O grande búfalo branco (1977)

Por André Dick

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Baseado num livro de Richard Sale, também responsável pela adaptação para o cinema, O grande búfalo branco parecia dialogar com outro filme lançado no mesmo ano, e também produzido por Dino De Laurentiis, Orca. No entanto, ao contrário de Orca, por si só um derivado de Tubarão, havia neste filme com Charles Bronson, em meio aos intervalos da série Desejo de matar, algo mais sugestivo, uma espécie de mistura entre gêneros e, dentro de sua história a princípio objetiva, um elemento mais semelhante a filmes de caráter psicológico. Assim como Tubarão, este filme guarda uma aproximação do enfrentamento que o homem faz com uma força que foge ao seu controle e surge da natureza, estando sempre à espreita. No entanto, ao contrário de King Kong, a produção exitosa de De Laurentiis, do ano anterior, O grande búfalo branco teve dificuldades de se pagar nas bilheterias.
Charles Bronson faz Bill Hickok, aqui atendendo pelo nome de James Otis, que pretende caçar o búfalo branco capaz de perturbar seus sonhos e é uma espécie de criatura fantástica que vive no alto das montanhas. Depois de passar por Cheyenne (Wyoming), Fetterman, ele chega a Deadwood, Dakota do Sul, em 1874, época do Velho Oeste, onde encontra a ajuda de Charlie Zane (Jack Warden) para a busca, não sem antes rever Mrs. Poker Jenny Schermerhorn (Kim Novak), uma antiga paixão, e ir a um saloon, em que precisa se desvencilhar de um determinado encontro. Na peregrinação em busca do animal ameaçador, em direção às Black Hills, tomadas por indígenas, ele se depara com Worm, um codinome do índio Crazy Horse (Will Sampson, logo depois de Um estranho no ninho), o qual pretende cumprir uma vingança devido ao que o búfalo fez com sua tribo. A ambientação certamente é a maior do qualidade do filme, alternando o calor do velho oeste com montanhas cobertas de gelo, sugerindo um western mais soturno e com elementos propositadamente artificiais, adentrando num universo onírico. Mas basta estar no Velho Oeste e ter pesadelos com um búfalo monstruoso e está justificado por que Hickock acorda dando tiros contra o teto. E os óculos escuros que usa durante o filme não escondem o real receio dele. Todos os homens com que se depara ou enfrenta, a exemplo de  Tom Custer (Ed Lauter) e Jack Kileen (Clint Walker) são apenas empecilhos do grande momento.

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Desde o seu início, num trem, quando Hickok tem um de seus pesadelos, o filme de Jack Lee Thompson consegue criar uma história no mínimo instigante auxiliada pela bela direção de arte de Tambi Larsen e James L. Berkey. O trabalho desta dupla se estende a cidades do Velho Oeste bastante parecidas com a de outro trabalho dela, anos depois, em O portal do paraíso, com locações também no Wyoming. Por isso, em determinados aspectos, mesmo porque foi distribuído pela mesma United Artists do filme de Cimino (que levou a companhia a fechar as portas), O grande búfalo branco serve também como um exemplo, em tamanho mais modesto, certamente, de experimentos feitos mais adiante, É esta fidelidade a uma tentativa de realizar cenários reais com outros fantasiosos que torna O grande búfalo branco interessante, logo depois de seu tema incomum – de perseguição a uma espécie de criatura que habita os sonhos e se move como se fosse um fantasma por trás de árvores ou rochas de uma enorme montanha. Essa sensação de espectro se reproduz materialmente por meio do gelo das montanhas: poucos faroestes incorporam esse cenário, mas O grande búfalo branco, nesse sentido, lembra um pouco aquele panorama oferecido por Robert Altman em Quando os homens são homens: o calor, aos poucos, se converte em frieza. O espectro também é produzido por meio dos sons que o búfalo faz, uma mistura entre King Kong e Godzilla, sempre acompanhados por uma bela trilha sonora de John Barry. Trata-se de uma criatura esboçada por Carlo Rambaldi (King Kong, Duna, E.T.) e, apesar das restrições evidentes nos efeitos especiais da época, para dar movimento a esta ameaça, é uma criação engenhosa e nos momentos-chave convincente. E pode-se perceber a mão de De Laurentiis nos efeitos especiais e na própria composição do filme – mais ao final, uma cena em que a câmera se posiciona em frente a uma montanha de gelo é graficamente semelhante a uma de Duna, de Lynch, sete anos depois. Há um padrão evidente nos filmes de De Laurentiis que é reunir uma estranheza técnica para momentos que o cinema não evidenciava com tanta ênfase como hoje, em razão da tecnologia: havia uma tentativa clara de destacar a fantasia em meio a resquícios de materialidade.

