No portal da eternidade (2018)

Por André Dick

In memoriam Eva Dias Pereira

O diretor Julian Schnabel é conhecido principalmente por O escafandro e a borboleta, sobre Jean-Dominique Bauby, considerado um dos melhores filmes da década passada. Ele já havia se aventurado antes em algumas cinebiografias, como Antes do anoitecer, sobre o poeta Reinaldo Arenas e sua vida em Cuba, e Basquiat, sobre o pintor contemporâneo, logo em sua obra de estreia. De maneira geral, Schnabel sempre se mostrou um cineasta interessado em trabalhar com diferentes tipos de fotografia e enquadramentos diferenciados, sendo de fato um pintor em sua origem. Em O escafandro, por exemplo, em boa parte do filme tínhamos a visão do protagonista numa situação delicada e essa estranheza concedia à história uma espécie de segunda camada sobre os dados reais fornecidos por cada personagem.

Desta vez, em No portal da eternidade, ele mostra parte da trajetória de Vincent van Gogh, vivido com grande perspicácia por Willem Dafoe (indicado ao Oscar), que, não vendendo suas obras, recebe a ajuda de seu irmão Theo (Rupert Friend) e tem como amigo Paul Gauguin (Oscar Isaac). Ao se deslocar para o sul da França, para a pequena cidade de Arles (onde fez mais de 70 pinturas), ele fica numa paragem onde conhece Madame Ginoux (Emmanuelle Seigner). Um crítico, Albert Aurier (Alan Aubert), recebe suas obras muito bem, mas o mesmo não se pode dizer de alguns mais próximos, que visualizam seu trabalho como precário. Isso o faz ficar com distúrbios, sendo levado para o asilo Saint-Paul em Saint-Rémy-de-Provence. Em outros momentos, há conversas sobre arte e religiosidade com um padre (Madds Mikkelsen). Schnabel, como em O escafandro e a borboleta, traz reflexões sobre a criação artística e os elos com uma divindade interna ou localizada na natureza, na mudança de percepções sobre a própria condição humana. Com a ajuda exitosa de Dafoe, o diretor lida com diversos temas em pequenos lances de subjetividade e diálogos até comuns. Van Gogh estava com em torno de 36, 37 anos anos no auge de sua obra, e Dafoe o interpreta com 63 anos. Trata-se de uma figura que se veste de maneira comum e usa um chapéu de palha que contrasta com o céu azul.

Com belo roteiro assinado por Schnabel com Jean-Claude Carrière, conhecido romancista e corroteirista, por exemplo, de O discreto charme da burguesia, e Louise Kugelberg, o filme possui uma fotografia tremida de Benoît Delhomme, parecendo até uma peça de Von Trier. No entanto, é como se o espectador visse as paisagens do modo que Van Gogh as vê, com sua proliferação de amarelos e desvios da realidade para contemplações próximas da eternidade, como ele diz em determinado momento. Tudo vai se configurando como se um pintor fosse lançando as cores na tela, na composição de uma obra. Van Gogh, deste modo, é um personagem muito disponível para se lidar com uma faceta quase poética de uma realização cinematográfica. Alguns cineastas já trabalharam sobre sua obra com destaque, com destaque para Robert Altman em Vincent & Theo, a animação Com amor, Van Gogh e o episódio de Sonhos, de Akira Kurosawa, que mostrava o pintor, interpretado por Martin Scorsese, caminhando dentro de algumas de suas obras.

No portal da eternidade parece confuso em seu início, contudo vai se estabelecendo, sobretudo com a exitosa parceria entre Dafoe e Isaac, que poderia durar mais tempo, e a reconstituição dos lugares enfocados. Tudo é muito minucioso, e a maneira como Schnabel filma os diálogos torna as conversas mais marcantes, tendo sido baseado nas cartas do pintor a seu irmão. Há uma sensação sempre de que o personagem está deslocado, tanto de sua realidade quanto o universo que ele habita, onírico e pictórico. Sua ligação familiar, por meio de Theo, cria bases sólidas para que ele continue sendo pintor, embora ainda duvide de seu talento, já que suas obras não são vendidas como espera. Há, aqui, um discurso implícito sobre a liberdade de criação do artista e a expectativa que ele gera quando se vislumbra real talento em suas tentativas de mostrar algo novo. É por meio dessas qualidades que Schnabel ergue sua versão de um dos maiores gênios da pintura. Talvez ele mesmo esteja projetando sua paixão por compor imagens no personagens, o que poderia, em parte, ser autoindulgente. O que permanece, porém, é uma sóbria delicadeza em cada um dos gestos efetuados por Van Gogh ao longo da narrativa e que não necessariamente o explicam, como uma pintura de alto nível e cuja composição pode estar tanto em se sentar frente a uma paisagem magnífica quanto encontrar uma pessoa que posa para um quadro sem saber que, por meio dele, irá atingir a eternidade de maneira incontornável.

At eternity’s gate, FRA/ING/EUA, 2018 Diretor: Julian Schnabel Elenco: Willem Dafoe, Rupert Friend, Mads Mikkelsen, Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Oscar Isaac Roteiro: Jean-Claude Carrière, Julian Schnabel, Louise Kugelberg Fotografia: Benoît Delhomme Trilha Sonora: Tatiana Lisovskaya Produção: Jon Kilik Duração: 110 min. Estúdio: Riverstone Pictures, SPK Pictures, Rocket Science, Rahway Road, Iconoclast Distribuidora: Netflix (França), Curzon Artificial Eye (Inglaterra), CBS Films (Estados Unidos)

Baseado em fatos reais (2018)

Por André Dick

O mais recente filme de Roman Polanski, Baseado em fatos reais, foi lançado no Festival de Cannes de 2017 e passou quase despercebido. Algo estranho, em se tratando de ser a primeira parceria do diretor no roteiro com o cineasta Olivier Assayas, baseado no romance de Delphine de Vigan. A narrativa se concentra na vida da escritora Delphine (Emmanuelle Seigner), que publica seu primeiro grande sucesso, dedicado à mãe. Durante uma noite cansativa de autógrafos, ela conhece uma admiradora enigmática, chamada Elle (Eva Green), que depois reencontra numa festa para intelectuais. O interessante é que Baseado em fatos reais parece lembrar justamente a atmosfera de Elle, com Isabelle Huppert, não apenas pelo clima parisiense, como pela dualidade das personagens centrais. É de se perguntar o quanto a obra de Verhoeven também sofreu uma influência desse romance em que Baseado em fatos reais se baseia, lançado em 2015.

Delphine tem como principal interlocutor o ex-marido François (Vincent Perez), apresentador de um programa cultural de TV, e se sente constantemente solitária. Elle como que surge para oferecer mais vida à sua existência. Seu comportamento é estranho, no entanto possui certas características que parecem levar a escritora a reavaliar sua vida de compromissos com o lançamento da sua obra. Dizer o que acontece a partir de então seria incorrer em spoilers, por isso pode-se dizer que esta obra é tipicamente de Polanski. Cada vez mais envolvido em polêmicas no que se refere à sua vida pessoal suspeitíssima e que tem um périplo por tribunais (isso desde os anos 60), além de ser proibido de ir aos Estados Unidos (foi banido este ano da Academia de Hollywood, que lhe concedeu, no entanto, um Oscar de direção em 2003 por O pianista), o diretor parece não ter mais a mesma receptividade crítica que teve com A pele de Vênus, seu filme anterior, muito inferior, mas recebido como obra-prima. Não se fica muito à vontade quando se tenta tratar de seus filmes, pelos casos já conhecidos na imprensa, porém Polanski tem importância no plano cinematográfico, em função principalmente de Tess e Chinatown. Aqui ele utiliza uma fotografia sempre sugestiva de Pawel Edelman e uma bela trilha sonora do excelente Alexandre Desplat, além de ser mais objetivo que em obras clássicas, a exemplo de Repulsa ao sexo.

Embora as duas personagens pareçam ter um interesse mútuo, Polanski não chega a desenvolvê-lo, preferindo se concentrar mais na visão psicológica que elas proporcionam – e a figura da mulher desconhecida é como se fosse a extensão dos sentimentos de culpa da escritora. Ela também recebe cartas anônimas sempre ameaçadoras (inspirado claramente em Caché, de Haneke), o que dá ao filme uma sensação de thriller. Nunca fica muito claro quem é ela, uma característica fundamental nesse gênero no qual Baseado em fatos reais ingressa. Todos os caminhos são um pouco distorcidos, e a noite filmada por Polanski tem muito daquela de Holy Motors, de Leos Carax. Seigner, no papel central, tem uma bela atuação – e é mais uma na parceria que mantém com o diretor, com quem é casada, desde Busca frenética e que tem em Lua de fel seu melhor momento. Ela concede um nervosismo, acentuado pela presença da quase sempre eficiente Green, a qual tende a atuar em overacting quando tem mais liberdade (por exemplo, em Sombras da noite, de Tim Burton) e se revelou para o mundo no transgressor Os sonhadores, uma tentativa de Bertolucci reviver O último tango em Paris em ritmo juvenil. São atrizes representando personagens escondidas atrás de máscaras, de comportamentos não totalmente verdadeiros.

Aqui Seigner brilha em momentos tensos e utiliza sua plasticidade para se contrapor ao cansaço que se sente em Delphine. Esta se sente quase ao longo de toda a narrativa cansada, envelhecida, enquanto a parceira está sempre reluzente. Tais detalhes são bem trabalhados por Polanski, como já fizera, dentro desse mesmo contexto, em O escritor fantasma. Também há um dos seus primeiros filmes que desenvolve a tensão existente neste novo: A faca na água. E funciona: durante toda a história, mesmo quando surgem os lugares-comuns e uma influência notável de De Palma (que também emulou muito o Polanski dos anos 60 e 70), o espectador fica interessado no que irá acontecer. Seu potencial fica um tanto incompleto, também pela pressa narrativa. Tudo é excessivamente polido, estranho para um roteiro que tem Assayas entre seus autores e que busca em suas obras mais recentes, como Personal shopper, maior estranheza e indefinição. Por outro lado, sua atmosfera é rara em filmes contemporâneos, ao mesmo tempo que conta com duas atrizes de notável talento para justificar o andamento.

D’après une histoire vraie, FRA/ITA/POL, 2018 Diretor: Roman Polanski Elenco: Eva Green, Emmanuelle Seigner, Vincent Perez Roteiro: Olivier Assayas e Roman Polanski Fotografia: Paweł Edelman Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Wassim Béji Duração: 110 min.