Nós (2019)

Por André Dick

O mais difícil para um cineasta talvez não seja sua primeira obra e sim a continuidade que dá à sua carreira. Por meio de Corra!, Jordan Peele conseguiu um feito: além de uma realização original e assustadora, ele teve uma bilheteria extraordinária e chegou a ser indicado ao Oscar de melhor filme, inclusive recebendo a estatueta de melhor roteiro original. Era uma conquista bastante valiosa, principalmente em razão de o gênero de terror não ser levado a sério em premiações.
Estava lançado, também, o grande desafio: Peele, em seu segundo filme, precisaria ao menos manter a qualidade do primeiro. Estamos, agora, diante de Nós. Ele inicia em 1986, quando a menina Adelaide Thomas (Madison Curry) está com seus pais num parque de diversões da praia de Santa Cruz, na Califórnia. Ela se afasta do pai, passa por um homem estranho que traz um aviso bíblico num cartaz que segura (Jeremias 11:11) e acaba chegando, diante de uma praia com trovões perturbadores no horizonte, a uma espécie de casa assombrada, constituída por salões de espelhos. Ali, ela vê algo que a assusta e a deixa até a vida adulta traumatizada. Por motivos explicáveis típicos de um filme de terror, ela volta à mesma praia (interpretada por Lupita Nyong’o), desta vez com seu marido Gabe Wilson (Winston Duke) e seus filhos, Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex).

A visita que eles fazem à praia têm elementos de Tubarão (o filho Jason, inclusive, usa uma camiseta do filme de Spielberg), Os pássaros, Os garotos perdidos (passado na praia de Santa Carla, Califórnia) e ali a família encontra um casal de amigos, Kitty Tyler (Elizabeth Moss) e Josh (Tim Heidecker), que possui filhas gêmeas, Becca (Cali Sheldon) e Lindsey (Noelle Sheldon). À noite, pela janela da casa onde se hospedam, eles veem quatro pessoas paradas na calçada em frente, vestidas com macacões vermelhos. A partir daí, temos a trama central de Nós.
Lupita Nyong’o é a grande estrela da narrativa. Depois de receber o Oscar de melhor atriz coadjuvante por 12 anos de escravidão, ela não teve a mesma oportunidade de mostrar seu talento, sendo, com exceção de Rainha de Katwe, mais utilizada em papéis digitais ou em dublagens de animações. Sua atuação é o melhor que tem a oferecer Nós, verdadeiramente dedicada.
Jordan Peele, inclinado a usar o mesmo humor bem dosado em Corra!, no entanto, não consegue entregar uma atmosfera e um roteiro equilibrados. A fotografia de Mike Gioulakis, que apresentou um trabalho irretocável em Corrente do mal, se sente deslocada do que Peele quer tratar, com tomadas aéreas que querem contrastar com o terror implícito das imagens. Tudo no roteiro se sente, de certo modo, apressado, pouco elaborado e simbolicamente decepcionante. Os primeiros minutos, mostrando Adelaide na infância, não se repetirão mais; figuram como um triunfo à parte, recordando o melhor que o diretor poderia oferecer, trazendo muito do clima exatamente de Corrente do mal.

As referências que Peele tenta fazer à sociedade, bem como em Corra!, são comprometidas por gags fora de hora (aquela que remete a Esqueceram de mim é especialmente assustadora, se é que me faço entender) e uma necessidade de ser profundo, de elaborar temas específicos que não dialogam diretamente com os personagens unidimensionais e sim com uma tentativa de tornar diversos discursos expositivos em algo metafórico, colocando atores de qualidade em segundo plano (Moss é tão subaproveitada quanto em The Square). Há uma necessidade do diretor em fazer de suas imagens um subtexto para algo mais importante, como a máscara de Jason remetendo a Halloween, mas que nunca o roteiro trabalha de maneira adequada, por desinteresse.
Em Corra!, Peele conseguia lidar de maneira exitosa com o humor em um contexto no qual ele pareceria deslocado, por meio da atuação primorosa de LilRel Howery (lembrando Anthony Anderson, de Todo mundo em pânico), que parecia saído de outro filme, e em algumas falas engraçadas, como uma que remetia a De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick. Peele dava a impressão de aproveitar elementos do cinema mais previsível com um contexto bem mais delineado do que se espera; ele simplesmente esquece esses elementos em Nós, e torna uma trama que por si soa previsível num encadeamento de cenas sem nenhum elo claro entre si, a não ser sua premissa de parecer assustador – sem nunca de fato ser, lembrando mais um pastiche.

Se Corra! era uma mescla entre uma obra de terror dos anos 80 e a série Histórias maravilhosas, produzida por Spielberg, além de possuir alguns elementos da obra de Richard Kelly, Nós se direciona mais a uma tentativa de replicar Creepshow e A noite dos mortos-vivos, de George A. Romero com referências a M. Night Shyamalan (o figurino vermelho remete ao ótimo A vila) e a algo de O homem de palha.
O resultado é nunca menos do que ineficiente, um verdadeiro indicativo do que não se deve fazer numa peça de terror, com exceção para a parte dramática que Lupita tenta impor mesmo com um roteiro cansativo. Que Peele esteja sendo elogiado por esta falha de ignição mostra que sua carreira pode ser comprometida pelos mesmos que criaram outros diretores que aparentavam ser autorais e apenas replicavam filmes desgastados. Compará-lo a mestres do terror e do suspense pode soar muito bonito no papel – porém não é tão proveitoso para uma carreira que se mostrava talentosa e encontra aqui seu primeiro percalço. Espera-se que sua terceira tentativa volte à qualidade de Corra!, ou seja, que ele perceba o quanto este filme não possui as mesmas qualidades de sua estreia. Não há nada em Nós que constitua sequer um novo campo de ideias para que Peele desenvolva.

Us, EUA, 2019 Diretor: Jordan Peele Elenco: Lupita Nyong’o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tim Heidecker, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex, Cali Sheldon, Noelle Sheldon Roteiro: Jordan Peele Fotografia: Mike Gioulakis Trilha Sonora: Michael Abels Produção: Jason Blum, Ian Cooper, Sean McKittrick, Jordan Peele Duração: 116 min. Estúdio: Monkeypaw Productions Distribuidora: Universal Pictures

The Square – A arte da discórdia (2017)

Por André Dick

O premiado pela Palma de Ouro em Cannes 2017, The Square – A arte da discórdia, traz à cena a discussão artística, em torno do curador do museu X-Royal, em Estocolmo, Christian (Claes Bang), que pretende tornar o lugar numa referência de vanguarda. O diretor Ruben Östlund, como em Força maior, utiliza o personagem central como uma referência para explorar temas relacionados à estrutura da sociedade. Inicialmente, Christian tem sua carteira e smartphone furtados na rua, e ele consegue rastrear as peças roubadas, chegando a um bloco de apartamentos na periferia. Junto com o funcionário Michael (Christopher Læssø), ele deixa uma carta ameaçadora a todos os moradores para ver se as obtém de volta.

Isso é apenas uma justificativa para Östlund brincar com um homem que parece inserido na vida artística, no quadrado conceitual que guia a narrativa, e se dilui em discursos desconexos de sua realidade. Neste quadrado, “todos compartilhamos direitos e obrigações iguais”. Ora, sabemos quem Östlund está satirizando. A mania de enquadrar indivíduos é própria de um sistema do qual eles não podem mais sair, e o diretor empreende essa ideia literalmente, colocando o quadrado como um dispositivo para determinadas sequências: desde o momento em que se coloca uma marcação em neon diante do museu ou quando Christian chega em casa e há um quadro na parede com o mesmo formato daquele que é usado como símbolo artístico.
É como se o quadrado fosse o lugar em que esses personagens na verdade habitam, mas quando escapam deles a realidade prepondera. Veja-se a sequência em que Christian pula uma janela, como se ela fosse um quadrado, para chegar a detritos de lixo. Para Östlund, o museu tenta esconder essa realidade, utilizando o pó (da existência, como numa de suas exposições) ou as cadeiras empilhadas como símbolos de que a realidade existe ali apenas de forma indireta. Ou seja, quem entende essa farsa literalmente talvez não chegue ao que o diretor quer mostrar: ele revela, por meio de um homem longe de problemas reais, apesar de servir a pessoas necessitadas com lanches ou gorjetas, uma certa casta que vive encastelada com discursos que querem exatamente dominar a sociedade que desconhecem. Não se duvide que, por meio do museu, Christian acredita estar na vanguarda da sociedade. O seu discurso evidencia isso.

No meio do caminho ele se envolve com uma jornalista, Anne (Elizabeth Moss), que parece viver no mesmo apartamento de Sr. Oscar de Holy Motors, o que significa o salto do personagem para o universo que gostaria de entender e não entende, mesmo no relacionamento com as duas filhas pequenas: o feminino. Logo na sequência inicial, quando ambos se conhecem e ela utiliza uma citação dele, sem nexo algum, sobre a arte, ambos os personagens se definem: ela surge como que para descortinar esse homem por trás da figura do museu. Numa sequência significativa, ele fica com receio de que ela possa querer, num subterfúgio, engravidar dele, e a atitude dela é equivaler o comportamento a uma das tantas peças que habitam o museu.
No entanto, nisso, em meio aos resíduos de obras do museu e uma performance primata de Oleg (Terry Notary, o mesmo que fez os movimentos do gorila gigante de Kong – A Ilha da Caveira), The Square mostra que tudo que foge à segurança do quadrado pode também incluir peças descartáveis. O filme busca uma certa crítica corrosiva a peças que se consideram provocativas, mas, no fim das contas, se inserem apenas no mesmo establishment que contestam. Nisso, inclui-se o discurso de Christian, em determinado momento, ao telefone. Não se trata de uma crítica previsível a curadores de museu; trata-se de um olhar sobre a sociedade a partir da estrutura de um museu. Uma das cenas mais divertidas é aquela em que o público aguarda ansiosamente que o discurso de Christian termine para que possam jantar (e é em outro jantar que acontece a cena-chave, já referida, da obra de Östlund, na qual o artista Julian (Dominic West) é desafiado).

The Square não é sem falhas: há alguns problemas de transição e nota-se que há cenas deixadas na sala de edição para que isso aconteça, além de a personagem da jornalista não ser totalmente aproveitado, levando em conta que Moss está excelente. Porém, sua temática consegue se sobressair a esses problemas. Não por acaso, Östlund insere uma criança para ser a peça-chave desse caos que o personagem pretende causar, que não afete nunca, claro, a sua vida. O comportamento do curador é desproporcional diante da reação de uma criança, mas são reflexos um do outro. Numa sequência impactante, ao final, Christian vê suas filhas participarem de uma apresentação de colégio dentro de um enorme quadrado. Quando saem de lá, ele volta ao mesmo bloco de apartamentos da periferia, que remete bastante a Caché, de Michael Haneke, outro vencedor da Palma de Ouro, em 2005. Ou seja, da segurança ilusória proposta pelo quadrado, em que todos seriam iguais, ele se estende para a realidade. O olhar da filha de Christian, por baixo do boné, é o dele próprio, no círculo de sempre, do discurso que visa à transformação de tudo e todos e termina, conscientemente, no mesmo lugar.

The Square, SUE/ALE/FRA, 2017 Diretor: Ruben Östlund Elenco: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Terry Notary, Dominic West, Christopher Læssø Roteiro: Ruben Östlund Fotografia: Fredrik Wenzel Produção: Erik Hemmendorff, Philippe Bober Duração: 151 min. Estúdio: Plattform Produktion, Coproduction Office Distribuidora: TriArt Film