O homem nas trevas (2016)

Por André Dick

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Alguns filmes de terror costumam adquirir um status de cult logo que lançados, principalmente por causa de espectadores que os relacionam a determinados temas já clássicos do gênero. O homem nas trevas, dirigido pelo uruguaio Fede Alvarez da refilmagem de Evil Dead, muito interessante na sua construção claustrofóbica, é o filme do momento, com grande aceitação – um ânimo para os admiradores do Rotten Tomatoes – e uma bilheteria acima do esperado. Como Quando as luzes se apagam, ele teve um orçamento pequeno (em torno de 10 milhões) e já faturou em torno de 70, um grande feito.
Alvarez já havia demonstrado ser bom diretor na sua versão da obra de Raimi. Aqui, ele mostra um trio de assaltantes, Rocky (Jane Levy), Money (Daniel Zovatto) e Alex (Dylan Minnette), que age nos arredores de uma abandonada Detroit, a cidade-modelo para colocar um grupo de personagens numa paisagem que lembra mais o de uma terra devastada, a julgar por Rio perdido, de Ryan Gosling, e Corrente do mal, de Mitchell. Eles roubam objetos de casas asseguradas pela empresa do pai de Alex, mas nunca tentam fazer um grande roubo, em razão do seguro.

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No entanto, Rocky tem planos de se mudar para a Califórnia com a irmã Diddy (Emma Bercovici), envolvida em parte com Money, devido aos pais que pouco ligam para sua situação, e para isso precisa de mais lucro. Esse trio resolve fazer um último assalto, invadindo a casa de um homem cego (Stephen Lang), um ex-veterano de guerra do Iraque e que guardaria uma pequena fortuna em sua casa. A princípio, o roubo é dado como apenas uma conta a mais para faturar.  A obra, no início, capta imagens dessa periferia como Mitchell em Corrente do mal, mas onde esse diretor é discreto, Alvarez tem cuidados principalmente com uma construção que leva ao sufoco.
O início do assalto é normal, como qualquer outro. No entanto, algo acontece e o homem cego não se mostra apenas uma pessoa fácil de enganar. Este é um filme que lida com um personagem que vive, como o título nacional, nas trevas e que dela se alimenta. Isto parece interessante? A princípio, sim. E Alvarez faz uma série de referências: ele parte principalmente de As criaturas atrás das paredes, de Wes Craven, dos anos 90, com uma referência em seguida a Millennium e O quarto do pânico, para desencadear em Cujo, adaptação subestimada de Stephen King de 1983, e na meia hora final de O silêncio dos inocentes – este durante a maior parte do tempo.

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O homem nas trevas, como construção de filme, é um verdadeiro susto: eis uma obra que incorpora uma ideia simples e não a expande, ou ao menos a expande apenas em se tratando de lugares-comuns. Não apenas o elenco tem uma atuação superficial – uma decepção é a de Levy, que havia se mostrado bem no remake de Evil dead, e, principalmente, a de Minnette, promissor em Alexandre e o dia terrível, horrível, espantoso e horroroso –, como não parece ter acontecido um acabamento em termos de montagem.
Com uma fotografia obviamente costurada por lances esparsos de luz assinada por Pedro Luque, tentando deixa-las sofisticada com alguns movimentos de câmera, O homem nas trevas é um dos filmes mais sem diálogo do ano que se pode considerar expositivos: não há nada que seus personagens digam ou façam que não seja esperado antes da sessão iniciar. A própria figura do ex-combatente de exército é um sinal de que o trio de assaltantes está sendo atraído para uma arapuca sem a menor noção do que pode acontecer. Percebe-se mais interesse na analogia entre o local onde ele mantém sua casa com uma cidade em ruínas, exatamente como o Iraque depois de passar pela guerra. Contudo, Fede e Mendez não esclarecem no roteiro por que assaltar a casa de alguém que, mesmo cego, sabe de técnicas de sobrevivência em guerra. Pode-se dizer que se trata de cinema, mas não deixa de ser implausível, mesmo para personagens de um filme de terror, que não efetuam exatamente maquinações em sua mente. Um problema é justamente não mostrar o homem cego antes da invasão, para efetuar uma construção mais tensa.

