Homem-Formiga e a Vespa (2018)

Por André Dick

O universo estendido da Marvel já teve dois filmes este ano, Pantera Negra e Vingadores – Guerra infinita. A eles vem se juntar a sequência daquele que seria o mais despretensioso do conjunto, lançado em 2015. Todos sabem que a parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de obras com variados super-heróis: Thor, Homem de Ferro e Capitão América, entre outros. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias de X-Men e Deadpool. Homem-Formiga é um dos personagens mais improváveis desse universo. O primeiro tinha a colaboração no roteiro de Edgar Wright, o mesmo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, com Joe Cornish, que escreveram As aventuras de Tintim. Quem o substituiu na direção do filme antes de começarem as filmagens foi Peyton Reed, que regressa para a sequência. Ele tem uma obra muito curiosa sobre o amor com o estilo dos anos 50 (Abaixo o amor) e também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

Desta vez, Homem-Formiga e a Vespa conta com um roteiro assinado a dez mãos por Chris McKenna e Erik Sommers (dupla de LEGO Batman – O filme), além de Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari. Scott Lang (Paul Rudd) teve problemas com a justiça depois de ajudar o Capitão América a enfrentar o Homem de Ferro em Guerra Civil e é vigiado pelo agente da SHIELD Jimmy Woo (Randall Park). Por isso, ele tenta conviver o máximo com sua  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), dentro de casa, em brincadeiras que remetem a Os Goonies, enquanto tem a ajuda da antiga mulher, Maggie (Judy Greer), casada com o policial Paxton (Bobby Cannavale).
Ele está afastado de Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) se transforma na super-heroína Vespa e estão atrás, no universo quântico descoberto por Lang no primeiro filme, de Janet (atriz em participação surpresa), mãe de Hope. No entanto, algo os aproxima novamente – e essa química entre eles reproduz boa parte daquele filme de 2015, com Douglas, Rudd e Lilly trocando farpas de modo engraçado. E novamente estão de volta o amigo Luis (Michael Peña), com os parceiros atrapalhados Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). A ameaça parece ser Ava Starr/Ghost (Hannah John-Kamen), acompanhada por Bill Foster (Laurence Fishburne), porém surge pelo caminho também Sonny Burch (Walter Goggins), um negociante do mercado subterrâneo de tecnologia.

Como no filme de 2015, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus ligeiros flashbacks, inspirados claramente nas ideias de Edgar Wright. Pelo universo tecnológico envolvido, novamente há as referências à SHIELD, mas esta sequência se mostra próxima de Homem-Aranha – De volta ao lar, com uma passagem de Lang por um colégio, que rende uma das cenas divertidas do filme. Tudo é ainda despretensioso, embora os personagens não sejam mais novidade. O que interessa é como Reed desenha esse super-herói: ele não tem as pretensões de outros, nem carrega uma tentativa de lado épico, apegando-se ao cotidiano, e isso o torna inegavelmente humano. Outra qualidade é a falta de ligação explícita com o universo expandido, que distrai em demasia a atenção do espectador para o próprio filme, às vezes incorrendo num didatismo desnecessário.
O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, e depois fez o professor de As vantagens de ser invisível, além de interpretar seu melhor papel, em Bem-vindo aos 40. Com sua mescla entre um humor agridoce e um sentimentalismo bem dosado, ele não tem tanta chance de mostrar sua empatia como no primeiro e quem conquista o espaço novamente é Peña, no papel do amigo atrapalhado, que tem um momento de interrogatório que remete a um dos meninos de Os Goonies, enquanto Douglas é competente e Lilly adorável no papel de elo romântico. Cannavale não tem a mesma participação convincente do primeiro filme, aparecendo um pouco deslocado, assim como Greer, mas Goggins compensa (era um destaque já em Os oito odiados, de Tarantino).

Igual ao primeiro, impressiona como Reed consegue aliar um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo dos insetos e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto, principalmente, desta vez, com casas e edifícios encolhendo, assim como carros de todos os tipos, em perseguições que remetem a Bullit dos anos 60, auxiliadas pela fotografia do sempre competente Dante Spinotti, mesmo que com um jogo de cores menos atrativo daquele do primeiro, mais lúdico. Nessa mesma linha, o design de produção não se mostra suficientemente criativo, levando em conta que Reed dirigiu o visualmente belíssimo Abaixo o amor, esquecido em categorias técnicas pelo Oscar em 2003. Os movimentos da Vespa são, de qualquer modo, captados com uma resolução notável, um verdadeiro feito na área, assim como o universo quântico possui uma esplendorosa concepção molecular, lembrando o momento da criação de A árvore da vida, de Malick. Novamente, e ainda mais que o primeiro, ele dialoga com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia o primeiro Homem-Formiga, tenha seus méritos – e Querida, estiquei o bebê. De qualquer modo, Homem-Formiga e a Vespa se ressente de um roteiro ágil como o do primeiro, capaz de entrelaçar as gags com a ação de maneira afetiva e impondo aqui o drama existencial de Ghost, que destoa um pouco do conjunto, embora seja bem trabalhado em alguns momentos, inclusive visualmente. Isso não o impede de ser novamente uma das obras exitosas do universo expandido da Marvel.

Ant-man and the wasp, EUA, 2018 Diretor: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michael Peña, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, Tip “T.I.” Harris, David Dastmalchian, Hannah John-Kamen, Abby Ryder Fortson, Randall Park, Laurence Fishburne Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari Trilha Sonora: Christophe Beck Fotografia: Dante Spinotti Produção: Kevin Feige, Stephen Broussard Duração: 118 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

Homem-Formiga (2015)

Por André Dick

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A parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de filmes com os mais variados heróis: Thor, Homem de Ferro, Capitão América. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias do Homem-Aranha continuamente, trocando o ator a cada cinco anos, quando não antes. No próximo ano, a DC Comics finalmente colocará em cena o duelo entre Batman e Superman, já visualizado nos quadrinhos de Frank Miller. No entanto, um dos heróis mais improváveis a sair dessa parceria da Marvel com Disney é outro. Enquanto Homem de Ferro, Thor e Capitão América, e ainda Hulk (que não possui ainda um filme solo com o ator atual, Mark Ruffalo), são bastante conhecidos, mesmo para quem não acompanha quadrinhos, o Homem-Formiga parecia, em primeiro lugar, não anunciar um projeto seguro. No início, foi chamado Edgar Wright para dirigi-lo. Wright é o responsável por filmes de grande humor, violência e ação, a exemplo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, principalmente em sua parceria com Simon Pegg, reproduzida também em Heróis de ressaca. É ainda Wright um dos responsáveis pelo roteiro de Homem-Formiga, ao lado de Jay Cornish, autor da história de As aventuras de Tintim, Adam McKay e Paul Rudd. No entanto, quem assumiu a direção foi o mais improvável ainda Peyton Reed. Enquanto ele possui um par de obras menos felizes (Abaixo o amor e Separados pelo casamento), também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

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Esta influência de Reed e Wright, com humor, é a principal chamada de Homem-Formiga. Scott Lang (Paul Rudd) é um prisioneiro. Depois de liberado, quem o recebe de volta à vida é o amigo Luis (Michael Peña). Para infelicidade de Lang, ele tem planos de novos assaltos, com a ajuda dos amigos Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). Eles certamente formam algo que se assemelha a um trio pouco inclinado a invadir propriedades sem chamar a atenção. O personagem principal pretende rever a convivência com a  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), mas se depara com a antiga mulher, Maggie (Judy Greer, a mãe preocupada com os filhos dos filmes do verão norte-americano, a julgar também por Jurassic World), e o seu novo marido, o policial Paxton (Bobby Cannavale), que exigem dele um emprego e o pagamento da pensão. Ao mesmo tempo, Darren Cross (Corey Stoll) está fazendo experimentos, iniciados tempos atrás com Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) está à frente ainda da empresa que era dele e cujo desaparecimento da mulher ainda é um mistério. Cross não é alguém certamente confiável, pois está tentando reproduzir um experimento iniciado por Pym com partículas, a fim de criar o Yellowjacket, e o destino colocará Lang no rumo desses acontecimentos.
Diferente dos demais heróis da Marvel, o passado de Lang e o interesse que provoca é justamente por sua habilidade em roubos, em burlar sistemas a princípio invioláveis. Ao contrário dos demais, como o de Stark em revolucionar a tecnologia, ou Thor com seu entorno de disputa pelo poder de Asgard, ele pretende, por meio da possibilidade de ser o Homem-Formiga, em conseguir novamente ver a filha. Também não se transforma como esses heróis com um poder externo ou interno a ele, nem é picado por um inseto antes de adquirir poderes, nem é um cientista como Banner ou Stark. Ele simplesmente aceita usar o uniforme de Homem-Formiga e aprender a lidar com uma tropa de insetos, que ficam gigantes perto dele.

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Não estamos diante de Tropas estelares, de Paul Verhoeven, com sua compulsão por bílis de monstros; Homem-Formiga é para um público infantojuvenil. Ele tem diálogos maiores com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente 25 anos depois, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia Homem-Formiga, tem seus méritos – na maneira como mostra, por exemplo, o herói em meio aos insetos num jardim caseiro. Ainda assim, a produção de Reed não se sente descartável, como muitos blockbsusters. Particularmente, mesmo que se considere Capitão América 2 uma grande conquista da Marvel, acompanhada por Guardiões da galáxia, Homem-formiga me pareceu o filme de herói solo mais interessante desta leva. Ele tem uma composição que parece acessível e pouco original, mas consegue lidar com a fórmula de maneira muito eficiente, não apenas em razão dos efeitos especiais excelentes, como também por causa do elenco e do design de produção situado entre o tecnológico e o caseiro (a moradia de Pym ou da filha de Lang, com um trem que trará uma das cenas-chave da produção, como já se vê no trailer). Do mesmo modo, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus flashbacks, certamente um acréscimo de Edgar Wright, cujas histórias trazem certamente esse elemento, principalmente em Chumbo grosso e Scott Pilgrim. E há as referências à S..H.I.E.L.D. e à Hydra, assim como a participação de um dos personagens já vistos anteriormente em Capitão América e Os vingadores.
Talvez seja a simplicidade de Reed em lidar com elementos pouco originais e ainda contar com um elenco tão interessante que torna Homem-Formiga numa diversão superior ao que se espera. O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes mais subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto e As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, sem efetivamente conseguir, e depois o professor de As vantagens de ser invisível.

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Como o Homem-Formiga, ele consegue lidar com um aspecto bem humorado, no entanto sem querer repetir Robert Downey Jr. Ao seu lado, Michael Douglas consegue um bom papel, sem chamar atenção demais, equivalendo a Stanley Tucci em Capitão América na esperança de ter escolhido a pessoa certa para efetuar o que precisa, enquanto Evangeline Lilly tem uma composição agradável. Stoll é um vilão também plausível e há uma cena de ameaça num banheiro masculino que remete àquela do RoboCop dos anos 80. Além disso, o trio de amigos de Lang consegue ser interessante para o fluxo da narrativa.
Impressiona como Reed consegue utilizar todos esses elementos, junto com o elenco, na realização de um filme que coloca uma ideia a princípio apenas curiosa em um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo das formigas e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto e mesmo quando ele precisa contar com a ajuda dos insetos para entrar nos lugares mais imprevistos, com o auxílio da fotografia excepcional de Rusell Carpenter, que recebeu um Oscar por Titanic, lembrado num determinado momento da trama. Do mesmo modo, Reed desenha essas sequências com uma agilidade grande, ao colocar o humor como válvula de escape. Neste sentido, Homem-formiga chega àquele limite muito difícil de ser traçado, entre um filme apenas meramente divertido e realmente bem feito; ele se inclina com êxito para a segunda característica.

Ant-man, EUA, 2015 Diretot: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Michael Douglas, Corey Stoll, Evangeline Lilly, Michael Peña, Bobby Cannavale, Judy Greer Roteiro: Adam McKay, Edgar Wright, Joe Cornish, Paul Rudd Fotografia: Russell Carpenter Trilha Sonora: Christophe Beck Produção: Kevin Feige Duração: 117 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Big Talk Productions / Marvel Enterprises / Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

O hobbit – A batalha dos cinco exércitos (2014)

Por André Dick

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Depois de receber os Oscars de melhor filme e direção pela terceira parte de O senhor dos anéis, Peter Jackson iniciou a sua fase de adaptação a um cinema sem tanta mitologia, mas, mesmo assim, ele refilmou King Kong e tentou fazer uma história sobre o além em Um olhar do paraíso. Sem ter o êxito esperado, ele voltou ao universo de Tolkien, desta vez para a trilogia de O hobbit. No entanto, além de ficar razoavelmente circunscrito a este universo, ele passou a não ser visto mais como um cineasta de especial criatividade, justamente pela opção em transformar um livro de Tolkien em três filmes, parecendo mais interessado no lucro proporcional da franquia. O primeiro O hobbit (Uma jornada inesperada) foi recebido com desconfiança pela crítica, embora, particularmente, seja um filme de muita qualidade, enquanto A desolação de Smaug, a segunda etapa da peregrinação de Bilbo e os anões foi melhor aceito, mas tinha dificuldade de criar o movimento necessário porque justamente Jackson o projetou depois de conceber O hobbit em apenas duas partes.
Essa decisão praticamente afastou Jackson de uma pretensa admiração pela obra de J.R.R. Tolkien, na visão de muitos: ele parecia mais interessado em fazer render a franquia e proporcionar uma tentativa de se equivaler com O senhor dos anéis. Finalmente chegamos à parte final da série, O hobbit – A batalha dos cinco exércitos, e já podemos ter uma noção bastante clara no sentido comparativo com a trilogia anterior.  Como se avalia desde o início, O hobbit não foi concebido, ainda em livro, para ser um épico na proporção de O senhor dos anéis, nem tinha, apesar dos personagens interessantes, o número proporcional de situações e reviravoltas. Nesse sentido, Jackson, ao incluir novamente Legolas e mais uma elfa na linha de frente, desde A desolação de Smaug, fazia o possível para lançar seu olhar pessoal para a obra de Tolkien, a meu ver sem tanta efetividade. Mas a questão é que o segundo filme tinha um encerramento sem ligação com seus longos 160 minutos e personagens ficavam soltos, sem nenhum direcionamento específico, inclusive Bilbo, que praticamente não aparecia, além de alguns personagens serem acrescentados sem a devida força.

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A terceira parte de O hobbit começa justamente onde o segundo terminou (e aqui há possíveis spoilers para quem também não viu A desolação de Smaug), com o ataque do dragão à Cidade do Lago. Jackson coloca uma dinâmica espetacular nessa sequência, com uma sucessão de efeitos especiais notáveis e um trabalho sonoro minucioso, além da agilidade da fotografia de Andrew Lesnie, o referencial desde a primeira trilogia. Este ataque de Smaug é certamente o clímax do filme passado transposto para o início deste, e o espectador logo teme que Jackson, em seguida, tome mais alguns minutos de exposição para o que acontecerá, sem o devido ritmo. Aos poucos, ele estabelece a narrativa, mas sem lacunas e demoras, ao mostrar Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage) dentro da Montanha enfrentando o que os seus companheiros de viagem chamam de “doença do dragão”. Considerando-se um rei, Thorin esquece suas promessas aos habitantes da Cidade do Lago para tentar abraçar o ouro de sua morada. Bilbo tenta contornar a situação com a ajuda sobretudo a Balin (Ken Scott), mas nada impedirá uma guerra por causa justamente de vários povos saberem do que aconteceu e irem atrás do ouro – daí os cinco exércitos do título.
A saída de Jackson para sua saga poderia render certamente batalhas e destruições em massa, com o mesmo enfoque de outros filmes de fantasia. Mas, de forma inusitada, pois Jackson se mostrava excessivamente confiante com a segunda parte da série – justamente a que foi filmada em grande parte depois de ele terminar a saga, ou seja, ele a criou para formar uma trilogia –, O hobbit derradeiro é um filme que consegue lembrar não apenas os melhores momentos de O senhor dos anéis, como apontar uma maneira original de ver esses personagens que havia, a meu ver, em Uma jornada inesperada. Ou seja, enquanto no segundo Jackson parecia fazer cenas de ação simplesmente para estender poucos argumentos do roteiro, aqui ele consegue, como em O senhor dos anéis, justificar a ação por meio da decisão de seus personagens. Há filmes de ação, que surgem principalmente no verão, que não trazem nenhuma dosagem dramática; O hobbit – A batalha dos cinco exércitos faz sua ação a partir do drama dos personagens, um elemento que Jackson resgata sobretudo da batalha do Abismo de Helm em As duas torres.

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Para quem esperava encontrar novamente ligações entre os personagens na Terra-média, finalmente temos uma presença bastante interessante de Thorin Escudo de Carvalho, numa atuação definitiva de Richard Armitage, fazendo algo difícil: colocar o espectador como alguém que tem aversão a seu comportamento, mas também atrair a empatia. Bilbo, praticamente esquecido no segundo filme, servindo como coadjuvante de Bard, o arqueiro, consegue novamente se sobressair, como no primeiro, sobretudo em alguns lances de humor e comoção do ótimo Martin Freeman. Não apenas esses personagens surpreendem, como também o próprio arqueiro consegue uma justificativa para sua presença – e Luke Evans finalmente tem reações emocionais quase ausentes no primeiro filme –, assim como Legolas (Orlando Bloom), Tauriel (Evangeline Lilly) e Kili (Aidan Turner) arquitetam uma trama paralela com interesse o suficiente para o espectador, inclusive em sua relação com Thandruil (Lee Pace), embora não sejam expansivos como os de O senhor dos anéis. Contudo, são personagens, pelo menos neste filme, com motivações humanas e uma procura inata pela nobreza que independe de guerra ou linhagem, mesmo que haja um paralelismo: em determinado momento a Arkenstone desejada por Thorin pode se passar por sementes: aquela simboliza o domínio sobre o reino; as sementes simbolizam o domínio da natureza sobre os poderes e os reinos que passam. Kili pode dar uma peça pessoal a Tauriel, e ela contém sempre uma aproximação, tendo como figura contrária a de Alfrid (Ryan Gage), que acompanha os habitantes da Cidade do Lago com outro objetivo.
Esse elenco consegue criar um equilíbrio com a parte técnica do filme. Um dos maiores incômodos da segunda parte de O hobbit era sua parte técnica com alguns problemas. Em razão de muitas cenas terem sido filmadas depois da rodagem oficial ser concluída, havia um excesso de CGI nos cenários, sobretudo na passagem pela cidade dos elfos. Aqui, se continua havendo CGI, deve-se reconhecer a riqueza de detalhes, acompanhada por figurinos que dialogam com as cores captadas por Lesnie, e Jackson coloca finalmente uma coleção de imagens fantásticas capazes de lembrar não apenas O senhor dos anéis, mas fábulas fantasmagóricas e assustadoras. Os interiores da Montanha Solitária ganham detalhes imprevistos, assim como Jackson consegue obter um olhar de 360 graus sobre o que cerca a Montanha e as batalhas em seu centro, tendo Azog (Manu Bennett) como o grande inimigo, à frente de milhares de orcs. Trata-se de um final ao mesmo tempo com tom dramático, mostrando várias ações paralelas, e teatral, como se tudo precisasse ser decidido num único lugar, em que todos os personagens se reúnem para a alegria ou a tragédia.

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Parte desta decisão se deve ao fato de ter se dividido as duas partes em três, mas o fato é que O hobbit – A batalha dos cinco exércitos funciona de maneira emocional, dramática e com um palco aberto a cenas fantásticas e de resolução que não havia em A desolação de Smaug. Um duelo do qual faz parte Gandalf (Ian McKellen, compensando a dificuldade com que fez o filme, por motivos de doença, com sua empatia) em meio a figuras fantasmagóricas apenas anuncia esse eixo em que os personagens se reúnem pela sua vida ou morte (e por um instante mesmo Galadriel, numa cena magnífica, parece lembrar a cena derradeira do Padre Karras de O exorcista, mas potencializada com mais efeitos especiais). Nesse sentido, a presença não apenas de Bilbo, como também do arqueiro, mostram sempre a necessidade de se buscar um sentido para a casa. O arqueiro, à frente daqueles que sobraram da Cidade do Lago, precisa dar um novo lar a seu povo, enquanto Thorin não entende por que Bilbo coleciona motivos para levar ao condado.
Há uma cena magnética em que Thorin, dentro da Montanha, enfrenta seu próprio eu e imagina um piso banhado de ouro – numa atuação excepcional de Armitage. Esta sequência estabelece uma relação direta com uma situação em que Thorin precisa lutar sobre a água, simbolizando sua origem, e não mais sobre o ouro. Também chama a atenção uma fala de Bilbo sobre as águias que remete ao final de Uma jornada inesperada, quando ele e Thorin conversam no alto de uma montanha sobre ter um lar. Essa motivação pessoal vai ao encontro daquela de Legolas, sobre voltar ou não para seu povo. Existiam esses elementos em O senhor dos anéis, e aqui eles são expostos de maneira sensível, em meio a batalhas ruidosas e fantásticas, assim como uma bela ligação das paisagens mais ensolaradas de Uma jornada inesperada com o cinza e a ambientação mais fria de A batalha dos cinco exércitos, como se as estações da jornada se completassem.
Neste sentido, este O hobbit consegue estabelecer pontes diretas com os filmes anteriores sem levar o espectador a se perguntar por que Jackson está estendendo determinada cena. E, em meio a sequências com um ritmo contínuo (e pela primeira vez a metragem não é excessiva, levando o espectador a se interessar pelo material que foi excluído), Jackson forma uma unidade interessante com O senhor dos anéis. Se a partir do segundo filme poderia haver uma desconfiança em relação ao cineasta, ele finaliza a trilogia com um êxito que certamente traria percalços a quem não dirigiu O senhor dos anéis. O hobbit – A batalha dos cinco exércitos não é apenas um grande filme de fantasia ou de ação, ou uma adaptação à altura do universo imaginado por Tolkien. Do mesmo modo, não é um filme apenas para os fãs dessa obra, como muitas vezes é recebido, e sim para quem admira um cinema no qual é possível rever e guardar parte da própria imaginação, que cresce como as sementes que Bilbo carrega.

The Hobbit – The battle of the five armies, EUA, 2014 Diretor: Peter Jackson Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Aidan Turner, Luke Evans, Lee Pace, Stephen Fry, Ken Stott, Benedict Cumberbatch, Cate Blanchett, Manu Bennett, Hugo Weaving, Christopher Lee, Billy Connolly, Ian Holm  Roteiro: Fran Walsh, Guillermo del Toro, Peter Jackson, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Carolynne Cunningham, Fran Walsh, Peter Jackson Duração: 144 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: 3Foot7 / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema / WingNut Films

Cotação 5 estrelas

 

O hobbit – A desolação de Smaug (2013)

Por André Dick 

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Com o lançamento de O hobbit, em 2012, surgiu a discussão de que Peter Jackson havia dividido a história em três partes, como O senhor dos anéis, para conseguir alcançar uma arrecadação extra. E aconteceu o que possivelmente ele mesmo já imaginava: a comparação com O senhor dos anéis trouxe o desgaste, sobretudo para a crítica e os possíveis prêmios que uma obra desse porte normalmente conseguiria. O que resultou a partir daí foi uma grande bilheteria, própria de um blockbuster, mas um esquecimento, de modo geral, do que havia feito O senhor dos anéis uma trilogia referencial para o cinema: a aceitação de um mundo fantástico. Difícil um filme de tanta qualidade como O hobbit ter sido recepcionado apenas como um prolongamento apenas em busca de mais dinheiro e de marketing, ou pensado apenas para estender o que não deveria ter sido, para alguns, sequer filmado. Um ano depois, estamos novamente diante da jornada de Bilbo, na segunda parte, O hobbit – A desolação de Smaug. E, de modo geral, parece existir novamente uma resistência à nova trilogia em termos do que ela oferece, embora uma melhor aceitação quanto ao ritmo. O ritmo é um dos destaques de O senhor dos anéis, mas não o principal: O hobbit – Uma jornada inesperada sentia-se como uma extensão sentimental da primeira trilogia e, se o seu ritmo não era igual, tinha bastante propriedade e envolvimento.
Na continuação de sua jornada, em busca da Montanha Solitária, onde se encontra o Dragão Smaug, Bilbo (Martin Freeman) está de volta, ao lado de Thorin (Richard Armitage), dos anões e Gandalf (Ian McKellen). O início do filme reserva um número de imagens suficientemente atrativo para o espectador, com bosques misteriosos e cenários da Terra-média pensados minuciosamente. De um esconderijo em que o personagem Beorn (Mikael Persbrandt) vaga rapidamente diante de nossos olhos, à Floresta das Trevas, até a chegada dos elfos, Jackson continua permeando seu filme de imagens fantásticas, misteriosas e implacavelmente belas, com a fotografia de Andrew Lesnie.

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No entanto, à medida que vemos a ação acontecendo, e em meio a ela Bilbo apenas como um apêndice, temos a sensação de que, com dois personagens sendo trazidos à cena sem fazerem efetivamente parte dela, Legolas (Orlando Bloom, deslocado), e Tauriel (Evangeline Lilly, em momento particularmente infeliz), marca presença aquilo que inexiste, pelo menos em minha avaliação (e estou em minoria), no primeiro. Há uma sensação de inchaço em muitas sequências, personagens são acrescentados sem a devida força e o elenco não se mostra à altura. Além disso, sente-se a fidelidade exagerada ao livro em algumas passagens e liberdade em outras. E elas não seriam incômodas se justamente ocorresse aquilo que foi cobrado antes do primeiro filme: que não fosse uma trilogia. Há uma sensação, de modo geral, que se tenta reproduzir fielmente os mesmos conflitos de O senhor dos anéis: o receio de o mal se estabelecer, mas de forma excessivamente vaga, a peregrinação solitária de Gandalf e até mesmo um triângulo amoroso. E tudo soa sem a mesma engenhosidade e ânimo, mas com um certo cansaço, inclusive no excesso, com o passar do tempo, do uso de CGI, apagando a qualidade da direção de arte e prejudicando a fotografia de Lesnie e o trabalho de cores. Tudo faz com que não pareça uma continuação de O hobbit, mas uma refilmagem econômica, em menor escala, de O senhor dos anéis. Ou seja, em O hobbit – Uma jornada inesperada, Jackson conseguia criar uma nova obra a partir do mesmo universo da Terra-média, dialogando de forma criativa com O senhor dos anéis; aqui ele apenas quer reproduzir a trilogia anterior.
Ao longo do filme, é difícil entender o que fez Peter Jackson abandonar seus trunfos na primeira trilogia e no primeiro O hobbit: o privilégio dado aos personagens, à inter-relação bem-humorada e as sensações de confronto, de perda e de busca pela própria identidade. Bilbo inicia o filme às voltas com o anel roubado de Gollum, mas, ao mesmo tempo em que parece ter um conflito consigo mesmo, ele logo se perde. A partir de determinado momento, independente, aqui, do que ocorre no livro, é como se ele fosse apenas parte do cenário, sem efetivamente pertencer a ele – e o fragmento longo de filme em que o arqueiro Bard (Luke Evans, sem qualquer reação) parece se tornar o personagem central, deixando Bilbo sem falas, é o mais delicado de todos. Se o primeiro sugeria uma proximidade de Bilbo dos anões, aqui parece haver mesmo nesta relação uma amizade pouco natural e nunca atribuída aos personagens, apenas imposta, sem emoção (veja-se a cena em que um anão elogia o hobbit, parecendo uma frase extraída de outros momentos). Do mesmo modo, alguns personagens desaparecem por um longo período de tempo, quando não temos mais ideia do que eles estão fazendo (a montagem é decisivamente o problema), algumas sequências se estendem demais e outras acontecem rápido demais, e se antes havia pelo menos a presença ameaçadora de um Orc, desta vez parece não haver o que será combatido. Se há, fica mais diluído, não havendo uma ameaça aterrorizante que coloque esses personagens em estado de medo – como no primeiro havia de modo evidente – até pelo menos quando surge o ameaçador dragão Smaug (criação tecnológica de surpreendente perícia, com voz de Benedict Cumberbatch), já muito tarde.

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E chegar a este ponto é realmente incontornável, é como não reencontrar o universo fantástico que se esperava há um ano. Vê-se Peter Jackson surgindo no início do filme – ele está dizendo que a obra é dele, assim como de Tolkien – e o que menos se vê é sua agilidade narrativa e de edição conhecidas mesmo em seus experimentos mais baseados em efeitos especiais, como King Kong. Até em Um olhar do paraíso, com sua confusão visual, ainda temos a sensação de que há um diretor com determinados sentimentos. Aqui, Jackson parece ausente, assim como a antes fabulosa trilha de Howard Shore, e nem mesmo o roteiro dividido, entre outros, com Guillermo del Toro consegue reparar uma estranha ausência de rumo no envolvimento com a história. Não se sabe, ao fim das contas, se alguns atores tiveram sua participação diminuída apenas por fidelidade ao livro – que não há em termos de outros personagens acrescentados, por exemplo – ou outras questões, mas O hobbit – A desolação de Smaug não se sente filmado no mesmo ritmo do primeiro O hobbit, nem com o mesmo envolvimento, nem a mesma competência para cenas de ação de Jackson, excluindo aquelas dos barris (independente de seus exageros, mesmo para uma fantasia, com Legolas em ritmo de videogame) e da Floresta das Trevas. Parece ter havido uma quebra, e esta se deve, a meu ver, ao fato de Jackson ter planejado O hobbit em dois filmes e ter resolvido, no fim das contas, realizar três, decisão ocorrida, ao que se sabe, no fim das primeiras filmagens, antes da refilmagem de cenas e acréscimos, como acontecem em filmes rodados ao mesmo tempo. Não há nesta segunda parte o que sentimos em outras trilogias: uma ligação extrema com o que veio antes, mas sobretudo com o que virá depois. E, se Aragorn não chegava a fazer falta em O hobbit, em razão de Thorin, este agora não recebe um roteiro à altura nem uma direção para mostrar os conflitos por querer recuperar a moradia de seu povo.

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O hobbit.A desolação de Smaug 8

De qualquer modo, o que se lamenta mesmo é ver Martin Freeman, que havia conseguido trazer uma dignidade respeitável ao primeiro filme, ser aproveitado como figurante, com participação direta apenas no início e no final, praticamente sem diálogos. Toda vez em que ele aparece é difícil imaginar por que Jackson e os roteiristas quiseram acrescentar outros personagens que não estão no livro (e poderiam perfeitamente, pois um filme não deve necessariamente ser fiel a um livro, desde que com a devida ênfase) tendo um personagem que poderia ser melhor explorado. Bilbo – o “Hobbit” do título – seria o motivo para o sucesso do filme. Da maneira como ele surge, não temos uma ligação emotiva com os personagens a ponto de estabelecer uma ligação vital para dar sequência à jornada. A pergunta ao final do filme parece valer para o próprio Jackson. E isso, em termos de mitologia da Terra-média, é terrível. Certamente, quero voltar à Terra-média, mas de preferência com Peter Jackson, equipe e seu elenco em alta voltagem. Aqui eles parecem estar apenas preparando terreno para algo realmente grande. Parecem apenas correr para passar o tempo antes do grande clímax.

The Hobbit – The desolation of Smaug, EUA/Nova Zelândia, 2013 Diretor: Peter Jackson Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Orlando Bloom, Benedict Cumberbatch, Evangeline Lilly, Lee Pace, Luke Evans, Aidan Turner, Mikael Persbrandt Roteiro: Fran Walsh, Guillermo del Toro, Peter Jackson, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Carolynne Cunningham, Fran Walsh, Peter Jackson, Zane Weiner Duração: 161 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema / WingNut Films

Cotação 2 estrelas e meia