Mestres do universo (1987)

Por André Dick

No final dos anos 80 ainda não eram comuns os live actions ou adaptações de quadrinhos ou animações para o cinema. Por isso, Mestres do universo, que trazia a versão em carne e osso de He-Man e Esqueleto, brinquedos da Mattel, entre outros, do Planeta Eternia, tão populares no imaginário infantojuvenil da época, parecia um feito, independente dos seus valores de produção (grandiosos 20 milhões de dólares). Apesar de seu resultado falho na bilheteria, tratava-se de um acontecimento no início da era das videolocadoras.
Em 1985, o desenho já havia ganhado uma versão para o cinema chamada O segredo da espada mágica, mas com a entrada da Cannon Films no mercado da fantasia, parecia se abrir um novo eixo para o gênero. Conhecido por interpretar Ivan Drago em Rocky IV, Dolph Lundgren foi escolhido para o papel central, investindo contra o vilão Esqueleto (Frank Langella), além de Demoníaca (Meg Foster). Ele tem a parceria de Man-At-Arms (Jon Cypher) e Teela (Chelsea Field) para tentar libertar a Feiticeira de Grayskull (Christina Pickles), aprisionada por Esqueleto para tentar acabar com os poderes do Castelo de Grayskull.

He-Man e seus amigos tentam buscar uma determinada chave cósmica, um objeto que pode transportá-lo para qualquer lugar e está nas mãos de Gwildor (Billy Barty). Porém, acontece um acidente e os senhores do universo acabam parando na Terra, numa pequena cidade de New Jersey, onde são ajudados por dois jovens. No entanto, o império de Esqueleto os localiza e coloca naves espaciais em direção ao planeta. É a Guerra Fria, em suma.
A Cannon Films, nos anos 80, por meio de Menahem Golan e Yoram Globus, tentaram reproduzir o universo de fantasia de Spielberg/Lucas com versões próprias, e eles foram responsáveis pelo desastroso Superman IV: Mestres do universo é, em toda a sua tentativa de produção, ser uma espécie de Star Wars, e inclusive a trilha sonora de Bill Conti tenta lembrar disso a todo instante. Mas não só: enquanto tem elementos de Superman III, com os personagens de Julie Winston (Courteney Cox) e seu namorado Kevin Corrigan (Robert Duncan McNeill) , que ajudam o grupo de He-Man, num baile de escola, ele tem muito de De volta para o futuro, inclusive com a presença de James Tolkan, como o detetive Hugh Lubic, que era diretor da escola no filme de Zemeckis.

Ao mesmo tempo, há elementos de Gremlins, na composição da pequena cidade onde os problemas de Greyskull vão terminar, enquanto a sala do trono de Esqueleto remete tanto a Star Wars quanto a Flash Gordon e Gwildor seja uma lembrança direta dos hobbits, à época apenas na literatura e em animações. O grupo de vilões que Esqueleto coloca para caçar He-Man também lembra a trupe comandada por Vader em O império contra-ataca em caçada a Han Solo. Também há elementos de outras fantasias dos anos 80, como Krull, O cristal encantado e A lenda. Particularmente, Eternia, aqui, remete a O cristal encantado, e não por acaso David Odell escreveu ambas as narrativas. Talvez seja um filme menos respeitado mais por causa de seu material de origem, não visto como respeitoso, do que como obra cinematográfica, em que de fato tem méritos não justificadamente apreciados. O primeiro motivo é, claro, Lundgren: sua atuação é de madeira o filme todo, nunca conseguindo entregar o personagem das animações.. Era uma época em que Schwarzenegger, Chuck Norris e Van Damme se lançavam como astros, no entanto faltava a Lundgren um mínimo de carisma e boa atuação (e ele viria a mostrar bom desempenho depois, em Creed II, por exemplo). O outro é, sem dúvida, o design de produção, que, mesmo curioso, não possui profundidade e grandiosidade necessários para os embates mostrados. No entanto, Langella tem uma atuação de destaque como Esqueleto e Billy Barty faz Gwildor de maneira empática. E há uma jovem Courteney Cox antes de Friends e Pânico, repisando alguma obra juvenil de John Hughes.

Sob determinado ponto de vista, Mestres do universo é um dos filmes que melhor representam os anos 80 na maneira com que lidava com a fantasia, nunca pendendo para uma excessiva pretensão, mas utilizando suas motivações de maneira clara. Sua carga de neons e fumaça remetem a um período no qual o cinema ainda estava distante de CGI e de franquias sem fim, anunciadas a cada semestre como se fossem uma mudança de rota para o cinema. Mesmo a proximidade de Kevin do mundo da música, ligando-o à chave cósmica, é uma pista para os anos 80. E a montagem de Anne V. Coates, que fez trabalhos tão diversos como Lawrence da Arábia, O homem elefante, Greystoke, Chaplin e Erin Brokovich, nunca deixa o ritmo cair ou soar demasiadamente em lacunas, imprimindo na trama uma agilidade particular. Nesse sentido, trata-se de um filme que busca os elos da fantasia de maneira exemplar e não sobrevive apenas de sua nostalgia.

Masters of the universe, EUA, 1987 Diretor: Gary Goddard Elenco: Dolph Lundgren, Frank Langella, Courteney Cox, James Tolkan, Christina Pickles, Meg Foster, Peter Brooks Roteiro: David Odell Fotografia: Hanania Baer Trilha Sonora: Bill Conti Produção: Yoram Globus, Menahem Golan, Edward R. Pressman Duração: 106 min. Estúdio: Golan-Globus Distribuidora: Cannon Films

Creed II (2018)

Por André Dick

A primeira parte da série Rocky, de 1976, recebeu os Oscars de melhor filme e direção e o segundo veio na esteira, tendo praticamente o mesmo estilo. Já Rocky III e Rocky IV foram feitos sob o influxo da estética do videoclipe dos anos 80, com belas canções, montagem acelerada, mas com o intuito da diversão. No quarto, especificamente, o lutador enfrentava Ivan Drago (Dolph Lundgren), boxeador russo treinado em laboratórios, depois de ele matar seu amigo Apollo Creed numa luta-evento. É justamente com este quarto filme da série que Creed II estabelece mais contato.
Michael B. Jordan regressa como Adonis, filho de um relacionamento extraconjugal de Apollo, que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa dele, Mary Anne (Phylicia Rashad), com quem possui um relacionamento baseado na confiança.

Depois de derrotar Danny “Stuntman” Wheeler (Andre Ward) e se tornar campeão mundial, ele é procurado por um agente, Buddy Marcelle (Russell Horsnby) para lutar com Viktor Drago (Florian Munteanu), filho de Ivan (mais uma vez  Lundgren), que matou seu pai em Rocky IV. Sem o apoio de Rocky para a nova empreitada, ele se muda para Los Angeles, onde vai treinar sob o comando de Tony “Little Duke” Evers (Wood Harris), filho do treinador de seu pai. No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca Taylor, namorada de Creed. O romance entre os dois remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire, principalmente em Rocky II, com o qual este filme tem muitas semelhanças também. Aqui o casal em início de vida conjunta precisa estabelecer uma nova estrutura para que cada um possa se realizar em sua área: Bianca é uma música, com problemas auditivos.
Stallone está mais uma vez excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa colocar Adonis como uma espécie de substituto para a paternidade falha que teve com Robert.

As nuances que Stallone entrega para seu personagem diferem daquelas exibidas em Rocky Balboa, no qual era mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; a partir do primeiro Creed ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino, e não é diferente aqui. Neste, a família Drago chega à Filadélfia com o objetivo de modificar a mitologia de turistas indo visitar a estátua de Rocky. Há um ressentimento de Ivan ao relação ao boxeador que o derrotou três décadas atrás, e uma tentativa de usar o filho de Creed para uma vingança pessoal. Os personagens são interdependentes. Deve-se dizer que o quinto filme, que tinha novamente John G. Avildsen na direção (como o primeiro) já apresentava um estilo que está sendo trabalhado na série Creed: embora com resultado irregular, era soturno, mais denso, mostrando a interrupção da carreira de Rocky (em razão da quantidade de socos que recebeu na cabeça), a volta para a Filadélfia (em razão de um contador desonesto) e o início de treino de um jovem com talento.
Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância, desenhando vínculos familiares. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, o jovem diretor Steven Caple Jr. consegue realmente dar sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa. Como John G. Avildsen no original, Stallone em Rocky II e Rocky Balboa e Coogler em Creed, o cineasta está interessado sobretudo nos personagens e a carga dramática que ele imprime ao filme está longe de ser superficial. Mesmo que não consiga atingir o punch de Coogler do primeiro, por contar com um roteiro mais didático e expositivo (Juel Taylor, que o assina com Stallone, é um estreante), ele extrai novamente ótimas atuações de todos (B. Jordan está novamente num dos melhores momentos de sua carreira) e encadeia a narrativa de maneira ágil do início ao fim. A sequência está no seu melhor quando mostra situações familiares de Creed, principalmente quando se vê diante de uma situação-chave em sua vida. E algumas sequências são, além de bem filmadas, simbólicas, como aquela em que o personagem central, sentindo-se destruído, tenta buscar um novo horizonte embaixo d’água, com imagens que remetem a cruzes no fundo de uma piscina, indicando vida e morte.

É uma pena que Stallone não tenha se dedicado mais em sua trajetória a obras como esta, em que encobre suas limitações com uma composição bem feita. Caple Jr. não coloca em nenhum momento a estética de videoclipe, mas mostra uma rotina de boxeador mais contida. Creed passa a viver com a namorada num apartamento vazio em Los Angeles, a academia onde treina tem uma imagem de seu pai Apollo que parece pesar sobre seus ombros; as ruas da Filadélfia e o restaurante de Rocky parecem desolados. A própria vida do filho e do pai Drago, na Ucrânia, embora não explorada como iria sugerir um roteiro superior, se dá num ambiente desolador, quase pós-guerra, com uma fotografia mais propensa a uma obra como Foxtrot, o que não deixa de ser curioso, pois Rocky IV era basicamente um documento cinematográfico da Guerra Fria nos anos 80. No entanto, o lutador pode trazer essa vida de volta – e ele traz, mas sem a alegria desenfreada da montagem fragmentada e sim sob o aspecto da fotografia e da trilha sonora casadas de maneira efetiva. A analogia que Caple Jr. faz entre os Balboa, os Creed e os Drago mostram, mais do que uma vida dedicada à luta, uma superação diária de traumas insolucionáveis, que devem ser enfrentados mesmo assim. Para esses personagens, apesar de existirem o medo e o ressentimento, não pode haver meio-termo; é preciso enfrentá-los.

Creed II, EUA, 2018 Diretor: Steven Caple Jr. Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Wood Harris, Phylicia Rashad, Dolph Lundgren, Russell Horsnby, Florian Munteanu Roteiro: Juel Taylor e Sylvester Stallone Fotografia: Kramer Morgenthau Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Sylvester Stallone, Kevin King-Templeton, Charles Winkler, William Chartoff, David Winkler, Irwin Winkler Duração: 130 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer, New Line Cinema, Warner Bros. Pictures, Chartoff-Winkler Distribuidora: Metro-Goldwyn-Mayer (Estados Unidos), Warner Bros. Pictures (Internacional)

Aquaman (2018)

Por André Dick

Não é preciso fazer um prólogo para concluir que hoje as adaptações de HQs se transformaram num grande duelo entre duas companhias, acarretando fãs de um lado ou de outro, ou de admiradores de ambos os trabalhos. A sucessão de lançamentos de filmes do gênero não deixa mais órfãos admiradores de inúmeros personagens, que antes só possuíam os quadrinhos de fato ou as animações televisivas para apreciá-los em movimento. E, cada vez mais, se espera que um filme consiga superar o outro, não tanto em termos de qualidade, mas de bilheteria. Aguardado e divulgado há muitos meses, Aquaman é lançado num ano em que a Marvel teve duas bilheterias bilionárias, com Pantera Negra e Vingadores – Guerra infinita, e ainda surge depois de uma obra polêmica da DC, Liga da Justiça.

O roteiro de David Leslie Johnson-McGoldrick e Will Beall, baseado em história de Geoff Johns, James Wan e Beall, mostra um homem que cuida de um farol, no Maine, Thomas Curry (Temuera Morrison), que salva Atlanna (Nicole Kidman), princesa de Atlantis, de uma tempestade. Ambos se apaixonam e ela dá à luz Arthur Curry. Feito de idas e vindas, Arthur, já adulto (Jason Momoa), tenta salvar um submarino nuclear de piratas, liderados por Jesse Kane (Michael Beach), pai de David, o Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II), que deseja vingá-lo. Esse ataque ao submarino é pretexto para Orm (Patrick Wilson), meio-irmão de Artur e rei de Atlântida, invocar uma guerra contra os humanos. Rei Nereus de Xebel (Dolph Lundgren) tenta seguir Orm, e sua filha prometida a ele, Mera (Amber Heard), pede ajuda a Arthur. Em seguida, ambos vão encontrar Vulko (Willem Dafoe), que treinou Arthur em sua infância e juventude (quando ele é interpretado por Kaan Guldur e Otis Dhanji, respectivamente) em passagens que remetem a Mulher-Maravilha (há cenas claramente feitas antes e outras depois do filme de Jenkins).

