Um limite entre nós (2016)

Por André Dick

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Em Um limite entre nós, ou simplesmente Fences (Cercas), seu título original, o ator e diretor Denzel Washington fez a adaptação para o cinema da própria peça que interpretou na Broadway, escrita por August Wilson (e que teve à frente num de seus primeiros elencos James Earl Jones). Nos últimos anos, Washington esteve mais dedicado a filmes de ação, mas sempre conseguiu, mesmo neles, desempenhar uma faceta dramática. Em O voo, por exemplo, mais um drama do que um filme de aventura, ele fazia um piloto de vilão com problemas alcóolicos. É um dos poucos astros que conseguem conciliar uma imagem de pessoa equilibrada com transtornos psicológicos, o que já lhe rendeu dois Oscars, de ator coadjuvante, por Tempo de glória, e de melhor ator, por Dia de treinamento, além de atuações subestimadas, como a que apresenta no notável filme de Ridley Scott O gângster. Indicado ao Oscar novamente por Um limite entre nós, acabou perdendo a estatueta para Casey Affleck.
A narrativa se passa em Pittsburg no ano de 1957, em que Troy Maxson (Denzel Washington) trabalha como lixeiro e é casado com Rose (Viola Davis, também parceira de Washington na versão da Broadway). Seu círculo ainda inclui os filhos Cory (Jovan Adepo) e Lyons (Russell Hornsby) e o grande amigo Jim Bono (Stephen McKinley Henderson). O irmão mais velho de Troy, Gabe Maxson (Mykelti Williamson), também faz parte da família, com as sequelas de uma lesão que sofreu durante a Segunda Guerra Mundial.

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Esses personagens entram e saem de cena como se estivessem realmente numa peça de teatro, com a simplicidade imposta pela direção de Washington, que já havia demonstrado muito talento por trás das câmeras em Voltando a viver, aproveitando muito bem a fotografia de Charlotte Bruus Christensen para realizar um filme de época de classe.
O filho mais velho, Lyons, de outra mãe, sempre aparece para pedir dinheiro emprestado para sua carreira musical, enquanto o mais novo, Cory, pretende se dedicar ao beisebol, o que deixa Troy um pouco enciumado, já que quase foi jogador depois de uma passagem pela prisão. Ele exatamente é um homem quer construir cercas ao redor da sua casa para demarcar o que pode ser, o que conquistou ou não, suas falhas e virtudes. Trata-se de um personagem muito complexo, pois não inspira exatamente simpatia do espectador, preferindo se concentrar mais no que tem a dizer no que os outros têm a lhe falar ou responder, e nisso a personagem de Rose é vital para que o espectador se aproxime mais dessa família. Ela é o símbolo da mãe que tenta conciliar os filhos e o pai, cada um com suas características particularíssimas, e que tenta romper com os conflitos que surgem.

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Por não esconder sua origem claramente teatral, Um limite entre nós é levemente prejudicado pelo número (excessivo) de diálogos em sua primeira metade. Quando o filme passa a ter cenas menos exageradas nesse sentido, ou seja, quando Washington deixa de fazer grandes monólogos (e sua direção não ajuda a conter a própria atuação), a narrativa melhora e abre espaço para uma ótima atuação de Viola Davis, que consegue equilibrar o drama mais emocionado e contido de maneira realmente irrepreensível, o que lhe rendeu um Oscar merecido (embora ela seja atriz principal e não coadjuvante).
Entretanto, arrisca-se dizer que grandes atuações têm os coadjuvantes: Jovan Adepo, Russell Hornsby (mais conhecido pela série Grimm), Stephen McKinley Henderson e Mykelti Williamson, todos grandiosos em sua naturalidade e tão injustiçados na temporada de premiações quanto os atores que fazem Cherrie em Moonlight. Com eles, o filme de Washington atinge a ternura discreta que há em Loving, por exemplo. Com poucos diálogos cada um e cenas não tão longas, todos conseguem desempenhar bem esse conflito ou não com a figura de Troy. Os embates com essa figura paterna se dão tanto dentro de casa quanto no quintal, ou seja, no território delimitado por ele e onde acredita mandar mais do que todos, inclusive dando-se permissão a uma liberdade não normalmente concedida ao homem. O roteiro deixado por Wilson, falecido em 2005, é notável ao mostrar que o núcleo familiar é construído pela mulher e pelo homem, mas sobretudo por tudo aquilo que leva ao crescimento pessoal em prol do conjunto.

