O cavalo de Turim (2011)

Por André Dick

O cavalo de Turim

Com As harmonias de Werckmeister, em 2000, e o que se considera sua despedida do cinema, O cavalo de Turim, lançada apenas no início deste ano no Brasil, o cineasta húngaro Béla Tarr comprova que tem influenciado um grupo considerável de cineastas. Sua fotografia em preto e branco não esconde como ele conseguiu atingir diretores como Carlos Reygadas, Michael Haneke, Alejandro G. Iñárritu, Quentin Tarantino, Gus Van Sant e o próprio Terrence Malick e seu A árvore da vida. Mas Tarr, nascido em 1955, é ainda um cineasta difícil de ser definido, sob todos os aspectos. Um mestre da ambientação, como uma de suas influências, Andrei Tarkovsky, interessado mais na lentidão das coisas aparentemente simples do que numa narrativa que flui sem que percebamos o que está se passando, ele ainda tem como sua referência atemporal o filme Satantango, de 1994 – uma espécie de O sacrifício, em cenário semiapocalíptico, no qual se contam os dias para valorizar um resquício de humanidade (em Tarkovsky, simbolizado pela árvore transplantada pelo filho e pelo pai).
Em Tarr, no entanto, o castigo imposto à natureza sempre se volta contra o ser humano, e vemos essa passagem notável que irá desencadear a sequência que dá razão ao título – e se passa no bar do vilarejo, sob o olhar de Estike. É, porém, a caminhada de Estike pela estrada, molhada pela chuva da noite, que oferece a Satantango um de seus momentos mais impressionantes para o espectador, além daquela que ocorre no Castelo Weinkheim, para onde a menina se dirige. Parece que estamos diante de uma pintura de Edvard Munch ou de algum quadro de Eraserhead, de David Lynch, criando um diálogo com o expressionismo alemão.

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Em Tarr, o dia não chega a se diferenciar da noite: tudo é soturno e desesperador (apesar de sua aparente tranquilidade), quando não implode sob uma dramaticidade remetendo à tragédia. Não por acaso, ele se encontra com László Krasznahorkai também na realização do roteiro de O cavalo de Turim. As palavras que iniciam o filme lembram de um acontecimento em Turim, em 03 de janeiro de 1889, quando Friedrich Nietzsche se depara com um homem que está tendo problemas com seu cavalo teimoso. O cavalo não aceita se mover e seu dono o chicoteia. O filósofo põe fim à cena brutal, colocando os braços em volta do pescoço do cavalo. Fala-se que, depois desse acontecimento, Nietzsche não teria mais resistido à loucura. Tarr mostra quem seria exatamente o dono desse cavalo, Ohlsdorfer (János Derzsi), sua filha sem nome (Erika Bók, a menina de Satantango), e a área em que vivem, isolados de outras pessoas, a não ser de um vizinho (Mihály Kormos) e alguns ciganos.
A rotina de ambos é minuciosamente igual, lembrando por vezes Jeanne Dielman, clássico de 1975 assinado por Chantal Akerman, e mesmo novos problemas que se apresentam parecem apenas dialogar com o mesmo prato de batatas que descascam e comem em todas as refeições. O filme mostra a convivência desse senhor e sua filha numa fazenda, havendo, no fundo dessas questões, uma ampla discussão de Tarr a respeito da exploração e da tentativa de lidar com o outro. Esta relação é baseada mais no silêncio do que no verbo e, se não há sinais de afeto do pai pela filha, isso é reproduzido na maneira como ele cuida do cavalo capaz de trazer ainda mais colheita para a fazenda. Cada sequência tem a duração predileta de Tarr, uma duração concentrada em gestos mínimos e expansivos. Se na sua obra anterior ele colecionava sequências em cenários mais expansivos, aqui ele concentra tudo nos olhares dos atores e no fato de como eles são ínfimos diante do cenário externo.

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Há uma cena em Satantango em que Irimiás e Petro caminham e, diante de uma praça, aparecem cavalos. Um deles comenta: “estão fugindo do matadouro”. Tarr contrapõe os personagens do filme a animais querendo escapar de um matadouro, e tem inegavelmente eficiência ao mostrar esta ideia. Em O cavalo de Turim, os humanos parecem confinados nesse cotidiano e nessa casa como se estivessem dentro de um assustador e turbulento dia que se repete, não muito diferente do cavalo que o personagem central arrasta pelos seis minutos iniciais sem parar, estrada adentro – e o rosto dos personagens mostrado de perto, ou à janela, ou sua caminhada de costas contra o vento, ou mesmo, a partir do início, o cavalo enfrentando o ar pesado da estrada, ajudam a sintetizar esta bela peça de Tarr.
Para ele, o cotidiano é a representação da humanidade, e quando há uma preocupação com ciganos que se aproximam do local e com o poço de onde vem a água se pode perceber a limitação em que eles estão inseridos. Como em sua obra anterior, o preto e branco cria uma atmosfera apocalíptica e, ao mesmo tempo, árida, distante do que restaria ainda do universo. Por isso, não apenas os símbolos da comida (a batata) e a água parecem retribuir em imagens o que praticamente não existe em termos de diálogo, como fornece uma leitura quase bíblica. O vento, nesse lugar, representa o último resquício de movimento e humanidade, e os personagens precisam enfrentá-lo como a um deus esquecido por Nietzsche – e não por acaso algumas cenas são adaptadas para o cenário do faroeste por Tarantino em Os oito odiados. Tanto Fred Kelemen, o diretor de fotografia, quanto a equipe de design de som parecem levar O cavalo de Turim a habitar um outro universo, tão palpável e tão desconhecido ao mesmo tempo: esse espaço do filme se torna notadamente real. Num ano em que já tivemos peças em que a melancolia e o comedimento humano se transformaram em peças acessíveis sem deixarem de ser complexas (A juventude e Cemitério do esplendor, para citar apenas dois), O cavalo de Turim mostra um eixo de cinema expressionista, em que as sombras e os movimentos adquirem um outro formato e no qual reside a beleza principal da obra de Tarr.

The Turin horse, Alemanha/Estados Unidos/França/Hungria/Suíça, 2011 Diretor: Béla Tarr Elenco: Erika Bók, János Derzsi, Mihály Kormos, Ricsi Roteiro: Béla Tarr, László Krasznahorkai Fotografia: Fred Kelemen Trilha Sonora: Mihály Vig Duração: 146 min. Distribuidora: Bretz Filmes

Cotação 5 estrelas

 

Satantango (1994)

Por André Dick

Satantango

Com As harmonias de Werckmeister, em 2000, e o recente O cavalo de Turim, de 2011, o cineasta húngaro Béla Tarr comprova que tem influenciado um grupo considerável de cineastas. Sua fotografia em preto e branco não esconde como ele conseguiu atingir diretores como Carlos Reygadas, Michael Haneke, Gus Van Sant e o próprio Terrence Malick e seu A árvore da vida. Mas Tarr é ainda um cineasta difícil de ser definido, sob todos os aspectos. Um mestre da ambientação, como uma de suas influências, Andrey Tarkovsky, interessado mais na lentidão das coisas aparentemente simples do que numa narrativa que flui sem que percebamos o que está se passando, ele ainda tem como sua referência atemporal o filme Satantango, de 1994 – uma espécie de O sacrifício, em cenário semiapocalíptico, no qual se contam os dias para valorizar um resquício de humanidade (em Tarkovsky, simbolizado pela árvore transplantada pelo filho e pelo pai).
Se esse é o ano em que Tarantino apresentou seu extraordinário Pulp fiction e Krzysztof Kieślowski fez dois capítulos de sua antológica Trilogia das Cores, também é o ano desta obra de Tarr – e, se não fossem por esses dois filmes, principalmente, o maior acontecimento deste ano –, uma legítima obra difícil e inegavelmente uma síntese do cinema de arte, com seus 450 minutos (7 horas e meia) e 150 tomadas com durações variadas. Embora com sua ambientação na Hungria em vias de sair do comunismo (a transição completa ainda não foi feita, a julgar sobretudo por seu desfecho) e sua narrativa extremamente pausada, Satantango tem mais semelhanças com a modernidade de Pulp fiction, por exemplo, do que aparenta. Como a obra de Tarantino, o filme de Béla Tarr, a partir da obra de László Krasznahorkai, acontece como um quebra-cabeças, em que uma sequência vai se completando com outra, não necessariamente numa ordem linear, mas de acordo com a adaptação, num crescente. Há, inclusive, diferentes pontos de vista para a mesma passagem, e Tarr é exato ao equilibrá-los na montagem final. No entanto, não seria plausível considerar, claro, que a agilidade de Pulp fiction se reproduza no filme de Tarr: são concepções diferentes de cinema, embora com um clima de violência humana como pano de fundo. Mesmo sem aparentar, há uma tensão implícita nas ações dos personagens de Satantango de modo que nunca conseguimos defini-los, sendo difícil se aproximar de suas ações.

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Tarr inicia filmando um vilarejo da Hungria, numa época indefinida (como na própria obra de Krasznahorkai) debaixo de chuva, com vacas num lamaçal, e em seguida já contrapõe este cenários com os de seres humanos que ali vivem. Futaki (Miklós Székely B.) se encontra com Sra. Schmidt (Éva Almássy Albert), quando chega o Sr. Schmidt (László Lugossy). Sem ver Futaki, ele avisa sobre um plano em andamento, em conjunto com Kráner (János Derzsi). Futaki o surpreende, desejando participar do plano, ao mesmo tempo em que surge a Sra. Kráner (Irén Szajki). Ela comenta sobre a volta de Irimiás (Mihály Víg), que desapareceu há dois anos do local e era dado como morto, acompanhado de Petrina (Putyi Horváth), Irimiás salvou os negócios do lugar tempos antes, e nada mais interessante que todos darem seu dinheiro e ele, a fim de que possam sair do lugar, a princípio condenado pelos acontecimentos. No entanto, Irimiás e Petra podem chegar carregando o vento ou a chuva – eles são como que mensageiros de um apocalipse findado. O estado trágico é evidente, e Tarr filma esse paralelo entre os seres humanos e os que ali vivem. Em alguns momentos, a ação se passa num bar, onde alguns deles se encontram para saber, afinal, do rumo que devem ou não tomar, assim como reunir suas mazelas, e há um médico (Peter Berling), também, alcoólatra, que dificilmente se levanta da cadeira e sai de casa, observando o movimento dos habitantes pela janela. Não há nada descartável na obra de Tarr: ela tem um aspecto clássico com o uso da fotografia de Gábor Medvigy. Como em seu O cavalo de Turim, Tarr filma este lugar com o aspecto de um filme de terror: as estradas abandonadas, a chuva incessante, os terrenos sem plantações, as casas quase vazias, a madeira dos galpões e os galhos das árvores ao fundo emanam uma atmosfera assustadora. Essa proximidade fica clara na passagem que conta a história de Estike (Erika Bók), uma menina com problemas mentais, que tem interesse em ficar brincando com seu gato, mas, diante de uma punição adulta, pretende castigá-lo. O seu irmão, Sanyi (András Bodnár), a obriga a enterrar um dinheiro de suas economias, que servirá, no entanto, para outro objetivo. O enterro, nesta passagem, é simbólico.

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Em Tarr, no entanto, o castigo imposto à natureza sempre se volta contra o ser humano, e vemos essa passagem notável que irá desencadear a sequência que dá razão ao título – e se passa no bar do vilarejo, sob o olhar de Estike. É, porém, a caminhada de Estike pela estrada, molhada pela chuva da noite, que oferece a Satantango um de seus momentos mais impressionantes para o espectador, além daquela que ocorre no Castelo Weinkheim, para onde a menina se dirige. Parece que estamos diante de uma pintura de Edvard Munch ou de algum quadro de Eraserhead, de David Lynch, criando um diálogo com o expressionismo alemão.
Em Tarr, o dia não chega a se diferenciar da noite: tudo é soturno, melancólico e desesperador (apesar de sua aparente tranquilidade). Não por acaso, ele se encontra com László Krasznahorkai também na realização do roteiro de O cavalo de Turim, que mostra a convivência de um senhor e sua filha numa fazenda, em que a refeição servida é sempre um prato com batata. Mesmo que haja, no fundo dessas questões, uma ampla discussão de Tarr a respeito da exploração e da tentativa de lidar com o outro. Esta é a principal qualidade de Irimiás, que fala aos moradores do lugar tentando sempre transmitir uma segurança diante da situação em que se encontram. Não sabemos, ao menos a princípio, o que pensar de Irimiás – e também não sabemos o que os personagens pensam dele ou uns dos outros. A fala de Irimiás impressiona pela fluidez, pelo torneio verbal que faz, diante de quem o cerca, e a atuação de Mihály Víg é magistral, com todas as nuances possíveis. Mas, paradoxalmente e de forma mordaz, Santantango revela, acima de tudo, a ineficácia do discurso diante da condição humana.

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Tarr não se nega a colocar Irimás em momentos nos quais o discurso sobre uma pretensa infinitude se contrapõe à prática, envolvendo sobretudo os hábitos culinários. Mas é exatamente num discurso que Irimiás faz para convencer a comunidade a respeito de determinado caminho que Satantango se mostra, acima de tudo, um filme que procura ampliar o entendimento das coisas que cercam e estão obscuras. De certo modo, pode-se ver um diálogo com o recente Barbara, de em que víamos a personagem central ser vigiada na Alemanha Oriental. O que mais interessa, no entanto, são os momentos da narrativa. É impressionante a sequência em que os moradores estão numa moradia abandonada, esperando por Irimiás, e o discurso de um deles acompanha o olhar de uma coruja, que observa do lado de fora. Ou aquela em que Irimiás e Petro caminham e, diante de uma praça, aparecem cavalos. Um deles comenta: “estão fugindo do matadouro”. Tarr contrapõe os personagens do filme a animais querendo escapar de um matadouro, e tem inegavelmente eficiência ao mostrar esta ideia.
Constituído por 12 partes, como o livro, Satantango progride com bastante lentidão, com cada tomada servindo como uma espécie de filme dentro do filme, fazendo uma composição por meio da trilha sonora intocável de MihályVig (que faz Irimiás)  e da montagem de Ágnes Hranitzky. Há, no cansaço que certamente impõe um filme que parece uma minissérie, uma espécie de composição hipnótica em suas imagens. Quando o espectador assiste ao filme, é como se, aos poucos, fosse se integrando também àquele cenário, mais do que aos personagens. E a lentidão vai criando a sua própria teia de aranha – como vemos em determinado momento na cena do bar – ou uma história nova para o médico do lugar. Esta obra de Béla Tarr é tão forte que soa, ao mesmo tempo, capaz de apaziguar e ser devastadora – trata-se de um cinema raro e formidável.

Sátántangó, Alemanha/Hungria/Suíça, 1994 Diretor: Béla Tarr  Elenco: Mihály Vig, Putyi Horváth, László Lugossy, Éva Almássy Albert, János Derzsi, Irén Szajki, Alfréd Járai, Miklós Székely B., Erzsébet Gaál, Erika Bók, György Barkó, Peter Berling, András Bodnár, Ilona Bojár, Péter Dobai, István Juhász, Zoltán Kamondi, Barna Mihók Roteiro: Béla Tarr, László Krasznahorkai Fotografia: Gábor Medvigy Trilha Sonora: Mihály Vig Produção: György Fehér, Joachim von Vietinghoff, Ruth Waldburger Duração: 450 min.

 Cotação 5 estrelas