O roteiro lida com o fato de o herói, nomeado Aquaman, uma criação de Mort Weisinger, ser filho de um humano e uma deusa como um decréscimo dele, principalmente em suas conversas com Orm, e isso se revela interessante principalmente em como Arthur se junta a Mera, indo ambos parar no Saara, em que Wan homenageia O céu que nos protege, fazendo uso da cor do cabelo de Mera para criar um diálogo com a luz solar, e depois na Sicília, aqui evocando a ilha de Themyscira, das amazonas, atrás do tridente que pode dar o poder sobre Atlântida a Curry. Nesses momentos, o diretor de fotografia Don Burgess comprova seu talento, exibido já em obras como Contato, Forrest Gump e Náufrago, além de Os Muppets. E, se as gags não funcionam, pois na verdade não se encaixam tão bem no universo da DC, a bela trilha sonora de Rupert Gregson-Williams faz esquecer algumas canções mal selecionadas. Talvez a montagem até a primeira metade seja o maior problema, de qualquer modo, da obra da Wan, com excessiva exposição e flashbacks desnecessários, fazendo a metragem ultrapassar pelo menos 15 minutos.

E, apesar da assinatura de Wan e da concepção menos sombria, Aquaman, de modo geral, apresenta o estilo delirante de Snyder, capaz de transitar por batalhas gregas com uma atmosfera de Olimpo (300), mostrar um Superman com questionamentos existenciais (O homem de aço), encadear uma sequência de imaginações de uma menina num hospício (Sucker Punch) e apresentar uma animação em que duas corujas irmãs entram em conflito (A lenda dos guardiões), além de um épico sobre um grupo de super-heróis perseguido (Watchmen), trazendo a paleta de variação de cores já vista em Liga da Justiça. Reúna tubarões montados por seres aquáticos e leões-marinhos prontos para uma batalha que se terá, no mínimo, cenas inusitadas. Foi Snyder quem criou os elementos para esse personagem ter sua estreia solo no cinema, depois da boa participação em Liga da Justiça, com um estilo roqueiro, trabalho de pescador e tendência a doses etílicas em algum bar na costa marítima. E, se Clark Kent tem o pai Jonathan (Kevin Costner), em seus sonhos, e Martha (Diane Lane) sob ameaça de Zod e Luthor, além de sua fuga da realidade de Metrópolis para o Kansas, Arthur também precisa lidar com a dualidade e com o passado: seus pais e o comportamento humano, literalmente, representam seu porto. Apenas se lamenta que, mesmo com mais tempo, o personagem não se mostre tão eficaz quanto em Liga da Justiça.

Momoa é um ator limitado dramaticamente, no entanto entrega bem seu personagem, enquanto Heard está um pouco deslocada, sem prejudicar, e Kidman sempre talentosa, independente do papel, além de Dafoe estar discreto e Wilson, apesar do rosto computadorizado, efetivo. O melhor, porém, é Morrison, numa breve participação como o pai. Aquaman, além disso, é visualmente fantástico, com ótimos efeitos especiais, prejudicados apenas pelo CGI excessivo de algumas linhas do horizonte, sendo, no entanto, a batalha final um grande momento, misturando em suas referências imagens tanto de O segredo do abismo quanto o recente Valerian e a cidade dos mil planetas e Star Wars – A vingança dos Sith, no trabalho de uma cor alaranjada, simbolizando a guerra no fundo do mar. Há cenas plásticas especialmente belas, como aquela em que o menino Arthur fica à frente de um aquário em que os peixes visualizam as demais crianças. Sem tentativa de ser épico ou revolucionar as adaptações de quadrinhos, Aquaman se caracteriza pelo interesse com que dispõe suas ideias.

Aquaman, EUA, 2018 Diretor: James Wan Elenco: Jason Momoa, Amber Heard, Willem Dafoe, Patrick Wilson, Dolph Lundgren, Yahya Abdul-Mateen II, Nicole Kidman, Kaan Guldur, Otis Dhanji Roteiro: David Leslie Johnson-McGoldrick, Will Beall Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Rupert Gregson-Williams Produção: Peter Safran, Rob Cowan Duração: 143 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, DC Films, The Safran Company, Cruel and Unusual Films, Mad Ghost Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures