Os Meyerowitz – Família não se escolhe (Histórias novas e selecionadas) (2017)

Por André Dick

Lançado no Festival de Cannes, Os Meyerowitz – Família não se escolhe (Histórias novas e selecionadas) teve sua exibição precedida por um discurso deselegante do presidente do júri da edição deste ano, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Ele resolveu investir contra os filmes da Netflix (como é o caso de Os Meyerowitz) selecionados pelo Festival porque eles não passariam nos cinemas, sendo disponibilizados diretamente na plataforma digital. Segundo ele, isso prejudicaria o cinema e não se poderia premiar filmes em festivais que não fossem exibidos como é de costume. Claro que se trata de um discurso que remete àquele de que um filme só pode ser visto como tal na tela grande. Isso valia na Hollywood dos anos 50 ou 60, quando se considerava que um filme morria quando passava na TV. Hoje, o cinema costuma sobreviver por causa de outras plataformas, inclusive, ainda, da TV. A qualidade de uma obra não aumenta nem diminui por causa do tamanho da tela (no máximo, em caso de filmes com efeitos visuais e uma fotografia especialmente primorosa, a exemplo do recente Blade Runner 2049, realça esses elementos). Nunca assisti a Cavaleiro de copas, de Terrence Malick, na tela grande – e é meu preferido de 2016 (levando em conta a data de lançamento internacional). Os únicos filmes lançados em Cannes este ano que podem, até o momento, ser vistos pelo público no Brasil são exatamente os dois da Netflix (o outro é Okja) e O estranho que nós amamos, de Sofia Coppola. Os filmes ficam; o discurso de Almodóvar vai, aos poucos, desaparecer.

Os Meyerowitz é uma obra de Noah Baumbach, responsável pelos excelentes A lula e a baleia e Greenberg e os muito interessantes Frances Ha, Margot e o casamento e Enquanto somos jovens, entre outros. Ele também contribuiu no roteiro de A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico Sr. Raposo, junto a Wes Anderson, e se tornou, nos últimos anos, uma mescla entre ele (mais séria) e Woody Allen. Por sua história, Os Meyerowitz dialoga claramente com Os excêntricos Tenenbaums. Mas Baumbach, como em outros filmes, costuma situar seus personagens numa narrativa que dialoga menos com enquadramentos e cores que Anderson.
Se em A lula e a baleia, acompanhávamos um escritor, Bernard Berkman (Jeff Daniels), que havia feito sucesso e continuava dando aulas, pai de dois filhos com uma escritora, Joan (Laura Linney), fazendo o sucesso que ele tinha, em Os Meyerowitz vemos um pai escultor, Harold (Dustin Hoffman, excelente), casado com Maureen (Emma Thompson), aparentemente recém-saída de Woodstock. Ele tem um casal de filhos do primeiro casamento, Danny (Adam Sandler) e Jean (Elizabeth Marvel), e um filho do segundo, Matthew (Ben Stiller), cuja mãe é  Julia (Candice Bergen). O filme inicia com o antigo escultor, que nunca fez grande sucesso, querendo vender a sua casa. Danny deseja conservar suas obras, mas ele não pensa o mesmo. Numa ida à exposição de um antigo amigo, L.J. Shapiro (Judd Hirsch), conflitos vêm à tona para Harold, em relação a ter deixado uma obra para a posteridade.

Dividido em partes, na segunda o pai da família se encontra com Matthew, um corretor, a quem é mais devotado, mas nervoso por não ser bem atendido no restaurante previsto para um diálogo. Baumbach vai encaminhar pequenos conflitos para uma situação ainda mais delicada, na qual os irmãos precisarão se encontrar e chegar a um entendimento. Danny é pai de Eliza (a revelação Grace Van Patten, do interessante Tramps, também da Netflix), que cursa cinema, e é com eles que Baumbach abre sua bela história sobre uma família comum, mas em permanente conflito. Matthew se tornou o mais bem-sucedido, o que torna Danny um pouco receoso de sua aproximação, no entanto é este o mais próximo do pai, em diálogos sobre filmes, uma característica do cinema de Baumbach, como já víamos especialmente em Enquanto somos jovens.
O que mais chama atenção em Os Meyerowitz é a delicadeza com que ele trata a relação entre um pai e seus filhos. Não apenas pela atuação de Hoffman, mas principalmente pelo encontro exitoso entre Stiller e Sandler, este é um filme cujo humor acentua o drama e vice-versa. Depois de fazer o injustamente menosprezado Sandy Wexler este ano, Sandler apresenta aquela que é talvez sua atuação mais calibrada ao lado de Embriagado de amor. Ele consegue entregar ao papel de músico fracassado e divorciado uma sutileza necessária e, ajudado pelo belo roteiro, trava uma interação agradável com Van Patten, numa sequência ao piano logo ao início, e, sobretudo, com Stiller, que tem, num determinado momento-chave, a sequência de sua carreira (não entrarei em detalhes). Stiller já havia trabalhado com Baumbach em Greenberg e Enquanto somos jovens, em dois de seus melhores papéis, fugindo às comédias padronizadas em que costuma estar envolvido.

Baumbach consegue conciliar o ambiente urbano de Nova York, pano de fundo para muitos de seus filmes – e Adam Driver, ator que ajudou a revelar, aparece numa participação especial –, com um ambiente mais bucólico, de interior, como se a intimidade dos personagens sempre estivesse conciliada com os cenários. Algumas passagens podem parecer desnecessariamente explicativas, no entanto conservam sempre um tom familiar capaz de tornar o material de Baumbach próximo do espectador. Os personagens, mesmo adultos, adotam algumas vezes um comportamento infantil, mas o roteiro não torna isso superficial, tentando minimizar a dimensão deles, e sim os torna mais complexos. Na tentativa de não reprisarem o passado, eles olham para a geração futura com a preocupação de fazerem o certo: não há também um sentido de competição novamente em cena. Há um relato comovente de Jean, que torna a aparição de Marvel, até então um pouco deslocada, numa peça essencial para entender também o passado dessa família. Em seus trabalhos mais recentes, a exemplo de Frances Ha, Enquanto somos jovens e Mistress America, Baumbach tende a tentar desenhar um painel da juventude norte-americana em conflito com ideais de uma geração anterior, no entanto em certos momentos soa descompassado. Essa característica não se sente em Os Meyerowitz, que, mesmo com seus cortes às vezes abruptos, se sente orgânico do início ao fim e verdadeiramente sentimental em suas escolhas. Baumbach entrega um dos melhores filmes do ano, com roteiro e elenco referenciais para o que, independente de onde se veja, ainda se chama cinema.

The Meyerowitz stories (New and selected), EUA, 2017 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Adam Sandler, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Elizabeth Marvel, Grace Van Patten, Candice Bergen, Adam Driver, Judd Hirsch, Rebecca Miller, Matthew Shear Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Robbie Ryan Trilha Sonora: Randy Newman Produção: Scott Rudin, Noah Baumbach, Lila Yacoub, Eli Bush Duração: 112 min. Estúdio: IAC Films Distribuidora: Netflix

 

Kung fu panda 3 (2016)

Por André Dick

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Uma das tentativas de estabelecer confronto com a Pixar por parte da Dream Works foi, em 2008, a realização de Kung fu panda. Visto como um desenho mais popular do que os da Pixar, nunca chegou, apesar de sua qualidade, a receber a atenção merecida. Se a Dream Works tem como uma de suas características as séries de animação (a exemplo de Shreck, Madagascar e Como treinar o seu dragão), pode-se dizer que Kung fu panda é a principal no sentido de tentar elaborar uma saga com personagens bem definidos e que se correspondem ao longo dos filmes, com histórias particulares. Pode-se avaliar que ele não possui a reflexão de alguns desenhos considerados mais experimentais – principalmente aqueles vindos exatamente do Oriente –, mas dentro do que se propõe torna-se uma referência e não fica a dever para outros considerados superiores. Tudo circula em torno de um mestre, Shifu, e os cinco furiosos: Tigresa, Víbora, Macaco, Garça e Louva-Deus (com as vozes, no original, respectivamente, de Dustin Hoffman, Angelina Jolie, Lucy Liu, Jackie Chan, Seth Rogen e David Cross). No início, eles não podem acreditar que Po (voz de Jack Black), um panda que trabalha servindo comida com seu pai adotivo, Sr. Pong, possa se transformar no Dragão Guerreiro, escolhido pelo mestre Oogway, uma sábia tartaruga, capaz de manter a tranquilidade no vale onde mora.

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Kung-fu panda 10Depois de um primeiro filme com ótima apresentação de cada personagem – e ainda com os melhores momentos da série –, a continuação se destacou por uma belíssima direção de arte. O personagem estava mais maduro em relação ao anterior, mas é na questão familiar que o desenho se direcionava, mesmo com os toques de humor já presentes no original, para o drama: ele quer saber de onde veio e quem é sua família original. Po precisa libertar a China de uma terrível ameaça – para ele, não para os espectadores, que se deparam com um pavão terrível e ameaçador, Lord Shen –, e para isso conta com a ajuda de seus amigos do primeiro. Lá está novamente seu mestre, Shifu, a duvidar de seu potencial, mas acredita que ele deva buscar o “equilíbrio interior”, e o panda se sente ainda mais atrapalhado em muitos momentos, mas é certo que ele está amadurecendo e olhando para o passado. Nesse ponto, ele parece nos trazer toda uma certa ideia de infância de volta.
Neste terceiro filme, a busca pelo pai biológico continua, com a presença do seu pai adotivo, o ganso Sr. Pong a seu lado, e surge uma nova ameaça para os cinco furiosos e a tranquilidade do vale: a chegada do touro Kai (com voz de JK Simmons no original), que pretende se vingar tanto dos treinados por Shifu quanto atacar o vale secreto onde moram os pandas e, consequentemente, os familiares de Po. É mais exatamente o Tai Lung do primeiro filme com um acréscimo explicativo que desenvolve outra linhagem da série – e faz com que este se feche com o primeiro mais exatamente.

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Para isso, ele reencontra o seu pai, Li (voz de Bryan Cranston no original). Novamente o panda deve colocar à prova os seus talentos com a arte marcial, sempre sob o olhar de dúvida dos amigos. É esta a característica principal dessa série muito bem feita: o personagem principal é um herói apenas para os outros, pois em nenhum momento ele se considera como tal. Para ele, tudo não passa de uma grande honra, já que seus ídolos, os cinco furiosos, são considerados menos tarimbados do que ele para a missão que precisam enfrentar. Para uma nova sequência de imagens fantásticas do Oriente, que dialogam claramente com Akira Kurosawa desde o primeiro, assim como com as obras de Zhang Yimou, na profusão de cores dos cenários e figurinos, além de lutas bem coreografadas, tudo isso é suficiente – e minha esposa e meu sobrinho de 9 anos acharam o mesmo.
Os diretores da nova empreitada são Alessandro Carloni e Jennifer Yuh (também realizadora do segundo) e se percebe, pela presença também de Guillermo del Toro na produção executiva, o quanto Kung fu panda continua sendo um exemplo de animação com atenção a todos os detalhes. A versão em 3D desta terceira parte é particularmente muito bom, realçando, sobretudo, o pano de fundo da história e as belas paisagens do vale onde moram o panda e os cinco furiosos.

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Se o roteiro desta vez tenta mesclar os conceitos dos dois filmes anteriores – um vilão que ameaça destruir os cinco furiosos e a faceta de busca pela paternidade do segundo –, pode-se dizer que os melhores momentos são os da convivência de Po com o ambiente de seus familiares, excluindo um tanto a participação de seus antigos companheiros. São momentos em que os Carloni e Yuh exercem um dos melhores elementos que vemos no primeiro e no segundo filme: uma mescla interessante entre humor e drama, em que a discussão sobre as origens fica mais interessante quando se tenta assumir responsabilidades do presente, desta vez com Po tentando ser encarregado por seu mestre Shifu de continuar o treinamento dos companheiros. Há também uma nova personagem, Mei Mei (Kate Hudson no original), embora visivelmente subaproveitada. As ações de Po continuam no limite (com a dublagem, feita de modo exitoso, por Lúcio Mauro Filho), e é bem feita a nova participação de seu pai adotivo, S. Pong (James Hong no original e Pietro Mário na excelente dublagem). Não apenas pela temática de relação pai e filho como pela própria relação com seu mestre Shifu, Kung fu panda pode não encantar mais em razão de não ser mais original – o triunfo do primeiro –, mas chega a emocionar seus admiradores.

Kung fu panda 3, EUA, 2016 Diretor: Alessandro Carloni, Jennifer Yuh Elenco: Jack Black, Angelina Jolie, Dustin Hoffman, Jackie Chan, Seth Rogen, Lucy Liu, David Cross, James Hong, Bryan Cranston, Kate Hudson, JK Simmons Roteiro: Gleen Berger, Jonathan Aibel Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 95 min. Distribuidora: Fox Film Produção: Melissa Cobb Estúdio: DreamWorks Animation / Oriental DreamWorks

Cotação 4 estrelas

 

Hook – A volta do capitão Gancho (1991)

 Por André Dick

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Esta fantasia de Spielberg teve alguns problemas durante a produção, mas resultou num conto de fadas original. Isso porque o roteiro atualiza a trama e explora a maldade do vilão, indo um pouco na linha contrária da adaptação em desenho dos estúdios Disney, sendo até mais interessante que a história de James Matthew Barrie (daqui em diante, spoilers). Agora o menino que não queria crescer, cresceu e virou Peter Banning (Robin Williams), executivo sem tempo para a mulher, Moira (Caroline) e os dois filhos pequenos, Charlie (Korsmo) e Maggie (Amber). Em viagem a Lonres, onde reencontra a avó Wendy (Maggie; na adolescência, Gwyneth Palthrow), ele tem seus filhos capturados pelo capitão James Gancho, e precisa voltar a ser criança para tê-los de volta. A fada Sininho (Julia) o leva para a Terra do Nunca, onde se encontra o enorme navio do vilão, Jolly Roger, e a tribo dos garotos perdidos. Arranja um duelo com o pirata, mas antes precisa esquecer seu lado adulto e cheio de compromissos e se concentrar numa espécie de volta forçada à infância esquecida. Para isso, Sininho tenta conseguir alguns dias de treinamento, mas quem acaba roubando a cena é o Capitão Gancho (Hoffman, em bela atuação) e seu braço direito Barrica (o excelente Bob Hoskins), emprestando humor – algumas vezes escrachado – às cenas. Com uma parte técnica impressionante, trilha de John Williams nos seus picos mais sentimentais e uma mensagem comovente, a trama de Malia Scotch Marmo, Nick Castle Jr. e Jim V. Hart sempre interessa, mas Hook é profundamente irregular em seu resultado.

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O primeiro problema é que nunca se decide em ser uma homenagem à história original, sempre agindo como uma espécie de sequência, ou um filme infantojuvenil ou melancólico (mais direcionado para adultos). Revendo hoje em dia, sua premissa é bastante próxima daquela de Prenda-me se for capaz, em que Steven Spielberg fez uma mistura divertida entre ação, comédia e drama, na qual DiCaprio interpreta Frank Abagnale Jr., uma espécie de minigênio desvirtuado que se torna falsificador de cheque e passa a assumir diversas personas para conseguir ganhar dinheiro (como ser médico e se casar com a filha de um magnata). Talvez por causa de DiCaprio, que faz tão bem Frank. Ele precisa se desvencilhar do agente do FBI (Hanks), que precisa prendê-lo. Encontra-se furtivamente com seu pai (Cristopher Walken), admirador de suas ações e abandonado pela mulher. Frank fixou aquela imagem infantil de família perfeita e não quer se desligar dela. Este é o mote do filme, sobretudo quando Frank se torna copiloto de avião sem, claro, nunca ter pilotado nenhum. DiCaprio tem uma imagem adulta e infantil, o que cabe bem num filme esteticamente bem produzido, com bela fotografia dos anos 60-70 e uma direção de arte bem cuidada. Os momentos em que o agente quase pega Frank são muito bem feitos e humorados, graças à dupla central, e Spielberg faz, como em Hook, uma espécie de releitura de alguém que não quer crescer, que precisa habitar um mundo de fantasia, mas ao mesmo tempo é chamado para a realidade.
O Peter Banning de Robin Williams, numa versão piorada de seu Popeye de Altman, precisa aprender a conciliar sua vida de empresário com a de pai, e tem em Sininho (Julia Roberts reduzida por Spielberg a uma coleção de sorrisos) sua confidente. Ele não lembra praticamente de nada que remete à infância. Seu dia a dia é dedicado à vida no escritório. Hook apanha Spielberg no conflito central de sua carreira, o que a torna também tão diferenciada: depois de dois filmes dramáticos de larga escala, A cor púrpura e Império do sol, com intenções de ganhar Oscar, ele fez o irregular Além da eternidade e retornou, aqui, ao molde que o havia feito conhecido a partir de Contatos imediatos, mas sobretudo de E.T. e da série Indiana Jones. Assim como Banning, Spielberg sabe que cresceu e esqueceu deliberadamente (ou quis esquecer) de determinados elementos que nortearam sua trajetória. No entanto, sente-se culpado e deseja ter novamente a atenção dos filhos – a plateia infantojuvenil – já adulta.

