Blade Runner 2049 (2017)

Por André Dick

Lançado em 1982, Blade Runner – O caçador de androides, de Ridley Scott, teve uma recepção tímida por parte da crítica e do público, mas acabou se transformando num grande cult, uma obra-prima da ficção científica. Visto como um filme intocável, foi estranho à primeira vista imaginar uma continuação, e sem a direção de Scott. Foi ele, como produtor executivo, quem convidou Denis Villeuneuve para estar à frente da sequência. O diretor canadense se notabilizou nos últimos anos por transitar entre gêneros diferentes, em filmes como Polytechnique, Incêndios, Os suspeitos, O homem duplicado e Sicario – Terra de ninguém. No ano passado, ele fez a elogiada ficção científica A chegada, sobre a tentativa de contato humano com extraterrestres.
Por toda a carga de expectativa, ele parecia cada vez o melhor nome para dirigir Blade Runner 2049. Tendo como base o roteiro de Hampton Fancher (que colaborou no primeiro) e Michael Green, baseado nos personagens de Philip K. Dick, o filme mostra um novo caçador, K (Ryan Gosling), um replicante, que trabalha para a tenente Joshi (Robin Wright), da LAPD, e, quando vai atrás de um replicante mais datado, Sapper Morton (Dave Bautista), numa sequência que lembra a de Leon (Brion James) no original, descobre uma árvore com uma ossada escondida embaixo dela.

Levando os dados para sua equipe em Los Angeles, tão chuvosa quanto no clássico de Scott (spoiler até o fim deste parágrafo), descobre-se que seria da replicante Rachael (Sean Young), desaparecida com Rick Deckard (Harrison Ford) muitos anos antes. K, certamente uma homenagem ao segundo nome do autor que criou esse universo (Kindred), vai atrás de dados dela na corporação comandada por Niander Wallace (Jared Leto), assessorado por Luv (Sylvia Hoeks), que segue a linha da Tyrell original. Nisso, um pequeno cavalo de madeira é a pista para lembranças decisivas, em paralelo com o unicórnio da obra de Scott. Há uma analogia desse símbolo com a árvore sustentada por cordas e uma pequena flor que K recolhe perto dela como se precisasse dela para uma pesquisa científica, tamanha a raridade.
Além disso, K tem uma relação cibernética com Joi (Ana de Armas), um programa de computador que reproduz uma imagem feminina, nos moldes de Ela, mas, como os replicantes do primeiro filme, que então só podiam viver em colônias da Terra, deseja, de forma angustiada, ser humano. Para quem gosta do estilo de atuação de Ryan Gosling (o meu caso), Blade Runner 2049 certamente funcionará melhor. Gosling, como nos filmes de Refn (Drive e Apenas Deus perdoa), usa o mínimo de expressões, mas de maneira relevante e sua busca pelo lado humano que pode existir nele é o mote do roteiro e da direção sensível de Villeuneuve. Suas memórias, mesmo implantadas, são o guia desta viagem. A todo instante, a história pergunta se as sensações são reais ou imaginárias.

