Era uma vez em… Hollywood (2019)

Por André Dick

O cineasta Quentin Tarantino, desde os anos 90, quando lançou Cães de aluguel, Pulp Fiction e Jackie Brown, vem se tornando uma das maiores referências para a cultura pop e mesmo para um cinema voltado a um experimentalismo com temas já conhecidos ou simplesmente parecendo homenagear fases específicas da história. Se os dois Kill Bill enveredavam pelo diálogo com as obras de artes marciais, À prova de morte era uma espécie de homenagem ao cinema dos anos 70 e Bastardos inglórios uma das melhores manifestações de como se tomar liberdade com fatos históricos sem chegar ao desrespeito ou à simples sátira.
Nesta década, Tarantino se voltou ao gênero que sempre idolatrou, principalmente por causa de Sergio Leone e Sergio Corbucci: o do faroeste. Não por acaso, investiu sua trajetória em Django livre e Os oito odiados, o primeiro um faroeste mais clássico, embora com elementos inovadores, e o segundo utilizando a mesma camada de histórias em blocos dos seus demais filmes num ritmo mais europeu.

Lançado no Festival de Cannes, Era uma vez em… Hollywood, pelo próprio título, já estabelece uma ligação direta com o cinema de Sergio Leone, principalmente com os excepcionais Era uma vez no Oeste e Era uma vez na América. No entanto, Tarantino, ao contrário de Leone, é um cineasta mais interessado no aspecto pop e na metalinguagem de sua narrativa.
Ao abordar a vida de um astro de Hollywood dos anos 50 em decadência, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), e a amizade com seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt), que lhe dá carona dia e noite, Tarantino tem um olhar não apenas para o cinema antigo, aquele de Wilder em Crepúsculo dos deuses, no qual uma atriz se mostrava esquecida numa mansão para redescobrir uma nova chance com um roteirista em desuso, como também para sua linguagem como meio de expressão e reflexo da vida.

É interessante como Tarantino acompanha esse astro inicialmente, numa conversa com um produtor, Marvin Schwarz (Al Pacino), capaz de lhe trazer novos trabalhos, embora não sejam os que pretendia ter, e, ao mesmo tempo, regressando em flashback aos filmes feitos por ele. Em seguida, Tarantino, como em Pup Fiction, estabelece pacientemente o cenário, mostrando Dalton em sua casa nas colinas de Los Angeles, tendo como vizinhos o cineasta Roman Polanski (Rafał Zawierucha) e sua esposa Sharon Tate (Margot Robbie). Quando Tarantino mostra o casal indo a uma festa, ele o revela mais do que como o símbolo de uma época do que como personagens – e talvez não se discorde que, apesar da cena do cinema, Margot Robbie não chega a ter chance de mostrar seu grande talento como atriz.
Dalton, por sua vez, entra em estúdio para filmar uma série considerada exótica, com um diretor idem, Sam Wanamaker (Nicholas Hammond), um parceiro de cena engraçado, James Stacy (Timothy Olyphant), e se depara com uma jovem atriz, Trudi Fraser (Julia Butters), cuja presença parece trazer a ideia do que ele gostaria de ser: um ator de respeito. Essas passagens talvez sejam as mais sensíveis da carreira de Tarantino, que nunca teve exatamente na calmaria absoluta seu caminho.

Esses momentos remetem a obra a um diálogo inexplicavelmente bem feito, apesar de aleatório: enquanto o espectador acompanha Dalton em suas filmagens, também vê  Sharon Tate indo assistir ao filme dela recém-lançado no cinema, quando a fotografia de Robert Richardson melhor capta a atmosfera de 1969.. A maneira como Tate se vê na tela e como ele gostaria de se ver é um dos grandes momentos do cinema recente. Ao mesmo tempo, acompanhamos Booth numa peregrinação estranha a uma comunidade, onde encontra um antigo dublê, George Spahn (Bruce Dern), com o qual trabalhou. Essas histórias parecem independentes, no entanto, além da metalinguagem, é evidente que elas conversam entre si: entre a realidade e o mundo imaginário do cinema pode haver menos distância.
Era uma vez em… Hollywood é um filme em parte comportado para os padrões de Tarantino, com diálogos aparentemente deslocados, no entanto, como é de praxe, eles ressoam no conjunto e estabelecem uma unidade. Por outro lado, nessa espécie de retração, Tarantino parece expandir sua visão: as obras das quais ele trata de forma mesmo clara se sentem mais a serviço da composição dos personagens. Dalton, por exemplo, é uma figura introspectiva, feita na medida certa por DiCaprio, tendo como referência sua atuação em O lobo de Wall Street. Enquanto Martin Scorsese conseguiu extrair dele uma veia histriônica quase insuspeita, Tarantino a reaproveita sob um olhar mais saudoso – do cinema que homenageia. Sua amizade com Brad Pitt também é bem desenvolvida. Ótimo ator, Pitt talvez esteja aqui em seu melhor momento da década ao lado daquele de À beira mar.

Entre os temas culturais, Tarantino foca um pouco no universo hippie e, de certo modo, parece uma visão oposta àquela de Milos Forman em Hair. Usando um humor perverso, ele abdica de fazer qualquer desenho empático e opta pela sátira e pela ameaça, principalmente nas figuras de Pussycat (Margaret Qualley, novamente um destaque depois de Novititae) e Lynette “Squeaky” Fromme (Dakota Fanning). Importa, para o entendimento, o entrelaçamento entre a comunidade dos hippies e a série de faroeste filmada por Dalters, como se representassem um universo só, não exatamente o antigo ou o contemporâneo, em que se passa a ação, principalmente quando Charles “Tex” Watson (Austin Butler) cavalga por uma planície depois de abandonar turistas numa visita às colinas de Hollywood (para Tarantino, o destino do gênero, mesmo que ele tenha vários exemplares de qualidade nos últimos anos, inclusive seus filmes). Um rancho com uma comunidade de hippies parece virar o cenário de um duelo. O cineasta, mais uma vez, mesmo se aproveitando de elementos históricos, não está interessado em seguir o esperado, uma característica sua e no ato final empreende um humor característico de sua obra de maneira ampla. Há referências claras ao período dos anos 70 de Robert Altman, principalmente Um longo adeus, e é visível que Tarantino acompanha o trabalho mais recente de Paul Thomas Anderson, especificamente Vício inerente, ao estender longas sequências que parecem inúteis e, na verdade, são indispensáveis para entender o contexto de época, com um design de produção sempre destacado. Nesse sentido, Era uma vez em… Hollywood se mostra um filme mais interessado na dinâmica entre personagens tão distantes quanto próximos, independentes de longas conversas, e em como a paisagem ajuda a estabelecer vínculos, entregando novos elementos na obra de Tarantino.

Once upon a time in… Hollywood, EUA, 2019 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Austin Butler, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Kurt Russell Roteiro: Quentin Tarantino Fotografia: Robert Richardson Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino Duração: 161 min. Estúdio: Columbia Pictures, Bona Film Group, Heyday Films, Visiona Romantica Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Killer Joe – Matador de aluguel (2012)

Por André Dick

Killer Joe.Imagem 2

Desde o ano passado, Killer Joe vem se destacando como o filme que marca a volta de William Friedkin ao cinema. Diretor que recebeu o reconhecimento principalmente na década de 70, com Operação França e O exorcista, ele é visto como um daqueles que se mantiveram à margem, depois da Nova Hollywood. Por isso, é sempre importante destacar sua importância no cenário. E Killer Joe, adaptado da peça de Tyler Bates, é um filme com a atmosfera e o estilo que sempre se fizeram presentes em seus filmes, com a diferença de soar inevitavelmente mais contemporâneo, trazendo elementos de diretores como Tarantino e David Fincher. Não que Friedkin fosse um diretor asséptico, mas é visível que sua mistura visual tem elementos do diretor de Pulp Fiction – sobretudo de Cães de aluguel –, com a violência de alguns filmes de Fincher (especificamente O quarto do pânico e Clube da luta) e dialoga com outro realizado no mesmo ano, Drive, de Nicolas Refn. Refn, Fincher e Tarantino também podem ter se baseado em Friedkin, mas o fato é que Killer Joe apresenta uma carga dramática e sonora que bebe do cinema feito nos últimos 20 anos, do qual Friedkin esteve, infelizmente, quase ausente, com a exceção de poucos projetos.
Há duas maneiras de entendê-lo: uma é visualizar que todos os personagens situados nele são alegorias; a outra é ignorar a violência que há por trás de ações e palavras para entender os motivos de Friedkin em intensificá-la. Em muitos momentos do filme (possíveis spoilers a partir daqui), é visível a necessidade de Friedkin em se utilizar de uma fotografia bela (os personagens estão, recorrentemente, embaixo de um céu azul) de Caleb Deschanel, com a claridade de cenários, e também de apresentar cenários soturnos, à beira da estrada ou simplesmente sujos e cobertos de lama. O personagem de Joe Cooper (Matthew McConaughey), um policial procurado por Chris Smith (Emile Hirsch) para matar a própria mãe, é esta alegoria exata do cenário. Com um chapéu de caubói, ele transita como se fosse uma espécie de criminoso dentro da polícia, realizando serviços que ninguém sabe, mesmo porque ele pode investigar o crime que cometeu. Sem dinheiro para pagar uma dívida, Chris precisa convence o pai, Ansel (Thomas Haden Church), que a mãe precisa ser morta para que se obtenha um dinheiro e que Joe, para realizá-lo, possa ter relações com sua irmã ainda menor de idade, Dottie (Juno Temple). Sempre bem arrumado e cuidadoso com os gestos, ele pretende ser o primeiro homem dela. Esta espécie de Lolita controversa é o único indício de pureza do filme de Friedkin e o interesse do diretor é sempre contrapô-la tanto ao pai quanto ao irmão e à madastra, Sharla (Gina Gershon).

Killer Joe.Imagem 6

Friedkin, apesar do domínio que tem sobre os cenários e a atmosfera, e mesmo apresentando boas sequências, em meio a uma montagem ágil, não desenha esses personagens além da alegoria, tanto é que ela e Joe desaparecem um bom tempo da narrativa e seu impasse não é articulado. Se a trama que mostra o interesse de Chris em dar cabo de sua mãe supera o dilema de Antes que o diabo saiba que você está morto, de Sidney Lumet (um filme, aliás, superior), Killer Joe não consegue estabelecer, de maneira desenvolta, os seus exageros.
Chris está sendo perseguido porque deve um dinheiro a agiotas. O pai está sempre ausente, não se envolvendo em nenhuma questão, e a irmã é apenas um motivo para que eles possam ganhar uma oportunidade de receber um dinheiro. Desse modo, Friedkin quer tratar de uma espécie de inferno e purgatório na Terra. A família que ele mostra dificilmente consegue carregar valores e a bandeira dos Estados Unidos colocada em frente ao trailer onde ela mora, assim como o crucifixo na parede, leva a crer que o Estado e a religião não conseguem atenuar essa violência familiar. Nisso, os cenários são sempre recorrentes a ambientes que seriam, para o diretor, a representação disso. Se pai e filho saem para conversar, eles vão para uma boate de striptease; se o jovem precisa de dinheiro, ele vai apostar em cavalos e tentar vender drogas; e se na TV aparecem Bruce Lee lutando e desenhos animados brigando, é preciso desligá-la para implementar a violência de verdade. Se um cachorro late, à noite, embaixo de uma tempestade, que não cessa, significa algo pior ainda: que todos ali condenados.
Não fica bem claro, a partir desses elementos remotamente desgastados, o que Friedkin gostaria de apresentar, pelo menos até os 20 minutos finais, quando, na verdade, Killer Joe, numa espécie de encenação teatral perversa, levada a um realismo minucioso, no comportamento um tanto obsessivo dos personagens em chamarem a atenção para o que estão querendo significar, se mostra de forma mais aberta e compreensível.

Killer Joe.Imagem 4

Friedkin reverte o que havia apresentado numa estética situada no desespero dos personagens e no isolamento a que eles se propõem por obrigação. É uma espécie de encantamento pela tristeza em ritmo de humor exagerado, que Lumet consegue elucidar, no seu filme citado anteriormente, de maneira mais eficiente. Há, como consequência, uma espécie de fetiche pelo próprio discurso que se tenta atacar: para Friedkin, a família, em Killer Joe, representa apenas uma pressão e isolamento, e todos nela, se não tentarem fugir, estão fadados a enfrentar o pior. Para cada traição, por sexo e dinheiro, deve estar reservada uma loucura de alguém que pode tentar implementar a normalidade à base da força, mas esta, na verdade, se revela um tanto irreal.
Nesse sentido, Killer Joe, em sua tentativa de desestruturar o moralismo, acaba sendo, em certa medida, problemático, tanto pela personificação unidimensional dos personagens (eles estão na trama apenas para cumprir um significado externo ao que se desenrola, do diretor) quanto na sua ultraviolência como modo de apaziguar as coisas ou centralizá-las no meio do caos. Os personagens, sem exceção – ao contrário dos filmes de Tarantino e Fincher –, estão procurando não ver a própria entrega nem se resolver, o que repercute nos personagens e atores. Como Chris, Emile Hirsh (que fez o bom Na natureza selvagem) tem uma performance deliberadamente exagerada até o último ponto, esboçando trejeitos – e sua presença em cena soa cansativa –, embora McConaughey, com sua super-representação, e mesmo coragem para algumas cenas mais delicadas, tenha realmente uma desenvoltura melhor, sobretudo àquela já apresentada em outros filmes, e Thomas Haden Church seja sempre um ator expressivo (mesmo quando precisa ser o contrário, como aqui), além de Juno Temple compor um papel difícil. Há quem entenda o filme, inclusive mesmo como possuidor de laivos de comédia. Isso é possível, mas não parecem laivos combinados com suas premissas semiescondidas por Friedkin até o último momento.
Há uma bela cena em que o jovem Chris deve caminhar com sua irmã nos trilhos – o único momento em que ele caminha nos trilhos – depois de gritar desaforos contra o Texas, para ele a terra de ninguém onde mora, e sua tristeza está ligada, sem dúvida, ao desfecho da noite anterior, quando, afinal, sabe que nada almeja a tranquilidade e a serenidade. E, antes do final, inevitavelmente, parece que mesmo Friedkin quer se livrar de Killer Joe.

Killer Joe, EUA, 2011 Diretor: William Friedkin Elenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Juno Temple, Thomas Haden Church, Gina Gershon Produção: Nicolas Chartier, Scott Einbinder Roteiro: Tracy Letts Fotografia: Caleb Deschanel Trilha Sonora: Tyler Bates Duração: 102 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Voltage Pictures / Worldview Entertainment / ANA Media

Cotação 2 estrelas e meia