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Um limite entre nós cansa um pouco em razão desse número de diálogos e pela pouca variação nos cenários, apostando no orçamento limitado, no entanto Washington consegue desenhar os personagens de maneira interessante. Mesmo uma revelação em determinada parte justifica o brilho nervoso de Troy durante mais de uma hora, fingindo uma alegria incontida. Washington não está bem como em Dia de treinamento e O voo por alguns maneirismos excessivos, e ainda assim se mostra inegavelmente competente e mesmo emociona em alguns trechos. Pode-se dizer que a história começa cansativa (sua longa duração não ajuda em certas partes) e termina até arrebatador. É uma obra autenticamente clássica, mostrando um período da história dos Estados Unidos que levou a outros movimentos em seguida, que Washington representaria, por exemplo, no filme de Spike Lee Malcolm X. Os direitos, aqui, não chegam a ser de toda uma comunidade, mas o que pensa e deseja Troy, de certo modo, é o sonho do trabalhador muitas vezes deixado de lado e cuja falta de empatia esconde, na verdade, um grande apreço pela proteção máxima à família. Mesmo que tudo pareça, inclusive, indicar o contrário.

Fences, EUA, 2016 Diretor: Denzel Washington Elenco:Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Mykelti Williamson, Jovan Adepo, Russell Hornsby, Saniyya Sidney Roteiro: August Wilson Fotografia: Charlotte Bruus Christensen Produção: Denzel Washington, Scott Rudin, Todd Black Duração: 139 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: MACRO / Scott Rudin Productions

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O voo (2012)

Por André Dick

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Demasiada carga leva o diretor Robert Zemeckis, depois de receber o Oscar de melhor filme e diretor por Forrest Gump em vez de Tarantino e seu Pulp Fiction. Zemeckis é, antes de tudo, um artesão descoberto por Steven Spielberg sobretudo depois de sua joia Febre da juventude, em homenagem aos Beatles, e que nos anos 80 voltou a capturar parte da juventude e da infância na trilogia De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, projetos de ponta. Se depois de Forrest Gump, o diretor só voltaria a acertar novamente em Contato e Náufrago, dedicando-se por um tempo a animações um tanto desajeitadas (como O expresso polar e Beowulf), desta vez ele retoma a agilidade da ação exibida em seus melhores momentos nos anos 80 e 90 em O voo, o filme que também marca a maior atuação de Denzel Washington desde Dia de treinamento, pelo qual recebeu o Oscar de melhor ator.
Ele interpreta Whip Whitaker, um piloto de avião movido a drogas, cocaína e álcool, principalmente (daqui em diante, possíveis spoilers). Inicia-se o filme com ele dividindo a cama com uma aeromoça, Katerina Márquez (Nadina Velazquez), colega de trabalho, num hotel perto de um aeroporto. Com voo marcado para a manhã, Whitaker não parece tão alterado como deveria, apesar do copiloto, Ken (Brian Geraghty), e de outra aeromoça, Margaret (Tamara Tunie), perceberem algo estranho. Depois de enfrentar uma tempestade na decolagem, o percurso fica mais tranquilo, até o surgimento de um problema técnico. Zemeckis filma esta sequência com perícia, colocando o espectador no meio de uma manobra arriscada para Whitaker tentar salvar sua tripulação. Com o feito realizado, ele acorda numa cama de hospital, sendo logo cercado por policiais e por Charlie (Bruce Greenwood), amigo que trabalha no Sindicato. No hospital, além de receber a visita do amigo traficante Harling Mays (John Goodman, divertido), ele conhece Nicole (Kelly Reilly), cuja ação na primeira parte divide as atenções com as manobras de Whitaker. É esse encontro entre os personagens que Zemeckis pretende filmar e o que o personagem precisa perder para que haja um reencontro com a sua fazenda de infância. Diante do seu estado físico e emocional, ele precisará explicar, com a ajuda do advogado Hugh Lang (Don Cheadle), como conseguiu pilotar se estava sob efeito de drogas. E, aos poucos, como o personagem de Tom Hanks, em Náufrago (com o qual O voo, não só pelo diretor, tem semelhanças, também por seu início), ele irá valorizar determinadas coisas para as quais não dava importância.

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A princípio, O voo está situado num limiar entre a investigação de um acidente e a procura de provas, de ambos os lados, do sindicato e da National Transportation Safety Board (NTSB), que investiga a ação dos pilotos, para se provar ou negar determinadas situações examinadas, e a compreensão de que o personagem de Washington tem problemas alcóolicos que o imobilizam tanto diante de uma nova relação quanto com sua família, que não deseja vê-lo. Parece ser apenas uma recorrência a velhos clichês, mas Zemeckis não verte isso de maneira fácil e o personagem sendo um piloto de avião não se apresenta de maneira tão óbvia. O diálogo entre Whitaker, Nicole e um jovem acometido pelo câncer na escadaria do hospital é especialmente bem construída, com suas peças sendo jogadas aos poucos, até que se convença o espectador sobre cada personagem. No meio de toda sua situação pessoal trágica, encontra-se a crença ou não em Deus e na religiosidade.
Whitaker tenta convencer a todos que só ele poderia realizar a manobra feita e que dependeu apenas de si mesmo, sem nenhuma ajuda divina. Os laudos técnicos lhe dão razão. Mas como Whitaker pode entrar numa reunião de alcóolicos anônimos se ele, na verdade, se considera um herói inatingível, capaz de superar tudo o que pode ser crença pessoal, mesmo independente da religião? É esta medida que o roteiro de John Gatins, indicado ao Oscar, faz de maneira sensível. Neste sentido, O voo não está centrado apenas numa cena jurídica, que pode inocentar ou culpabilizar o personagem central, e sim numa cena de dilemas, ética e crença naquilo que não pode ser rapidamente entendido e no vício que não pode ser enfrentado sem o enfrentamento pessoal e do que ele mesmo próprio acredita (lamenta-se que, nesta etapa, a participação de Kelly Reilly diminua).

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Washington atua de modo excepcional como Whitaker, revelando minúcias e relutâncias de um verdadeiro personagem, pois O voo é um estudo sobre seus movimentos e sobre sua percepção da realidade. Ele é um ator completo num momento especialmente talentoso: seu trabalho com o olhar, demonstrando sua insegurança e angústia, e, ao mesmo tempo, sua raiva contida, é apenas para grandes performances. Num ano com Day-Lewis e Phoenix em grande forma, Washington mostra que não fica nada a dever, construindo um personagem enigmático. Não se trata exatamente de um personagem exatamente confiável, mas com falhas, com problemas na relação com o filho e a ex-mulher e na sua dificuldade de lidar com o que deve ser revisto na sua passagem pelo avião antes do acidente, o que faz com que o espectador se aproxime dele – e em momentos cruciais passe a querer que ele de fato consiga se estabelecer de forma mais equilibrada, sem que isso soe afetado. Sua tentativa de se inserir no meio político para tentar fugir de suas responsabilidades e suas relações atribuladas com o advogado que tenta representá-lo do melhor modo, e no entanto é ignorado quase sempre em cena, são algumas das características que se inserem no trabalho de Zemeckis para demonstrar que na verdade estamos diante de um personagem absolutamente solitário, mas por seu próprio desinteresse em se modificar diante de seu passado.
Lamenta-se apenas que O voo não desenvolva alguns relacionamentos e personagens da melhor forma e insista, ao final, com uma espécie de mensagem para tudo o que aconteceu, menosprezando um pouco a compreensão do espectador e sua liberdade de imaginar que o personagem de Whitaker não é um molde feito para indicar determinados caminhos ou não. Este final é apontado, de fato, como seu grande problema. No entanto, não apaga o que vem antes: O voo é um filme dramático, com ótimo elenco, capaz de prender a atenção e mesmo apresentar uma discussão interessante por trás de sua narrativa.

Flight, EUA, 2012 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo, Nadine Velázquez, Tamara Tunie Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis Roteiro: John Gatins Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Duração: 138 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Paramount Pictures / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia