Depois da terra (2013)

Por André Dick

Depois da terra

Depois do sucesso de O sexto sentido, e indicações ao Oscar principal e de direção, o cineasta M. Night Shyamalan teve ainda uma boa recepção, inclusive nas bilheterias, com Corpo fechado e Sinais. A partir de A vila, os elogios começaram a ficar escassos, desaparecendo quase por completo depois de A dama na água (filme que ainda parece o pior de sua carreira) e, sobretudo, O último mestre do ar, uma tentativa de adaptação dos desenhos, com o apoio da Nickelodeon e um desinteresse visível do diretor, embora ainda apresente uma série de ligações com sua obra anterior, inclusive com Fim dos tempos, suspense que fascina em alguns momentos, com o domínio da natureza sobre a vontade do homem.
De qualquer modo, parece que suas referências, ainda hoje, são dois filmes: O sexto sentido e A vila. No primeiro, Bruce Willis interpreta um psiquiatra, que vai sempre à casa de um menino (Haley Joel Osmont, excepcional), filho de uma mãe dedicada (Toni Collette), para tentar descobrir o que o perturba. É apenas motivo para o diretor encadear uma sequência de imagens assustadoras, que remetem, muitas delas, a O iluminado, de Kubrick. O menino tem visões estranhas e o espectador as compartilha, ganhando o seu mesmo sofrimento que vemos enfrentar na escola, com Shyamalan dosando bem todos os elementos e as reviravoltas, e, sobretudo, dá destaque aos enquadramentos. Quando o menino se esconde numa barraca dentro da sala, sabemos que ele enfrentará algo desconhecido – e o que tememos se materializa em imagens perfeitamente montadas. Depois de Corpo fechado e Sinais, Shyamalan realizou A vila, novamente com a tentativa de fazer um final surpresa, ao qual ficou preso durante toda sua carreira (em Fim dos tempos, ele tentaria repetir). Trata-se de um suspense com grande elenco e um tom de fábula contínuo, mostrando pessoas que moram numa comunidade campestre e não podem sair, cercada por grandes cercas e vigias, pois monstros podem, a qualquer momento, atacá-la. Para solucionar um problema, uma jovem se disponibiliza a sair da vila para buscar remédios, embrenhando-se na floresta assustadora. William Hurt e Sigourney Weaver, como os mandantes desta vila, esforçam-se ao máximo para dar credibilidade aos diálogos, e temos aqui uma das melhores atuações de Bryce Dallas Howard e Joaquin Phoenix.

Depois da terra.Filme.Ficção

Depois da terra tem, por um lado, a relação paterna que vemos em O sexto sentido (Bruce Willis, como psiquiatra, substituindo a figura do pai) – e continuaria em Corpo fechado e Sinais – e o tom de fábula que vemos em A vila, com alguns elementos de suspense e mesmo sustos. Para Shyamalan, a família é sempre um ponto de referência: o personagem destinado a ser o Avatar de O último mestre do ar desiste, em determinado momento, dos ensinamentos porque não poderia constituir família, e em Fim dos tempos, um grupo de pessoas errantes, tentando fugir do mal que atinge a todos, vaga sem rumo, tentando, porém, manter um vínculo familiar. É esse conceito que Shyamalan deposita numa espécie de relação à distância, passada no planeta Nova Prime – para onde os humanos foram depois de a Terra se tornar inabitável, uma espécie de Marte de O vingador do futuro de Verhoeven com casas em forma de tendas – sem nenhuma presença de afeto, entre o General Cypher Raige (Will Smith) e Kitai (Jaden Smith), que não foi escolhido para ser um Ranger e recebe o consolo da mãe, Faia (Sophie Okonedo). Cypher não convive com sua família e age em tempo integral como se estivesse a serviço. Com receio de não conseguir atender à sua função, ele decide levar seu filho numa missão (daqui em diante, possíveis spoilers). No trajeto, entretanto, acontece um problema e a nave é obrigado a fazer um pouso forçado exatamente na Terra, onde, segundo Cypher, todos animais existem para destruir o homem. Dali em diante, Kitai terá de mostrar se realmente foi um acerto não ser escolhido como Ranger, colocando-se à prova do medo (que parece dialogar com as toxinas das plantas de Fim dos tempos).
Para uma superprodução, Depois da terra deixa a desejar, em alguns momentos, no designer de produção (das espaçonaves) e na conclusão de algumas tomadas que poderiam ser espetaculares. O seu acerto é justamente aquilo que causava desconforto em Oblivion, ficção científica com Tom Cruise. Se o filme de Kosinski era robótico como as atitudes dos personagens, e havia nele uma aspiração a sintetizar a ficção científica dos últimos 40 anos, com uma série de referências cansativas, não apenas conceituais, mas incorporando diretamente a narrativa, Depois da terra está longe de ser original, e podemos ver referências claras a Avatar e O senhor dos anéis. No entanto, tem sensibilidade para remeter a dois filmes referenciais do gênero dos anos 80: O retorno de Jedi (as locações lembram aquelas da Lua de Endor) e Duna (no figurino de sobrevivência de Kitai, praticamente idêntico ao que se usava no planeta Arrakis, do filme de Lynch). E, como esses dois filmes, Depois da terra é uma ficção científica, mas ao mesmo tempo tem características tribais, do início dos tempos.

