O rei leão (2019)

Por André Dick

A sucessão de live actions lançada pelos estúdios Disney vem proporcionando uma onda de nostalgia para quem gosta de animações clássicas, do mesmo modo que bilheterias bilionárias. Neste ano, tivemos Dumbo, que desapontou financeiramente, e Aladdin, que está quase repetindo o feito financeiro de Mogli – O menino lobo, embora fique um pouco atrás de A bela e a fera. Apenas live actions menos comerciais (Christopher Robin, Meu amigo, o dragão) realmente não têm encontrado seu público. Dirigido pelo mesmo Jon Favreau da versão mais recente de Mogli, O rei leão é uma nova adaptação da história já levada às telas em 1994, que foi um grande sucesso, assim como venceu os Oscars de melhor trilha sonora (Hans Zimmer) e canção (“Can You Feel the Love Tonight”, de Tim Rice e Elton John).

A história mostra o nascimento de Simba (quando filhote JD McCrary e na vida adulta Donald Glover), filhote do leão Mufasa (James Earl Jones, também do original), que lidera uma determinada região da África do Sul, e da rainha Sarabi (Alfre Woodard). Ele é apresentado aos animais por um madril, Rafiki (John Kani), ao som de “The circle of life”, de Elton John, construindo um diálogo direto com o obra dos anos 90 e de maneira impactante. O trono de Mufasa, no entanto, é cobiçado por Scar (Chiwetel Ejiofor), um leão mais velho e amargurado, que procura um grupo de hienas, tendo à frente Shenzi (Florence Kasumba), para colocar um plano em ação. A melhor amiga de Simba é Nala (primeiro Shahadi Wright Joseph e depois Beyoncé Knowles-Carter) e o pássaro Zazu (John Oliver), ajudante de Mufasa, ajuda a vigiá-lo. Quando fica curioso com uma determinada indicação do seu tio, Simba irá se envolver numa complicação determinada, que o leva a conhecer o suricato Timon (Billy Eichner) e o javali Pumba (Seth Rogen). O roteiro de Jeff Nathanson, responsável pela escrita de alguns trabalhos de Spielberg (Prenda-me se for capaz, O terminal, Indiana Jones e o reino da caveira de cristal), é absolutamente fiel ao filme dos anos 90, com uma diferença na abordagem.

A dificuldade de fazer uma nova versão desse clássico era clara para Favreau. Responsável também pelos dois primeiros Homem de Ferro e por Cowboys e aliens, uma curiosa mescla entre ficção científica e faroeste, Favreau não tem a originalidade como uma de suas características. No entanto, no plano visual, ele consegue produzir peças diferenciadas, mesmo sem possuir as cores notáveis da obra que o inspirou. Este O rei leão talvez seja o maior filme live action já realizado, com uma aproximação da realidade tão grande que fica difícil separar o que é a própria natureza e o que é computação gráfica, acompanhado de uma direção de fotografia de Caleb Deschanel espetacular. É um trabalho irrepreensível, melhor, inclusive, do que Mogli e um antecipado vencedor do Oscar de efeitos visuais se não houver outro trabalho assim de destaque no ano. Os detalhes visuais de cada animal é impressionante, incluindo girafas, insetos, pássaros e antílopes: destaque-se a sequência em que Pumba e Timon encontram pela primeira vez Simba, num deserto inalcançável, lembrando a imensidão de Lawrence da Arábia, e cada detalhe facial é bem exprimido.
Favreau não segue exatamente os passos do diretor da animação, Rob Minkoff e Roger Allers, preferindo adotar um tom mais soturno para tratar dos passos da dinastia proclamada por Mufasa. A relação de amizade com seu pequeno filhote é muito interessante, com ensinamentos, mas aqui Favreau se atém a um tom menos infantil, mesmo com a clássica “Hakuna Matata”. O vasto cenário amplia, muitas vezes, a solidão do personagem central a partir de determinado momento, incorrendo em instantes sensíveis.

Ou seja, em certos momentos, este O rei leão é realmente mais para adultos e confere certamente seu diálogo com a peça Hamlet, de Shakespeare, mais do que o original. Há muitas sequências passadas à noite ou em cavernas escuras, além de uma homenagem evidente a trabalhos como Os dez mandamentos, dos anos 50, em determinadas passagens nas quais anteriormente já buscava seguir esse caminho – e os personagens só têm algum alívio quando estão seguindo o roteiro de canções já esperado. As hienas, as vilãs, soam muito mais ameaçadoras e filmadas com rara sagacidade. E, mesmo que suas expressões não sejam de uma animação, a movimentação deles é irretocável, um verdadeiro primor na transposição da realidade para a fantasia, acentuada pela trilha sonora emocionante de Hans Zimmer.
Como não especial admirador da animação, tendo a considerar este O rei leão uma peça mais bem acabada e, apesar de menos colorida, mais eficiente em sua mescla de drama e humor. Ainda existe, na metade, uma lacuna de roteiro que pode soar estranha já no original, além do final excessivamente apressado, elementos não resolvidos por Favreau, porém este consegue imagens mesmo mais poéticas do que o de 1994, lembrando um pouco o filme O elo perdido, dos anos 80, com uma recriação da savana africana tão milimétrica quanto expansiva. Há blockbusters de grande qualidade e este O rei leão é um deles. Que ele vai encontrar seu público é certo – e desta vez com grande justiça.

The lion king, EUA, 2019 Diretor: Jon Favreau Elenco: Donald Glover, Seth Rogen, Chiwetel Ejiofor, Alfre Woodard, Billy Eichner, John Kani, John Oliver, Beyoncé Knowles-Carter, James Earl Jones, Florence Kasumba Roteiro: Jeff Nathanson Fotografia: Caleb Deschanel Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Jon Favreau, Jeffrey Silver, Karen Gilchrist Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Fairview Entertainment Distribuidora: Walt Disney Studios

Han Solo – Uma história Star Wars (2018)

Por André Dick

O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de SplashCocoonWillow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da VinciO Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repetiu em No coração do mar, sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.

Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti,  Howard foi chamado a ocupar o posto de diretor de Han Solo – Uma história Star Wars quando a dupla Cristopher Miller e Phil Lord, dos dois Anjos da lei e de Uma aventura LEGO, foi demitida pela produtora Kathleen Kennedy por divergências de concepção – e quando, ao que se sabe, já havia sido rodada boa parte do filme.
A narrativa começa com Han Solo (Alden Ehrenreich) e sua amante Qi’ra (Emilia Clarke) em Corellia, um centro de construção naval da galáxia, tentando escapar de uma gangue local. No despiste de tropas imperiais, acaba acontecendo uma separação, o que vai levar Han, três anos depois, a uma batalha num planeta chamado Mimban. Ele conhece um grupo de criminosos que têm à frente Tobias Beckett (Woody Harrelson), que age com a esposa Val (Thandie Newton) e o alienígena Rio Daurant (voz de Jon Favreau). No meio do caminho, isso vai levar o personagem central a uma cela onde conhecerá seu amigo Chewbacca (Joonas Suotamo). Han tem a sorte de falar a língua do companheiro, Shyriiwook. A partir daí, a história envereda por um roubo de carga liderado pelo mesmo Beckett, a serviço de Dryden Vos (Paul Bettany, usando uma camisa social), líder do clã criminoso Crimson Dawn. Claro que, depois de algumas peripécias, Solo se encontrará com Lando Calrissian (Donald Glover), afinal esta é uma prequela das aventuras localizadas na trilogia de George Lucas.

