The normal heart (2014)

Por André Dick

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Nos últimos anos, os filmes e séries feitos para a televisão têm ocupado um espaço considerável, tanto pela qualidade quanto por trazerem uma quantidade considerável de atores mais conhecidos por participações em produções de Hollywood. Isso também se deve ao fato de diretores do cinema fazerem séries ou produções para a TV, como Michael Mann (no polêmico Lucky ou na antiga Miami Vice), Joss Whedon (Buffy – A caça-vampiros), J.J. Abrams (criador de Lost), Steven Spielberg (Band of Brothers) ou Steven Soderbergh (Behind the Candelabra). Toda a tendência parece indicar que a televisão virou também um segundo meio de divulgação do cinema, sem nenhum demérito; não por acaso nunca se produziram tantos filmes a partir da virada do século e, consequentemente, tantas séries e filmes de TV. No entanto, considerar que hoje fazem séries do que épocas passadas não corresponde à verdade: os casos mais exatos são os de Twin Peaks e Arquivo X, séries que se situavam entre a realidade e o onirismo, no caso da primeira, ou da ficção científica, no caso da segunda, mas poderiam ser citadas outras, como  a fantasiosa e subestimada Surface (de início dos anos 2000), ou a antológica Freaks and geeks (de Judd Apatow, que depois faria O virgem de 40 anos, e Paul Feig, de Missão madrinha de casamento), feito na linha de outra clássica, Anos incríveis.
Nos últimos anos, o caso mais bem-sucedido de uma série plenamente cinematográfica, particularmente, é Sherlock (graças a dois atores também conhecidos por seus filmes de cinema, Benedict Cumberbatch e Martin Freeman), cuja qualidade é dificilmente alcançada. Tudo isso leva a crer, por outro lado, que materiais que poderiam perfeitamente ser lançados no cinema – com sua qualidade de elenco e roteiro – às vezes são lançados na TV, havendo uma certa restrição (pois a divulgação do cinema é muito maior e ressonante) e de certa injustiça, uma vez que as obras feitas diretamente para esse meio não adquirem uma história específica como um filme de cinema, apesar de serem de qualidade. Ou seja, eles costumam sobreviver apenas no período de dois ou três anos – pelo menos de maneira mais ampla.

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Este não parece ser o caso de The normal heart, baseado numa peça teatral de Larry Kramer, e que conta com Mark Ruffalo à frente do elenco. Ele interpreta Ned Weeks – um alter ego de Kramer –, numa história que inicia em 1981, numa festa de aniversário de Craig Donner (Jonathan Groff), em Long Island, o período que marca o momento que deflagra as relações homoafetivas. É o ano seguinte de outro filme que mostra esse período, sobretudo os clubes noturnos de Nova York, Parceiros da noite, de William Friedkin, com Al Pacino. No entanto, se este filme causou, em seu período de lançamento, celeuma por rotular a comunidade gay de Nova York, The normal heart procura uma determinada ênfase na doença que começa a se alastrar nesse período, desconhecido e ainda sem nome, que viria a ser chamada de Aids. Ned procura uma doutora, Emma Brookner (Julia Roberts), especializada nesses casos, justamente porque parece ter sintomas dela. Numa breve relação inicial, ele já se mostra interessado em falar da doença e dos casos graves que cercam a doença. O principal mote é de que seria um “câncer gay” – o que causa medo na comunidade. Ned conhece um jornalista, Felix Turner (Matt Boomer), enquanto faz uma parceria com Bruce Niles (Taylor Kitsch) , um banqueiro, Mickey Marcus (Joe Mantello) e Tommy Boatwright (Jim Parsons), para abrir a  Gay Men’s Health Crisis (GMHC). Esta comunidade realmente existiu, e teve a ajuda da criação de Kramer, autor de The normal heart.
Lendo-se comentários de The normal heart, é possível notar que o principal ponto de crítica ou de elogio é a sua dramaticidade. Diante das situações reveladas, o diretor Ryan Murphy realmente segue o caminho de uma comoção. No entanto, ela poderia redundar em dois detalhes: afundar o elenco ou a própria história. Com uma agilidade na montagem que lembra a de Zodíaco, embora sem o mesmo poder de concentração de Fincher, Murphy faz um trabalho, em termos dramáticos, muito mais forte e contundente do que aquele mostrado por Jonathan Demme em Filadélfia, por exemplo, mesmo com a atuação precursora de Hanks, e também se mostra mais interessado em expor as dores da primeira geração atingida pela doença do que Clube de compras Dallas.