O diretor canadense nunca apresentou personagens extremamente simpáticos, e sim conflituosos, e aqui não é diferente. K é um Deckard ainda mais frio, mais concentrado na investigação de por que Rachael morreu e quem seria seu elo de ligação – e sua busca por si mesmo dialoga com a do personagem de Scarlett Johansson em Ghost in the shell este ano. Do lado contrário, Luv faz as vezes de Roy Batty, personagem de Rutger Hauer, com um sentido implacável de abreviar a vida de quem pretende descobrir um determinado mistério decisivo para a trama. Eles são opostos que se complementam. K não deixa de ser um Batty às avessas, com sua paixão real não pela própria existência, mas para compartilhar com os outros sua experiência de vida. O afeto que tem por Joi é real, mesmo romântico (numa cena embaixo da chuva, muito bem filmada por Villeneuve), não o que tem Niander por suas criações – o beijo nelas, depois de deslizarem por uma espécie de placenta plastificada, é um sinal de abandono. O corpo é sempre o símbolo de um prazer proibido (spoiler: K vai ver sua musa desnuda apenas num holograma ao final do filme e sua relação com ela, por meio de Mariette (Mackenzie Davis), é quase impessoal).
Seria talvez desnecessário elogiar a parte técnica, que certamente reproduziria a competência mostrada em Blade Runner. No entanto, é obrigatório: o trabalho de Roger Deakins na fotografia e Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch na trilha sonora (captando as sensações daquela clássica de Vangelis) são exemplos notáveis de como ajudar a contar uma história e tornar este um blockbuster sem elementos de blockbuster (talvez por isso como o primeiro tenha estreado mal nas bilheterias). Além disso, os efeitos visuais trazem um realismo poucas vezes visto em tempos de CGI exagerado: as naves espaciais têm uma movimentação verossímil e Villeneuve, como em Sicario, aproveita para fazer tomadas áreas sobre o deserto de maneira particular. E, na parte de efeitos sonoros, há ecos de A chegada, principalmente, embora aqui sejam mais impactantes.

O filme anterior era mais uma perseguição incessante e atmosférica; este é mais uma investigação, e com todas as minúcias do gênero. Menos noir que o anterior, ele sai de Los Angeles e vai para outros lugares, mostrando mais a amplidão de 2049 do que a opressão da metrópole na vida desses personagens. Isso fica claro desde o início, quando K está atrás de Morton numa espécie de fazenda na Califórnia. Como em Sicario, Villeuneuve está interessado em mostrar cenários imensos, em que o horizonte se perde, e nunca deixa de inserir o espectador num universo futurista incontestável. Se no primeiro Los Angeles parecia Tóquio, com uma profusão infinita de neons, em seu retrato cyberpunk, este lembra mais o deserto… de Las Vegas. No apartamento de K, as luzes do lado de fora remetem mais ao filme de 1982, mas Villeneuve não tenta copiar o estilo de Scott, preferindo os ambientes mais assépticos e menos coloridos, sem também as luzes entrando pelas janelas, uma característica das narrativas noir e dos anos 80. A corporação de Niander lembra muito a do original, mas, ainda assim, parece mais labiríntica, como se a identidade das pessoas se perdesse em corredores e salas frias. Villeneuve sempre foi cuidadoso com o design, mas ele se supera em Blade Runner 2049, levando o espectador realmente para outro universo, com certa influência ainda de Inteligência artificial, na maneira como torna os ambientes desolados e, sobretudo, na sequência passada em Las Vegas, quando há também referências musicais por meio de hologramas e aos duelos de faroeste, que, se resolvidos, só poderiam terminar na mesa de um bar. Em determinado momento, também há uma referência pertinente à exploração do trabalho infantil, porém sem nenhum traço facilitador ou piegas, numa ilha de sucata remetendo a Eraserhead, de Lynch, contrastando com uma reunião de crianças imaginária ao redor de um bolo de aniversário.

Embora Leto e Hoeks tenham participações breves, ambos estão muito bem, assim como Ana de Armas e Robin Wright. Já Harrison Ford, voltando como Deckard, é particularmente emocionante, mais do que sua retomada como Han Solo em Star Wars. Este elenco conserva uma particularidade pessoal, tornando Blade Runner 2049 numa obra bastante independente da primeira, apesar dos óbvios diálogos visuais e temáticos. Se o de Scott tinha uma atmosfera mais pessimista, o novo é mais esperançoso, mas não no sentido do lugar-comum e sim na maneira como visualiza principalmente o trajetória de K. Este é um personagem que amplia a solidão anunciada no clássico de 1982 e, mais ainda, sinaliza para um futuro real. A longa duração (quase 50 minutos a mais que o original) não prejudica; pelo contrário, torna as sequências mais definidas e compostas com um cuidado extremo, fazendo com que cada uma ressoe junto ao espectador. São belas principalmente as que trazem simbologias, como o fogo (nas lembranças de K) e a água (representando a morte e a vida), encontrando na neve (imaginária ou não) o meio-termo para as lágrimas na chuva, da mensagem de Batty, que tanto comovia minha mãe, admiradora do primeiro filme e que, imagino, apreciaria muito também esta nova obra-prima. É um filme que, à medida que é assistido, cresce na imaginação: nunca um replicante do primeiro, mas uma obra grandiosa.

