Se a Rua Beale falasse (2018)

Por André Dick

Baseado num romance de James Baldwin, de 1974, o novo filme de Barry Jenkins, de Moonlight – Sob a luz do luar, Se a Rua Beale falasse, recorre a um estilo de imagem novamente atemporal, em que as épocas se misturam e se perdem. Os tons de azul, verde e amarelo dos figurinos e das iluminações que percorrem as imagens constituem um panorama amplo de uma história não apenas pessoal, como também vigorosa. KiKi Layne é Clementine “Tish” Rivers, de 19 anos, apaixonada por Alonzo “Fonny” Hunt (Stephan James), 22 anos, acusado de estupro por Victoria Rogers (Emily Rios). e, por isso, injustamente preso. Ela descobre estar grávida e luta para que o marido possa sair da prisão, onde se encontra esporadicamente com ele. É uma obra sobre a descoberta do amor e sobre como o ser humano resiste, por meio dele, à prisão. Desde o início, quando o casal desce por uma rua, parece que estamos num universo à parte, ao qual a realidade vai aos poucos se encaixando.

Com uma impressionante meia hora inicial, em que Jenkins utiliza os melhores elementos de seu filme oscarizado, uma belíssima fotografia de James Laxton e design de produção requintado, a obra prefere aos poucos, numa sucessão de flashbacks que mostram como Tish conheceu seu amado, até o acontecimento-chave para a história, uma certa dispersão planejada. O elenco é muito bom, principalmente KiKi Layne (uma revelação), e Regina King atua de modo exemplar como sua mãe, Sharon Rivers, embora sem tanto tempo de tela. Os personagens coadjuvantes surgem quase todos na primeira hora – a mãe de Fonny, vivida por Aunjanue Ellis, e o pai de Tish, Joseph (Colman Domingo), são especialmente expressivos – e tem boas aparições, com um pano de fundo trazendo a discussão religiosa, no entanto Jenkins prefere focalizar tudo no casal. Há um jantar com a presença deles e da irmã de Tish, Ernestine (Teyonah Parris), que resulta no que há de melhor no filme, que, por vezes, adota certas premissas de tom político que não conseguem soar tão orgânicas na história, mesmo que, como Moonlight, ofereça poesia ao lugar-comum.

É interessante como, ao lado de Chazelle, Jenkins procura variar seu estilo, buscando aqui mais enquadramentos rebuscados (a ampla visão de uma rua, por exemplo) e oferece, ao mesmo tempo, um certo ar atmosférico mais leve (apesar dos temas) que faltava ao peso dramático de Moonlight. Jenkins acerta, por exemplo, nas sequências com o amigo de Fonny, Daniel (Brian Tyree Henry), na qual se desenvolvem diálogos excelentes, com Pedrocito (Diego Luna), que trabalha num restaurante, ou quando o casal encontra um agente imobiliário (Dave Franco). Em certa medida, o roteiro convence sobre o fato de seus personagens não atingirem o que desejam – e os ambientes e os figurinos evocam uma sensualidade contemporânea e clássica ao mesmo tempo, com o auxílio da trilha sonora de Nicholas Britell. O que mais chama a atenção é como Barry Jenkins se afasta de um determinado estilo concebido por Spike Lee em Febre da selva, assim como Moonlight, inovava em relação a Os donos da rua e a Dope. Se Jenkins em seu filme anterior usava muito os ruídos da natureza, a exemplo do mar em algumas sequências, aqui a trilha consegue emprestar a sensibilidade que falta nos espaços urbanos pelos quais os personagens passam ou mesmo na prisão em que está Fonny. Ela oferece uma credibilidade ao romance entre os dois, convencida ainda pela atuações: o espectador trabalha com a consciência de que se trata de uma paixão autêntica.

Jenkins tem um olhar muito interessante para a condição de Fonny e sua amada assim como mostrava Cherrie em três fases da vida em Moonlight, incorporando novamente um sentimento de solidão fortíssimo, de elementos que se estendem ao longo do tempo e que não deixam mais de fazer parte do indivíduo, de lembranças que perduram e atitudes que, por mais que se esforce, não podem ser perdoadas. Novamente chama a atenção como o cineasta aborda os assuntos com uma sabedoria e calma e, na condução de algumas cenas, quase poética (em Moonlight havia uma belíssima sequência com um um jukebox; em Se a Rua Beale falasse o que comove é Fonny fingindo transportar os móveis para dentro de um espaço sem mobílias, a fim de convencer a amada de que ali pode estar a casa de ambos). Ele acerta bastante até o terceiro ato, quando tudo parece se inclinar mais para uma lição de moral e é, acima de tudo, anticlimático, tirando a força que seus personagens tinham até então. Por isso, ele não consegue ser como Loving, de Jeff Nichols, na discussão de seus temas, ou seja, usar uma discrição que comova o espectador. Ainda assim, é cinema de grande nível, tentando ser diferente e não com uma pretensão vazia. A força do filme está no olhar e nas expressões desses personagens e Jenkins não raramente os filma em close-ups. É uma maneira de revelar o amor que une o casal e de fazer o espectador se aproximar de um sentimento incapaz de ser desfeito, independente da situação. Como em Moonlight, mesmo sob um manto de certa melancolia, ainda permanece vivo um otimismo diante de tudo.

If Beale Street could talk, EUA, 2018 Diretor: Barry Jenkins Elenco: KiKi Layne, Stephan James, Colman Domingo, Teyonah Parris, Michael Beach, Dave Franco, Diego Luna, Pedro Pascal, Ed Skrein, Brian Tyree Henry, Regina King Roteiro: Barry Jenkins Fotografia: James Laxton Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Megan Ellison, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Adele Romanski, Sara Murphy, Barry Jenkins Duração: 117 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Pastel Productions Distribuidora: Annapurna Pictures

Artista do desastre (2017)

Por André Dick

Trabalho mais recente de James Franco na direção, Artista do desastre vem sendo muito associado a Ed Wood, de Tim Burton, tratando de uma produção conhecida pela estranheza e pela precariedade de atuações e de acabamento, The room, de Tommy Wiseau, lançado em 2003. Quem já viu esse filme sabe do quanto podemos ter um outro nível de entendimento sobre o que seriam boas atuações e uma narrativa calibrada: The room é tão estranho (no bom ou mau sentido, dependendo de cada espectador) que chega por vezes a ser engraçado.
É justamente Wiseau que o também diretor James Franco interpreta aqui. Ele conhece em 1998 o aspirante a ator Greg Sestero (Dave Franco, irmão de James na realidade), numa aula de teatro, quando nenhum consegue se destacar. No entanto, Wiseau se mostra um ator que, na falta de expressão melhor, se arrisca no tablado. Os dois se mudam para Los Angeles, a fim de tentarem uma carreira e se tornarem estrelas. Apesar de Greg conseguir uma agente, Iris Burton (Sharon Stone), e uma namorada, Amber (Alison Brie), nenhum deles é reconhecido. Wiseau decide escrever, produzir e dirigir um filme, exatamente The room. Os momentos em que ele está escrevendo o roteiro são alguns dos mais cômicos da história, justamente pela despretensão do ator-diretor.

Desde o início, é evidente que Franco está levando o personagem a sério, mas ao mesmo tempo não está: em determinados momentos, sua obra se sente como uma reunião de amigos no fim de semana. Mas, se há reuniões dele que resultam em filmes pouco interessantes (É o fim, por exemplo), outros se sentem realmente instigantes, como este. Artista do desastre, à sua maneira, é uma homenagem a Hollywood, que certamente nunca levou Wiseau em consideração – e Franco, pelas acusações que teve de assédio depois de ganhar seu Globo de Ouro, parece ir por outro caminho, embora não com o mesmo grau de impacto que as que atingiram Kevin Spacey e Harvey Weinstein.
O roteiro de Scott Neustadter e Michael H. Weber, responsáveis por (500) dias com ela, A culpa é das estrelas e O maravilhoso agora, adaptado de um livro sobre as filmagens de The room, escrito por Greg Sestero e Tom Bissell, tenta capturar o momento da criação. Artista do desastre lida com a imagem de quem tenta se inserir no meio artístico (no caso, o cinema) com as condições que tem à mão. No entanto, a arte é visualizada mais como um descompromisso do que como um dever de mostrar uma certa sofisticação.

As filmagens conturbadas do longa são bem calibradas pela atuação de James Franco, fazendo um personagem excêntrico, mas, principalmente, pela do irmão, Dave, com uma ressonância que é quase inexistente em trabalhos recentes. Em filmes como The little hours, em que faz um homem que vai parar num convento, Dave Franco já mostra um talento inabitual para a sátira que se leva a sério. Aqui não é diferente e ele até emociona como alguém que realmente tenta ser amigo de Wiseau. Há uma sequência em que ambos compartilham a admiração por James Dean (o qual James interpretou num telefilme em 2001) e tanto Artista do desastre quanto The room possuem um visual, algumas vezes, de Juventude transviada, clássico dos anos 50. No filme de Wiseau, o CGI do alto do prédio normalmente se confunde com tomadas perdidas de clássicos, embora o roteiro seja tão desencontrado que as semelhanças interrompem aí. Que Franco tenha escolhido seu irmão para interpretar o papel do melhor amigo de Wiseau é uma homenagem à própria inserção de ambos no universo cinematográfico.

Embora ele tenda a romantizar excessivamente o personagem que retrata e muitas vezes anule uma complexidade maior, que poderia ser melhor trabalhada em pontos, também atinge de certo modo o público: sua figura atrai o interesse do espectador e o conduz durante todo o filme. O modo como ele recupera os trejeitos do verdadeiro Wiseau é realmente convincente e as filmagens, com a presença do assistente de roteiro e direção Sandy (Seth Rogen), são perturbadas de modo divertido, com uma série de participações especiais (Jacki Weaver, Zac Efron e Josh Hutcherson, para citar alguns). Depois de atuações como as de 127 horas, Milk, Oz – Mágico e poderoso e na série Freaks and geeks, Franco já mostrou um talento para a composição de personagens dos mais variados. Que ele responda pelas acusações gravíssimas de assédio (o que vem tentando fazer nas últimas semanas) e Desastre do artista não seja também aquele filme que interrompa sua carreira.

The disaster artist, EUA, 2017 Diretor: James Franco Elenco: James Franco, Dave Franco, Seth Rogen, Alison Brie, Ari Graynor, Josh Hutcherson, Jacki Weaver, Zac Efron, Sharon Stone Roteiro: Scott Neustadter e Michael H. Weber Fotografia: Brandon Trost Trilha Sonora: Dave Porter Produção: James Franco, Vince Jolivette, Seth Rogen, Evan Goldberg, James Weaver Duração: 103 min. Estúdio: New Line Cinema, Good Universe, Point Grey Pictures, Rabbit Bandini Productions, Ramona Films Distribuidora: A24, Warner Bros. Pictures