Howard é um diretor talentoso e sabe lidar, a maior parte do tempo, com os atrasos impostos pela primeira filmagem de Miller e Lord. Ele tem um talento para a técnica de efeitos especiais, o que já mostrou em outras obras. No entanto, é certo que o roteiro de Jonathan e Lawrence Kasdan não é o mais interessante. Lawrence é autor de Os caçadores da arca perdida e O império contra-ataca, clássicos dos anos 80, e, a partir da década passada, quando dirigiu O apanhador de sonhos, não teve mais acertos. Sua parceria com J.J. Abrams em O despertar da força rendeu novos personagens até certo ponto sólidos, porém nunca instigantes como os da trilogia original.
A tarefa de dar vida à juventude de Solo esbarraria em duas coisas: o ator obviamente não seria Harrison Ford e este personagem tinha mais justificativa com Luke Skywalker e Princesa Leia a seu lado. Seu início de amizade com Chewbacca é uma coleção de momentos previsíveis, sem nenhum traço do humor que constituiria a dupla na trilogia de Lucas – e talvez este pudesse ter sido melhor explorado por Lord e Miller, que teriam entendido o filme como uma comédia, ao contrário da Disney.

Por mais que consigamos vê-lo de maneira autônoma, Han Solo não é um personagem suficientemente complexo para receber uma história à parte, ao menos não com um roteiro disperso. Talvez se imaginasse que ele, se Ford fosse mais jovem, rendesse um novo Indiana Jones. Sua participação não foge ao esquema de um personagem apaixonado que conhece novos amigos e precisa antecipar várias referências do que aparece na trilogia de Lucas principalmente.  Ehrenreich tem boa vontade e certo talento, demonstrado antes em Ave, César! e Regras nãos e aplicam, mas não supre a ausência de mais carisma, independente do fato de acertadamente não tentar uma imitação de Ford.
Também se percebe que a atenção visual dada ao restante da série não comparece aqui, pelo menos não depois da satisfatória primeira meia hora. O filme de Howard, além de se basear numa fotografia inadequada de Bradford Young – responsável pelo trabalho primoroso de O ano mais violento –, centrada demais na cor marrom (a mesma do uniforme de Han e do pêlo de Chewbacca), variando com o cinza e um azul esmaecido, não tem assessoria de um figurino e direção de arte ricos (uma sala em que ocorrem alguns dos momentos-chave é particularmente desinteressante). No segundo ato, é visível a falta de criatividade para a criação de lugares múltiplos para esse mundo estendido, numa configuração eterna de paisagens desérticas e rochosas sem o mínimo de atrativo. A falta de criatividade parece repercutir nas atuações pouco inspiradas do habitualmente ótimo Harrelson e de Glover, levando-se ainda em conta que Emilia Clarke não tem carisma o suficiente para sustentar sua personagem, embora pareça a mais centrada no que está acontecendo a seu redor. Do mesmo modo, os personagens – mesmo Chewbacca – se sentem apenas componentes de um universo forçadamente estendido. Esse não era um traço de Rogue One, um semiépico espacial despretensioso e muito eficaz em sua construção de novos personagens capazes de anteceder a obra de 1977 sob um viés até mesmo trágico.

A trilha sonora de John Powell tem o incômodo de ser uma mescla de acordes novos com outros extraídos do trabalho icônico de John Williams: nos momentos de ação, surge a trilha de Williams em meio aos estilhaços de tentativa de fazer uma nova. É uma tentativa de se aproveitar da nostalgia do espectador em todos os momentos, principalmente numa sequência praticamente semelhante a uma que acontece em O império contra-ataca. Isso faz crer que não apenas a nova trilogia Star Wars se baseia demais na antiga, como Han Solo se nutre das aventuras do personagem já vistas anteriormente em outra companhia. Esse caminho causa um incômodo eficaz para que o espectador nunca se desvencilhe do fato de que essa é apenas uma introdução a algo mais importante – e talvez quem se contente com o que se convencionou chamar de fan service saia mais satisfeito da sessão. Nem mesmo algumas referências ao gênero do faroeste, na parte final, sustentam o fato de que todas as sequências de ação soam por demais genéricas, embora muito bem feitas e com uma parte técnica praticamente irreparável. Sob esse ponto de vista, é lamentável que Howard nunca consiga inserir seu ritmo de ação em meio ao drama, já comprovado em Willow, Rush e No coração do mar, por exemplo. Ele sempre parece aqui apenas um nome para conduzir uma obra iniciada por outros diretores e que tentou consertar ao máximo o estrago, como profissional competente. Do mesmo modo, o elenco visivelmente sentiu o peso das refilmagens. Se a Millennium Falcon sempre atinge um poder de recuperação, Howard, infelizmente, não conseguiu o mesmo.

Solo – A Star Wars history, EUA, 2018 Diretor: Ron Howard Elenco: Alden Ehrenreich, Joonas Suotamo, Woody Harrelson, Emilia Clarke, Donald Glover, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge, Paul Bettany, Jon Favreau, Linda Hunt, Ian Kenny, John Tui, Warwick Davis Roteiro: Jonathan Kasdan, Lawrence Kasdan Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: John Powell e John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Allison Shearmur, Simon Emanuel Duração: 135 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

Homem-Aranha – De volta ao lar (2017)

Por André Dick

Depois de o Homem-Aranha ser vivido por Tobey Maguire entre 2002 e 2007, na trilogia de Sam Raimi, ainda referencial, e por Andrew Garfield em dois filmes, um de 2012 e outro de 2014, a partir de Capitão América – Guerra Civil temos seu novo intérprete, Tom Holland. Revelado em O impossível, no qual fazia o filho de Naomi Watts num desastre da natureza, e integrante do elenco do ótimo Z – A cidade perdida, Holland reprisa o papel no seu primeiro filme solo, Homem Aranha – De volta ao lar.
A história tem início logo após a Batalha dos Vingadores contra Loki em Nova York, quando a empresa de Adrian Toomes (Michael Keaton), que ajuda a limpar a cidade, é barrada pelo Department of Damage Control (DODC), que constitui uma parceria entre o governo norte-americano e Tony Stark (Robert Downey Jr.). Toomes decide roubar algumas peças de tecnologia das naves alienígenas para fazer seus próprios artefatos. Esse início é um boa retomada da cena de combate da obra de Joss Whedon, quase esquecida em filmes posteriores da Marvel, com exceção de Homem de Ferro 3.

Oito anos depois, Parker é chamado por Stark para participar da luta contra o Capitão América –  e vemos algumas cenas de Guerra Civil filmadas com um celular, parecendo um making of. Pode-se dizer que, a partir daí, o diretor Jon Watts já esclarece seu caminho: este Homem-Aranha é muito mais bem-humorado do que os anteriores. O de Maguire era um tanto melancólico, e funcionava bem, com momentos pontuais de diversão, enquanto o de Garfield se fazia mais próximo deste, com uma certa adolescência em jogo e interesse por esporte (ele andava de skate, por exemplo). Peter Parker estuda na Midtown School of Science and Technology, à espera de um novo chamado para outra missão.
Ele é muito amigo de Ned (Jacob Batalon) e apaixonado por Liz (Laura Harrier), com quem participa do Decathlon acadêmico do Sr. Harrington (Martin Starr, conhecido por suas participações em Freaks and geeks e Adventureland), apesar de incomodado por um colega, Flash (Tony Revolori, de O grande hotel Budapeste). Sua tia, May (Marisa Tomei), nem desconfia que ele usa um uniforme secreto para combater o crime. Nas suas peregrinações atrás de criminosos, o Homem-Aranha se depara com alguns homens de Toomes, usando máscaras dos Vingadores, numa sátira a Caçadores de emoções, de Kathryn Bigelow. Como se trata do sexto filme do super-herói em 15 anos, Watts resolveu não contar novamente sua origem, ou seja, não temos a figura do tio do personagem, mesmo porque esta versão já aparecia na peça dos irmãos Russo.

O diretor encadeia as ligações de maneira muito ágil e descompromissada, tornando o humor orgânico, sem exageros, assemelhando-se, em proposta, a Homem-Formiga, um dos mais bem resolvidos do universo, por misturar naturalmente ação, drama e humor. Há uma influência visível no timing cômico e de ação dos filmes de Edgar Wright, e a impaciência adolescente de Parker é bem dosada por Holland. Sua participação em Guerra Civil se estendia como uma espécie de trailer antecipado para este filme, e havia um certo nervosismo do ator: aqui o nervosismo se converte, em determinado momento, em apelo dramático, e o ator funciona bem, principalmente no embate com um ótimo – embora subaproveitado – Michael Keaton, brincando com Birdman. Perto do semidesastre que foi o segundo filme com Garfield, com seu excesso de vilões e camadas irresolvidas, este se sente uma realização ainda que sem novidades na estrutura bastante eficiente. Ele se encaixa com o restante do universo sem parecer forçado e a participação de Stark não se sente intrusiva, como poderia antecipar o trailer (Downey Jr., aliás, está bem, assim como Jon Favreau, na pele de seu assessor Happy Hogan).

Os quarenta primeiros minutos têm um diálogo com filmes de adolescente recentes, a exemplo de Cidades de papel, com uma participação exitosa de Batalon, como o amigo de Parker, As vantagens de ser invisível e uma brincadeira com O clube dos cinco, de John Hughes – com o Capitão América servindo como uma espécie de guia dos bons valores escolares. Há uma boa solução de romantismo em relação a Liz, embora a atriz, Harrier, não tenha a mesma participação permitida a Kirsten Dunst e Emma Stone, das versões anteriores. Quando o Homem-Aranha procura criminosos, há um misto entre humor e ação bem dosados que faz lembrar o primeiro filme da franquia de Raimi, principalmente na conversa entre habitantes de um bairro (entre eles, Stan Lee). Watts também sabe criar uma boa ambientação, principalmente nas cenas noturnas, com um belo visual destacado pela fotografia de Salvatore Totino. Talvez Homem-Aranha – De volta ao lar comece a parecer repetitivo justamente quando ingresse nas cenas de ação inevitáveis (por vezes exageradas), o que é um problema. Não chega a haver tanta mudança de tom neste Homem-Aranha, mesmo com seis roteiristas, mas principalmente a sequência de embate conclusiva se sente um tanto apressada e sem vibração. Como praticamente o filme se sustenta num diálogo, bem feito, com o humor, a exemplo de Homem-Formiga, ele nunca se sente pesado o suficiente para entendermos que o super-herói está passando por ameaças vigorosas. Isso não prejudica o resultado, certamente um dos mais exitosos do gênero nos últimos anos.

Spider-man – Homecoming, EUA, 2017 Diretor: Jon Watts Elenco: Tom Holland, Michael Keaton, Robert Downey Jr., Marisa Tomei, Jon Favreau, Gwyneth Paltrow, Zendaya, Donald Glover, Jacob Batalon, Laura Harrier, Tony Revolori, Bokeem Woodbine, Tyne Daly, Abraham Attah, Hannibal Buress, Kenneth Choi, Martin Starr, Selenis Leyva Roteiro: Jonathan Goldstein, John Francis Daley, Jon Watts, Christopher Ford, Chris McKenna, Erik Sommers Fotografia: Salvatore Totino Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Amy Pascal, Kevin Feige Duração: 133 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures

Perdido em Marte (2015)

Por André Dick

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A qualidade do trabalho de Ridley Scott parece ainda apenas associada aos seus primeiros filmes, como Alien e Blade Runner, como se depois disso não tivesse realizado outros grandes filmes. Apenas nos anos 2000, ele fez Gladiador, Falcão negro em perigo, Os vigaristas, Cruzada, Um bom ano e O gângster, obras que revelam uma variação muito grande de dicção, e há três anos apresentou Prometheus, colocado de forma surpreendente como uma de suas decepções. Quando um cineasta como Scott, certamente um dos maiores artesãos já surgidos em Hollywood e que continua, quase octogenário, produzindo filmes, faz uma superprodução como Êxodo: deuses e reis, parece apenas para passar o tempo e um mero blockbuster, mas junto consigo sempre traz uma concepção visual extraordinária. A partir daí, adaptar o livro de ficção científica The martian, para o cinema se transformou no seu grande projeto antes da continuação de Prometheus.
Escrito por Andy Weir, Perdido em Marte teve a adaptação de Drew Goddard, que fez em parceria com Joss Whedon o roteiro da sátira aos filmes de terror O segredo da cabana e do pouco recomendado Guerra Mundial Z. A narrativa começa com uma expedição precisando sair de Marte às pressas. Liderada por Melissa Lewis (Jessica Chastain), tem em seu grupo Rick Martinez (Michael Peña), Beth Johanssen (Kate Mara), Chris Beck (Sebastian Stan) e Axel Vogel (Aksel Hennie), além de Mark Watney (Matt Damon), que acaba sofrendo um contratempo e fica isolado no planeta vermelho.

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Que Marte é um planeta dos mais propícios a mistérios e pesquisas, isso está provado em vários filmes, e mesmo já foi colonizado em O vingador do futuro, antes de se descobrir recentemente a presença de água em sua superfície. Scott tem uma ideia muito clara da imensidão do universo, como já provou em Alien e Prometheus. Ele joga esses mistérios na narração de Watney, quase sempre falando para a câmera em que deseja deixar gravada a sua experiência. Como sobreviver em Marte? De que modo fazer a comida durar o tempo suficiente para que possa ser resgatado pela Nasa? Entre os integrantes da Nasa, temos o diretor Teddy Sanders (Jeff Daniels), Annie Montrose (Kristen Wiig), Mitch Henderson (Sean Bean) e o responsável pela expedição, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor), além de seu auxiliar Bruce Ng (Benedict Wong), enquanto Mindy Park (Mackenzie Davis) é quem acompanha os movimentos de Watney.
Perdido em Marte possui um cuidado muito grande em retratar o planeta vermelho, principalmente em sua superfície arenosa e entrega a Watney alguns momentos de quem precisa descobrir o fogo (neste caso, o oxigênio) para poder sobreviver mais do que os mantimentos indicam. Ele também precisa fazer o reconhecimento da área e lembrar de possíveis referências no planeta que possam fazer com que estabeleça um contato com a Terra. A diferença do personagem de Watney para outros recentes, especificamente da doutora interpretada por Sandra Bullock em Gravidade e do fazendeiro astronauta feito por Matthew McConaughey em Interestelar, é especificamente o seu descompromisso com alguma angústia que possa evocar o espaço sideral e o isolamento em Marte.

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É visível que Scott quis fazer um filme diferente dessas duas referências recentes e, mesmo que Perdido em Marte tenha um lado espetacular visual próximo desses dois (principalmente nos momentos em que se concentra no espaço), não chega próximo da densidade dos projetos de Cuarón e Nolan. Isso, por um lado, torna o filme mais bem-humorado, inclusive por sua trilha sonora, e mais centrado em discussões da Nasa, principalmente de Sanders, Montrose e Kapoor. Ejiofor, principalmente, está ótimo como o coordenador do projeto de viagens a Marte e consegue dar o toque mais humano do filme de Scott, mesmo que Watney seja o homem em missão e a ser resgatado. Embora seus diálogos com Sanders e Montrose não rendam como seria de se esperar, deixando Wiig lamentavelmente subaproveitada, Kapoor é o elo de ligação entre Watney e a Nasa. Quando em determinado momento surge o personagem de Rich Purnell, interpretado por Donald Glover, há também mais agilidade em cena.
Em alguns momentos, Perdido em Marte também se ressente claramente de um núcleo mais emocional, que Scott trabalhou tão bem em filmes como Gladiador, Um bom ano e Thelma & Louise. O personagem de Watney se apresenta sempre por meio da descrição do que está ocorrendo com ele, no entanto não se tem uma noção mais exata de seu passado e de sua relação com o restante da equipe. Como o filme inicia rapidamente, com uma tempestade que remete claramente a Prometheus, e Scott se aprimora ao lançar os personagens num cenário ameaçador, não há tempo o suficiente para que conheçamos os personagens. E, depois disso, o roteiro de Goddard e a montagem de Pietro Scalia – habitual colaborador de Scott e responsável pelo filme mais bem montado que já vi, particularmente, JFK – deixam a equipe desparecer do filme por um tempo longo demais, a fim de que haja uma conexão emocional mais sustentada com Watney, o companheiro deixado em Marte por se achar que estava morto, além de não estabelecer rapidamente uma conexão com a Nasa.

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É como se a equipe do projeto fosse alijada do roteiro – não apenas ela, como também coadjuvantes como Chastain, Peña e Mara, que poderiam contribuir muito –, e isso sinaliza, em parte, para certo afastamento das emoções guardadas por Watney: como não se tem ligação dele com pessoas que o cercavam e mesmo com pessoas da Terra, é como se ele não estivesse mais do que já costumeiramente está: só (o que tornava Náufrago, com Tom Hanks, tão surpreendente, na sua indefinição de que se iria ou não reencontrar o seu amor). Nesse sentido, parece se perder em parte a essência de um filme como este: de que ele está num ambiente desconhecido e solitário. Ao reagir com bom humor à situação, dá espaço a alguns momentos realmente engraçados, no entanto extrai do personagem a sua preocupação principal, que, de fato, é sobreviver. Matt Damon é um ótimo ator, e ainda assim não temos uma interpretação propriamente dita em sua essência: o roteiro simplesmente não o ajuda, e sua curiosidade pelas coisas se revela apenas autoafirmação. Neste sentido, Perdido em Marte elabora sua trama mais em cima do que Watney pode fazer a partir de seus conhecimentos científicos para lidar com as adversidades – e o que ele faz não é pouco, e pode também dialogar com outras peças conhecidas de homem sobrevivendo em ambiente inóspito. Quando, por um vislumbre de Scott e de atuação de Damon, a emoção surge, no seu ideal de sobrevivência, é muito claro que Perdido em Marte sobe de patamar (como, por exemplo, (spoiler), a troca de mensagens pública entre Watney e a Nasa).
Há alguns filmes de Scott em que a conexão dos personagens não é bem solucionada – o próprio Êxodo –, e com Perdido em Marte não é diferente, principalmente pela quantidade que apresenta deles (em torno de vinte), porém a grandiosidade costuma ser uma de suas saídas. Em Cruzada, havia algumas irregularidades no tratamento histórico, por exemplo, mas os cenários fantásticos e a atmosfera faziam a estrutura do filme se movimentar por todos os lados, especialmente em sua versão estendida. O mesmo vale para Prometheus, com uma meia hora final não menos do que fantástica para os admiradores de boa ficção científica, e no caso de outros filmes de Scott menos estimados, a exemplo de A lenda (dos anos 80) e 1492 (com uma fotografia esplendorosa e trilha sonora de Vangelis). Em Perdido em Marte, por sua vez, Scott pretende dar mais espaço a como o ser humano pode ver a ciência e se utilizar dela como própria fonte de vida, com seus conhecimentos de gerações longínquas. Por isso, em sua meia hora final, Scott parece conduzir seu filme ao que há de melhor nele: uma espécie de sublimação da tentativa de enfrentar as estrelas como quem está disposto a sobreviver e retomar seu contato com o que ainda está prestes a brotar do solo como se fosse a primeira vez.

The martian, EUA, 2015 Diretor: Ridley Scott Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Kate Mara, Sean Bean, Michael Peña, Mackenzie Davis, Kristen Wiig, Donald Glover, Sebastian Stan, Sam Spruell Roteiro: Drew Goddard Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Simon Kinberg Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Genre Films / International Traders / Mid Atlantic Films / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas