Mudo (2018)

Por André Dick

Quando se lê uma lista considerável de comentários sobre o novo filme de Duncan Jones, a impressão é que há muitas obras elaboradas com cuidado visualmente. Desde sua estreia, o filme distribuído pela Netflix vem sofrendo um massacre em larga escala, assim como o interessante Bright, no ano passado. A crítica, em parte, tem a função de dizer o que acha: em parte, isso se dá de maneira levemente desequilibrada em relação a blockbusters menos inventivos e aceitos como se fossem obras-primas. É interessante que Mudo tenha Ted Sarandos como um dos produtores e ele tenha dito há alguns meses que a Netflix não se importa como os críticos. Dito isso, não estou entre os especiais admiradores de Lunar, que quase todos os “fãs” de Jones (e coloco entre rigorosas aspas, pois mesmo um espectador qualquer não tem direito a usar grosserias para qualificar uma obra, a exemplo de o “pai dele (David Bowie) deve estar se revirando na cova”, a não ser que haja quem aplauda, e costuma ser uma horda) consideram o seu melhor trabalho. Um de seus filmes seguintes me parece melhor: Warcraft – O primeiro encontro de dois mundos é muito divertido, uma grande homenagem aos video games e ao cinema dos anos 80, com um orçamento imenso e uma arrecadação nada desprezível (mais de 400 milhões de dólares).

No entanto, Mudo é outra coisa: uma espécie de conto futurista passado em Berlim, daqui a 40 anos, em que um homem mudo, Leo Beiler (Alexander Skarsgård), quer reencontrar sua namorada iraniana, Naadirah (Seyneb Saleh, a menos convincente do elenco). Eles trabalham num clube noturno, ele como barman, ela como garçonete, que remete às obras de Paul Verhoeven nos anos 90, principalmente Instinto selvagem e Showgirls. Naadirah é misteriosa e tem como melhor amigo Luba (Robert Sheehan, ótimo). Enquanto isso, dois homens, “Cactus” Bill (Paul Rudd) e Donald “Duck” Teddington (Justin Theroux), estão envolvidos com gângsteres, liderados por Maksim (Gilbert Owuor). Há um elemento interessante do personagem central: traumatizado por uma paisagem da infância, que dá início ao filme e lembra Crepúsculo dos deuses, ele é um amish. Imediatamente, isso faz recordar A testemunha, dos anos 80, em que Harrison Ford, o Rick Deckard de Blade Runner, interpretava um policial que precisava proteger o garoto testemunha de um assassinato e pertencente a esta comunidade nos Estados Unidos.

Como essas histórias se cruzam indica a falta de interesse de Jones em solucionar qualquer explicação previamente colocada. Jones lida com um tema muito delicado de forma a contrastar a vida adulta e infantil e o que reserva o comportamento doentio, sem deixar de indicar uma saída. Desde o momento em que Naadirah desaparece, a obra se torna uma peça com clima noir, e há uma captura de ambientação no mínimo fascinante (o designer de produção de Gavin Bocquet, responsável pela segunda trilogia injustiçada de Star Wars, e a fotografia Gary Shaw facilmente disputariam um Oscar).
O parceiro de Jones no roteiro é Michael Robert Johnson, um dos autores do ótimo Sherlock Holmes de Guy Ritchie, em 2009. A infância, especificamente, para Jones se sente ameaçada constantemente em Mudo. O personagem se expressa verbalmente apenas por comentários escritos no seu bloquinho de notas, onde também faz desenhos imaginando uma vida agradável com a amada Naadirah. E ele é o extremo oposto do comportamento de um determinado personagem em relação às crianças. “Cactus” Bill tem uma filha, Josie (interpretada muito bem pelas gêmeas Mia Sophie-Bastin e Lea Sophie-Bastin), que também fica desenhando num caderno enquanto acompanha o pai. Este enxerga em seu parceiro um comportamento específico: esta visão que nada parece ter a ver com a trama na verdade não é seu pano de fundo e sim o seu centro. A mudez do personagem de Leo é parecida com a mudez de meninas em situações nas quais são colocadas por cafetinas ou mesmo com o desejo de se reabilitarem fisicamente por meio de cirurgias. Além disso, o personagem de Leo pela sua tradição, não comporta tecnologia e parece deslocado entre figuras andróginas, não por culpa, e sim por estar à margem. O futuro de Jones não é leve.

Jones se utiliza de referências mais selvagens – seu futuro é amargo e embarcado em sexo desvirtuado – do que Villeneuve no recente Blade Runner 2049. É importante dizer que, embora não se compare a este trabalho, Mudo explora traços inexplorados na ficção memorável com Ryan Gosling. Há algo de mais sujo, de underground, nas paisagens do filme, que remetem mais ao Blade Runner de Scott dos anos 80, e, involuntariamente, dialogam com o recente Ghost in the shell, com Scarlett Johansson.
Embora Rudd e Theroux tenham as grandes atuações do elenco (Theroux especialmente num papel complicador), Alexander Skarsgård é convincente, de forma inesperada, num papel que poderia ser mal desenvolvido. Há um visível desenvolvimento dele como ator, depois de A lenda de Tarzan (não assisti a Big little lies, pelo qual ele ganhou vários prêmios este ano, inclusive o Globo de Ouro). Um determinado momento passado numa piscina é cortante e se liga com o final de maneira extraordinária.
E há elementos de Blade Runner na estética, mas, sobretudo, de Apenas Deus perdoa, de Refn, e uma dose de violência que inexistia em Lunar, por exemplo. Ao mesmo tempo, há inovações e Jones tem um bom olhar para enfocar lugares internos, como um clube de boliche ou os próprios apartamentos pelos quais o personagem central peregrina atrás de pistas de sua amada. Algumas soluções visuais são impressionantes: quando Leo vai fazer uma pesquisa na biblioteca de Berlim e ela parece se mostrar infinita como num conto de Borges. A decepção dos que se insurgem contra um filme dessa qualidade não dura muito: logo surgirá outro blockbuster de alguma produtora a ser lançada nas cadeias de cinema para saciar a sede de elogios. Se a Netflix distribuir mais obras diferenciadas e destinadas ao culto, ganha o espectador que não se importa com um pré-determinado consenso (o filme da moda) a curto prazo. Ou seja, assistir a uma obra sempre por si mesmo.

Mute, EUA/ALE/ING, 2018 Diretor: Duncan Jones Elenco: Alexander Skarsgård, Paul Rudd, Justin Theroux, Robert Sheehan, Gilbert Owuor, Mia Sophie-Bastin, Lea Sophie-Bastin Roteiro: Michael Robert Johnson e Duncan Jones Fotografia: Gary Shaw Trilha Sonora: Clint Mansell Produção: Ted Sarandos e Stuart Fenegan Duração: 126 min. Estúdio: Liberty Films UK, Studio Babelsberg Distribuidora: Netflix

Warcraft – O primeiro encontro de dois mundos (2016)

Por André Dick

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Baseado em jogos eletrônicos da Blizzard Entertainment, Warcraft – O primeiro encontro de dois mundos pode ser visto como uma peça destinada apenas aos fãs específicos. Não sendo um conhecedor da série de jogos, World of Warcraft, criada em 1994, no entanto, cheguei ao filme principalmente por ser de uma vertente que admiro – a fantasia – e pela direção de Duncan Jones, realizador de uma obra muito interessante de ficção científica, com orçamento modesto, intitulada Lunar, além do thriller de ficção Contra o tempo. Duncan é filho de David Bowie, mas, enquanto o pai músico também apareceu à frente das câmeras, em diversos filmes interessantes, ele vem se tornando um dos nomes procurados para o desenvolvimento de projetos diferenciados. O natural é que Warcraft, a princípio, afaste quem não conhece nem admire especialmente sua origem nos jogos.
O espectador é colocado no meio de uma trama em alta velocidade. Uma horda de orcs guerreiros está para deixar seu planeta, Draenor, que está em ruínas, por um grande portal, guiada por Gul’dan (Daniel Wu), diretamente para Azeroth. Ali moram humanos, e a preocupação passa a ser com uma iminente batalha. Lothar (Travis Fimmel) busca a ajuda de um jovem mago, Hadgar (Ben Schnetzer), e ambos vão a Mago Medivh (Ben Foster), o atual Guardião de Tirisfal, com uma biblioteca secular, Karzhan. Enquanto isso, o Rei Llane Wrynn (Dominic Cooper), que tem como assessora Lady Taria (Ruth Negga), a rainha-consorte de Stormwind, espera por mais informações para que possa decidir o que fazer.

