há, certamente, alguns problemas de transição, de correspondência entre personagens, abrindo espaço para lacunas, correspondentes certamente ao fato de ele ter 140 minutos e muito de seu material ter ficado na ilha de edição.
Ao mostrar Henrique V como uma figura saindo da adolescência, Michôd extrai de Chalamet uma boa atuação, embora ele não esteja à altura de sua presença em Querido menino, em que mostra seu verdadeiro talento. Com uma certa indefinição ainda na composição de seus papéis, oscilando entre nervosismo e uma tentativa de se mostrar um ator capaz de empreender alguns monólogos, Chalamet tem uma presença interessante em O rei, embora seja ofuscado exatamente por Edgerton.

Ou seja, certamente o resultado, embora pareça, não depende apenas dele, e sim do roteiro, que às vezes não transmite seus sentimentos da maneira mais conveniente, fazendo o ator se desdobrar por meio de ações e olhares. É a amizade entre Henrique V e Falstaff a peça que move o roteiro. Quando ela se revela aos poucos, O rei encontra de forma compacta o seu caminho, no entanto isso não ocorre tantas vezes quanto poderia. A ida para a guerra se constitui num momento capaz de lembrar brevemente O resgate do soldado Ryan, apresentando uma iluminação soturna desse período, e há um certo registro de guerra capaz de evocar luminosas sequências de outra obra de Scott, Cruzada, sempre com esmero técnico.
Mchôd coloca esse personagem no centro de muitos outros interessados em criar integras e governar a Inglaterra por meio dele. Um dos que se mostram amigos é William Gascoigne (Sean Harris), mas seu conflito central é com o arcebispo (Andrew Cavill) até chegar ao momento da Batalha de Agincourt, em que se mostra relevante o personagem de Delfim de França.

Este é interpretado de maneira simples e ao mesmo tempo excêntrica por Robert Pattinson, mostrando-se mais uma vez num bom momento e fazendo o que se espera de um coadjuvante: dar a impressão de que sua importância é maior do que aquela que o roteiro lhe oferece, depois de suas colaborações com Eggers (O farol) e Claire Denis (High life). Talvez haja uma falha em colocar dois personagens femininos muito interessantes (interpretados por Lily-Rose Depp e Thomasin McKenzie) de maneira tão rápida e sem tempo para interferir na história como poderiam, porém Michôd não foge ao fato de que, dentro de seus limites, do elo com a história, tudo parece contado de maneira plausível e por vezes emocional. Quando é preciso transportar a narrativa para seu grande momento, o clímax, o espectador é inserido no centro dos acontecimentos.

The king, EUA/AUS, 2019 Diretor: David Michôd Elenco: Timothée Chalamet, Joel Edgerton, Sean Harris, Lily-Rose Depp, Robert Pattinson, Ben Mendelsohn, Thomasin McKenzie Roteiro: David Michôd e Joel Edgerton Fotografia: Adam Arkapaw Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Liz Watts, David Michôd, Joel Edgerton Duração: 140 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Netflix, Blue-Tongue Films, Porchlight Films Distribuidora: Netflix