X-Men: Apocalipse (2016)

Por André Dick

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O terceiro filme que mostra os personagens em sua faceta mais jovem da série X-Men volta a ser dirigido por Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros do início dos anos 2000 e pelo anterior a este, com o subtítulo Dias de um futuro esquecido, depois da reinicialização por Matthew Vaughn, em Primeira classe. Singer é um diretor bastante eclético, começando por Os suspeitos, passando por O aprendiz, ambos dos anos 90, até chegar à versão bastante criticada para o homem de aço, Superman – O retorno, e àquele que parece ainda seu maior acerto, Operação Valquíria, uma aventura de guerra com Tom Cruise em meio a nazistas. Recentemente, ele também fez o subestimado Jack e o caçador de gigantes (com o mesmo Hoult que trabalha como um dos X-Men), e seus próximos projetos incluem Broadway 4D (dirigido com Gary Goddard, de Mestres do universo) e uma nova versão de 20.000 léguas submarinas.
A nova história (a partir daqui, possíveis spoilers) começa mostrando En Sabah Nur, ou Apocalipse (um ótimo Oscar Isaac), como o mutante original, que fica por centenas de anos preso numa câmara embaixo da terra, no Cairo, até que é desenterrado. Possuindo poderes cada vez maiores, ele ressurge exatamente em 1983, e conhece uma jovem, Ororoe Munroe (Alexandra Shipp), que se torna sua discípula e, investida de poderes, em Tempestade.

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Por sua vez, na Berlim Oriental, Raven/Mística (Jennifer Lawrence) encontra Kurt Wagner/Noturno (Kodi Smit-McPhee) lutando com Anjo (Ben Hardy), pois seu papel agora parece ser o de libertar mutantes, e não por acaso ela surge como uma referência feminina na parede de Ororoe, que diz querer ser como ela. Ela não consegue impedir que Apocalipse venha atrás não apenas do Anjo, mas de Magneto (Michael Fassbender) e Psylocke (Olivia Munn). No encalço da criatura ressuscitada, está a agente Moira MacTaggert (Rose Byrne), que apareceu pela primeira vez no primeiro X-Men nesta nova franquia.
Por sua vez, o professor Charles Xavier (James McAvoy), para tentar lidar melhor com o passado, procura constituir uma nova família e recebe novos alunos em sua escola em Westchester County, New York, entre os quais Jean Grey (Sophie Turner), que está com problemas para se adaptar a seus superpoderes. Já Scott Summers/Ciclope (Tye Sheridan) é levado por seu irmão, Havok (Alex Summers), assim que começa a ter problemas em manter seus olhos abertos, logo depois de uma sequência escolar que lembra o recente Homem de aço, de Snyder. Ele se aproxima de Jean, em razão dessa falta de adaptação. Na escola, também reaparecem Hank McCoy/Fera (Nicholas Hoult) e Peter Maximoff/Mercúrio (Evan Peters), para tentar impedir o vilão de aumentar os seus poderes sobre os mutantes, sem antes encontrar o Coronel William Stryker (Josh Helman).

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Em X-Men: Apocalipse, como na segunda parcela desta nova franquia esclarece, as décadas passam e com elas se vê a participação dos mutantes em fatos históricos – e o diálogo se estende a Watchmen. Aqui, nos anos 80, o pano de fundo é a Guerra Fria entre os Estados Unidos e União Soviética, e Apocalipse está interessado na desintegração da humanidade e na necessidade de mostrar que há “falsos deuses” entre os heróis. Tudo inicia no que poderia se chamar de uma parte extraída diretamente de A caçada ao outubro vermelho.
Em X-Men, as batalhas históricas se tornam parte de uma grande fantasia e um dos momentos mais dramáticos deste episódio mostra Magneto/Erik Lehnsherr vivendo como um operário numa fábrica de metais da Polônia, país natal, feliz ao lado de esposa, Magda (Carolina Bartczak), e sua jovem filha, Nina (T.J. McGibbon). Procurado pelo mutante original, ele é levado a Auschwitz, onde teria começado a manifestar seus poderes depois da morte de sua família. Não por acaso, é a parte que parece mais interessar a Singer em seus projetos mais pessoais, como O aprendiz e Operação Valquíria: para ele, o peso da Segunda Guerra Mundial marca para sempre Magneto, indefinido entre seguir seus companheiros ou de se vingar pelas situações em que se envolve e são trágicas para sua vida pessoal. Para Fassbender, presente em outro filme referencial sobre a Segunda Guerra, Bastardos inglórios, a essência do personagem é estar, de fato, preso a um passado que se repete a cada dia e cuja família não pode encobrir. Se ele é buscado por um homem que se autodenomina Apocalipse, como não lembrar de Hitler?