Depois da terra.Filme 3

Depois da terra.Filme 2

Do mesmo modo, ao contrário de Oblivion, Depois da terra deseja, com sua irreguralidade, apresentar uma espécie de tom de fábula, e a ligação familiar existente nos outros filmes de Shyamalan não transparece apenas na evidente ligação entre Cypher e Kitai, mas em várias referências. Os animais que Kitai precisa enfrentar ao longo do filme estão sempre em grupo, e quando o personagem, em determinado momento, precisa se esconder, ele acaba caindo numa caverna com desenhos rupestres e uma serpente, que remete diretamente ao símbolo que, segundo o relato bíblico, provocou a Queda do Paraíso. Os personagens de Depois da terra já sofreram esta queda há muitos anos, e com ela também se foi a ligação provocada pelos relatos de livros (no caso Moby Dick, de Melville), sempre existindo, por meio dela, um afastamento sentimental entre os personagens. E Shyamalan, como em seus outros filmes, só evidencia uma possibilidade de haver essa aproximação, que é justamente a crença em alguma fábula e alguma história que possa salvar os personagens, seja dos mortos (em O sexto sentido), dos extraterrestres (em Sinais), da realidade do vilão (em Corpo fechado), do apocalipse final (em Fim dos tempos) e do animal que ronda uma piscina (em A dama na água). Para ele, não existe a continuidade, seja da vida ou da civilização, num escopo maior, sem essa dedicação dos personagens a um determinado imaginário. O duelo final de Kitai remete a essa capacidade tanto de retomada da fantasia quanto do enfrentamento da morte passada, de sua irmã Senshi (Zoë Kravitz), que pode ter transformado sua vida e oferece bons sustos. Esta ficção de Shyamalan se ajusta dentro de um moldes previsto, e se a sua proposta poderia ser melhor desenvolvida não é pelo fato de não trazer elementos interessantes.
Seria injusto classificar as atuações de Will e Jaden Smith como as piores da sua carreira. Smith praticamente repete os trejeitos que já mostrou com força em filmes mais dramáticos, atenuados quando envereda pelo humor da série Homens de preto, e Jaden não tira a dramaticidade das sequências de ação, mesmo que seja um ator visivelmente em formação e talvez não tão adequado ao papel. Shyamalan, por sua vez, consegue, aqui, obter uma clareza maior da montagem, que é tão complicada em seus filmes iniciais (sempre com algum comportamento abrupto demais ou desfecho confiando na aceitação imediata do espectador, como em Corpo fechado), entregando, a partir dos 40 minutos finais, um crescente que não se configura morno, com a fotografia excelente, especificamente nas cenas de voo, de Peter Suschitzky (habitual colaborador de David Cronenberg e de duas ficções cult dos anos 80, cujos cenários lembram alguns deste filme de Shyamalan, O império contra-ataca e Krull) e a trilha sonora sensível de James Newton Howard (da série O senhor dos anéis). Apesar de sua irregularidade, sobretudo na metade, e do epílogo desnecessário, espantosamente simplista,  Shyamalan entrega, em Depois da terra, uma ficção científica interessante e capaz de criar diálogos.

After earth, EUA, 2013 Direção: M. Night Shyamalan Elenco: Will Smith, Jaden Smith, Sophie Okonedo, Zoë Kravitz Produção: Caleeb Pinkett, James Lassiter, Will Smith Roteiro: Gary Whitta, Stephen Gaghan Fotografia: Peter Suschitzky Trilha Sonora: James Newton Howard Duração: 100 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Blinding Edge Pictures / Gary Whitta

Cotação 3 estrelas

Duna (1984)

Por André Dick

Dino de Laurentiis e sua filha Raffaella produziram este filme, baseado no romance de Frank Herbert, que vinha de uma sucessão de projetos não concluídos (Ridley Scott dirigiria o filme em determinado momento). Recentemente, o diretor Peter Berg (de Hancock, Battleship…) teria desistido de uma nova versão, considerando uma obra infilmável, mesmo avaliando que a versão de Lynch não tinha a ação que ele imaginava quando leu Duna, o que é estranho, já que o romance de ficção científica de Herbert pode ser considerado mais psicológico do que propriamente de aventura – e é difícil pensar que Berg conseguiria realizar um trabalho como o de Lynch.
Superprodução de 40 milhões de dólares que não encontrou muito público nas bilheterias, embora tenha se tornado, com o passar dos anos, cult movie, Duna tem uma versão estendida (de 177 minutos) feita para a TV, acompanhada, ainda, por algumas cenas deletadas (que somam em torno de 10 minutos) que Lynch não assina, mas é melhor o filme ser visto na versão de cinema, mais curta (137 minutos), em DVD e Blu-Ray (neste formato, temos a melhor apresentação, assim como algumas cenas deletadas que não estão nos demais meios).

A introdução da versão oficial, por exemplo, é muito superior, pois não menospreza o entendimento do espectador, enquanto a versão mais extensa tem uma narração entre os blocos e a eliminação de uma ou outra cena mais pesada para o meio televisivo, além de cenas repetidas e o aspecto inacabado das imagens que não entraram na versão lançada nos cinemas, apesar de ter novas cenas-chave (interessantes para compreender melhor a relação entre alguns personagens). Ou seja, é difícil ter uma ideia exata do que Lynch queria, pois nenhuma das versões é aquela que gostaria de ter feito efetivamente, mas o que existe em Duna mostra seu brilhantismo como cineasta.
Cheguei ao romance por meio do filme e é comum se dizer que Lynch não explica nada. Esqueçamos, inicialmente, a montagem imposta pelos De Laurentiis. Em parte, o filme não consegue a expansão dos detalhes de Herbert, entretanto a tentativa é válida, pois Lynch respeita o material de origem, assim como acrescenta seu estilo, tratando com respeito a opulência visual que desperta o romance – não parece por acaso que o próprio Herbert diz ter gostado da adaptação.

A história se passa em 10.191 e remete ao povo do planeta Arrakis – completamente deserto –, chamado Fremen, que aguarda a chegada de um Messias, que seria Paul Atreides (Kyle MacLachlan, muito bem, com sua frieza, misturada com ingenuidade, característica), do planeta Caladan, cheio de mares – e sua água terá papel decisivo no filme. Porém, a família precisa agir sob as ordens do imperador do universo, Shaddam IV, que, querendo dar o poder de Arrakis aos Harkonnens, do Planeta Gide Prime, trai os pais do messias: o Duque Leto Atreides (Jürgen Prochnow) possui um anel de poder cobiçado, e Lady Jessica (Francesca Annis), sua mulher, é uma Bene Gesserit, linhagem de sacerdotistas que tenta impedir a chegada desse messias, querendo sempre resguardar uma magia estranha. A Madre Reverenda (Sian Phillips), que serve ao Imperador, lembra que Jessica não podia ter gerado um filho, pois ele pode ser o Kwisatz Haderach, aquele que pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. “O adormecido deve despertar”, diz Duque Leto ao filho, que vive cercado por professores, de Gurney Halleck (Patrick Stewart), passando por Wellington Yueh (Dean Stockwell), até Thufir Hawat (Freddie Jones). É justamente o que teme a Guild Navigator, que deseja destruir os Atreides.
O vilão é o Barão Vladimir Harkonnen (Kenneth McMillan, excelente), que tem dois seguidores, Rabban e Feyd Rautha (Paul Smith e Sting, muito bem) a seu lado – com comportamento pervertido – e outros ajudantes estranhos (entre as quais, Brad Dourif e Jack Nance), todos interessados na especiaria existente em Arrakis, que ajuda na locomoção das naves no espaço e pode representar o domínio do universo.

Comenta-se que o filme é confuso por já começar explicando o que acontecerá dali em diante. Se formos ao livro de Frank Herbert, veremos, ao longo dele, trechos do diário da Princesa Irulan (Virginia Madsen), que conta o que acontece com os personagens. Lynch acerdatamente começa com essa narração e, mesmo seguindo quase fielmente as sequências do livro, reordena de forma com que o filme vá ganhando um tom crescente (não por acaso, a câmera se afastando do olhar de Irulan para mostrá-la contra o espaço sideral cria um contraponto ao final com a câmera se aproximando dos olhos de Paul Atreides), Herbert tem um estilo interessante de apresentar os personagens, mas o filme não pode entrar no universo sem antes tentar explicá-lo.
Identifica-se também como um problema os pensamentos em off dos personagens. Lynch não é Malick, contudo o fato é que aqui também ele é fiel ao livro. Os pensamentos parecem óbvios, mas tanto no livro quanto no filme criam um elemento de onirismo (os personagens não estão completamente acordados).
Ao mesmo tempo, o vocabulário seria complicadíssimo (quando passou nos cinemas dos Estados Unidos, parece que os espectadores recebiam uma espécie de manual para acompanhar a história!). Tratando-se de uma ficção científica mitológica, não parece haver obrigação de Lynch explicar o sentido de cada termo dado por Herbert, nem de, por respeito aos fãs do livro, escondê-lo.

E os personagens, também no livro, são diversificados, surgem e desaparecem em alguns casos, ou seja, algumas vezes não desenvolvidos suficientemente. Quase não há ação ou humor – costuma-se comparar O senhor dos anéis com Duna, mas são, afora o universo mitológico, muito distintos, cada um possui qualidades específicas –, e sim muitos diálogos sobre intrigas de poder e política, com um tom, ao mesmo tempo, ecológico e religioso, quase teatral e profético. Há uma espécie de tensão de domínio entre os personagens (o Barão cujo destino está nas mãos das reverendas; o adolescente que precisa despertar para seu destino e salvar seu pai; a relação estranha entre o Barão e seu sobrinho; a tentativa de subjugar o povo Fremen). Além disso, no filme, Lynch tenta equilibrar, levantando uma tensão a respeito do anel que carrega o Duque Leto e é cobiçado pelo Barão Harkonnen, assim como guarda um mistério sobre quem pode ser o traidor infiltrado entre os Atreides (algo que se revela de início no livro). Alguns personagens de destaque no livro, como Dr. Kynes, Guy Halleck, Shadout Mapes e pai de Paul Atreides, aparecem mais na versão do filme feita para a TV. Outros, como o Imperador Shadam IV e a reverenda que o acompanha, pouco aparecem no livro, entretanto Lynch tenta destacá-los nas versões existentes do filme.

Já  alguns personagens têm suas características acentuadas, como o do próprio Barão, que no livro não parece ter toda a perversidade imaginada por Lynch.
Talvez Lynch tenha se equivocado com a inserção dos módulos de destruição, efetuados por meio da sonoridade da voz, o que é elementar em seu cinema (o poder do som), mas não existe no livro e não encaixa bem na história, sobretudo sem mostrar como são construídos, mesmo Paul Atreides tendo sua planta. Ainda assim, esses módulos de voz têm a ver com sua obra cinematográfica, em que o som humano sempre exerce um poder (não por acaso, a ação de Veludo azul é desencadeada depois da descoberta de uma orelha num capinzal).
A maior falha do filme Duna, porém, é que depois de 90 minutos de filme (na versão mais curta; quase duas horas depois na versão estendida), a trama passa a ganhar um ritmo mais intenso, impedindo que conheçamos melhor os personagens. Muitos acontecimentos se sucedem em poucos minutos (por isso, a versão estendida é curiosa). Na parte que precede seu final, está a maioria das cenas deletadas de Duna (o duelo entre Paul Atreides e um fremen; a conversão de um corpo em líquido; o nascimento da irmã de Paul; a perseguição de Rabban aos fremen no deserto; a descoberta de como é produzida a Água da Vida). Raffaella De Laurentiis, filha de Dino, acrescenta que isso se deu, também, porque foi pedido a Lynch que fizesse sete cenas em apenas uma, o que prejudicaria um projeto como este, elaborado em três anos e meio. Também, claro, porque a montagem final não foi a desejada por Lynch. Raffaella explica que a Universal, depois, tentou fazer uma versão estendida, embora Lynch não tenha participado, sem explicar se era opção do diretor, dela ou da Universal. O fato é que até hoje Lynch se nega a falar do filme, e a revisitá-lo, sobretudo porque foi feita essa versão de três horas para a TV sem a sua autorização.

De qualquer modo, Duna é – com ou sem falhas – fascinante, o que o torna um grande filme. Não há a confusão sugerida pela crítica à época, ainda menos uma alegada falta de produção (direção de arte, figurino, fotografia) caso o espectador se deixe levar pelas imagens já oníricas aqui do diretor, misturando água, fogo, terra e ar, mas sobretudo as dunas do planeta. Da metade para o final, é certo que estamos diante de um sonho de Paul Atreides – como os personagens de vários filmes de Lynch (no roteiro original de Duna, lá está, em determinada parte: “O sonho continua”). Por isso, os filmes posteriores do cineasta parecem explicar melhor Duna, e mesmo o contrário. Já no início, Paul Atreides sonha com o que irá acontecer a ele: a mulher que irá conhecer e o corpo flutuando no espaço – depois da experiência que terá com a Água da Vida –, a risada de Feyd Rautha (Sting). Em outro momento, depois da queda de sua nave no deserto, antes de conhecer os Fremen, Paul terá um sonho acordado (e numa das cenas da versão estendida há outro momento em que ele visualiza a lua, que determina seu destino). Ele pode ser Muad’ib ou o Kwisatz Haderach, aquele adormecido que deve despertar.

Nesse sentido, Lynch também é fiel, aqui, a Herbert, que explora vários diálogos sobre o sonho. As cenas de imagens esfumaçadas remetem a O homem elefante e Cidade dos sonhos, assim como a caixa da Bene Gesserit – em que Paul precisa colocar sua mão, a fim de passar por um teste – tem muito da caixa da atriz Rita, de Cidade dos sonhos, e o anel ducal que carrega o pai de Paul influenciaria, certamente, o anel com que Laura Palmer sonha na versão cinematográfica de Twin Peaks (aliás, na primeira cena de sonho de Twin Peaks, temos Jürgen Prochnow, o ator que faz o Duque Leto, num canto da sala). Isso sem falar na óbvia ligação com Eraserhead, primeiro filme de Lynch – a tomada de um verme se abrindo é idêntica à deste filme (o nascimento de Alia lembra o bebê de Spencer).
O elenco, apesar de a maioria ter participações rápidas, é muito bem escolhido, sobretudo Jürgen Prochonow e Francesca Annis, como os pais de Paul Atreides, Max von Sydow, na pele de um Fremen, Sian Phillips, no papel da reverenda ameaçadora, Brad Dourif e Kenneth McMillan – como harkonnens – e Sting (numa participação curta e eficiente). A atriz Sean Young, como Chani, namorada de Atreides, acaba tendo uma boa presença plástica, embora o roteiro não permita mais participação, e a meia hora final é muito bem pensada – com uma cena surpreendente, que suplanta alguns efeitos especiais mais precários (não se sabe se as naves são mais estáticas para ser uma contraposição à movimentação de Star Wars, pois Lynch pediu a todos que não queria um ar de ficção científica em sua obra, preferindo um futurismo passadista, e já que Duna é mais uma ficção psicológica, entretanto na maior parte das vezes não convencem, servindo mais como imagens pictóricas). Nesse sentido, o filme consegue retratar melhor as batalhas na areia e dos vermes do que revelar imagens de naves espaciais, ainda mais diante das ficções científicas de destaque feitas anteriormente (como 2001, Star wars e Blade Runner) e, sobretudo, posteriormente – embora sua direção de arte de Anthony Masters (de Lawrence da Arábia e 2001), as maquetes perfeitas de Emilio Ruiz del Río, e as imagens dos vermes (criados por Carlos Rambaldi, o mesmo responsável pela concepção de E.T. e do King Kong de 1976) compensem isso, criando um universo muito mais amplo do que 2001 e Blade Runner, situados em lugares definidos.