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Embora haja a participação especial de Kim Novak, o que mais se destaca, em meio a essa ambientação, são algumas cenas bem cuidadas de duelos (tanto num bar quanto no alto das montanhas), auxiliadas pela fotografia trabalhada de Paul Lohmann (Nashville), em que uma pilha de ossos de búfalos faz parte de um cenário em que os brancos e os índios estão em conflito – mas, para Hincock, não totalmente. Vejamos o diálogo entre ele e Crazy Horse quando se encontram pela primeira vez, depois de tiroteios cruzados. Se Bill acorda de seus sonhos pronto para um enfrentamento, o búfalo sempre remete ao trem no qual o faz chegar a este ponto – e do qual precisa se livrar também. Mas há, nesse conflito entre a realidade e o sonho em que vive Hickcok, a própria manifestação de Crazy Horse e sua vingança. É como se ele, significando o homem branco, fosse levado a uma dívida com os povos indígenas por meio de um plano onírico – e o fato de ele passar, em determinado momento, por essa pilha de ossos, remetendo a tragédias da humanidade, é também uma compreensão de que ele não pretende ingressar na chacina que os Estados Unidos impuseram às suas tribos em determinada época. O búfalo é caçado por ser um dos últimos da espécie, e sua morte significa também a tentativa de a tribo de Crazy Horse poder suportar a perda.  Por isso, apesar do humor nos diálogos entre Hickok e Crazy Horse, não temos uma fuga aos temas que habitam O grande búfalo branco. E, de modo abrangente, embora o filme possua falhas de estrutura e alguns diálogos não dão a movimentação necessária à história, a atmosfera que cria retribui as lacunas existentes e nos dá uma reconciliação não apenas no plano da humanidade mas também com uma peça cinematográfica a ser redescoberta.

White buffalo, EUA, 1977 Diretor: J. Lee Thompson Elenco: Charles Bronson, Jack Warden, Will Sampson, Kim Novak, Ed Lauter, Clint Walker Roteiro: Richard Sale Fotografia: Paul Lohmann Trilha Sonora: John Barry Produção: Dino De Laurentiis Duração: 97 min. Distribuidora: United Artists

Cotação 3 estrelas e meia

Flash Gordon (1980)

Por André Dick

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Desde o início, com a trilha do grupo Queen, cantando a música-tema de Flash Gordon, já se percebe que estamos diante de um filme que traz na bagagem não apenas os anos 70, como também a sua ligação com os anos 80. Não demora muito para se perceber que o diretor Mike Hodges, escolhido por Dino de Laurentiis para levar às telas o personagem criado por Alex Raymond, fará uma mescla entre ficção científica e um ar bem-humorado que dificilmente vemos nas produções atuais, com um visual ao mesmo tempo exagerado e grandioso – o que seria kitsch para alguns –, mas que exatamente pela extravagância confere um clima irrepreensível de HQs. Flash Gordon é um jogador de futebol norte-americano que viaja em companhia de Dale Arden (Melody Anderson), num avião. Logo na decolagem, há um eclipse, tudo fica vermelho e surge a figura de Ming (Max von Sydow), que desaparece com os pilotos. Gordon precisa aterrisar o avião e, quando o faz, é justamente perto do laboratório de pesquisas de Hans Zarkov (Topol). Este pretende partir de foguete para o espaço, a fim de salvar a Terra, o que sempre tentou avisar, sem ninguém acreditar. Quando Flash Gordon pergunta onde há um telefone, e o cientista indica o foguete, fazendo o personagem central entrar nele, já temos a séria impressão de que dali em diante nada pode ser levado muito a sério. O espaço e tempo do filme são rápidos e logo o foguete – que recorda imagens de Viagem à lua, de Georges Méliès – é sugado por um buraco negro.

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A falta de seriedade própria e individual de Flash Gordon é intransferível para qualquer outro filme. O produtor Dino de Laurentiis vinha de um sucesso, King Kong, refilmagem do clássico com Jeff Bridges e Jessica Lange – mais divertida, embora bem menos produzida do que a de Peter Jackson – e já planejava realizar a adaptação de Duna (que seria feito por David Lynch) e dos quadrinhos de ConanFlash Gordon é uma espécie de antecipação de Duna, no sentido da grandiosidade dos cenários – e até de alguns módulos que voam e acompanham os personagens em determinados momentos –, assim como da série Conan, no sentido de ser uma obra despretensiosa, apesar de bem feita. Os figurinos de Danilo Donati (de SatyriconAmarcord), a direção de arte de John Graysmark (Na época do Ragtime) e a fotografia de Gilbert Taylor (Guerra nas estrelas) dão um tom original – e o elenco, que vai de Von Sydow a Topol – nomes ligados ao cinema europeu – indicam um interesse em fornecer bons atores a alguns personagens.
Quando Flash Gordon, a moça que logo se transforma em sua companheira e o cientista chegam a Mongo, cujo líder é Ming, com toda sua maldade, interessado em provocar vários desastres naturais na Terra, por diversão, eles são enfeixados como ameaça ao poder dele. “Planetas ingênuos eu não ataco”, diz Ming. “Apenas quem me ameaça.” “Esse cara é um psicopata”, reflete Flash Gordon, sendo reproduzido em alta escala. A prisão do cientista e a máquina para apagar sua memória – enquanto ele acompanha imagens que vivenciou, inclusive da Segunda Guerra Mundial – é o momento mais cruel e sério de Flash Gordon, e lamentamos por ele, sobretudo porque as recordações que se sucedem rapidamente são interessantes e conectam o espectador ao personagem de modo decisivo. Von Sydow é um ator excelente e, mesmo com um figurino cujo vermelho combina com o prateado dos cenários e o lápis nos olhos para aparentar ser de origem oriental, é notável e consegue fazer mais do que qualquer outro com um roteiro propositadamente infantil, embora sem nenhuma brecha.

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A filha de Ming, Aura (Ornella Mutti) se apaixona por Flash Gordon, embora quem pretenda conquistá-la seja Barin (Timothy Dalton), do planeta Arboria – com as cabanas construídas em árvores, o que remete a O retorno de Jedi (sobretudo a este, pela cenografia) e Avatar. Ela tenta salvar Gordon depois de ele passar por uma morte numa câmera de gás, justamente levando-o para Arboria, num momento em que o filme evoca alguma coisa que seria repetida depois em filmes de fantasia como A história sem fimKrull e A lenda e, naquele mesmo ano, teria semelhança com o Planeta Dagobah, de O império contra-ataca. E passará por uma sequência realmente forte, em que precisa enfrentar o que chama de vermes que perfuram.
Há também homens com asas do Planeta Sky City (evocando outra produção de De Laurentiis, Barbarella, com Jane Fonda). Todos se submetem a Ming, porém sem nenhum interesse em continuar assim. Mesmo a filha de Ming está ameaçada de castigo, e o personagem posiciona-se, como fala em alto e bom som Flash Gordon, num “psicopata”. “Ele é o rei do impossível”, diz a música de Queen, e Flash Gordon, mesmo pela interpretação de Sam Jones – satirizada na comédia Ted, assim como o próprio filme –, é um personagem unidimensional. De qualquer modo, mesmo porque o tom do filme não pretende ser sério, Sam Jones acaba se encaixando – e em momento algum consideramos que ele destoa demais das atuações exageradas do elenco feminino, sobretudo de Ornella e Anderson, preenchendo bem os seus papéis, e mesmo Timothy Dalton.
Há um impressionante sentido de mistura teatral com homenagem a uma época determinada do cinema em Flash Gordon que não pode ser ignorado. Talvez não tenha sido nem objetivo de Hodges ou do produtor De Laurentiis, mas tudo no filme que poderia não parecer vivo, na sua tentativa legítima de homenagear os primórdios do cinema com seus cenários e figurinos, ganha outro significado.

Flash Gordon, EUA/ING, 1980 Diretor: Mike Hodges Elenco: Sam J. Jones, Melody Anderson, Max von Sydow, Ornella Muti, Timothy Dalton, Brian Blessed, Peter Wyngarde, Mariangela Melato, John Osborne, Richard O’Brien, John Hallam, Philip Stone, Suzanne Danielle, William Hootkins Roteiro: Alex Raymond, Michael Allin Fotografia: Gilbert Taylor Trilha Sonora: Howard Blake Produção: Dino De Laurentiis Duração: 111 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis Entertainment Group (DEG)

3 estrelas e meia

Duna (1984)

Por André Dick

Dino de Laurentiis e sua filha Raffaella produziram este filme, baseado no romance de Frank Herbert, que vinha de uma sucessão de projetos não concluídos (Ridley Scott dirigiria o filme em determinado momento). Recentemente, o diretor Peter Berg (de Hancock, Battleship…) teria desistido de uma nova versão, considerando uma obra infilmável, mesmo avaliando que a versão de Lynch não tinha a ação que ele imaginava quando leu Duna, o que é estranho, já que o romance de ficção científica de Herbert pode ser considerado mais psicológico do que propriamente de aventura – e é difícil pensar que Berg conseguiria realizar um trabalho como o de Lynch.
Superprodução de 40 milhões de dólares que não encontrou muito público nas bilheterias, embora tenha se tornado, com o passar dos anos, cult movie, Duna tem uma versão estendida (de 177 minutos) feita para a TV, acompanhada, ainda, por algumas cenas deletadas (que somam em torno de 10 minutos) que Lynch não assina, mas é melhor o filme ser visto na versão de cinema, mais curta (137 minutos), em DVD e Blu-Ray (neste formato, temos a melhor apresentação, assim como algumas cenas deletadas que não estão nos demais meios).

A introdução da versão oficial, por exemplo, é muito superior, pois não menospreza o entendimento do espectador, enquanto a versão mais extensa tem uma narração entre os blocos e a eliminação de uma ou outra cena mais pesada para o meio televisivo, além de cenas repetidas e o aspecto inacabado das imagens que não entraram na versão lançada nos cinemas, apesar de ter novas cenas-chave (interessantes para compreender melhor a relação entre alguns personagens). Ou seja, é difícil ter uma ideia exata do que Lynch queria, pois nenhuma das versões é aquela que gostaria de ter feito efetivamente, mas o que existe em Duna mostra seu brilhantismo como cineasta.
Cheguei ao romance por meio do filme e é comum se dizer que Lynch não explica nada. Esqueçamos, inicialmente, a montagem imposta pelos De Laurentiis. Em parte, o filme não consegue a expansão dos detalhes de Herbert, entretanto a tentativa é válida, pois Lynch respeita o material de origem, assim como acrescenta seu estilo, tratando com respeito a opulência visual que desperta o romance – não parece por acaso que o próprio Herbert diz ter gostado da adaptação.

A história se passa em 10.191 e remete ao povo do planeta Arrakis – completamente deserto –, chamado Fremen, que aguarda a chegada de um Messias, que seria Paul Atreides (Kyle MacLachlan, muito bem, com sua frieza, misturada com ingenuidade, característica), do planeta Caladan, cheio de mares – e sua água terá papel decisivo no filme. Porém, a família precisa agir sob as ordens do imperador do universo, Shaddam IV, que, querendo dar o poder de Arrakis aos Harkonnens, do Planeta Gide Prime, trai os pais do messias: o Duque Leto Atreides (Jürgen Prochnow) possui um anel de poder cobiçado, e Lady Jessica (Francesca Annis), sua mulher, é uma Bene Gesserit, linhagem de sacerdotistas que tenta impedir a chegada desse messias, querendo sempre resguardar uma magia estranha. A Madre Reverenda (Sian Phillips), que serve ao Imperador, lembra que Jessica não podia ter gerado um filho, pois ele pode ser o Kwisatz Haderach, aquele que pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. “O adormecido deve despertar”, diz Duque Leto ao filho, que vive cercado por professores, de Gurney Halleck (Patrick Stewart), passando por Wellington Yueh (Dean Stockwell), até Thufir Hawat (Freddie Jones). É justamente o que teme a Guild Navigator, que deseja destruir os Atreides.
O vilão é o Barão Vladimir Harkonnen (Kenneth McMillan, excelente), que tem dois seguidores, Rabban e Feyd Rautha (Paul Smith e Sting, muito bem) a seu lado – com comportamento pervertido – e outros ajudantes estranhos (entre as quais, Brad Dourif e Jack Nance), todos interessados na especiaria existente em Arrakis, que ajuda na locomoção das naves no espaço e pode representar o domínio do universo.

Comenta-se que o filme é confuso por já começar explicando o que acontecerá dali em diante. Se formos ao livro de Frank Herbert, veremos, ao longo dele, trechos do diário da Princesa Irulan (Virginia Madsen), que conta o que acontece com os personagens. Lynch acerdatamente começa com essa narração e, mesmo seguindo quase fielmente as sequências do livro, reordena de forma com que o filme vá ganhando um tom crescente (não por acaso, a câmera se afastando do olhar de Irulan para mostrá-la contra o espaço sideral cria um contraponto ao final com a câmera se aproximando dos olhos de Paul Atreides), Herbert tem um estilo interessante de apresentar os personagens, mas o filme não pode entrar no universo sem antes tentar explicá-lo.
Identifica-se também como um problema os pensamentos em off dos personagens. Lynch não é Malick, contudo o fato é que aqui também ele é fiel ao livro. Os pensamentos parecem óbvios, mas tanto no livro quanto no filme criam um elemento de onirismo (os personagens não estão completamente acordados).
Ao mesmo tempo, o vocabulário seria complicadíssimo (quando passou nos cinemas dos Estados Unidos, parece que os espectadores recebiam uma espécie de manual para acompanhar a história!). Tratando-se de uma ficção científica mitológica, não parece haver obrigação de Lynch explicar o sentido de cada termo dado por Herbert, nem de, por respeito aos fãs do livro, escondê-lo.

E os personagens, também no livro, são diversificados, surgem e desaparecem em alguns casos, ou seja, algumas vezes não desenvolvidos suficientemente. Quase não há ação ou humor – costuma-se comparar O senhor dos anéis com Duna, mas são, afora o universo mitológico, muito distintos, cada um possui qualidades específicas –, e sim muitos diálogos sobre intrigas de poder e política, com um tom, ao mesmo tempo, ecológico e religioso, quase teatral e profético. Há uma espécie de tensão de domínio entre os personagens (o Barão cujo destino está nas mãos das reverendas; o adolescente que precisa despertar para seu destino e salvar seu pai; a relação estranha entre o Barão e seu sobrinho; a tentativa de subjugar o povo Fremen). Além disso, no filme, Lynch tenta equilibrar, levantando uma tensão a respeito do anel que carrega o Duque Leto e é cobiçado pelo Barão Harkonnen, assim como guarda um mistério sobre quem pode ser o traidor infiltrado entre os Atreides (algo que se revela de início no livro). Alguns personagens de destaque no livro, como Dr. Kynes, Guy Halleck, Shadout Mapes e pai de Paul Atreides, aparecem mais na versão do filme feita para a TV. Outros, como o Imperador Shadam IV e a reverenda que o acompanha, pouco aparecem no livro, entretanto Lynch tenta destacá-los nas versões existentes do filme.

Já  alguns personagens têm suas características acentuadas, como o do próprio Barão, que no livro não parece ter toda a perversidade imaginada por Lynch.
Talvez Lynch tenha se equivocado com a inserção dos módulos de destruição, efetuados por meio da sonoridade da voz, o que é elementar em seu cinema (o poder do som), mas não existe no livro e não encaixa bem na história, sobretudo sem mostrar como são construídos, mesmo Paul Atreides tendo sua planta. Ainda assim, esses módulos de voz têm a ver com sua obra cinematográfica, em que o som humano sempre exerce um poder (não por acaso, a ação de Veludo azul é desencadeada depois da descoberta de uma orelha num capinzal).
A maior falha do filme Duna, porém, é que depois de 90 minutos de filme (na versão mais curta; quase duas horas depois na versão estendida), a trama passa a ganhar um ritmo mais intenso, impedindo que conheçamos melhor os personagens. Muitos acontecimentos se sucedem em poucos minutos (por isso, a versão estendida é curiosa). Na parte que precede seu final, está a maioria das cenas deletadas de Duna (o duelo entre Paul Atreides e um fremen; a conversão de um corpo em líquido; o nascimento da irmã de Paul; a perseguição de Rabban aos fremen no deserto; a descoberta de como é produzida a Água da Vida). Raffaella De Laurentiis, filha de Dino, acrescenta que isso se deu, também, porque foi pedido a Lynch que fizesse sete cenas em apenas uma, o que prejudicaria um projeto como este, elaborado em três anos e meio. Também, claro, porque a montagem final não foi a desejada por Lynch. Raffaella explica que a Universal, depois, tentou fazer uma versão estendida, embora Lynch não tenha participado, sem explicar se era opção do diretor, dela ou da Universal. O fato é que até hoje Lynch se nega a falar do filme, e a revisitá-lo, sobretudo porque foi feita essa versão de três horas para a TV sem a sua autorização.

De qualquer modo, Duna é – com ou sem falhas – fascinante, o que o torna um grande filme. Não há a confusão sugerida pela crítica à época, ainda menos uma alegada falta de produção (direção de arte, figurino, fotografia) caso o espectador se deixe levar pelas imagens já oníricas aqui do diretor, misturando água, fogo, terra e ar, mas sobretudo as dunas do planeta. Da metade para o final, é certo que estamos diante de um sonho de Paul Atreides – como os personagens de vários filmes de Lynch (no roteiro original de Duna, lá está, em determinada parte: “O sonho continua”). Por isso, os filmes posteriores do cineasta parecem explicar melhor Duna, e mesmo o contrário. Já no início, Paul Atreides sonha com o que irá acontecer a ele: a mulher que irá conhecer e o corpo flutuando no espaço – depois da experiência que terá com a Água da Vida –, a risada de Feyd Rautha (Sting). Em outro momento, depois da queda de sua nave no deserto, antes de conhecer os Fremen, Paul terá um sonho acordado (e numa das cenas da versão estendida há outro momento em que ele visualiza a lua, que determina seu destino). Ele pode ser Muad’ib ou o Kwisatz Haderach, aquele adormecido que deve despertar.

Nesse sentido, Lynch também é fiel, aqui, a Herbert, que explora vários diálogos sobre o sonho. As cenas de imagens esfumaçadas remetem a O homem elefante e Cidade dos sonhos, assim como a caixa da Bene Gesserit – em que Paul precisa colocar sua mão, a fim de passar por um teste – tem muito da caixa da atriz Rita, de Cidade dos sonhos, e o anel ducal que carrega o pai de Paul influenciaria, certamente, o anel com que Laura Palmer sonha na versão cinematográfica de Twin Peaks (aliás, na primeira cena de sonho de Twin Peaks, temos Jürgen Prochnow, o ator que faz o Duque Leto, num canto da sala). Isso sem falar na óbvia ligação com Eraserhead, primeiro filme de Lynch – a tomada de um verme se abrindo é idêntica à deste filme (o nascimento de Alia lembra o bebê de Spencer).
O elenco, apesar de a maioria ter participações rápidas, é muito bem escolhido, sobretudo Jürgen Prochonow e Francesca Annis, como os pais de Paul Atreides, Max von Sydow, na pele de um Fremen, Sian Phillips, no papel da reverenda ameaçadora, Brad Dourif e Kenneth McMillan – como harkonnens – e Sting (numa participação curta e eficiente). A atriz Sean Young, como Chani, namorada de Atreides, acaba tendo uma boa presença plástica, embora o roteiro não permita mais participação, e a meia hora final é muito bem pensada – com uma cena surpreendente, que suplanta alguns efeitos especiais mais precários (não se sabe se as naves são mais estáticas para ser uma contraposição à movimentação de Star Wars, pois Lynch pediu a todos que não queria um ar de ficção científica em sua obra, preferindo um futurismo passadista, e já que Duna é mais uma ficção psicológica, entretanto na maior parte das vezes não convencem, servindo mais como imagens pictóricas). Nesse sentido, o filme consegue retratar melhor as batalhas na areia e dos vermes do que revelar imagens de naves espaciais, ainda mais diante das ficções científicas de destaque feitas anteriormente (como 2001, Star wars e Blade Runner) e, sobretudo, posteriormente – embora sua direção de arte de Anthony Masters (de Lawrence da Arábia e 2001), as maquetes perfeitas de Emilio Ruiz del Río, e as imagens dos vermes (criados por Carlos Rambaldi, o mesmo responsável pela concepção de E.T. e do King Kong de 1976) compensem isso, criando um universo muito mais amplo do que 2001 e Blade Runner, situados em lugares definidos.

Nesse sentido, há boas cenas de ação (como aquelas que mostram os vermes gigantes) e, no plano técnico, direção de arte, maquiagem e figurino notáveis, além da fotografia do mesmo Freddie Francis de O homem elefante. Destaque-se que Duna concorreu apenas ao Oscar de melhor som. Nessas categorias referidas, talvez ele tivesse como concorrente, em 1984, apenas Amadeus e 2010 – sendo, a meu ver, superior em todas essas categorias em relação a esses dois, sobretudo por criar um universo, e não simplesmente recriar um já existente. No prêmio Saturn Awards, mais importante da ficção científica, ele foi reconhecido com indicações (melhor filme, melhor maquiagem, melhores efeitos especiais) e recebeu um (melhor figurino).
Especificamente o figurino, misturando Idade Média e futurismo, foi feito de forma notável por Bob Ringwood (responsável pelos figurinos de Excalibur, Império do sol e Batman). Vejamos, por exemplo, aquele que veste Feyd Rautha (Sting), o Imperador Shaddam e a Reverenda:

Impressiona como Lynch, reunindo uma grande equipe em estúdios do México, em 1983, conseguiu reproduzir o universo imaginado por Herbert, sobretudo nas cavernas e palácios, inclusive porque o romance não descreve detalhadamente os cenários, preferindo concentrar-se nos personagens. Esses cenários como que simbolizam os personagens, frios e simétricos, esperando um sentido para a Água da Vida. Consequentemente, cada planeta de Duna corresponde a uma concepção visual: Caladan tem mares e chuva, com plantas, vento e umidade; Gied Prime tem um ambiente de máquinas, correntes, fios e iluminações futuristas, além de uma cor verde doentia nas paredes; Arrakis tem o clima de deserto, com coloração amarela, e cavernas escuras; e Kaitain, onde fica a sede do imperador, tem edifícios tecnológicos. Não há dúvida de que a concepção de Masters, baseada em muitos desenhos de Lynch, cria um universo magnífico.Eu diria que vale a pena conhecê-lo, pois tem imagens notáveis, que lembram pinturas – sua força é, sem dúvida, pictórica e sonora –, explicando o fato de Lynch ter preferido fazer este filme a dirigir O retorno de Jedi, convidado por George Lucas, pois poderia desenvolver um universo próprio – embora Star Wars deva muito aos livros da série Duna e O senhor dos anéis, fazendo com que Lynch não desenvolva alguns aspectos, que soariam repetitivos, e o cineasta não queira mais, hoje, falar do filme em entrevistas.

Além disso, tenho especial apreciação pela trilha de Toto, misturando um tom épico com algumas sonoridades dos anos 80, mas sem ficar datado. Lynch construiu a maior ficção científica com elementos do rock no figurino e na música.
Duna e a obra de Herbert certamente influenciariam Lynch para toda sua carreira, sendo uma pena que ele não reconheça mais o filme. Mesmo com o desinteresse da Universal, é certo que os admiradores da obra gostaria de ver um dia seu corte final. E parece algo espantoso, embora reserve-se o direito, que, mesmo com esse desejo, Lynch pareça não dar importância – apenas pareça, pois ele produz diálogos com Duna em outras obras suas.
Nesse sentido, não se trata de uma obra aprovada plenamente por ele, mas o que conhecemos, ainda assim, forma uma peça única de ficção científica, que parece sempre melhorar numa releitura, além de sua fascinação.

Dune, EUA, 1984 Diretor: David Lynch Elenco: Kyle MacLachlan, Kenneth McMillan, Jürgen Prochnow, Sean Young, Francesca Annis, Leo Cimino, Brad Dourif, José Ferrer, Linda Hunt, Freddie Jones, Max von Sydow, Virginia Madsen, Richard Jordan, Patrick Stewart, Sting Produção: Raffaella de Laurentiis Roteiro: Eric Bergren, Christopher de Vore, David Lynch, Rudolph Wurlitzer Fotografia: Freddie Francis Trilha Sonora: Toto Duração: 137 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: De Laurentiis

Cotação 5 estrelas