E.T. – O extraterrestre (1982)

Por André Dick

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Quando lançado, este filme recebeu muitas críticas positivas e uma extraordinária bilheteria, a maior da década de 1980. Seu diretor, Steven Spielberg, apresenta um extraterrestre pacífico, diferente de todos que haviam aparecido no cinema – no mesmo período, John Carpenter lançava seu assustador O enigma de outro mundo –, uma espécie de símbolo da infância. Foi indicado a vários Oscars (entre os quais de melhor filme, diretor), ganhando os de melhor trilha musical, som, efeitos sonoros e efeitos visuais, tendo recebido ainda o Globo de Ouro de melhor filme dramático. Toda esta receptividade tornou Spielberg um novo Walt Disney, um cineasta que não quis crescer, alusão a Peter Pan, obra de J.M. Barrie citada ao longo do filme (e adaptada para adultos em Hook – A volta do Capitão Gancho), como na cena de voo das bicicletas. Parece mesmo a síntese da trajetória de Spielberg, por todo seu referencial envolvendo figuras que remetem a uma fábula, mas a verdade é que ele nunca esteve tão à vontade com este universo quanto aqui. Recém-saído de um êxito do cinema de ação em Os caçadores da arca perdida, e ainda aproveitando o mistérios de seres do outro mundo trazido por Contatos imediatos do terceiro grau, Spielberg, numa época em que já pensava na adaptação de Tintim para o cinema, em conversas com Hergé (que viria a concretizar com Peter Jackson em 2011), antecipa, e sintetiza, aquele cinema em que o foco são as casas do subúrbio do interior dos Estados Unidos, tão bem trabalhadas depois em filmes produzidos por ele, como De volta para o futuro, Os Goonies e Gremlins, com suas crianças e jovens envolvidos com questões fantásticas, desde uma máquina de tempo, passando por um mapa de tesouro até monstros que vão ao cinema ver Branca de Neve e os 7 anões.

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Melissa Mathison, a roteirista, opta pelo caminho mais objetivo, escolhendo um menino simples chamado Elliott (o ótimo Henry Thomas, que nunca mais estrelou um êxito e se destacaria, adulto, apenas em Gangues de Nova York) para ser o personagem principal, a fim de que as crianças se identifiquem, pois os adultos, sobretudo aqueles ligados à Nasa (representados pelo personagem do frio Peter Coyote), são, em grande parte, ameaçadores, e o foco aqui seria transformar Elliott numa espécie de personagem de Richard Dreyfuss em Contatos imediatos, sem a paranoia equivalente. Ele é o ponto de referência para que um visitante de outro planeta consiga voltar para casa. Para isso, é necessária a ajuda do irmão, Michael (Robert McNaughton, muito expressivo) e Gertie (Drew Barrymore), a caçula. Sua mãe, Marie (Dee Wallace) não sabe disso, o que rende muitas cenas engraçadas. Ao mesmo tempo em que ela parece ser uma mãe preocupada, ela habita um universo paralelo: é antológica, por exemplo, a sequência em que ela vai ao armário ver de onde vem um barulho, e se depara com inúmeros bonecos organizados milimetricamente, com destaque para um deles.
Desde o seu início, com a partida da nave espacial, deixando o extraterrestre para trás, e a consequente perseguição a ele por parte de integrantes da Nasa, a proximidade com um universo fantástico é muito maior daquela que Spielberg nos apresentou em Contatos imediatos do terceiro grau, assim como a aproximação de Elliott do ser vindo do espaço – em uma cena fabulosa, tanto quanto assustadora, no milharal. Estamos inseridos nos anos 80, com as casas abertas, as bicicletas e um pôr do sol de verão, a cultura pop consequente dos anos 70 (e Spielberg faz uma homenagem a Star Wars, de George Lucas), mas também em algo estranho, desconhecido, como o que encontramos na floresta, uma espécie de versão mais tranquila de Poltergeist, lançado à época, mas não totalmente livre de um mistério.