Nesse sentido, há boas cenas de ação (como aquelas que mostram os vermes gigantes) e, no plano técnico, direção de arte, maquiagem e figurino notáveis, além da fotografia do mesmo Freddie Francis de O homem elefante. Destaque-se que Duna concorreu apenas ao Oscar de melhor som. Nessas categorias referidas, talvez ele tivesse como concorrente, em 1984, apenas Amadeus e 2010 – sendo, a meu ver, superior em todas essas categorias em relação a esses dois, sobretudo por criar um universo, e não simplesmente recriar um já existente. No prêmio Saturn Awards, mais importante da ficção científica, ele foi reconhecido com indicações (melhor filme, melhor maquiagem, melhores efeitos especiais) e recebeu um (melhor figurino).
Especificamente o figurino, misturando Idade Média e futurismo, foi feito de forma notável por Bob Ringwood (responsável pelos figurinos de Excalibur, Império do sol e Batman). Vejamos, por exemplo, aquele que veste Feyd Rautha (Sting), o Imperador Shaddam e a Reverenda:

Impressiona como Lynch, reunindo uma grande equipe em estúdios do México, em 1983, conseguiu reproduzir o universo imaginado por Herbert, sobretudo nas cavernas e palácios, inclusive porque o romance não descreve detalhadamente os cenários, preferindo concentrar-se nos personagens. Esses cenários como que simbolizam os personagens, frios e simétricos, esperando um sentido para a Água da Vida. Consequentemente, cada planeta de Duna corresponde a uma concepção visual: Caladan tem mares e chuva, com plantas, vento e umidade; Gied Prime tem um ambiente de máquinas, correntes, fios e iluminações futuristas, além de uma cor verde doentia nas paredes; Arrakis tem o clima de deserto, com coloração amarela, e cavernas escuras; e Kaitain, onde fica a sede do imperador, tem edifícios tecnológicos. Não há dúvida de que a concepção de Masters, baseada em muitos desenhos de Lynch, cria um universo magnífico.Eu diria que vale a pena conhecê-lo, pois tem imagens notáveis, que lembram pinturas – sua força é, sem dúvida, pictórica e sonora –, explicando o fato de Lynch ter preferido fazer este filme a dirigir O retorno de Jedi, convidado por George Lucas, pois poderia desenvolver um universo próprio – embora Star Wars deva muito aos livros da série Duna e O senhor dos anéis, fazendo com que Lynch não desenvolva alguns aspectos, que soariam repetitivos, e o cineasta não queira mais, hoje, falar do filme em entrevistas.

Além disso, tenho especial apreciação pela trilha de Toto, misturando um tom épico com algumas sonoridades dos anos 80, mas sem ficar datado. Lynch construiu a maior ficção científica com elementos do rock no figurino e na música.
Duna e a obra de Herbert certamente influenciariam Lynch para toda sua carreira, sendo uma pena que ele não reconheça mais o filme. Mesmo com o desinteresse da Universal, é certo que os admiradores da obra gostaria de ver um dia seu corte final. E parece algo espantoso, embora reserve-se o direito, que, mesmo com esse desejo, Lynch pareça não dar importância – apenas pareça, pois ele produz diálogos com Duna em outras obras suas.
Nesse sentido, não se trata de uma obra aprovada plenamente por ele, mas o que conhecemos, ainda assim, forma uma peça única de ficção científica, que parece sempre melhorar numa releitura, além de sua fascinação.

Dune, EUA, 1984 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Kenneth McMillan, Jürgen Prochnow, Sean Young, Francesca Annis, Leo Cimino, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Freddie Jones, Max von Sydow, Virginia Madsen, Richard Jordan, Patrick Stewart, Sting Produção: Raffaella de Laurentiis Roteiro: Eric Bergren, Christopher de Vore, David Lynch, Rudolph Wurlitzer Fotografia: Freddie Francis Trilha Sonora: Toto Duração: 137 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis

Cotação 5 estrelas

Especial David Lynch

Por André Dick

O cineasta David Keith Lynch nasceu em 20 de janeiro de 1946 em Missoula, Montana, filho de um cientista, Donald Walton Lynch, que servia o Departamento de Agricultura dos EUA, e de uma professora de inglês, Edwina “Sunny” Lynch. Depois de uma infância com várias mudanças de cidade, Lynch, em 1964, começou seus estudos na School of the Museum of Fine Arts, Boston. Voltando de uma viagem à Europa, foi estudar pintura, em 1965, na Academia de Belas Artes da Pensilvânia, na Filadélfia, onde conheceu sua primeira esposa, Peggy Reavey, com quem teve Jennifer Lynch. Sua carreira teve início com a realização de dois curtas-metragens: Six figures getting sick (1966) e The Alphabet (1968), cuja protagonista era Peggy, o que lhe permitiu o ingresso no American Film Institute (AFI), fazendo com que ganhasse uma bolsa para rodar o curta de animação The grandmother, em 1970. Com ele, entrou, em 1971, no Centro de Estudos Avançados do Cinema de Los Angeles. Depois, novamente com a ajuda do AFI, iniciou a rodagem de seu primeiro longa, Eraserhead, em 1972. No meio do caminho, em 1974, rodou outro curta-metragem, The amputee, sobre uma mulher com as pernas amputadas (sua filha Jennifer estrearia na direção com Encaixotando Helena, um filme com ideia semelhante). Terminado em 1976 e lançado em 1977, Eraserhead, por sua vez, considerado uma de suas obras-primas e por Stanley Kubrick, seu filme favorito. Como ele surgiu? “Some years ago, I lived in a rotten house with twelve rooms in a poor quarter of  Philadelphia.  Degeneration – the streets filled with garbage and fear. Little girls crying, bringing home their drunk fathers, people being kidnapped out of driving cars, rats, three times my house broken into, permanent fear of being mugged. From this ‘paranoid beauty’, as one reviewer put it, ‘Eraserhead’ was born”(http://www.davidlynch.de/duneinttrans.html).
Foi por meio de Eraserhead que o produtor – e mais conhecido como comediante – Mel Brooks o escolheu para dirigir O homem elefante. Este chamou a atenção de Dino de Laurentiis, que estava querendo produzir o épico de ficção científica Duna.
Numa entrevista dada ao Roda Viva, em 2008, quando veio lançar no Brasil o livro Em águas profundas e falar sobre a meditação transcendental, Lynch afirmou, quando perguntado se poderíamos esperar um corte seu para o filme Duna, respondeu que não, pois “não havia naquelas imagens nada que pudesse transformá-las no filme que eu queria fazer”.

É curioso quando Lynch trata disso, pois se sabe – sobretudo em razão dos extras que vemos na edição não assinada por Lynch da superprodução – que ele participou ativamente da confecção de cenários e imagens do filme. Num certo momento, é como se o próprio Lynch acompanhasse a equivocada opinião de Roger Ebert, para quem o filme é feio. Duna é um dos filmes que mais evocam a pintura já realizados, e as imagens dele como se reproduzem na filmografia de Lynch: desde o anel do Duque Leto – que cria um diálogo com o anel de Laura Palmer no filme de Twin Peaks para o cinema –, até a caixa de Bene Gesserit – que cria um diálogo com a caixa de Cidade dos sonhos. A mão do adormecido é também a mão dormente de Laura Palmer, que segura o anel que a ameaça. E, se os personagens dos filmes de Lynch sonham ou parecem estar dentro de um sonho – conscientemente ou não –, o Paul Atreides de Duna muito mais. Na caixa da Bene Gesserit, também está o fogo, que queima a mão de Paul Atreides apenas em sua mente – sendo desafiado. Fogo que se espalha de Veludo azul – no romance entre Sailor e Lula em Coração selvagem, de Jeffrey com Dorothy em Veludo azul – nos cigarros – e em Twin Peaks – também nos cigarros e no próprio subtítulo: “fire walk with me”. E também nos filmes exclusivamente oníricos (Cidade dos sonhos e Império dos sonhos).

Ele quer fazer, como diz em entrevistas, “pinturas em motivos”. Em Lynch, e vale também para Duna, as imagens valem por si e se autoexplicam. Em The alphabet, ele se baseia em pinturas de René Magritte. Se em Veludo azul e Twin Peaks, as imagens evocam as pinturas de Edward Hopper; em O homem elefante e Império dos sonhos, podemos ver Francis Bacon. E a cortina é um elemento-chave, pictórico: para revelar a mulher misteriosa de Eraserhead, ou para revelar as apresentações de Isabela Rossellini, como a cantora Dorothy Vallens, em Veludo azul, de Julee Cruise, em Twin Peaks, e de Rebekha del Rio, em Cidade dos sonhos, por exemplo, no Club Silencio (Lynch, inclusive, projetou um lugar com este nome em Paris, inaugurado em 2011).

Há algumas tomadas de Twin Peaks, sobretudo da parte externa do Double R, quando passam caminhões com toras, que lembram pinturas em movimento de Edward Hopper.

Isso quando não são quase iguais: o posto de Big Ed (personagem de Twin Peaks) dialoga diretamente com a pintura “Gas”, de Hopper:

Além disso, entre 1982 e 1983, fez a história em quadrinhos intitulada O cão mais raivoso do mundo. Numa entrevista ao The Guardian, explica: “I always say Philadelphia, Pennsylvania is my biggest influence. But for painters, I like many, many painters but I love Francis Bacon the most, and Edward Hopper. Both really different, but Edward Hopper makes us all dream, take off from a painting. Magical stuff. And Bacon for a whole bunch of reasons, but those two are big, big, big inspirations”. Perguntado por Ana Maria Bahiana (em entrevista intitulada “David Lynch, diretor, roteirista e escoteiro”, Revista SET, ed. 41, nov. 1990) por que faz filmes, David Lynch respondeu: “Bom, eu queria ser pintor e cheguei aos filmes através das pinturas, porque eu queria que as pinturas se mexessem. E eu ouvia pequenos sons vindos da tela, enquanto pintava, daí resolvi fazer filmes, em vez de pintar”.
Especificamente de René Magritte, difícil não perceber que Lil, que vem explicar, por meio de Gordon Cole, o modo como o agente do FBI Chester Desmond deve se comportar na cidade em que investigará o assassinato de Teresa Banks, no filme de Twin Peaks, é uma pintura em movimento de “Le tombeau des lutteurs”.

E a conversa de Chester Desmond e Sam Stanley com Irene no Hap’s Diner Café remete à pintura “Nighthawks”, de Edward Hopper. Como Hopper, Lynch retrata aquilo que era seu objetivo no início da carreira: falar da vida do interior norte-americano e o que se esconde sob ela.

Na versão para o cinema de Twin Peaks, Laura sonha e entra no quadro dado de presente pelos Tremond. Dentro do quadro, surgem, exatamente, a velhinha Tremond e o neto Tremond, fazendo um passe de mágica. Ela, então, encontra o anão do Red Room e o agente Cooper, que pede para que ela não segure o anel da coruja dado pelo anão (aquele que diz, ao contrário: “Let’s rock”). Ela sente o braço adormecer, como aconteceu com Teresa Banks e, quando acorda, vê Annie Blackburn ao seu lado (Annie é a namorada de Dale Cooper na série, a qual ele tenta resgatar do Black Lodge), assim como o anel. Depois, ela acorda dentro do sonho e vai até a porta; virando-se para trás, vê sua própria imagem à porta dentro do quadro; em seguida, realmente acorda. Perceba-se que na primeira imagem há o cenário do quarto dela por trás, mas, na última imagem desta sequência, aparece a cortina vermelha do Red Room, do seu sonho. Toda essa parte simboliza uma tentativa de Lynch estabelecer uma ligação de Laura com esses personagens estranhos e com o agente que investigará sua morte – mas sobretudo com a pintura e com os sonhos.

