Alien: Covenant (2017)

Por André Dick

Depois de Prometheus, em 2012, tende-se a dizer que Ridley Scott não deveria ter voltado mais à franquia Alien. Talvez tenha sido um dos melhores caminhos adotados pelo cineasta depois de um início de século com várias obras de destaque, a exemplo de Gladiador, Cruzada, Falcão negro em perigo e O gângster. Desta vez, com roteiro de John Logan (007 – Operação Skyfall e Gladiador) e Dante Harper, Scott desenha uma continuação que fica entre Prometheus e os demais filmes da série. Ele é um exemplo de cineasta que, nos seus quase 80 anos, continua tentando mostrar uma visão que se situe entre a grandiosidade e o drama de seus personagens.
O início estabelece logo uma ligação com Prometheus. Peter Weyland (Guy Pearce, agora jovem) conversa com David (Michael Fassbender), recém-criado por ele, nome baseado na obra escultural de Miguelangelo, e lhe pede para que toque ao piano uma música de Wagner. Na parede ao fundo, a pintura “Natividade”, de Piero della Francesca, na qual aparece a figura de Virgem Maria ajoelhada diante do bebê Jesus. Atrás dessas figuras, estão cinco anjos músicos, dois violonistas e três cantores. Então, a história se transporta para 2104, quando, ao som da trilha de Jed Kurzel com referências à original de Jerry Goldsmith, a nave colonizadora Covenant carrega dois mil colonos (predominantemente casais) e mil embriões a bordo. Lembrando uma espécie de arca sideral (chamada de “mãe” pelos tripulantes), a nave tem como androide Walter (também Fassbender), modelo igual a David. Acontece um problema e alguns tripulantes acordam (a partir daqui, possíveis spoilers). Durante o conserto da nave, feito por Tennessee (Danny McBride), um sinal de rádio é captado, e essa sequência lembra muito tanto 2001 quanto sua sequência, 2010.

O capitão Oram (Billy Crudrup), com discordância da subcapitã Daniels (Katherine Waterston), resolve ir atrás do sinal. Originalmente, ele não havia sido escolhido para o posto, porque teria fé, podendo comprometer suas ações. Uma equipe, tendo entre os componentes a mulher de Tennessee, Faris (Amy Seimetz), Ledward (Benjamin Rigby), Karine (Carmen Ejogo), Hallett (Nathaniel Dean) e Lope (Demián Bichir), desce no planeta do qual vem a transmissão a fim de investigar o que acontece e o espectador pode vir a saber finalmente sobre o destino de Elizabeth Shaw (Noomi Rapace), do filme anterior. Imediatamente, Scott mostra de maneira impressionante a influência de germes do planeta sobre alguns deles. Na nave, tanto Tennessee quanto Upworth (Callie Hernandez) tentam manter a calma. Embora não haja a interação necessária entre os personagens – e os teasers divulgados antes da estreia e que certamente foram cortados de alguma versão inicial acrescentariam –, Scott em nenhum momento interrompe a história com diálogos excessivos como fez em Perdido em Marte.
Se o espectador não deseja ver exploradores do espaço se colocando em situações complicadas ou arriscando sua vida sem nenhuma justificativa, não deve assistir nem a Alien: Covenant nem a nenhum outro filme da série, pois ela existe justamente por causa dessa falta de atenção de que há um ser alienígena capaz de tirar suas vidas rondando o lugar onde se encontram.

Por isso, é estranho que se diga que em Alien – O oitavo passageiro há uma construção de personagens (quase psicológica) e que em Aliens ou, principalmente, em Prometheus ela inexista. Trata-se de uma invenção da crítica, para provocar um culto especial à obra dos anos 70, ignorando que o cinema desde então proporcionou um universo mais amplo da série, por meio de James Cameron, David Fincher, Jeunet (apesar dos pesares) e novamente Scott. Outra necessidade visível é delimitar que Scott não tem domínio (ou até conhecimento) sobre a figura do alien, o que é no mínimo questionável. Não apenas ele é um cineasta vigoroso na criação de um universo como entende sua criação como os cineastas que o antecederam não entendem – Scott visualiza o universo da criação do monstro como um mistério que pode elucidar a própria condição humana e a fé de personagens como Oram em conflito com o universo onde adentra.
Em Prometheus, ele buscava diálogos com A árvore da vida, de Malick, numa ficção científica existencialista, voltada a construir um passado para a genealogia de Alien muito interessante. Chega a ser lamentável que não visualizem na figura de David aquela de Batty em Blade Runner: ele procura o criador assim como os seres humanos e seu comportamento de androide não o impede de querer exercer esse domínio sobre quem teria criado a humanidade. Isso já ficava claro em seu confronto com o space jockey no primeiro filme e nessa continuação atinge um grau ainda mais interessante. Não por acaso, Alien: Covenant inicia mostrando seu olhar verde, assim como Scott mostrava os olhos dos androides a serem investigados em Blade Runner.

Lembre-se que ele é convidado a tocar Wagner, compositor preferido de Hitler, e David se comporta justamente como ele, pretendendo criar uma nova espécie (numa das sequências de que participa, um povo é perseguido por uma fumaça de vírus impactante). No planeta onde essa equipe desce, David vive como um criador, com desenhos de xenomorfos espalhados numa caverna. E ele tenta ensinar Walter a tocar uma flauta, assim como Weyland, no início, tentava lhe mostrar a arte musical, também presente na pintura “Natividade”. Em Alien: Covenant, como em Prometheus, David quer a todo custo ser um criador (ou o guia da humanidade), mas o que realiza mostra como ele se torna o pior monstro: em relação a um determinado personagem, por exemplo, ele age como Frankenstein. E perceba-se que os engenheiros parecem ter a mesma forma da estátua de Miguelangelo que levou Weyland a nomear David.
Impressiona como Scott fundamenta sua história com base naquelas premissas religiosas que ele cultiva desde Blade Runner, mas que se pronunciam ainda mais em A lenda – uma adaptação livre de Adão e Eva –, Cruzada, Gladiador e o subestimado Êxodo, todos com um notável design de produção. Alien: Covenant faz lembrar o embate entre Moisés e Ramsés II nas figuras de David e Walter – ambos idênticos visualmente, mas com comportamento diferente, em grande atuação de Fassbender. Mais ao final, Scott ainda mostra uma fotografia com os integrantes da espaçonave lembrando a Santa Ceia (com o primeiro comandante ao centro).

Do mesmo modo, Katherine Waterston, na figura de Daniels, configura uma espécie de libertadora de uma certa visão masculina, como Ripley. No entanto, enquanto havia fúria em Ripley, Waterston atenua seu enfrentamento com um receio plausível. Ela sofre ao ter de enfrentar a situação, não é uma guerreira como Ripley – e nisso Scott desenha um arco diferente e interessante da produção de Cameron principalmente, na qual Sigourney Weaver construía uma versão feminina de combate. No final, apesar da montagem excessivamente rápida, Scott continua exímio em filmar cenas de ação, com a fotografia impecável de Dariusz Wolski, e faz uma homenagem no terror do espaço a Psicose (neste caso, o diretor retoma os esboços originais do monstro feitos por H.R. Giger, com viés sexual), além de fazer um paralelo de David com Norman Bates. Waterston, que aparece em Vício inerente e Animais fantásticos e onde habitam, tem uma atuação excepcional, que também dialoga com a de Noomi Rapace em Prometheus, embora tenha menos cenas do que deveria. Alien: Covenant expande com qualidade evidente as ideias de Prometheus, sem ficar restrito ao universo simplesmente de monstros alienígenas; pode-se dizer que Scott ingressa numa fase em que o choque, como mostra ao final de O conselheiro do crime, atualiza o heroísmo dos anos 70 e 80. Não assusta como o recente Vida, inspirado em Alien, mas é mais denso, e que alguns espectadores não queiram esse caminho mostra o quanto Scott está no caminho certo: do acréscimo substancial à sua criação.

Alien: Covenant, EUA, 2017 Diretor: Ridley Scott Elenco: Michael Fassbender, Katherine Waterston, Billy Crudup, Danny McBride, Demián Bichir, Amy Seimetz, Carmen Ejogo, Benjamin Rigby, Jussie Smollett, Callie Hernandez Roteiro: John Logan, Dante Harper Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Jed Kurzel Produção: David Giler, Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Walter Hill Duração: 122 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Brandywine Productions / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Os oito odiados (2015)

Por André Dick

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Depois de Django livre, Tarantino volta ao gênero do faroeste em que desenhava um panorama da escravidão nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que oferecia uma vingança a seu personagem principal, interpretado por Jamie Foxx. Em Os oito odiados, novamente com uma fotografia excepcional de seu habitual parceiro, Robert Richardson, Tarantino volta a mostrar não exatamente surpresas na estrutura do roteiro (dividido em capítulos como os seus melhores filmes, a começar por Bastardos inglórios), mas na maneira de captar a ação. É como se ele tivesse vendo a estrutura de alguns filmes europeus (vide O gebo e a sombra), com uma caracterização quase teatral. Enquanto Django livre era um faroeste inteligente e plástico, sua sustentação se dava principalmente pelas cenas de tiroteio com a característica mais pop de Tarantino.
Em Os oito odiados, John Ruth (Kurt Russell) leva uma prisioneira algemada a seu braço, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), numa diligência conduzida por OB Jackson (James Parks), quando se depara com a figura do Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e, em seguida, com aquele que se diz novo xerife de Red Rock, Chris Mannix (Walton Goggins). Numa nevasca complicada, eles acabam parando na hospedaria acolhedora de Minnie, antes de onde deveriam ficar, exatamente a cidade de Mannix. Na hospedaria, encontram o General Sandy Smithers (Bruce Dern), Oswaldo Mobray (Tim Roth, pouco mais de vinte anos depois de fazer o assaltante nervoso de Pulp Fiction), Bob (Demian Bichir) e Joe Gage (Michael Madsen).

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Interessante como cada personagem parece ter uma característica que parece defini-lo, a começar com Mannix, visto como um covarde por John Ruth e Major Marquis. Oswaldo Mobray é uma espécie de inglês elegante apegado às vítimas que ainda fará, Bob se mostra como o mexicano solícito, Joe Gage (talvez uma brincadeira com John Cage, o músico de vanguarda) como aquele interessado em visitar a sua mãe e escrever em seu diário, e o General Sandy Smithers não pretende sair de seu silêncio numa poltrona acomodada longe da porta.
Todos esses personagens ganham um espaço e a demora que leva para cada um entrar ou sair do estabelecimento de Minnie concedem suspense para a narrativa, justificando a montagem de Fred Raskin, colaborador de Tarantino desde Django livre e substituto de Sally Menken, a montadora dos clássicos do diretor. Há uma base nítida não apenas em filmes europeus (o já citado O gebo e a sombra e O cavalo de Turim); Tarantino leva para o cinema a mesma peça que encenou inicialmente quando ainda decidia se faria o filme ou não. A colocação de estacas pelos personagens para encontrar o banheiro na nevasca é um exemplo claro de que se dá importância aqui a uma lentidão que não havia na narrativa apressada de Django livre. Ou quando Ruth adentra a hospedaria e procura por comida ou café, sem considerar quem se encontra no lugar.
Ao mesmo tempo, o design de produção deste filme parece mais rico e dialogar mais com o Velho Oeste do que o de Django livre. Todos os detalhes (da paisagem invernal à concepção rústica da hospedaria) recebem um cuidado por parte de Tarantino, inclusive alguns que não são comuns em sua trajetória. Outro exemplo: a trilha sonora de Ennio Morricone (cujas notas lembram aquelas de Os intocáveis) supera a escolha de canções dos últimos filmes de Tarantino que mais usavam esse elemento (Kill Bill – Vol 1 e Django livre). Ou seja, nesses filmes, em algum momento, o diretor parecia não mesclar música e imagens, senão simplesmente colocar a imagem como pano de fundo para a música que transcorria – a longa cavalgada de Django até a fazenda do vilão feito por DiCaprio é um exemplo clássico dessa tendência de Tarantino.

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Além disso, a trilha de Morricone parece soar estranha no conjunto, pois lembra mais os acordes empregados num filme de terror ou de suspense, mais especificamente com outro filme em que homens ficam presos num lugar, numa determinada estação do Ártico, em O enigma de outro mundo. Tarantino imagina, mais do que John Carpenter, de qualquer modo um Sam Peckinpah. Ao contrário de discussões sobre quem pode carregar um alien, há referências à escravidão, à aversão aos mexicanos, ao racismo, à rivalidade entre o sul e o norte dos Estados Unidos e nenhum dos personagens se coloca como isento de culpa.
Em termos plásticos, mesmo pela fotografia cuidadosa de Richardson, não se pode deixar de ver algumas semelhanças do filme, como O regresso, diante da obra O portal do paraíso, de Cimino, sobretudo porque a ação se passa no Wyoming, e com a obra estrelada por Warren Beatty nos anos 70, Quando os homens são homens, tanto pelas paisagens gélidas quanto pelo inesperado comportamento dos personagens. Esta plasticidade, no entanto, só é realmente destacada por causa do elenco, sobretudo Samuel L. Jackson, que consegue suas melhores atuações justamente com Tarantino. Assim como em Pulp Ficition, ele é aquele que tece o elo entre os personagens, entre a justificativa de vingança e a necessidade de estabelecer acordos, entre a intranquilidade e o sossego diante das piores situações. É um personagem bastante ambíguo, como todos os outros, ao qual Tarantino dá especial atenção porque sabe que sua obra depende dele para render.
E Tarantino sempre cresce, com seus personagens, em lugares delimitados, e por isso suas obras Kill Bill – Vol. 1 e Django livre se sentem um pouco mais dispersas exceto nas sequências de confrontos pessoais.

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Assim, ele parece conduzir melhor seus filmes quando coloca os personagens em situações no limite em lugares demarcados. A interação do personagem de Jackson com os demais é sustentada pelo confronto de olhares, uma especialidade do ator e também de seu companheiro de cena, Bruce Dern, logo depois de Nebraska e numa situação mais delicada, enquanto Russell e Jason Leigh compõem uma dupla inquieta e implacável – e quando surge um momento de alívio, e é dada à personagem dela o direito de cantar uma música, Tarantino lembra de que seu filme trata de outro tema. A aparenta passividade dos personagens contrasta com a violência que carregam, principalmente de Ruth e sua prisioneira. O sangue, no filme, respinga sobre o gelo e não há fogo que possa aquecer esses personagens, em razão da frieza que carregam. Nesse sentido, Tarantino compõe um faroeste que tem as características do gênero apenas em sua superfície – quando esconde, mais ao chão, sua verdadeira subversão e seus diálogos que rumam a uma situação indefinida.
Daí, talvez, ser Os oito odiados o filme mais violento de Tarantino, com cenas realmente de desviar o olhar, numa espécie de diálogo com o mais recente Refn, de Drive e Apenas Deus perdoa. E talvez por isso ele coloque em cena imagens religiosas que possam tentar salvar esse universo e os homens e mulheres que habitam esse universo – sendo a mulher o símbolo da solidão e uma espécie de figura associada às bruxas, como era vista em uma determinada época. A violência contra a mulher em Os oito odiados é perturbadora, mais do que em qualquer obra de Tarantino, mas cria uma correspondência com a imagem de Jesus Cristo crucificado logo no início do filme, quando surge, ao fundo, a diligência que dá início à história. E a narrativa centra também suas expectativas em discussões políticas, sobre a Guerra Civil dos EUA e sobre uma determinada carta de Abraham Lincoln a um de seus personagens, podendo ser verdadeira ou não. O encontro entre esses personagens não é motivo apenas para uma sequência ininterrupta de diálogos, alguns deles extensos, e num contato direto com outras obras de Tarantino, e sim com uma teatralidade conduzida com esmero impressionante. A maneira como o cineasta leva seu elenco, principalmente Russell, Samuel L. Jackson e Goggins, é notável, e Leigh rouba a cena sempre que é chamada à aparição. Visto como uma peça quase política pelo tom de suas ideias – e muitas têm a ver diretamente com o sistema norte-americano –, Os oito odiados é um dos grandes filmes da trajetória de Tarantino e uma referência para quem gosta de cinema ousado.

The hateful eight, EUA, 2015 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Walton Goggins, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Demian Bichir, Bruce Dern, Michael Madsen, James Parks Roteiro: Quentin Tarantino Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Ennio Morricone Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher Duração: 182 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Columbia Pictures / The Weinstein Company

Cotação 5 estrelas