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Marie, a mãe de Elliott, foi abandonada pelo marido, que se encontra com a amante no México, e as reuniões à noite trazem amigos de Michael – entre eles, C. Thomas Howell, que depois faria uma carreira razoável, inclusive O selvagem da motocicleta, de Coppola, no ano seguinte –, das quais o personagem principal tenta participar, sem muito êxito. A alternativa é olhar para as estrelas por trás da névoa da fumaça e da louça a ser lavada. Sob certo ponto de vista, Elliott precisa de uma amizade, e ela surge na figura do extraterrestre solitário. Uma ida à floresta para jogar balas pelo chão (como na fábula João e Maria) representa também o chamado à criatura de outro mundo – e ela nunca foi tão plausível quanto na criação de Carlo Rambaldi. Daí ET ser o retrato também de uma geração que precisava crescer, de algum modo, nem que fosse para conhecer o destino das espaçonaves. Os adolescentes são figuras que devem, por isso, amadurecer, embora Elliott, aqui, precise amadurecer mais ainda, pois o sentido de tudo é como enfrentar a perda (seja do ser estrangeiro, seja de algo familiar). Nesse sentido, tudo acaba criando um ambiente de nostalgia, quando, por exemplo, Spielberg, durante uma festa de Halloween, coloca o ET tentando correr atrás de alguém fantasiado de Yoda e, depois de chegar à floresta, ajuda a construir um artefato que pode emitir sinais para sua volta, utilizando-se de galhos de árvore e os objetos mais estranhos, sintetizando, numa determinada parte, a distância e a aproximação com o desconhecido, além da impressionante melancolia das imagens (quando Michael, de bicicleta, vai tentar encontrar o ser espacial).
No entanto, o melhor da história são os símbolos, como a planta do ET – ligada a ele e Elliott –, a floresta repleta de pinheiros e as rãs espalhadas pela sala de aula de Elliott, a metalinguagem divertida empregada por Spielberg, com o extraterrestre vendo um filme que se reproduz na realidade, com um beijo romântico. Spielberg está à vontade aqui em desenhar analogias, o que se desgastaria em sua trajetórias, em filmes interessantes, mas não tão efetivos, quanto Hook, em que a obra de Barrie não se torna mais uma referência entre outras, mas a própria tentativa de fazer uma versão adulta deste filme. E o vínculo que ele estabelece entre Elliott e o ET é eficiente, mesmo na parte final, em que parece haver uma manipulação emotiva, sobretudo pela atuação convincente de Henry Thomas.
Na versão comemorativa de 20 anos e E.T., em 2002, incluíram alguns cenas extras e talvez dispensáveis (como a do extraterrestre tomando banho, ou rádios no lugar de armas dos federais que perseguem a turma de Elliott, e a mãe de Elliott procurando todos no Halloween), mas a versão original de 1982 (relançada em Blu-Ray) é sem retoques. Assumido conto de fadas, uma espécie de síntese para o que os estúdios Disney sempre tentaram fazer no cinema com atores, é uma ficção para divertir, empolgar e rever sempre – ainda mais porque contém a melhor trilha de John Williams e um grande trabalho de fotografia de Allen Daviau, sobretudo nas cenas noturnas da floresta e nas perseguições de bicicleta (sobretudo a da ladeira) –, E.T. é uma espécie de símbolo das perdas e reencontros da infância, a cada ano mais contemporâneo.

E.T. – The extra-terrestrial, EUA, 1982 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dee Wallace, Henry Thomas, Peter Coyote, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Erika Eleniak, C. Thomas Howell, Pat Walsh e Debra Winger (vozes do E.T.). Produção: Steven Spielberg e Kathleen Kennedy Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Allen Daviau Trilha Sonora: John Williams Duração: 115 min. Estúdio: Universal Pictures

Cotação 5 estrelas

Donnie Darko (2001)

Por André Dick

Este filme de Richard Kelly virou cult. Parece um filme de jovens rodado por David Lynch – tendo como assistente de direção Tim Burton –, com uma fotografia muito parecida com a dos filmes dele. Mas tem personalidade própria e um humor negro eficiente e atrativo. Além disso, apresenta, no elenco, alguns nomes conhecidos no elenco (Mary McDonnell, de Dança com lobos, Drew Barrymore e Patrick Swayze) e revelações (o casal de irmãos Jake Gyllenhaal e Maggie Gyllenhaal, também irmãos no filme), ao som de uma trilha sonora de bandas dos anos 80 (como Eccho and the Bunnymen, Tears for Fears, Joy Division e Duran Duran), que cria um contraste, muitas vezes, em relação ao que vemos.
Donnie Darko (Jack, com uma atuação que conseguiria repetir poucas vezes nos filmes seguintes) é um jovem estranho, sonâmbulo (o filme já inicia com ele numa estrada deserta, com uma atmosfera de pesadelo, apenas interrompida pela trilha sonora) e tem visões de um coelho assustador, chamado Frank, cercado de acontecimentos estranhos: como uma turbina de avião cair em seu quarto quando ele sai de casa. Não se sabe por que ele imagina esse coelho, mas ele frequenta a psicóloga (a pedido sobretudo da mãe, que se preocupa com seu comportamento) e é bastante temido no colégio por professores, pois questiona várias ordens e mensagens. A escola é um ambiente opressivo – e as cores alternando entre o azul e o verde conferem ainda mais gravidade ao contexto, diferenciando-se dos filmes dos anos 80 (mesmo que tenha uma trilha sonora bastante semelhante). Ele vive deprimido – mas é nesta depressão que ele parece alcançar vigor para o que pretende questionar, sem, entretanto, o filme fazer qualquer apologia a qualquer ideal ou algo parecido. Os seus professores utilizam também as mensagens de um autor de livros de autoajuda da cidade (Patrick Swayze), com o qual se confronta o personagem. No colégio, ele se apaixona por uma menina e faz amizade com um professor, que fala em viagens no tempo (o filme deve certamente ter inspirado Damon Lindelof e J.J.Abrams para a criação de Lost), entregando a ele um livro de sua vizinha, uma velha que passa o filme indo ver se há alguma carta em sua caixa de correio (e parece alguma figura saída de um filme de Tim Burton), atravessando uma estrada quase deserta da região.
Temos, pelo filme, vários símbolos espalhados (o coelho é um deles; o quadro negro da escola é outro, além de um sofá em meio a um capinzal onde Darko e seus amigos se encontram, mostrando a tentativa de inserção da casa em um cenário externo) e uma atmosfera lúgubre (como no momento em que o personagem vai ao cinema com a namorada e vê o coelho sentado a seu lado – no que remete a Império dos sonhos, uma retribuição de Lynch). Este coelho, mesmo com o final, continua um mistério. Talvez seja um símbolo que remete também a Alice no país das maravihas – era perseguindo um coelho que ela chegava ao universo paralelo.
Em A caixa, um dos filmes seguintes de  de Kelly, o diretor também ia para uma espécie de universo paralelo, em outra trama misteriosa, mostrando um casal que recebe certo dia a visita de um homem misterioso (Frank Langella), que lhes entrega uma caixa e diz que, se eles a apertarem, ganharão 1 milhão de dólares e uma pessoa morrerá. Isso é motivo para Jenkins se arriscar em algumas cenas surreais, como a da festa, em que o homem vê sempre um sujeito, que é garçom, sorrindo para ele. Trata-se de uma história fantástica, que envolve a Nasa, viagens ao espaço e lembranças infantojuvenis – sendo a disposição de tudo bastante assustadora. A professora feita por Cameron Diaz dialoga com a professora Karen (Drew Barrymore), de Donnie Darko. É bastante discreta, mas o filme não: ele investe no fantástico e pretensioso, com bela fotografia e cenas de suspense aterradores (como as do hotel e da biblioteca), que aprofundam o que é entrevisto neste, sobretudo com suas casas pretensamente tranquilas, com árvores nas calçadas.
Ademais, Donnie Darko quer subverter as casas simétricas dessa cidade, ver a escuridão onde há jardins verdejantes, campos de golfe e porões escondidos, e o personagem central é essencial para que isso aconteça; é, como se diria, a ponte entre a realidade e o onírico. O personagem parece nunca estar totalmente desperto (no momento em que visualiza, por exemplo, o movimento das pessoas ao redor, fazendo uma trajetória previsível) e as discussões dele sobre viagens temporais suspendem qualquer realidade – embora Donnie não vivencie uma experiência divertida e excêntrica como a do Marty McFly oitentista de De volta para o futuro –, e o diretor vai soltando algumas falas como se dispersas, porém que num todo fazem sentido, pela maneira como o espectador as monta, pois o intuito é distribuir as sequências de modo que elas façam mais sentido ao final. Diante da composição familiar – representada também pela irmãzinha de Donnie, que se apresenta no colégio, numa peça tipicamente infantil – infundada para Donnie, até determinado momento, vemos que seu objetivo não é afundar a adolescência ou a vida adulta, mas salvar a infância. Para Donnie, ela não sobreviverá a seus próprios pesadelos e ao coelho que o visita (não deixando de estabelecer uma ligação com A caixa, sobretudo com a situação do filho do casal no clímax). Depois de uma festa das bruxas com toques de anos 80, mas ao som de Joy Division (com sua sonoridade melancólica), e com o figurino que lembra o Daniel Larusso da festa inicial de Karatê Kid, embora com um viés mais dark, Donnie, ao avistar do alto da montanha (onde se inicia o filme) o futuro, parece que deseja regressar e não vivenciar todas as experiências desagradáveis será o melhor caminho, entretanto, acima de tudo, o faz por amor – não aquele, porém, solicitado pelo escritor de autoajuda que pode esconder, num realidade verdadeira ou paralela, a antítese de tudo o que diz.
O clima do filme, assim como o cuidado com as imagens, acaba deixando o espectador bastante atento ao que se desenrola. Transformou-se num merecido cult, sobretudo entre jovens, e merece ser assistido pela contundente crítica a certo comportamento social, mesmo que não apenas por isso, pois também inova na temática de idas e vindas no tempo, com uma narrativa definitivamente original.

Donnie Darko, EUA, 2001 Diretor: Richard Kelly Elenco: Jake Gyllenhaal, Holmes Osborne, Maggie Gyllenhaal, Daveigh Chase, Mary McDonnell, Patrick Swayze, Noah Wyle, Drew Barrymore Produção: Adam Fields, Sean McKittrick Roteiro: Richard Kelly Fotografia: Steven B. Poster Trilha Sonora: Michael Andrews Duração: 112 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Flower Films

Cotação 4 estrelas e meia

 

E.T. – O extraterrestre (1982)

Por André Dick

Quando lançado, este filme recebeu muitas críticas positivas e uma extraordinária bilheteria, a maior da década de 1980. Seu diretor, Steven Spielberg, apresenta um extraterrestre diferente de todos que haviam aparecido no cinema, um arquétipo para o imaginário da infância. Foi indicado a vários Oscars (entre os quais de melhor filme, diretor), ganhando os de melhor trilha musical, som, efeitos sonoros e efeitos visuais, tendo recebido o Globo de Ouro de melhor filme dramático. Toda esta receptividade tornou Spielberg um novo Walt Disney, um cineasta que não quis crescer, alusão a Peter Pan, obra de John Barrie citada ao longo do filme (e adaptada para adultos em Hook – A volta do Capitão Gancho), como na cena de voo das bicicletas.
Melissa Mathison, a roteirista, opta pelo caminho mais fácil, escolhendo um menino simples chamado Elliott (o ótimo Henry Thomas, que nunca mais estreou um êxito) para ser o personagem principal, a fim de que as crianças se identifiquem, pois os adultos, sobretudo aqueles ligados à Nasa, são, em grande parte, ameaçadores. Ele é o ponto de referência para que um visitante de outro planeta consiga voltar para casa. Para isso, é necessária a ajuda do irmão (Robert McNaughton, muito expressivo) e Gertie (Drew Barrymore, que se tornaria uma estrela adulta), a caçula. Sua mãe (Dee Wallace) não sabe disso, o que rende muitas cenas engraçadas. No entanto, o melhor da história são os símbolos, como a planta do ET – ligada a ele e Elliott –, a floresta repleta de pinheiros e as rãs espalhadas pela sala de aula de Elliott.
Desde o seu início, com a partida da nave espacial, deixando o extraterrestre para trás, e a consequente perseguição a ele por parte de integrantes da Nasa, a proximidade com um universo fantástico é muito maior daquela que Spielberg nos apresentou em Contatos imediatos de 3º grau, assim como a aproximação de Elliott do ser vindo do espaço – em uma cena fabulosa no milharal. Estamos inseridos nos anos 80, com as casas abertas, as bicicletas e um pôr do sol de verão, mas também em algo estranho, desconhecido, como o que encontramos na floresta. Daí ET ser o retrato também de uma geração que precisava crescer, de algum modo, nem que fosse para conhecer o destino das espaçonaves. Os adolescentes são figuras que devem, por isso, amadurecer, embora Elliott, aqui, precise amadurecer mais ainda, pois o sentido de tudo é como enfrentar a perda (seja do ser estrangeiro, seja de algo familiar).
Na versão comemorativa de 20 anos, em 2002, incluíram alguns cenas extras e talvez dispensáveis (como a do ET tomando banho numa banheira, ou rádios no lugar de armas dos federais que perseguem a turma de Elliott, a mãe de Elliott procurando todos no Halloween), mas a versão original de 1982 é sem retoques. Assumido conto de fadas, é uma ficção para divertir, empolgar e rever sempre – ainda mais porque contém a melhor trilha de John Williams e um grande trabalho de fotografia.

E.T. – The extra-terrestrial, EUA, 1982 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Dee Wallace, Henry Thomas, Peter Coyote, Robert MacNaughton, Drew Barrymore, Erika Eleniak, C. Thomas Howell, Pat Walsh e Debra Winger (vozes do E.T.). Produção: Steven Spielberg e Kathleen Kennedy Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Allen Daviau Trilha Sonora: John Williams Duração: 115 min. Estúdio: Universal Pictures 

Cotação 5 estrelas