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Por sua vez, o Prof. Xavier, na tentativa de dar uma certa tranquilidade aos novos mutantes, é uma espécie de figura que complementa a de Magneto: se este não deseja revelar seus poderes, o professor pretende que os mutantes sejam, afinal, considerados como parte do mundo. Um dos problemas, porém, é que os personagens quase não possuem cenas em conjunto, o que proporcionaria uma maior aproximação deles no sentido de que são figuras complementares, à medida que também lida com a tentativa de Xavier em convencer Magneto a ficar novamente de seu lado.
Por isso, às vezes, a sensação é de que o roteiro de Singer e Simon Kinberg, cujo maior acerto é Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, com o apoio ainda de Dan Harris e Michael Dougherty, tem inúmeros personagens à mão e é difícil solucionar a narrativa de cada um, mesmo em quase duas horas e meia, facilitando as transições e diminuindo, no terceiro ato, o peso do vilão, feito com perícia com Isaac. O filme flutua entre uma leveza de Xavier tentar uma aposta romântica e a descoberta de dois jovens de seus poderes, além de referências claras ao ano de 1983, como no figurino do Noturno, ainda mais parecido com aquele utilizado por Michael Jackson no videoclipe “Thriller”. Ele segue os capítulos anteriores com uma sequência de cenas que vão se conectando sem muito esforço para o espectador, com a fotografia de Newton Thomas Sigel, habitual colaborador de Singer, dedicada a uma mescla interessante de cores, principalmente quando o Prof. Xavier acessa o monumental cérebro.

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O roteiro às vezes é tão leve quanto a piada que faz consigo mesmo, quando os jovens saem do cinema e lamentam que O retorno de Jedi é a parte mais fraca de Guerra nas estrelas – Singer não se refere a X-Men – O confronto final, de Brett Ratner, o qual não dirigiu, e sim ao que espera que a crítica falará de seu filme, como de fato ocorreu.
A primeira parcela desta nova geração foi muito bem feita por Vaughn e esta terceira não fica nada a dever em termos de ação e efeitos visuais, embora haja um pouco de CGI carregado demais na sequência da batalha final. Muito boa a participação também do elenco: de McAvoy, Fassbender, Turner, Hoult e Peters, principalmente, servindo como alívio cômico, talvez na melhor sequência do filme, sonorizado por “Sweet Dreams (Are Made of This)”, de Eurythmics. Não fica muito clara qual a participação de Lawrence, mas ela sempre é uma presença eficiente em cena, e Byrne poderia ser melhor aproveitada. Por outro lado, aprecio mais esse elenco do que o da primeira trilogia e o saldo final deste X-Men: Apocalipse é agradavelmente positivo.

X-Men: Apocalypse, EUA, 2016 Diretor: Bryan Singer Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Josh Helman, Sophie Turner, Tye Sheridan, Lucas Till, Kodi Smit-McPhee, Ben Hardy, Alexandra Shipp, Lana Condor, Olivia Munn, Warren Scherer, Rochelle Okoye, Monique Ganderton, Fraser Aitcheson Roteiro: Bryan Singer, Dan Harris, Michael Dougherty, Simon Kinberg Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: John Ottman Produção: Lauren Shuler-Donner, Simon Kinberg Duração: 144 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Dune Entertainment / Marvel Entertainment / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas e meia

 

Vida de adulto (2013)

Por André Dick

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Há uma tendência de se rotular filmes como herméticos e inteligentes e outros como simplesmente descartáveis. Sob este ponto de vista, determinados filmes são lançados e rotulados como desprovidos de uma aura especial de inteligência: Vida de adulto, o mais novo filme com John Cusack, se tornou um deles. Desde seu lançamento, apesar de boas críticas parciais, estávamos diante de um cult fracassado, que não acrescentaria a seu tema, pois simplesmente se prestaria a um determinado humor involuntário. A antítese desse tipo de tratamento seria, por exemplo, aquela concedida a uma obra como Amores imaginários, de Xavier Dolan, por seu tratamento mais influenciado pelo cinema francês.
Com uma rápida trajetória nos cinemas norte-americanos, Vida de adulto foi lançado diretamente em DVD e Blu-ray no Brasil. Enquanto se assiste a ele, pode-se ficar em dúvida sobre o que gostaria de ser: por um lado, é uma comédia estridente, nada discreta e por vezes até excêntrica; por outro, ele consegue ter espaço para um certo drama e conflito existencial da personagem central, Amy, que gostaria de ser poeta e tem como influência Sylvia Plath, cujo suicídio ela tenta imitar já na primeira sequência. Ao contrário de outros filmes sobre o tema literatura, Vida de adulto não conduz seus personagens para um universo à parte, como Dentro da casa ou Depois de maio, ou de pretensa introspecção de um artista, como Inside Llewyn Davis, nem apresenta a densidade de Poesia. No entanto, ao mostrar essa jovem que gostaria de ser vista como um talento poético, com uma atuação exagerada de Emma Roberts (também presente no surpreendente Palo Alto), mas estranhamente convincente em sua mescla de comportamento bipolar e melancolia, e intervalos pop soando o descartável, consegue dizer certamente mais do que os três primeiros, com toda sua seriedade ou sua metalinguagem em parte previsível.

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A história de Vida de adulto se desenvolve em Syracuse, com Amy, que tem como melhor amiga Candace (Shannon Woodward), mais afeita a participar de movimentos pelos quais a amiga não tem nenhum interesse, encontrando emprego numa sex shop, chamada exatamente Adult World. Nela, conhece uma das donas, Mary Anne (Cloris Leachman), e o gerente, Alex (Evan Peters), amigo de um transexual, Rubia (Armand Riesco). No entanto, Amy ainda é virgem e o ambiente em que inicia seu trabalho não seria o mais indicado para compartilhar suas experiências. Em conflito com os pais, Amy encontra seu poeta preferido, Rat Billings (John Cusack), o qual passa a perseguir, sobretudo depois de uma sessão de autógrafos desastrada em que a narrativa esboça seus exageros. Amy quer ser protegida de Billings, investindo numa carreira, mas o filme não desliza para as falhas de Garotos incríveis, o filme bastante superestimado de Curtis Hanson, mostrando Billings como um autor no mínimo irônico, a melhor atuação de John Cusack em vários anos, e com alguma influência de O lado bom da vida, no ritmo de conversas entre os personagens.
A inclusão de Cusack não acontece por acaso: com uma bela fotografia de James Laxton, dialogando com filmes independentes, o clima e a atmosfera, também da trilha sonora (assinada quase completamente pela Handsome Furs), de Vida de adulto é de anos 80, além de determinados maneirismos de Cusack que vimos em Matador em conflito. O cinema dos anos 80 ficou também conhecimento pela vertente de filmes jovens apoiada por John Hughes, com peças que acabaram se tornando referenciais, como Gatinhas e gatões, O clube dos cinco e A garota de rosa shocking, para não falar em Curtindo a vida adoidado. No final da década de 90, Alexander Payne conseguiu utilizar a inteligência do cinema de Hughes com uma vertente de cinema considerado indie em Eleição – e o que temos neste trabalho de Coffey é um aproveitamento de ambas as vertentes sob o ponto de vista do humor estridente, com alguns elementos do ótimo Jovens adultos, em que Jason Reitman mostrava uma escritora, interpretada por Charlize Theron, voltando à sua cidade depois de se tornar ghost-writer de livros infantojuvenis.

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Vida de adulto pode mesmo se tornar um filme exagerado, mas não é possível ficar indiferente à maneira como ele vai combinando os personagens de forma despretensiosa e aparentemente sem conflitos quando na verdade reserva uma visão corrosiva sobre aquilo que pretensamente é visto como cult ou respeitável – e a personagem central, ao mesmo tempo em que não se sente com talento, sempre agindo de acordo com clichês de comportamento (como em outro momento no qual Amy tenta seduzir Billings), sendo, por outro lado, estranhamente, uma figura original.  Sua amizade com Rubia, em grande atuação de Riesco, não chega a ser explorada da maneira que poderia, mas Evan Peters, como seu amigo de loja Alex, consegue, ao mesmo tempo, soar como uma inclinação a um romance verdadeiro. Peters, para isso, é bastante convincente, situado entre o interesse por Amy e uma insegurança em demonstrá-lo. No entanto, é a desenvoltura da relação entre os personagens de Amy e Billings que dá o tom do filme e, consequentemente, as atuações de Roberts e Cusack. Há pelo menos duas sequências excelentes (em que Cusack é plenamente confrontado com a falta de discrição de Amy), quando o elenco se mostra efetivo.
Nesse sentido, o que, no início, parecia apenas uma sátira se transforma em um filme mais interessante do que se previa, estranhamente emocional, beirando o limite do seu tema, por causa não apenas de Roberts e Cusack, mas por seu diretor Scott Coffey (que fez Ellie Parker, com Naomi Watts). Coffey foi ator nos anos 80 e trabalhou, de forma quase invisível, como um dos coelhos de Império dos sonhos, de David Lynch, e sentimos que aqui ele se coloca como autor. É ele o responsável pelos maiores acertos de Vida de adulto, no qual existe mais do que pede para ser visto: sua alegria desmedida, que não se leva a sério, parece esconder tanto a despedida de toda uma estação na vida dessa personagem quanto os idos de uma geração, que perdeu a inocência, além do fato de que não é possível se esconder do seu destino mesmo sem ter ao lado Rilke, Octavio Paz ou Billings. Quando as luzes de uma discoteca se acendem e Amy parece descobrir o mundo adulto, ao som de “Repatriated”, há uma estranha sensação de que a personagem não se sentiria mais tão excluída do mundo se participasse de uma antologia apenas como fonte de diversão e afastamento de tudo, e o espectador embarca com ela para uma jornada desconhecida. Gostando-se ou não de Vida de adulto, ele proporciona essa jornada com grande autenticidade.

Adult world, EUA, 2013 Diretor: Scott Coffey Elenco: Emma Roberts, John Cusack, Evan Peters, Armando Riesco, Shannon Woodward, Cloris Leachman Roteiro: Andy Cochran Fotografia: Gina Hirsch, James Laxton Trilha Sonora: BC Smith Produção: Alex Goldstone, Joy Gorman, Justin Nappi, Manu Gargi Duração: 97 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Anonymous Content / Treehouse Pictures

Cotação 4 estrelas e meia