Podemos estabelecer entre relação entre a representação existente na pintura e a realidade da pintura “La condition humaine”, de Magritte, em que a janela é ao mesmo tempo uma pintura:

Vejamos um link para a exposição de quadros de David Lynch que aconteceu entre 6 de março e 14 de abril deste ano na Tilton Gallery.
Inevitável ver nessas imagens alguns dos elementos de filmes como O homem elefante, no uso de figuras disformes em preto e branco (nas pinturas 4, 5, 6 e 7), e Twin Peaks, no vermelho, no fogo e no peixe emoldurado (nas pinturas 2 e 9). Este peixe lembra aquele que está emoldurado atrás do casal com quem Chris Isaak e Kiefer Sutherland conversam em Twin Peaks – Fire walk with me. Há também uma colagem, a partir de uma ideia de pop art, e alguns simbolismos e palavras em algumas telas, aproximando-se de versos rápidos.

Veludo azul, filme seguinte a Duna, estabelece os elementos da filmografia sua de modo geral. Segundo Benjamin Albagli Neto (Cinemin, n. 66, nov. 1990): “É nele que Lynch desenvolve suas ideias de amor, enquadramento, montagem, efeitos sonoros, música, interpretação dos atores, criando um estilo e temáticas bem pessoais, em que, se a presença de elementos pictóricos é relevante, também não faltam referências a mestres do cinema: Buñuel (o imaginário surrealista das imagens dentro da orelha), Hitchcock (a utilização da música lancinante que acompanha o ritual sexual de Frank Booth – Dennis Hooper – e Dorothy Vallens – Isabella Rossellini), Kubrick (o bando de Frank, no carro a toda velocidade, é reminiscente da gangue de Laranja mecânica)”.
Nesse sentido, entre os filmes e diretores preferidos de Lynch, por sua vez, estão Crepúsculo dos deuses (Billy Wilder), Persona (Ingmar Bergman), Lolita (Stanley Kubrick), As férias do sr. Hulot (de Jacques Tati), Oito e meio, Na estrada da vida e Os boas-vidas (Federico Fellini). Talvez seja interessante pensar como o John Merrick de O homem elefante tem uma trajetória como a de Gelsomina, em Na estrada da vida. Já Oito e meio e Crepúsculo dos deuses têm relação com os filmes Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, pela metalinguagem, apesar de tons diferentes. Vemos o surrealismo de Persona em muitas imagens de Lynch. E o drama de Nabokov adaptado por Stanley Kubrick, que admirava Eraserhead, é, sem dúvida, uma referência para personagens de Twin Peaks.
Os personagens de David Lynch estão também colocados em desafio: precisam descobrir seu eu interior, subjetivo, psicológico e mental, assim como John Merrick, de O homem elefante; como Paul Atreides de Duna; Jeffrey Beaumont, de Veludo azul; Sailor e Lula, de Coração selvagem; Dale Cooper e Laura Palmer, de Twin Peaks; Alvin Straight, de História real; Betty e Rita, de Cidade dos sonhos; e a Nikki de Império dos sonhos. Os personagens não podem ficar como estavam: eles precisam viajar para dentro de si e descobrir no desconhecido uma fonte para sua própria compreensão.

Do mesmo modo, vivem uma dualidade, a começar pelos personagens de Twin Peaks e Veludo azul. Mas a personagem de Patricia Arquette em A estrada perdida certamente remete à dupla Betty e Rita, de Cidade dos sonhos, e aos elementos oníricos de Nikki de Império dos sonhos. Um personagem mudar de rosto também é especialidade de Lynch, como o Leland Palmer, de Twin Peaks, ou o Fred e Renee de A cidade perdida, a Nikki de Império dos sonhos; novamente a dupla de Cidade dos sonhos. E há mesmo imagens semelhantes como nos filmes Duna, Twin Peaks e A estrada perdida, em que os personagens centrais olham para algo que se revela acima delas (no caso de Paul Atreides, a lua que se corresponde com seu futuro; no caso de Laura, a ameaça; e no caso de Fred Madison, a eletricidade que irá definir uma mudança na narrativa):

Os projetos do diretor também surgem como que por imposição de suas escolhas pessoais, ao mesmo tempo que por parcerias. Se O homem elefante parece ter existido porque Mel Brooks havia visto Eraserhead e se Dino De Laurentiis, por sua vez, vira O homem elefante, a fim de chamá-lo para dirigir Duna. Veludo azul estava no contrato feito com De Laurentiis, de Lynch fazer um filme pessoal depois de Duna. Conseguiu realizá-lo podendo fazer o corte final na montagem, o que não foi possível em Duna, quando os produtores decidiram, em uma reunião perto do final das gravações, que o filme deveria ter até no máximo 2 horas (Lynch conseguiu alguns minutos a mais, o que não impediu a sua insatisfação e não escondeu o fato de que o filme precisaria ter pelo menos 3 horas de duração). Depois, fez para a TV Twin Peaks e American chronicles, surgidos da parceria de Lynch com Mark Frost – a primeira série teve uma primeira temporada de grande sucesso, enquanto Coração selvagem e A estrada perdida, de uma parceria com Barry Gifford. Não gostou, inicialmente, da ideia de realizar História real, mas o fez depois de se interessar profundamente pela história – de qualquer modo, com a possibilidade de colocar seu universo nela. Fez Cidade dos sonhos primeiro como piloto para uma nova série de TV, entretanto, quando viu o projeto cancelado, foi atrás dos direitos sobre o filme e convidado pelo Studio Canal, da França, a transformá-lo em filme. Anteriormente, já havia se decepcionado com o desfecho da série Twin Peaks, quando, obrigado pelos produtores, precisou revelar o assassino de Laura Palmer, o que tiraria audiência para os capítulos derradeiros – uma nova intromissão, como em Duna, sem impedimento de Lynch. O filme da série feito para o cinema não resultou num sucesso de bilheteria, mas estreou no Festival de Cannes, em 1992. Um dos integrantes do júri, Pedro Almodóvar, disse, em entrevista a Fabio Liporoni (Revista SET, ed. 62, ago. 1992), que teria dado a Palma de Ouro ou a Twin Peaks – Fire walk with me ou para L’oeil qui ment (de Raul Ruiz):  “O filme é fantástico. David Lynch é um diretor excepcional. E, ao contrário do que muitos disseram, totalmente independente da série de televisão”.

No início dos anos 1980, foi convidado por George Lucas para fazer O retorno de Jedi, porém não aceitou, pois não poderia acrescentar seu universo pessoal. Em todos os seus filmes, além disso, Lynch estabelece parcerias com determinados nomes que se repetem, de filme para filme, mesmo de atores que mais trabalham com ele do que com outros, como Grace Zabriskie (a mãe de Laura Palmer, também presente em Coração selvagem e Império dos sonhos), Laura Dern (presente em Veludo azul, Coração selvagem e Império dos sonhos), Harry Dean Stanton (Coração selvagem, Twin Peaks, História real, Império dos sonhos), Jack Nance (Eraserhead, Duna, Veludo azul, Coração selvagem, Twin Peaks, A estrada perdida), Sheryl Lee e Sherilyn Fenn (Coração selvagem e Twin Peaks) e Justin Theroux (Cidade dos sonhos e Império dos sonhos), além de Kyle MacLachlan, que aparece em Duna, Veludo azul e Twin Peaks, e depois desaparece da filmografia de Lynch (talvez por ter relutado em participar da versão para o cinema de Twin Peaks).

Se alguns críticos reconhecidos não apreciam a maior parte dos trabalhos de Lynch – como Roger Ebert, que criticou O homem elefante, Duna, Veludo azul e Coração selvagem, elogiando apenas História real e Cidade dos sonhos –, outros, desde seu início, como Pauline Kael, reconheciam seu talento. Sobre Eraserhead, escreve: “Parece ter reinventado o movimento do cinema experimental; vendo este filme de ousada irracionalidade, com seu interesse pela lógica dos sonhos, quase sentimos estar vendo um gótico vanguardista europeu da década de 20 ou do início de 30. Há imagens que lembram M de Fritz Lang, Sangue de um poeta de Cocteau e Um cão andaluz de Buñuel e, no entanto, vemos uma sensibilidade de todo nova em ação”. Sobre O homem elefante: “Cena por cena, não sabemos o que esperar; vemos uma coisa nova – material subconsciente mexendo-se dentro do formato de uma narrativa convencional”. E sobre Veludo azul: “A carregada atmosfera erótica faz da obra algo assim como um transe, mas também o humor de Lynch sempre irrompe. […] o uso de material irracional funciona como deve; em algum nível não de todo consciente, lemos suas imagens”. Seria redundante dizer o quanto Pauline Kael sintetizou em poucas palavras o universo de Lynch, sobretudo quando trata do material do subconsciente, a imprevisibilidade e uma sensibilidade nova em ação – mesmo às vezes dentro de uma narrativa mais convencional, como a de O homem elefante.
Lynch recebeu três indicações ao Oscar de melhor diretor, por O homem elefante, Veludo azul e Cidade dos sonhos, além de ter recebido a Palma de Ouro de melhor filme por Coração selvagem e de melhor diretor por Cidade dos sonhos. Por sua vez, O homem elefante concorreu ao Globo de Ouro de melhor filme dramático, de diretor, ator e roteiro; Cidade dos sonhos concorreu ao Globo de Ouro também de melhor filme dramático, diretor e de roteiro, e Veludo azul, de melhor diretor.

A partir de hoje, trataremos, em Cinematographe, de cada longa-metragem realizado por David Lynch.

* Não foi possível abarcar todas as facetas de Lynch, aqui, digamos algumas mais pop: como a de idealizador do Club Silencio, em Paris, o mesmo nome do clube de Cidade dos sonhos, ou a de músico em Crazy Clown Time – levando adiante as experiências sonoras da trilha para o cinema de Twin Peaks, da qual participou diretamente com Angelo Badalamenti –, ou a de diretor de filmagem de shows de Duran Duran. Mas é bom dizer que, em se tratando de parte do design do Club Silencio, não iríamos muito longe – e talvez Lynch discordasse – da sala do trono do Imperador Shaddam IV, de Duna:

Referências bibliográficas

BEYLIE, Claude. As obras-primas do cinema. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
FILHO, Rubens Ewald. Dicionário de cineastas. São Paulo: Companhia Nacional, 2002.
KAEL, Pauline. 1001 noites no cinema. Seleção de Sérgio Augusto. Tradução de Marcos Santarrita e Alda Porto. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
MÜLLER, Jürgen (Ed.). Lo mejor del cine de los 70. Barcelona: Taschen, 2003.
_______. Los mejor del cine de los 80. Barcelona: Taschen, 2005.
_______. Los mejor del cine de los 90. Barcelona: Taschen, 2005.

Site de David Lynch

www.davidlynch.com/

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