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Nesse sentido, o filme de Murphy parece, sem exagero, aquele definitivo sobre o tema, e o elenco, sem exceções, tem o melhor momento de sua carreira. Ruffalo tem um tour de force com seu personagem, mas não menos comoventes são Boomer e Molina como Ben, irmão advogado de Ned e, numa atuação surpreendente (pois não modifica sua entonação de humorista e mesmo assim consegue se transplantar para este universo mais grave), Jim Parsons, como Boatwright. Este elenco é, numa palavra, fabuloso – e leva The normal heart para outro nível. Se em determinados momentos a produção é um pouco mais modesta, Murphy nunca desperdiça os cenários e seu filme adota uma passagem muito interessante dos anos 70 (a redação de jornal onde trabalha Turner ecoa Todos os homens do presidente e, consequentemente, Zodíaco, e o diretor de fotografia tenta emular em determinados momentos Gordon Willis e Harris Savides, também no uso das cores azul e cinza) para os anos 80, sobretudo na maneira como grava, de forma realmente viva, os conflitos entre os personagens, parecendo não exatamente um documentário, mas uma peça teatral (seu ponto de origem) vigorosa.
A maneira como Murphy mostra a relação entre Ned e Felix, a tentativa do primeiro em alertar as autoridades e seus conflitos com Bruce, ou o posicionamento da Dra. Brookner, depois de negarem novas verbas para sua pesquisa, é dilacerante de todos os modos. Poucas obras revelam essa procura do ser humano pelo entendimento diante da ameaça da morte, e com tanta sensibilidade, assim como nunca deixa de mostrar os resultados da doença – o que, se por um lado, poderia indicar uma exploração de Murphy, acaba sendo inserido na narrativa de modo avassalador.
O início, na festa na beira da praia em Long Island, será talvez o único momento de real liberdade que ele proporciona – depois disso, Murphy não procura restringir os personagens a ícones de um movimento, mas ligados, de maneira claustrofóbica, a um entendimento do que estão enfrentando. As cenas em que o corpo (ou os corpos) aparece(m) desempenham outra função dramática – para Ryan Murphy, e isso também poucos filmes mostram tão bem, o corpo cada vez mais afetado por uma doença nunca leva consigo a afetividade entre duas pessoas, ou seja, esses personagens mostram que as relações se fundamentam numa busca de algo além.

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Nisso, há sentimentos de culpa de todas as partes, e de fato uma predisposição dos personagens a enfrentar cada situação também de modo político, a fim de que a contagem dos afetados pela doença não seja meramente um número. Isso se deve sobretudo à época em que doença começou a se proliferar nos Estados Unidos, enfrentando a época no governo de Ronald Reagan e de uma certa Guerra Fria também contra o que o Estado gostaria de negar como sendo parte de sua responsabilidade: buscar pesquisas realmente eficientes para obter medicamentos que possam pelo menos atenuar a doença e reconhecê-la como tal (o que demorou a acontecer) para de fato enfrentá-la. Em termos políticos, a maior proximidade poderia ser feita com Milk, que deu o Oscar de melhor ator a Sean Penn. No entanto, Murphy se mostra um cineasta mais maduro, no sentido de explorar este tema, do que Van Sant, um cineasta bastante eficiente em traduzir personagens por meio de símbolos, mas que em Milk se sente menos efetivo. Em certos momentos, é possível ver uma maior proximidade com um filme intitulado Felizes juntos, dos anos 90, de Wong Kar-Wai, que mostrava a relação entre dois homens em Buenos Aires, e nos conflitos emocionais com O segredo de Brokeback Mountain, que contava também com grandes atuações de Gyllenhaal e Ledger.
E seu impacto se deve sobretudo às performances diferenciadas de Ruffalo, Kitsch, Boomer, Roberts e Parsons, que realmente resgatam uma certa dramaticidade sensível que anda escondida em Hollywood. Cada vez que eles aparecem em cena The normal heart mostram que este, mais do que o retrato de uma geração, é um grande filme.

The normal heart, EUA, 2014 Diretor: Ryan Murphy Elenco: Mark Ruffalo, Julia Roberts, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Jim Parsons, Alfred Molina, Jonathan Groff, Denis O’Hare, Joe Mantello Fotografia: Danny Moder Trilha Sonora: Cliff Martinez Produção: Scott Ferguson Duração: 133 min. Distribuidora: HBO

Cotação 4 estrelas e meia

Clube de compras Dallas (2013)

Por André Dick

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Ainda que tenha surgido na década de 80, como uma doença devastadora e ocasionando pouco tempo de vida para seus portadores, a Aids nunca chegou a ser abordada com grande interesse em filmes. Ainda hoje, o filme mais conhecido a tratar dela é Filadélfia, de duas décadas atrás, com a atuação oscarizada de Tom Hanks e que não chega a ser considerado uma referência, apesar da qualidade de seu elenco e da trilha musical com canções de Bruce Springsteen. Em As horas, importante lembrar, também temos o personagem do escritor interpretado por Ed Harris num diálogo com o passado de um dos personagens, enquanto tenta conviver com a doença. No ano passado, quando Clube de compras Dallas foi lançado, surgiram as inevitáveis comparações e a certeza de estarmos diante de um drama sobre a vida ameaçada pela Aids com condições de trazer um amplo debate. Apesar de seu diretor,  o canadense Jean-Marc Vallée (A jovem rainha Vitória), ser pouco conhecido, o filme foi reunindo admiradores, por seu tom independente, com a atuação de Matthew McConaughey como Ron Woodroof, que participa de rodeios, trabalha como eletricicista e determinado dia, ao se ver colocado numa cama de hospital, descobre, depois de fazerem exame de sangue, que contraiu a doença. Com a atitude de um caubói, no entanto, ele irrompe pela porta do quarto na certeza de que não será derrotado – e McConaughey desenha os movimentos do personagem com propriedade, entre o nervoso e o tranquilo, como faz desde seus passeios noturnos em Jovens, loucos e rebeldes.

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Este é o início do filme e contempla boa parte do que veremos ao longo da narrativa, com a ligação de Ron com uma médica deste hospital, Eve Saks (Jennifer Garner, em uma interpretação convincente), que não pode distribuir remédios capazes de ajudar no combate à Aids, ainda não liberados, à época, nos Estados Unidos. Ron precisa tomar uma série de decisões para aquilo que o médico, Dr. Sevard (Denis O’Hare), lhe determina: seu prazo de vida é de 30 dias. Esta contagem inicial dos dias dados pelo médico oferece ao espectador uma espécie de luta contra o tempo, no que o diretor tem uma eficiente saída, intercalando imagens de Ron sendo excluído de determinados convívios sociais, um peso dado ao filme de forma certamente contida, mas ainda assim interessante, além da sua dependência de drogas. Além disso, acostumado ao uso dessas, o personagem principalmente se vê na condição da procura de drogas químicas para impedir a concretização do prognóstico hospitalar, e entra em contato com o AZT. Quando Ron encontra um transexual, Rayon (Jared Leto), a sua vida ingressará numa corrida contra o tempo não apenas para ele, mas para diversas pessoas.
Para quem não acompanhou o início da carreira de McConaughey, talvez tenha sido William Friedkin que o transformou em grande ator com Killer Joe. Mas quem realmente conseguiu aproveitar o ator em seu melhor momento foram Jeff Nichols em Amor bandido e Jean-Marc Vallée em Clube de compras Dallas. Aqui McConaughey tem o papel de sua trajetória, iniciada ainda nos anos 90, quando foi comparado a Paul Newman, em papéis de Contato e Tempo de matar, inclusive com um figurino e o chapéu de caubói que remetem – e Vallée não estava desatento a isso – à figura de Killer Joe, assim como à sua participação em Lone Star – A estrela solitária. Depois de participar de várias comédias românticas, nos últimos anos ele passou a se tornar um ator de papéis mais restritos. Embora McConaughey já inicie o filme bastante magro, sua transformação ao longo dele é bastante plausível, oferecendo ao espectador mais uma condição do que uma atuação modesta. Como este personagem, ele consegue uma empatia com o espectador, mesmo com suas atitudes voltadas a uma certa prepotência e displicência do trato pessoal.
Em nenhum momento, e nisto podem se basear algumas críticas, Clube de compras Dallas se torna pesado a ponto do que seria os efeitos da Aids. Jean-Marc Vallée tem isso como um ponto claro. Isto, na verdade, evita que o filme se transforme em uma exploração gratuita dos danos que ela ocasionou nos anos 80, e continua ocasionando. O filme prefere explorar como uma pessoa pode estar à beira da morte, num contexto sobretudo de a doença ser recente, e não poder se medicar de forma conveniente em razão da indústria farmacêutica vagarosa ao tentar lidar com, senão a cura, paliativos para a doença. Nesse caso, a presença da AFA é vital para se entender este monopólio da indústria e a figura do Dr. Vass (Griffin Dunne, excelente) uma presença interessante.

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Por outro lado, não se eleva o personagem de Ron a um pedestal inalcançável de ajuda humana – o objetivo dele é enfocar como a ajuda pode também estar ligada a um contexto equivocado, mas quando se lida com a morte os limites perdem sua localização. Clube de compras Dallas também lida com o fato de que no início da doença os homossexuais eram vistos como aqueles mais suscetíveis à doença, e o preconceito desencadeado por isso. É interessante, por exemplo, no início do filme Ron satirizar o fato de Rock Hudson, astro de Hollywood, ter morrido por causa da doença, logo revelando a inaceitação, e, ao longo do filme, ter de lidar com o próprio preconceito.
Deste modo, se por um lado o filme trata da história de Ron, a partir de determinado ponto, ficamos diante daquilo que dificilmente pode mudar e atinge diretamente a liberdade e as escolhas do indivíduo, a sua inserção na sociedade e como ela pode excluir o indivíduo quando a vida passa a valer apenas um pote de comprimidos. Todos os personagens acabam precisando atuar dentro de um contexto dito fora da lei para manter a condição diante da vida, e são destacados os trechos em que se busca a saída para o problema. A relação de Ron com o transexual Rayon, no entanto, poderia ter sido mais explorada por Vallée. Jared Leto impressiona no papel, entregando sua melhor atuação depois de Requiém para um sonho, mas lhe falta uma presença maior no filme, como um real acréscimo à narrativa central. Talvez seja este o maior impasse de Clube de compras Dallas, um filme que consegue apresentar uma proposta interessante em seu roteiro, com diálogos verossímeis e ágeis: a presença de Rayon acaba ficando, de certo modo, dispersa depois de um início muito vigoroso e sensível. Em paralelo a isso, o embate entre Ron e a AFA acaba também ficando deslocado, quase que um resquício no roteiro competente de Craig Borten e Melisa Wallack.
No entanto, as qualidades de Clube de compras Dallas são maiores do que seus problemas. Vallée tem um grande talento na montagem do filme (sua primeira hora, especialmente, é muito ágil, com movimentos de câmera interessantes) e consegue compor uma interessante similaridade entre a condição de Ron e o tempo que o caubói de rodeio precisa ficar em cima do touro, como se a vida estivesse por um fio e a exigência pessoal fosse enfrentar a independência da natureza. Se Clube de compras Dallas não tem um êxito completo, pelo menos não deixa de lidar com os conflitos internos e externos de um personagem a ser conhecido e não explora o tema de forma gratuita, beneficiado também pelo excelente elenco.

Dallas buyers club, EUA, 2013 Diretor: Jean-Marc Vallée Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn, Griffin Dunne, Denis O’Hare Roteiro: Craig Borten, Melisa Wallack Fotografia: Yves Bélanger Produção: Rachel Rothman, Robbie Brenner Duração: 117 min. Estúdio: Truth Entertainment

Cotação 3 estrelas e meia