E.T. – O extraterrestre (1982)

Por André Dick

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Quando lançado, este filme recebeu muitas críticas positivas e uma extraordinária bilheteria, a maior da década de 1980. Seu diretor, Steven Spielberg, apresenta um extraterrestre pacífico, diferente de todos que haviam aparecido no cinema – no mesmo período, John Carpenter lançava seu assustador O enigma de outro mundo –, uma espécie de símbolo da infância. Foi indicado a vários Oscars (entre os quais de melhor filme, diretor), ganhando os de melhor trilha musical, som, efeitos sonoros e efeitos visuais, tendo recebido ainda o Globo de Ouro de melhor filme dramático. Toda esta receptividade tornou Spielberg um novo Walt Disney, um cineasta que não quis crescer, alusão a Peter Pan, obra de J.M. Barrie citada ao longo do filme (e adaptada para adultos em Hook – A volta do Capitão Gancho), como na cena de voo das bicicletas. Parece mesmo a síntese da trajetória de Spielberg, por todo seu referencial envolvendo figuras que remetem a uma fábula, mas a verdade é que ele nunca esteve tão à vontade com este universo quanto aqui. Recém-saído de um êxito do cinema de ação em Os caçadores da arca perdida, e ainda aproveitando o mistérios de seres do outro mundo trazido por Contatos imediatos do terceiro grau, Spielberg, numa época em que já pensava na adaptação de Tintim para o cinema, em conversas com Hergé (que viria a concretizar com Peter Jackson em 2011), antecipa, e sintetiza, aquele cinema em que o foco são as casas do subúrbio do interior dos Estados Unidos, tão bem trabalhadas depois em filmes produzidos por ele, como De volta para o futuro, Os Goonies e Gremlins, com suas crianças e jovens envolvidos com questões fantásticas, desde uma máquina de tempo, passando por um mapa de tesouro até monstros que vão ao cinema ver Branca de Neve e os 7 anões.

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Melissa Mathison, a roteirista, opta pelo caminho mais objetivo, escolhendo um menino simples chamado Elliott (o ótimo Henry Thomas, que nunca mais estrelou um êxito e se destacaria, adulto, apenas em Gangues de Nova York) para ser o personagem principal, a fim de que as crianças se identifiquem, pois os adultos, sobretudo aqueles ligados à Nasa (representados pelo personagem do frio Peter Coyote), são, em grande parte, ameaçadores, e o foco aqui seria transformar Elliott numa espécie de personagem de Richard Dreyfuss em Contatos imediatos, sem a paranoia equivalente. Ele é o ponto de referência para que um visitante de outro planeta consiga voltar para casa. Para isso, é necessária a ajuda do irmão, Michael (Robert McNaughton, muito expressivo) e Gertie (Drew Barrymore), a caçula. Sua mãe, Marie (Dee Wallace) não sabe disso, o que rende muitas cenas engraçadas. Ao mesmo tempo em que ela parece ser uma mãe preocupada, ela habita um universo paralelo: é antológica, por exemplo, a sequência em que ela vai ao armário ver de onde vem um barulho, e se depara com inúmeros bonecos organizados milimetricamente, com destaque para um deles.
Desde o seu início, com a partida da nave espacial, deixando o extraterrestre para trás, e a consequente perseguição a ele por parte de integrantes da Nasa, a proximidade com um universo fantástico é muito maior daquela que Spielberg nos apresentou em Contatos imediatos do terceiro grau, assim como a aproximação de Elliott do ser vindo do espaço – em uma cena fabulosa, tanto quanto assustadora, no milharal. Estamos inseridos nos anos 80, com as casas abertas, as bicicletas e um pôr do sol de verão, a cultura pop consequente dos anos 70 (e Spielberg faz uma homenagem a Star Wars, de George Lucas), mas também em algo estranho, desconhecido, como o que encontramos na floresta, uma espécie de versão mais tranquila de Poltergeist, lançado à época, mas não totalmente livre de um mistério.

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Marie, a mãe de Elliott, foi abandonada pelo marido, que se encontra com a amante no México, e as reuniões à noite trazem amigos de Michael – entre eles, C. Thomas Howell, que depois faria uma carreira razoável, inclusive O selvagem da motocicleta, de Coppola, no ano seguinte –, das quais o personagem principal tenta participar, sem muito êxito. A alternativa é olhar para as estrelas por trás da névoa da fumaça e da louça a ser lavada. Sob certo ponto de vista, Elliott precisa de uma amizade, e ela surge na figura do extraterrestre solitário. Uma ida à floresta para jogar balas pelo chão (como na fábula João e Maria) representa também o chamado à criatura de outro mundo – e ela nunca foi tão plausível quanto na criação de Carlo Rambaldi. Daí ET ser o retrato também de uma geração que precisava crescer, de algum modo, nem que fosse para conhecer o destino das espaçonaves. Os adolescentes são figuras que devem, por isso, amadurecer, embora Elliott, aqui, precise amadurecer mais ainda, pois o sentido de tudo é como enfrentar a perda (seja do ser estrangeiro, seja de algo familiar). Nesse sentido, tudo acaba criando um ambiente de nostalgia, quando, por exemplo, Spielberg, durante uma festa de Halloween, coloca o ET tentando correr atrás de alguém fantasiado de Yoda e, depois de chegar à floresta, ajuda a construir um artefato que pode emitir sinais para sua volta, utilizando-se de galhos de árvore e os objetos mais estranhos, sintetizando, numa determinada parte, a distância e a aproximação com o desconhecido, além da impressionante melancolia das imagens (quando Michael, de bicicleta, vai tentar encontrar o ser espacial).
No entanto, o melhor da história são os símbolos, como a planta do ET – ligada a ele e Elliott –, a floresta repleta de pinheiros e as rãs espalhadas pela sala de aula de Elliott, a metalinguagem divertida empregada por Spielberg, com o extraterrestre vendo um filme que se reproduz na realidade, com um beijo romântico. Spielberg está à vontade aqui em desenhar analogias, o que se desgastaria em sua trajetórias, em filmes interessantes, mas não tão efetivos, quanto Hook, em que a obra de Barrie não se torna mais uma referência entre outras, mas a própria tentativa de fazer uma versão adulta deste filme. E o vínculo que ele estabelece entre Elliott e o ET é eficiente, mesmo na parte final, em que parece haver uma manipulação emotiva, sobretudo pela atuação convincente de Henry Thomas.
Na versão comemorativa de 20 anos e E.T., em 2002, incluíram alguns cenas extras e talvez dispensáveis (como a do extraterrestre tomando banho, ou rádios no lugar de armas dos federais que perseguem a turma de Elliott, e a mãe de Elliott procurando todos no Halloween), mas a versão original de 1982 (relançada em Blu-Ray) é sem retoques. Assumido conto de fadas, uma espécie de síntese para o que os estúdios Disney sempre tentaram fazer no cinema com atores, é uma ficção para divertir, empolgar e rever sempre – ainda mais porque contém a melhor trilha de John Williams e um grande trabalho de fotografia de Allen Daviau, sobretudo nas cenas noturnas da floresta e nas perseguições de bicicleta (sobretudo a da ladeira) –, E.T. é uma espécie de símbolo das perdas e reencontros da infância, a cada ano mais contemporâneo.

E.T. – The extra-terrestrial, EUA, 1982 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dee Wallace, Henry Thomas, Peter Coyote, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Erika Eleniak, C. Thomas Howell, Pat Walsh e Debra Winger (vozes do E.T.). Produção: Steven Spielberg e Kathleen Kennedy Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Allen Daviau Trilha Sonora: John Williams Duração: 115 min. Estúdio: Universal Pictures

Cotação 5 estrelas

Duna (1984)

Por André Dick

Dino de Laurentiis e sua filha Raffaella produziram este filme, baseado no romance de Frank Herbert, que vinha de uma sucessão de projetos não concluídos (Ridley Scott dirigiria o filme em determinado momento). Recentemente, o diretor Peter Berg (de Hancock, Battleship…) teria desistido de uma nova versão, considerando uma obra infilmável, mesmo avaliando que a versão de Lynch não tinha a ação que ele imaginava quando leu Duna, o que é estranho, já que o romance de ficção científica de Herbert pode ser considerado mais psicológico do que propriamente de aventura – e é difícil pensar que Berg conseguiria realizar um trabalho como o de Lynch.
Superprodução de 40 milhões de dólares que não encontrou muito público nas bilheterias, embora tenha se tornado, com o passar dos anos, cult movie, Duna tem uma versão estendida (de 177 minutos) feita para a TV, acompanhada, ainda, por algumas cenas deletadas (que somam em torno de 10 minutos) que Lynch não assina, mas é melhor o filme ser visto na versão de cinema, mais curta (137 minutos), em DVD e Blu-Ray (neste formato, temos a melhor apresentação, assim como algumas cenas deletadas que não estão nos demais meios).

A introdução da versão oficial, por exemplo, é muito superior, pois não menospreza o entendimento do espectador, enquanto a versão mais extensa tem uma narração entre os blocos e a eliminação de uma ou outra cena mais pesada para o meio televisivo, além de cenas repetidas e o aspecto inacabado das imagens que não entraram na versão lançada nos cinemas, apesar de ter novas cenas-chave (interessantes para compreender melhor a relação entre alguns personagens). Ou seja, é difícil ter uma ideia exata do que Lynch queria, pois nenhuma das versões é aquela que gostaria de ter feito efetivamente, mas o que existe em Duna mostra seu brilhantismo como cineasta.
Cheguei ao romance por meio do filme e é comum se dizer que Lynch não explica nada. Esqueçamos, inicialmente, a montagem imposta pelos De Laurentiis. Em parte, o filme não consegue a expansão dos detalhes de Herbert, entretanto a tentativa é válida, pois Lynch respeita o material de origem, assim como acrescenta seu estilo, tratando com respeito a opulência visual que desperta o romance – não parece por acaso que o próprio Herbert diz ter gostado da adaptação.

A história se passa em 10.191 e remete ao povo do planeta Arrakis – completamente deserto –, chamado Fremen, que aguarda a chegada de um Messias, que seria Paul Atreides (Kyle MacLachlan, muito bem, com sua frieza, misturada com ingenuidade, característica), do planeta Caladan, cheio de mares – e sua água terá papel decisivo no filme. Porém, a família precisa agir sob as ordens do imperador do universo, Shaddam IV, que, querendo dar o poder de Arrakis aos Harkonnens, do Planeta Gide Prime, trai os pais do messias: o Duque Leto Atreides (Jürgen Prochnow) possui um anel de poder cobiçado, e Lady Jessica (Francesca Annis), sua mulher, é uma Bene Gesserit, linhagem de sacerdotistas que tenta impedir a chegada desse messias, querendo sempre resguardar uma magia estranha. A Madre Reverenda (Sian Phillips), que serve ao Imperador, lembra que Jessica não podia ter gerado um filho, pois ele pode ser o Kwisatz Haderach, aquele que pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. “O adormecido deve despertar”, diz Duque Leto ao filho, que vive cercado por professores, de Gurney Halleck (Patrick Stewart), passando por Wellington Yueh (Dean Stockwell), até Thufir Hawat (Freddie Jones). É justamente o que teme a Guild Navigator, que deseja destruir os Atreides.
O vilão é o Barão Vladimir Harkonnen (Kenneth McMillan, excelente), que tem dois seguidores, Rabban e Feyd Rautha (Paul Smith e Sting, muito bem) a seu lado – com comportamento pervertido – e outros ajudantes estranhos (entre as quais, Brad Dourif e Jack Nance), todos interessados na especiaria existente em Arrakis, que ajuda na locomoção das naves no espaço e pode representar o domínio do universo.

Comenta-se que o filme é confuso por já começar explicando o que acontecerá dali em diante. Se formos ao livro de Frank Herbert, veremos, ao longo dele, trechos do diário da Princesa Irulan (Virginia Madsen), que conta o que acontece com os personagens. Lynch acerdatamente começa com essa narração e, mesmo seguindo quase fielmente as sequências do livro, reordena de forma com que o filme vá ganhando um tom crescente (não por acaso, a câmera se afastando do olhar de Irulan para mostrá-la contra o espaço sideral cria um contraponto ao final com a câmera se aproximando dos olhos de Paul Atreides), Herbert tem um estilo interessante de apresentar os personagens, mas o filme não pode entrar no universo sem antes tentar explicá-lo.
Identifica-se também como um problema os pensamentos em off dos personagens. Lynch não é Malick, contudo o fato é que aqui também ele é fiel ao livro. Os pensamentos parecem óbvios, mas tanto no livro quanto no filme criam um elemento de onirismo (os personagens não estão completamente acordados).
Ao mesmo tempo, o vocabulário seria complicadíssimo (quando passou nos cinemas dos Estados Unidos, parece que os espectadores recebiam uma espécie de manual para acompanhar a história!). Tratando-se de uma ficção científica mitológica, não parece haver obrigação de Lynch explicar o sentido de cada termo dado por Herbert, nem de, por respeito aos fãs do livro, escondê-lo.

E os personagens, também no livro, são diversificados, surgem e desaparecem em alguns casos, ou seja, algumas vezes não desenvolvidos suficientemente. Quase não há ação ou humor – costuma-se comparar O senhor dos anéis com Duna, mas são, afora o universo mitológico, muito distintos, cada um possui qualidades específicas –, e sim muitos diálogos sobre intrigas de poder e política, com um tom, ao mesmo tempo, ecológico e religioso, quase teatral e profético. Há uma espécie de tensão de domínio entre os personagens (o Barão cujo destino está nas mãos das reverendas; o adolescente que precisa despertar para seu destino e salvar seu pai; a relação estranha entre o Barão e seu sobrinho; a tentativa de subjugar o povo Fremen). Além disso, no filme, Lynch tenta equilibrar, levantando uma tensão a respeito do anel que carrega o Duque Leto e é cobiçado pelo Barão Harkonnen, assim como guarda um mistério sobre quem pode ser o traidor infiltrado entre os Atreides (algo que se revela de início no livro). Alguns personagens de destaque no livro, como Dr. Kynes, Guy Halleck, Shadout Mapes e pai de Paul Atreides, aparecem mais na versão do filme feita para a TV. Outros, como o Imperador Shadam IV e a reverenda que o acompanha, pouco aparecem no livro, entretanto Lynch tenta destacá-los nas versões existentes do filme.

Já  alguns personagens têm suas características acentuadas, como o do próprio Barão, que no livro não parece ter toda a perversidade imaginada por Lynch.
Talvez Lynch tenha se equivocado com a inserção dos módulos de destruição, efetuados por meio da sonoridade da voz, o que é elementar em seu cinema (o poder do som), mas não existe no livro e não encaixa bem na história, sobretudo sem mostrar como são construídos, mesmo Paul Atreides tendo sua planta. Ainda assim, esses módulos de voz têm a ver com sua obra cinematográfica, em que o som humano sempre exerce um poder (não por acaso, a ação de Veludo azul é desencadeada depois da descoberta de uma orelha num capinzal).
A maior falha do filme Duna, porém, é que depois de 90 minutos de filme (na versão mais curta; quase duas horas depois na versão estendida), a trama passa a ganhar um ritmo mais intenso, impedindo que conheçamos melhor os personagens. Muitos acontecimentos se sucedem em poucos minutos (por isso, a versão estendida é curiosa). Na parte que precede seu final, está a maioria das cenas deletadas de Duna (o duelo entre Paul Atreides e um fremen; a conversão de um corpo em líquido; o nascimento da irmã de Paul; a perseguição de Rabban aos fremen no deserto; a descoberta de como é produzida a Água da Vida). Raffaella De Laurentiis, filha de Dino, acrescenta que isso se deu, também, porque foi pedido a Lynch que fizesse sete cenas em apenas uma, o que prejudicaria um projeto como este, elaborado em três anos e meio. Também, claro, porque a montagem final não foi a desejada por Lynch. Raffaella explica que a Universal, depois, tentou fazer uma versão estendida, embora Lynch não tenha participado, sem explicar se era opção do diretor, dela ou da Universal. O fato é que até hoje Lynch se nega a falar do filme, e a revisitá-lo, sobretudo porque foi feita essa versão de três horas para a TV sem a sua autorização.

De qualquer modo, Duna é – com ou sem falhas – fascinante, o que o torna um grande filme. Não há a confusão sugerida pela crítica à época, ainda menos uma alegada falta de produção (direção de arte, figurino, fotografia) caso o espectador se deixe levar pelas imagens já oníricas aqui do diretor, misturando água, fogo, terra e ar, mas sobretudo as dunas do planeta. Da metade para o final, é certo que estamos diante de um sonho de Paul Atreides – como os personagens de vários filmes de Lynch (no roteiro original de Duna, lá está, em determinada parte: “O sonho continua”). Por isso, os filmes posteriores do cineasta parecem explicar melhor Duna, e mesmo o contrário. Já no início, Paul Atreides sonha com o que irá acontecer a ele: a mulher que irá conhecer e o corpo flutuando no espaço – depois da experiência que terá com a Água da Vida –, a risada de Feyd Rautha (Sting). Em outro momento, depois da queda de sua nave no deserto, antes de conhecer os Fremen, Paul terá um sonho acordado (e numa das cenas da versão estendida há outro momento em que ele visualiza a lua, que determina seu destino). Ele pode ser Muad’ib ou o Kwisatz Haderach, aquele adormecido que deve despertar.

Nesse sentido, Lynch também é fiel, aqui, a Herbert, que explora vários diálogos sobre o sonho. As cenas de imagens esfumaçadas remetem a O homem elefante e Cidade dos sonhos, assim como a caixa da Bene Gesserit – em que Paul precisa colocar sua mão, a fim de passar por um teste – tem muito da caixa da atriz Rita, de Cidade dos sonhos, e o anel ducal que carrega o pai de Paul influenciaria, certamente, o anel com que Laura Palmer sonha na versão cinematográfica de Twin Peaks (aliás, na primeira cena de sonho de Twin Peaks, temos Jürgen Prochnow, o ator que faz o Duque Leto, num canto da sala). Isso sem falar na óbvia ligação com Eraserhead, primeiro filme de Lynch – a tomada de um verme se abrindo é idêntica à deste filme (o nascimento de Alia lembra o bebê de Spencer).
O elenco, apesar de a maioria ter participações rápidas, é muito bem escolhido, sobretudo Jürgen Prochonow e Francesca Annis, como os pais de Paul Atreides, Max von Sydow, na pele de um Fremen, Sian Phillips, no papel da reverenda ameaçadora, Brad Dourif e Kenneth McMillan – como harkonnens – e Sting (numa participação curta e eficiente). A atriz Sean Young, como Chani, namorada de Atreides, acaba tendo uma boa presença plástica, embora o roteiro não permita mais participação, e a meia hora final é muito bem pensada – com uma cena surpreendente, que suplanta alguns efeitos especiais mais precários (não se sabe se as naves são mais estáticas para ser uma contraposição à movimentação de Star Wars, pois Lynch pediu a todos que não queria um ar de ficção científica em sua obra, preferindo um futurismo passadista, e já que Duna é mais uma ficção psicológica, entretanto na maior parte das vezes não convencem, servindo mais como imagens pictóricas). Nesse sentido, o filme consegue retratar melhor as batalhas na areia e dos vermes do que revelar imagens de naves espaciais, ainda mais diante das ficções científicas de destaque feitas anteriormente (como 2001, Star wars e Blade Runner) e, sobretudo, posteriormente – embora sua direção de arte de Anthony Masters (de Lawrence da Arábia e 2001), as maquetes perfeitas de Emilio Ruiz del Río, e as imagens dos vermes (criados por Carlos Rambaldi, o mesmo responsável pela concepção de E.T. e do King Kong de 1976) compensem isso, criando um universo muito mais amplo do que 2001 e Blade Runner, situados em lugares definidos.

Nesse sentido, há boas cenas de ação (como aquelas que mostram os vermes gigantes) e, no plano técnico, direção de arte, maquiagem e figurino notáveis, além da fotografia do mesmo Freddie Francis de O homem elefante. Destaque-se que Duna concorreu apenas ao Oscar de melhor som. Nessas categorias referidas, talvez ele tivesse como concorrente, em 1984, apenas Amadeus e 2010 – sendo, a meu ver, superior em todas essas categorias em relação a esses dois, sobretudo por criar um universo, e não simplesmente recriar um já existente. No prêmio Saturn Awards, mais importante da ficção científica, ele foi reconhecido com indicações (melhor filme, melhor maquiagem, melhores efeitos especiais) e recebeu um (melhor figurino).
Especificamente o figurino, misturando Idade Média e futurismo, foi feito de forma notável por Bob Ringwood (responsável pelos figurinos de Excalibur, Império do sol e Batman). Vejamos, por exemplo, aquele que veste Feyd Rautha (Sting), o Imperador Shaddam e a Reverenda:

Impressiona como Lynch, reunindo uma grande equipe em estúdios do México, em 1983, conseguiu reproduzir o universo imaginado por Herbert, sobretudo nas cavernas e palácios, inclusive porque o romance não descreve detalhadamente os cenários, preferindo concentrar-se nos personagens. Esses cenários como que simbolizam os personagens, frios e simétricos, esperando um sentido para a Água da Vida. Consequentemente, cada planeta de Duna corresponde a uma concepção visual: Caladan tem mares e chuva, com plantas, vento e umidade; Gied Prime tem um ambiente de máquinas, correntes, fios e iluminações futuristas, além de uma cor verde doentia nas paredes; Arrakis tem o clima de deserto, com coloração amarela, e cavernas escuras; e Kaitain, onde fica a sede do imperador, tem edifícios tecnológicos. Não há dúvida de que a concepção de Masters, baseada em muitos desenhos de Lynch, cria um universo magnífico.Eu diria que vale a pena conhecê-lo, pois tem imagens notáveis, que lembram pinturas – sua força é, sem dúvida, pictórica e sonora –, explicando o fato de Lynch ter preferido fazer este filme a dirigir O retorno de Jedi, convidado por George Lucas, pois poderia desenvolver um universo próprio – embora Star Wars deva muito aos livros da série Duna e O senhor dos anéis, fazendo com que Lynch não desenvolva alguns aspectos, que soariam repetitivos, e o cineasta não queira mais, hoje, falar do filme em entrevistas.

Além disso, tenho especial apreciação pela trilha de Toto, misturando um tom épico com algumas sonoridades dos anos 80, mas sem ficar datado. Lynch construiu a maior ficção científica com elementos do rock no figurino e na música.
Duna e a obra de Herbert certamente influenciariam Lynch para toda sua carreira, sendo uma pena que ele não reconheça mais o filme. Mesmo com o desinteresse da Universal, é certo que os admiradores da obra gostaria de ver um dia seu corte final. E parece algo espantoso, embora reserve-se o direito, que, mesmo com esse desejo, Lynch pareça não dar importância – apenas pareça, pois ele produz diálogos com Duna em outras obras suas.
Nesse sentido, não se trata de uma obra aprovada plenamente por ele, mas o que conhecemos, ainda assim, forma uma peça única de ficção científica, que parece sempre melhorar numa releitura, além de sua fascinação.

Dune, EUA, 1984 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Kenneth McMillan, Jürgen Prochnow, Sean Young, Francesca Annis, Leo Cimino, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Freddie Jones, Max von Sydow, Virginia Madsen, Richard Jordan, Patrick Stewart, Sting Produção: Raffaella de Laurentiis Roteiro: Eric Bergren, Christopher de Vore, David Lynch, Rudolph Wurlitzer Fotografia: Freddie Francis Trilha Sonora: Toto Duração: 137 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis

Cotação 5 estrelas

Blade Runner (1982)

Por André Dick

Os produtores da Warner Bros investiram 30 milhões de dólares nesta ficção científica visualmente brilhante, pensando em repetir o êxito de Alien (do mesmo Ridley Scott). Na primeira exibição, com a montagem sem som, detestaram o filme, achando-o muito sério e complicado. Preferiram algo parecido com Guerra nas estrelas, ou seja, mais ação e menos reflexão. Assim, fizeram vários cortes e solicitaram que se colocasse uma narração em off do personagem central (Harrison Ford). Resultado: um fracasso de público e recepção dividida da crítica. Porém, com o passar dos anos, o diretor resolveu lançar a sua versão. Fato é que Blade Runner não necessitava dessa nova versão, pois é um clássico – e tem ação na medida certa para o clima em que se os personagens se inserem. Harrison Ford é Rick Deckard, nomeado para capturar um grupo de replicantes (androides com características humanas) que perambula pela Los Angeles de 2019.
Mesmo não gostando da tarefa, o policial acaba aceitando, mas acaba se apaixonando por uma replicante (Sean Young, no filme que a revelou) e tem de enfrentar a burocracia da polícia. O romance é meio morno, mas o líder dos androides (o espetacular Rutger Hauer) tenta justificar a violência na parte final. Eles querem ser vistos como humanos, e não meramente como androides. A androide feita por Daryl Hannah, aliada a uma maquiagem diferente, é a mais assustadora, ao mesmo tempo que remete a uma imagem de contos de fadas ou de bonecas infantis. A máquina de Blade Runner por vezes é confusa, entretanto tentar entender seus detalhes sempre dá acesso a um lugar diferente. Repare no figurino dos personagens (parecem estar nos anos 40) e ouça a trilha sonora de Vangelis, que vale a pena. E, claro, há o impressionante desenho de produção (de Lawrence J. Paull), mostrando uma Los Angeles futurista, com chuva ácida, mas ainda assim antiga e anos 80 (com seus néons). Além da canção nostálgica “One more kiss dear”. Mas não é para qualquer público ou espectador.

Blade Runner, EUA, 1982 Diretor: Ridley Scott Elenco: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Daryl Hannah, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, William Sanderson Produção: Michael Deeley, Charles de Lauzirika (Versão Final) Roteiro: Darryl Ponicsan, David Peoples Fotografia: Jordan S. Cronenweth Trilha Sonora: Vangelis Duração: 118 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: The Ladd Company / Shaw Brothers / Warner Bros. Pictures / Michael Deeley Production / Ridley Scott Productions

Cotação 5 estrelas