Blade Runner 2049, EUA, 2017 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Ryan Gosling, Harrison Ford, Robin Wright, Ana de Armas, Sylvia Hoeks, Jared Leto, Dave Bautista, Edward James Olmos, Wood Harris, Mackenzie Davis, Hiam Abbass, David Dastmalchian, Tómas Lemarquis Roteiro: Hampton Fancher e Michael Green Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer Produção: Andrew A. Kosove, Broderick Johnson, Bud Yorkin, Cynthia Yorkin Duração: 163 min. Estúdio: Warner Bros. Distribuidora: Sony Pictures

A chegada (2016)

Por André Dick

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O diretor canadense Denis Villeneuve vem se transformando num dos nomes mais cultuados do cinema, principalmente desde seu ingresso em Hollywood, com Os suspeitos, seguido por O homem duplicado e Sicario – Terra de ninguém. Antes de lançar a continuação aguardadíssima de Blade Runner, para a qual foi convidado pelo diretor Ridley Scott, Villeneuve apresenta uma ficção científica com roteiro de Eric Heisserer (Quando as luzes se apagam), baseado no conto Story of your life, de Ted Chiang, que vem, desde seu lançamento em Veneza, transformando-se no que foi Gravidade em 2013 e Interestelar em 2014, para não falar no interessante, embora falho, Perdido em Marte em 2015. Todos esses filmes tiveram grande recepção, inclusive indo ao Oscar ou ganhando outros prêmios importantes.
A narrativa já começa em alto movimento, mostrando os passos da linguista Louise Banks (Amy Adams), especialista em tradução, que é procurada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para que possa fazer parte de uma equipe em que se encontra também o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), a fim de tentar estabelecer contato com uma espaçonave alienígena nos arredores de Montana, onde se montou um grande acampamento militar. Há doze dessas espaçonaves ao redor do mundo, e é inevitável, por mais que esta seja uma ficção arthouse, que A chegada acaba lembrando Independence day involuntariamente. Na verdade, há muitos momentos de A chegada que remetem a outras ficções conhecidas, como Contato, Interestelar e, claro, o clássico Contatos imediatos do terceiro grau. Mais ainda: não apenas pela dupla central, como pela atmosfera, A chegada deve muito a Arquivo X.

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Não se está em questão, porém, a originalidade, já que a ficção científica tem passos semelhantes em muitos filmes – para dar um exemplo, Shawn Levy, que produz e dirige alguns episódios de Stranger things, está entre os produtores. Trata-se da pretensão. Em nenhum momento, a fotografia de Bradford Young se contenta com menos do que aparentar ser esta a ficção científica definitiva, e Villeneuve tenta oferecer ares de Solaris a alguns momentos, com toques de 2001, sobretudo quando se mostra a espaçonave. A trilha sonora de Jóhann Jóhannsson procura o mesmo caminho, com um tom grave oferecido a cada momento, acompanhado pelos efeitos sonoros muitas vezes aterradores, sem esquecer uma certa emoção em momentos decisivos.
Villeneuve, no entanto, ao contrário do que acontece em sua adaptação de Saramago em O homem duplicado, não torna essa narrativa aparentemente fácil em algo complexo. Sabemos que a equipe está em Montana para estabelecer esse contato e o que vemos são as tentativas, mas sem o envolvimento com os personagens e sim um afastamento que alguns poderiam chamar de malickiano. No entanto, Malick consegue, por meio de personagens às vezes vagos, constituir um panorama. Parece ser isto o que falta ao filme de Villeneuve, que se sustenta no contato da equipe com os alienígenas, baseado-se na linguagem que eles têm a oferecer para que não soe igual a outros. Este é o contato entre linguagens, seguido pelo possível atrito entre nações diferentes.

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A chegada lembra um pouco Prometheus: Villeneuve aproveita elementos daquele (na imponência da espaçonave sobre a montanha, por exemplo, na questão de Deus existir ou não na solidão do espaço sideral e na perda de um ente querido, no caso de Prometheus, do pai da arqueóloga, e no caso de A chegada da filha da linguista). Os efeitos visuais, em alguns momentos, são notáveis, embora os alienígenas, apelidados de Abbott e Costello, pareçam lembrar excessivamente os aracnídeos de O homem duplicado e todo o diálogo com eles ser excessivamente hermético e mostrado ao espectador como se estivesse diante de uma tela de cinema – nesse sentido, é uma ficção também metalinguística. Perceba-se, nesse sentido, como a nave espacial lembra o formato das lâmpadas da casa de Louise e num determinado momento ela parece encarnar o personagem de Gyllenhaal de O homem duplicado, entre o sonho e a realidade. Há momentos de poesia, como aquele em que um dos tentáculos do alien se transforma numa espécie de estrela do mar; no todo, contudo, falta uma variação de cenários, tudo se situando entre a parte interna da espaçonave e o acampamento militar, além de o grande empecilho, o agente Halpern (Michael Stuhlbarg), ser excessivamente previsível.
No elenco, Adams tem uma boa atuação, apresentando uma dramaticidade já vista em DúvidaTrapaça e Grandes olhos, por exemplo. Apesar de sua personagem ser fascinante, ela não atinge o mesmo caminho daquelas que Villeneuve mostrava como principais em Polytecnique e Sicario, esta com uma Emily Blunt na melhor fase de sua carreira. Já Renner é um ator subaproveitado aqui, assim como Whitaker, mesmo que ambos sejam adequados.

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Villeneuve é um diretor muito consciente de seu ofício e seus experimentos não raramente evocam de outros diretores: Os suspeitos é um David Fincher mais pop, enquanto Sicario é uma espécie de encontro entre Kathryn Bigelow e Steven Soderbergh, e mesmo o excepcional Polytecnique tem suas bases claras em Elefante, de Gus Van Sant. Ou seja, ele se mostra um diretor com claras referências, embutindo em todos o seu estilo próprio, inconfundível: uma certa lentidão europeia para tratar de temas espinhosos. Quando aqui ele tenta, por um lado, equivaler seu filme a obras-primas do cinema de ficção científica, por outro, acaba não encontrando o tom certo por vezes. É visível o seu desconforto com o roteiro e a tentativa de ser antilinear sem conceder ao espectador o momento certo de adivinhar a reviravolta.
O grande problema parece ser a indefinição de Villeneuve entre a ficção hermética e a mais emocional. Ele mantém o melhor para o ato final, em que convergem sinais de esperança na humanidade e uma delicada lembrança do que significa a ligação entre as pessoas. Há um choque de emoção que quase inexistia antes e, se talvez o filme fosse uma lembrança, ele pudesse crescer na memória. Seu cerebralismo excessivo se contrai quando sabemos que por trás de sua narrativa há esta tentativa de se estabelecer contato com um universo conhecido previamente, mas quando surgem analogias a partir da aproximação humana seu sentimento cresce de maneira incontornável.

Arrival, EUA, 2016 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Michael Stuhlbarg, Forest Whitaker, Mark O’Brien Roteiro: Eric Heisserer Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Aaron Ryder, Dan Levine, David Linde, Karen Lunder, Shawn Levy Duração: 116 min. Distribuidora: Sony Estúdio: 21 Laps Entertainment / FilmNation Entertainment / Lava Bear Films

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Sicario – Terra de ninguém (2015)

Por André Dick

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Foi a partir de Os suspeitos, em 2013, que o diretor Denis Villeneuve, nascido no Canadá, se firmou, pelo menos junto ao público, como um dos cineastas a serem acompanhados no cinema moderno. Particularmente, O homem duplicado, baseado no romance de José Saramago, seu filme seguinte, parece uma obra ainda melhor realizada tecnicamente, com uma temática de busca pela personalidade, ou antipersonalidade. Mas é em Polytecnique, já filmado com uma excelência técnica apesar do baixo orçamento, qualidade que se repetia em Incêndios, mas neste sem o mesmo impacto, que Villeneuve vai buscar um diálogo para a personagem central de Sicario – Terra de ninguém, a agente do FBI Kate Macer, que trabalha no combate às drogas.
Depois de uma operação no Arizona em que ela é exposta a uma realidade mais chocante do que imaginava, ela é recomendada por seu chefe, Dave Jennings (Victor Garber), a se apresentar a Matt Graver (Josh Brolin), de uma divisão especial da CIA sob comando do governo, a fim de fazer parte de um grupo que irá combater o cartel de drogas no México, junto com o amigo Reggie Wayne (Daniel Kaluuya), com a ajuda também de Alejandro Gillick (Benicio Del Toro). Como a personagem central de Polytecnique, Kate não consegue se encaixar com tranquilidade num universo predominantemente masculino e ameaçador.

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Ela é convocada para a missão de encontrar traficantes, sem ao certo nunca saber o que de fato está realizando, mesmo que a pressuposta figura a ser combatida seja a do chefe de cartel Manuel Díaz (Bernardo P. Saracino). Seu ingresso na missão se deve a uma crença de que indo à origem do tráfico de drogas para os Estados Unidos pode estar modificando não apenas o direcionamento das vítimas que ele causa, como também pode estabilizar a vida como agente.
Auxiliado por uma fotografia habitualmente notável de Roger Deakins, seu habitual colaborador, Villeneuve tenta fazer uma mistura de Heli, Traffic, Onde os fracos não têm vezes e A hora mais escura. Principalmente o menosprezado (e ótimo) Heli serve de inspiração para muitos momentos de Sicario, inclusive na fotografia febril de Deakins, como se escolhesse sempre a luz natural do sol, sem intermediações, simbolizando o mormaço. Quando Villeneuve mostra a chegada em caminhonetes da equipe de Matt, Alejandro e Kate ao México, mais especificamente na cidade de Juárez, essa influência é perceptível, não apenas pelas imagens que lembram um documentário, como também por uma exposição assustadora de vítimas do tráfico de drogas. Se Escalante, no entanto, foi criticado em Heli pela violência mais crua, Villeneuve prefere atenuar as imagens com uma espécie de estilo que evoca um thriller. Ou seja, é como se Kate estivesse chegando a uma base militar de A hora mais escura – e há uma profusão de imagens que recorrem ao filme de Bigelow, principalmente aquelas que mostram prisioneiros por trás das grades. Não que já não houvesse elementos que poderiam dialogar com Bigelow em Incêndios, mas a pressão de Villeneuve tem forte influência do cinema daquela diretora.

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Em igual escala, a personagem Kate tem um diálogo com a detetive interpretada por Jessica Chastain no sentido de que não é possível saber da sua vida pessoal; ela é uma personagem que tem como limite a própria situação em que está inserida. Mesmo que os personagens sejam misteriosos, ainda melhores são as atuações de Blunt, Brolin e Del Toro, todos igualmente muito bem, assim comol Kaluuya, na persona de Reggie, amigo de Kate. Del Toro, de todos, é o mais atento ao que se pode chamar de configuração real de um personagem, com uma presença hipnótica em cena – como em 21 gramas e O lobisomem, ele atua muitas vezes apenas com o olhar –, embora Blunt consiga extrair muito de um papel bastante reduzido em termos de diálogo, entregando a melhor atuação desde Meu amor de verão, há mais de uma década atrás, quando ainda filmava mais na Europa. Brolin, por sua vez, mostra mais uma vez que se trata de um dos coadjuvantes mais centrais dos últimos anos, principalmente neste e em Vício inerente.
Impressiona como Villenuve tem uma variação no estilo, pois Sicario se sente completamente diferente de seus outros filmes no tom visual e em seu roteiro, além do uso de uma música atmosférica de Johan Jóhannsson, dialogando com o peso das imagens, principalmente aquelas em que as locações são vistas do alto (num diálogo com Amor sem escalas). Villeneuve tenta sempre contrapor os personagens isolados a cenários semi-habitados ou que parecem (apenas parecem) abandonados, a exemplo de uma rodoviária noturna, quando também dialoga com Traffic, de Soderbergh.
O roteirista Taylor Sheridan tem certa dificuldade de explorar os caracteres dos personagens, por outro lado o que seu roteiro não entrega Villeneuve e Deakins transformam em sugestão visual – e muito forte, a começar por uma passagem pela fronteira dos Estados Unidos com o México, cercada por uma tensão desenfreada. E mantém-se a essência: este é um dos melhores filmes sobre o tema de combate às drogas.

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Há uma dualidade nunca resolvida por Villeneuve e os personagens não sabem exatamente se são bons, ou se apenas sua finalidade – a eliminação do tráfico – é boa, com métodos falhos. Sicario se fixa sempre nos procedimentos a serem adotados, e eles podem reservar uma indefinição quanto à finalidade, o que fica subentendido pelo próprio título, que pode tanto remeter ao uso de armas escondidas quanto, etimologicamente, ao estado em que os personagens estão mergulhados desde o início e à finalidade com que alguns deles podem atuar neste cenário desolador. Habitualmente, os personagens principais dos filmes de Villeneuve são solitários, e Kate é um exemplo bastante propício para estender esse argumento – como também a mãe de Incêndios.
Para ela, qualquer fuga às tarefas de agente podem representar um perigo, como se ela não estivesse preparada para a realidade. O relacionamento de amizade que estabelece com Alejandro parece mais ligado a uma insegurança familiar e Villeneuve é muito efetivo ao despertá-la na narrativa de Sheridan. Ainda assim, é notável como o cineasta consegue criar uma cena de tensão num determinado local capaz de evocar a transição e a pulsação nervosa de James Cameron com a câmera em Aliens. Villeneuve utiliza o cenário para mostrar como a personagem não pode se libertar da verdadeira natureza própria. Ora, o filme não trata de uma mulher oprimida ou não – trata-se de alguém que quer seguir as leis num universo onde não há leis. Na visão de Villeneuve, a guerra a ser mostrada e combatida em Sicario está mais próximo do que se imagina, evidentemente mais ainda para a diplomacia dos Estados Unidos que parece despreocupada com o que acontece a seu lado. Sicario se concentra em determinadas ações e, ao mesmo tempo que mostra uma possível realidade, lança o espectador numa tentativa de refletir longe do cenário apresentado sem, no entanto, oferecer qualquer alívio completo. Mesmo com percalços no roteiro, é cinema de alta qualidade.

Sicario, EUA, 2015 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Jon Bernthal, Jeffrey Donovan, Victor Garber, Raoul Trujillo, Maximiliano Hernández, Daniel Kaluuya Roteiro: Taylor Sheridan Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Basil Iwanyk, Edward McDonnell, Molly Smith, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill Duração: 121 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Black Label Media / Thunder Road Pictures

Cotação 4 estrelas

 

O homem duplicado (2013)

Por André Dick

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Baseado num romance de José Saramago, O homem duplicado foi filmado quase simultaneamente com Os suspeitos, do mesmo diretor canadense Denis Villeneuve, tendo novamente a presença de Jake Gyllenhaal, mais conhecido por O segredo de Brokeback Mountain, que costuma ser um ator menos valorizado do que deveria: além de possuir um ar um tanto descompromissado, consegue passar uma ideia sempre de insegurança e de conflito emocional, como vemos em Donnie Darko e Zodíaco. Não se trata de um tipo de interpretação fácil, por mais que pareça, e cada vez que o vemos em cena percebemos certamente alguém em evolução dentro de seu campo, procurando novas nuances.
Talvez no melhor momento de sua carreira, ele interpreta Adam Bell, um professor universitário de História que determinado dia se depara com um duplo (como no recente filme, bastante interessante e baseado por sua vez em Dostoiévski, com Jesse Eisenberg), chamado Anthony Claire, que trabalha como ator. O encontro se dá porque um colega de trabalho comenta sobre um filme, e Adam vai à locadora alugá-lo. O filme tem Anthony como coadjuvante, e Adam procura, nos créditos finais, o seu nome completo e passa a tentar encontrá-lo.
Ele é casado com uma mulher que está grávida, Helen (a ótima Sarah Gadon, que interpreta a esposa do milionário feito por Pattinson em Cosmópolis), enquanto o professor namora uma executiva, Mary (Mélanie Laurent, menos aproveitada), a qual encontra quase sempre à noite, num apartamento bastante escuro em uma Toronto com tons amarelos. No entanto, esta é a ordem que vemos antes de tudo se tornar um pouco mais caótico – e a epígrafe inicial pode ajudar nesta proposta. Com elementos claros da obra de David Cronenberg (como A mosca e Gêmeos – Mórbida semelhança), mas até certo ponto melhor desenvolvidos, como a obra recente de Shane Carruth, Cores do destinoO homem duplicado é um raro filme que não se enquadra em nenhum gênero específico: ele desliza do drama para o suspense e mesmo para um sentimento aterrorizante, com excelentes efeitos especiais e a fotografia notável de Nicolas Bolduc.

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Villeneuve havia escolhido o mestre Roger Deakins para fazer a fotografia de Os suspeitos, mas, enquanto neste a trama evoluía para várias direções e acabava, em determinado ponto, se perdendo, em O homem duplicado, justamente por seu minimalismo, parece haver um crescimento na proposta de Villeneuve, também conhecido por Incêndios, um filme razoavelmente difícil, embora já demonstre suas características. O diretor certamente gosta de investigar questões familiares e a duplicidade do ser humano – em que um psicopata pode se esconder num bairro aparentemente tranquilo e influenciar quem está a seu redor a também ter um questionamento duplo sobre suas próprias ações.
Em O homem duplicado (breves spoilers neste parágrafo), Adam e Anthony representam duas visões: a do professor, imobilizado pelas aulas repetitivas, e a do ator, que pretende se vestir de modo diferente para interpretar papéis distintos. O professor se divide entre explicações sobre o funcionamento do domínio de opinião e Hegel – passando para a metafísica. Era Hegel quem dizia que o Ser é a pura indeterminação, e Adam Bell vive sempre numa indeterminação sobre quem realmente é, o que possivelmente ajude a esclarecer que a história não começaria por seu final, mas simboliza a representação dupla de um inconsciente. Também é sugestivo que Villeneuve tenha mudado o nome do personagem de Saramago (Tertuliano Máximo Afonso) para Adam com o intuito não apenas de simplificá-lo, como também de evocar o nome do primeiro homem segundo o relato bíblico – embora aqui a maçã esteja cercada por aranhas. Nesse sentido, O homem duplicado dá a sensação de reproduzir a mente de um professor que pretendia ter a criatividade de um ator para encobrir relacionamentos e romper qualquer desejo de compromisso.

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É interessante como a direção de arte dialoga com o símbolo central do filme. Podemos ver os postes de eletricidade de Toronto, assim como os guindastes de construção e um vidro de carro quebrado como teias, assim como se pode observar as cadeiras, as luminárias e as paredes e cortinas dos apartamentos – veja a visita de Adam à sua mãe, feita por uma Isabella Rossellini, em homenagem indireta a David Lynch, certamente inspiração para o filme. Do mesmo modo, vemos o professor, em alguns momentos, num clube noturno, que evoca Clube da luta, de David Fincher, em que uma stripper pode pisar sobre uma aranha com seu salto alto, numa espécie de reprodução do inconsciente dele.
O cenário da cidade do filme acaba parecendo envolvido sempre por uma grande teia – e o amarelo da fotografia de Bolduc se mescla a uma sensação de afastamento do mundo e de uma escapada para a análise em que a mente do ser humano adentra numa espécie de escuridão ameaçadora. Esta simbolização foge a Saramago, mas encontra, na verdade, o cinema de Villeneuve, bastante preocupado em usar símbolos para revelar determinada proposta – em Os suspeitos, eram terríveis cobras em determinado momento. As aranhas, aqui, são o símbolo do filme, representando as mulheres, e o homem sempre tenta escapar sem que elas percebam. No entanto, a interpretação bíblica vem novamente à tona: em determinado momento, Mary, num ônibus, usa um salto alto com couro de cobra, enquanto é observada por Anthony.
É como se Adam e Anthony estivessem sempre ameaçados pelo casamento e pela fidelidade que não podem cumprir e, apesar de não haver reviravoltas envolvendo crimes diversos, a sensação que o espectador tem, diante de O homem duplicado, é estar vivenciando um thriller psicológico no qual tudo isso pode acontecer, mas não exatamente num plano real ou que conduz a investigações policiais claras, como num suspense de Hitchcock.

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O filme de Villeneuve se presta a inúmeras interpretações, e elas, de forma justificada, crescem, a cada espectador, criando quase um filme paralelo ao oficial. Se pode haver um certo ar previsível nesta tentativa de confundir, Villeneuve acertadamente não transforma esses enigmas numa justificativa para não fazer um grande filme, um thriller com poder sensorial, cuja tensão é opressora e vai sendo criada com o andamento de uma narrativa que nunca se esclarece, e faz por bem adotar esse caminho, a fim de não reduzir o olhar sobre a própria obra. Há uma maior proximidade com Cidade dos sonhos, de Lynch, do que com A passagem, de Marc Forster, uma derivação com Naomi Watts e Ryan Gosling, em que a confusão não justificava uma trama sobretudo mal distribuída. Ao mesmo tempo, se havia problemas em Os suspeitos, em razão dos excessos de metragem e de tentativas de fazer reviravoltas, O homem duplicado cresce justamente por causa de seu minimalismo, oposto à literatura de Saramago (do qual Villeneuve preserva o trabalho simbólico, mesmo que reinventado): quando se vê, o filme passou de forma tão ágil que gostaríamos logo de retomá-lo para tentar procurar outras pistas para o esclarecimento (nunca total, apesar de diversas interpretações) da obra. Talvez seja justamente o caminho mais adequado de Villeneuve, neste que é um dos melhores filmes do ano, por tudo aquilo que oferece, tanto num primeiro quanto num segundo (e possivelmente necessário) olhar.

Enemy, CAN/ESP, 2013 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini Roteiro: Javier Gullón Fotografia: Nicolas Bolduc Trilha Sonora: Danny Bensi, Saunder Jurriaans Produção: M.A. Faura, Niv Fichman Duração: 90 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Mecanismo Films / Rhombus Media / Roxbury Pictures

Cotação 5 estrelas