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Nesse sentido, com seu jogo de cores bonito, mas forçado, e sua direção de arte espetacular – embora nunca nos sintamos em outro universo, mas um universo de estúdio, pensado e elaborado para o filme –, Hook consegue atrair, mas sempre deixando o espectador adotando um recuo em relação às suas intenções mais claras. Ele tem elementos do fantástico, que Spielberg exploraria dois anos mais tarde novamente em Jurassic Park, mas uma espécie de tristeza, como O império do sol. Seus altos se concentram na tentativa de colocar o Gancho como uma figura necessária para que Banning assuma a paternidade. Com sua aversão à figura do crocodilo, que na obra de Barrie o colocou numa tentativa de escapar a qualquer relógio, é ele que sinaliza a falta de interesse em que o tempo passe na Terra do Nunca e, se Spielberg coloca um Peter Pan já com cinquenta anos em roupas verdes, tentando voar ao lado dos Garotos Perdidos, e enfrentando o atual líder deles, Rufio (Dante Basco), também há uma sinalização dele para territórios até então inexplorados com a mesma atenção, como a melancolia da separação dos filhos e, principalmente, o fato indesejável de ver os filhos realizando os sonhos ao lado do vilão de contos de fadas. E, neste ponto, Dustin Hoffman e Bob Hoskins formam uma ótima parceria. Ao mesmo tempo, é a primeira vez que realmente um personagem central de Spielberg valoriza estar ao lado da família depois do Capitão Brody de Tubarão. Não víamos isso em Contatos imediatos, E.T. e na solidão aventureira de Indiana Jones, tampouco em A cor púrpura. É como se Spielberg visse um elemento que não tinha tanto destaque em sua obra, na mesma época em que começou a aumentar sua família na realidade. E seu encontro com este elemento se dá um pouco pela culpa. Há menos espontaneidade do que vemos em E.T. na apresentação, por exemplo, dos Garotos Perdidos, como se Spielberg não conseguisse mais o mesmo equilíbrio mostrado anteriormente – e o embate entre Peter Pan e Rufio, num jantar multicolorido, por meio de palavrões, é um exemplo do campo em que Spielberg nunca foi bom, o do humor.
Não é possível, ao final, não ver um exagero quando Peter Banning volta da Terra do Nunca e reencontra a família, com um discurso que tenta ser comovente, auxiliado pela sinfonia de John Williams, e soa apenas forçado, desmanchando um pouco a energia que cerca a atmosfera tanto da Terra do Nunca quanto de Londres (Harvey Weinstein teria sido bem-vindo aqui com sua obsessão em editar filmes). Ainda assim, com todos os seus problemas, Hook continua sendo uma fantasia a ser vista e apreciada, mostrando uma transição interessante na obra de Spielberg, na qual o cineasta se revela por completo, também como autor.

Hook, EUA, 1991 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dustin Hoffman, Robin Williams, Julia Roberts, Bob Hoskins, Maggie Smith, Caroline Goodall, Charlie Korsmo, Amber Scott, Laurel Cronin, Phill Collins, Dante Basco Roteiro: Nick Castle Jr., Jim V. Hart, Malia Scotch Marmo Produção: Kathleen Kennedy, Frank Marshall, Gerald R. Molen, Jerry Molen Fotografia: Dean Cundey Trilha Sonora: John Williams Duração: 135 min. Estúdio: Amblin Entertainment / TriStar Pictures

Cotação 3 estrelas e meia