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Do lado dos orcs, acompanhamos a ação principalmente de Durotan (Tobby Kebbell), líder de uma das tribos de orcs, casado com Draka (Anna Galvin), que acabou de ter um filho, e que possui como principal amigo Orgrim Doomhammer (Robert Kazinsky) Ele é contrário ao posicionamento do grande líder, que parece sempre trazer destruição à sua volta, e encontra o mesmo posicionamento de Garona Meiorken (Paula Patton), uma mistura entre orc e humana. Se a quantidade de nomes incomoda, um conselho seria simplesmente embarcar na fantasia que o filme de Duncan Jones carrega, com um roteiro escrito por ele em parceria com Charles Leavitt, responsável pela narrativa de K-Pax e No coração do mar, baseados nas criações de Chris Metzen.
Se visto com superficialidade, Warcraft pode ser reduzido a apenas uma diluição de O senhor dos anéis – sobretudo quando aqui também há anões e águias voando para salvar os humanos –, porém, em termos de estética, ele propicia não apenas a aceitação de que realmente Peter Jackson deu uma contribuição preciosa ao mundo da fantasia, como abriu a possibilidade de se adaptar histórias até então não presenciadas na tela do cinema. Em termos de design de produção, assinado por Gavin Bocquet (da segunda trilogia Star Wars e Jack e o caçador de gigantes, que guarda semelhanças com o visual de Warcraft), por exemplo, o filme de Jones lembra vários outros do gênero, mas em nenhum momento deixamos de ver a atenção aos detalhes com que foi construído. Em igual escala, os figurinos de Mayes C. Rubeo (Avatar, John Carter) são verdadeiramente bem trabalhados e reais, com uma imponência que falta a outras peças do gênero, além de os efeitos visuais serem muito bem inseridos, de sobremaneira nas cenas em que o movimento dos orcs é captado, com uma verossimilhança destacável: é possível ver onde foram colocados os mais de 150 milhões de orçamento.

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Por mesclar muitos universos e referências, pode-se lembrar de Willow – Na terra da magia e Krull, ambos dos anos 80. De Krull, Jones apanha principalmente a primeira meia hora, quando o grupo do rei Llane anda por uma floresta e, finalmente, quando se misturam armas de fogo a duelos de espada entre homens e orcs (no filme de Yates, eram armas laser). De Willow, mais diretamente, uma referência bíblica em determinado momento. Também possui diálogos com Mestres do universo, a adaptação do desenho de He-Man feito pela Cannon. E um par ou outro de cenas remete ao melhor das adaptações nostálgicas de Conan com Schwarzenegger: eis um filme em que o diretor tem influências claras e consegue mesclá-las de maneira agradável e que tenha um conjunto capaz de ressoar junto ao espectador.
Warcraft está preocupado demais em criar uma atmosfera de fantasia para que o espectador perceba o quanto faltam alguns pontos para estabelecer melhor a trama, principalmente dentro da família real. No entanto, Jones se mostra muito competente em cobrir essas lacunas com cenas verdadeiramente impressionantes de ação, com uma violência um pouco acentuada em alguns momentos e ainda assim eficazes. Ele também funciona com o requisito do humor, principalmente com o Mago Medivh e o aprendiz Hadgar – numa relação que pode lembrar aquela de O nome da rosa, principalmente na importância simbólica da biblioteca e (spoiler a seguir) no fato de que um deles pode estar sendo envenenado, transformando-se em outro ser –, enquanto Lothar tem uma boa presença, por causa do seu intérprete Travis Fimmel, que lembra Paul Rudd. O vilão é realmente assustador, alimentando-se da energia de seres humanos para que possa ter ainda mais vigor – e a sua figura lembra a dos monstros de A vila, de M. Night Shyamalan.

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Jones também sabe fazer analogias entre o grupo de humanos e o grupo de orcs, por meio das figuras de Lothar e Durotan. Ambos querem manter a paz em seus povos, mesmo que esta paz represente justamente ter de se inserir numa batalha. Durotan, principalmente, está preocupado com seu filho e a continuação de seu clã. Não é diferente com Lothar, em relação a seu filho Callan (Burkely Duffield). A cena de nascimento do filho de Durotan e Draka é especialmente bem feita, como se ele fosse parte de dois mundos. Como O senhor dos anéis e outras fantasias, esta adaptação dos video games aposta no embaralhamento de linhagens e a manutenção ou não de um poder que possa trazer paz a todos. Em nenhum momento o filme nega as suas origens e isso contribui para que, mesmo quando não soe original, seja realmente autêntico. É bastante claro que Duncan Jones tem um respeito pela história e faz suas apostas com um grande elenco praticamente desconhecido. Como outro grande filme injustiçado, John Carter, também situado entre dois mundos, Warcraft vem ganhando quase a demissão sumária de grande parte da crítica, com gracejos, piadas, difamações e linhas escritas como frases de efeito inúteis. Mais uma vez, ela está errada: a obra de Duncan Jones é realmente interessante e, se vai ou não virar franquia, depende da sua recepção nas bilheterias. Torço, desde já, por uma continuação.

Warcraft, EUA, 2016 Diretor: Duncan Jones Elenco: Travis Fimmel, Paula Patton, Ben Foster, Dominic Cooper, Toby Kebbell, Ben Schnetzer, Robert Kazinsky, Clancy Brown, Daniel Wu, Ruth Negga Roteiro: Charles Leavitt, Duncan Jones Fotografia: Simon Duggan Trilha Sonora: Ramin Djawadi Produção: Alex Gartner, Charles Roven, Jon Jashni, Thomas Tull Duração: 123 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: Universal Pictures

Cotação 4 estrelas