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Stephen Lang, o general obcecado em destruir Pandora em Avatar, tem uma atuação no limite do que lhe é permitido, mas o filme nunca consegue engatar em sua premissa: ele apenas se revela didático em suas escalas de terror: pessoas atrás de portas, passos subindo por escadas, alguém preso no porão… Em Quando as luzes se apagam, havia vários clichês, mas o diretor daquele conseguia construir uma tensão dramática a partir da figura da mãe e dos filhos. Ao final, Alvarez tenta recriar uma tensão entre a imagem de uma vingança planejada e de um castigo anunciado de antemão, à procura de um discurso que possa sustentar o vazio das imagens que vemos. Aqui há apenas escombros de uma narrativa, e lamenta-se que o diretor não mostre o mesmo talento de seu longa de estreia, principalmente na construção de uma atmosfera (e mesmo tendo aqui o mesmo produtor para auxiliá-lo, Sam Raimi), tentando, na verdade, apenas estabelecer uma franquia com proposta tão curta quanto seu alcance. O homem nas trevas é resultado de uma boa campanha de marketing, mas uma decepção notável.

Don’t breathe, EUA, 2016 Diretor: Fede Alvarez Elenco: Jane Levy, Stephen Lang, Dylan Minnette, Daniel Zovatto, Emma Bercovici Roteiro: Fede Alvarez, Rodo Sayagues Mendez Fotografia: Pedro Luque Trilha Sonora: Roque Baños Produção: J.R. Young, Joseph Drake, Nathan Kahane, Sam Raimi Duração: 88 min. Distribuidora: Sony Estúdio: Ghost House Pictures / Good Universe / Sony Pictures Entertainment (SPE)

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Corrente do mal (2014)

Por André Dick

Filme.Terror 17O gênero de terror tem passado por um período cada vez maior de afastamento daqueles personagens que fizeram os anos 70 e 80 tão conhecidos, com Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger, em três séries ainda referenciais para o que se convencionou chamar de franquias com serial killers, se não uma grande repetição de mesmos maneirismos – e não por acaso há tantas versões novas tanto para Halloween e A hora do pesadelo. Se a última grande série foi Pânico, com quatro exemplares, do recentemente falecido Wes Craven, acompanhada por atividades paranormais e outros jogos mortais, pode-se dizer que o gênero de terror não tem a elegância que teve até os anos 80, principalmente por causa de John Carpenter, o criador de Halloween, e justamente Craven.  Isso até a estreia de Corrente do mal no Festival de Sundance deste ano, recebido com grande entusiasmo. Filmes do gênero podem encontrar o maior sucesso quando se tornam franquias – e se o mesmo acontecer no caso de Corrente do mal certamente extrairá bastante de sua surpresa e independência como obra.
A atriz Maika Monroe, de The guest, também é decisiva no papel central, uma menina chamada Jay Height, que tem relações sexuais com Hugh (Jack Weary) e começa a ser perseguida por pessoas as mais diversas, que surgem como alucinações. Ele lhe explica que passou uma espécie de maldição. É interessante que o primeiro encontro deles se dá no cinema e Hugh tenta brincar com Jay querendo apontar pessoas na plateia.

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E se quem é apontado não existe? Mitchell parte desta cena dentro do cinema para um manancial de surpresas que inclui a óbvia perturbação psicológica da personagem central. Ela tem a ajuda da irmã, Kelly (Lili Sepe), de um rapaz interessado nela, Paul (Keir Gilchrist), e de uma amiga, Yara (Olivia Luccardi), mas sua vida se sente vazia como se não tivesse realmente nenhuma ligação com o mundo exterior, e passa a ter menos ainda quando acometida por essas alucinações. Elas vêm acompanhada por aquilo que se esconde atrás do comportamento de Jay: um sentimento de culpa por ter divido seu corpo com outro que já havia dividido seu corpo com outra pessoa.
Não parece se tratar de um receio de passar doenças sexualmente transmissíveis, entretanto algo mais sugestivo: cada um parece conservar uma espécie de obsessão paranoica em relação a nunca conhecer a origem de cada um, sendo esta inconsciente. Ou seja, quando Jay acredita ter encontrado um amor ela parece ter encontrado apenas a certeza de que é preciso lidar com o receio de que não é possível tornar alguém apenas seu. Trata-se de uma ideia por um lado óbvia, por outro carregada de um poder de sugestão por imagens, que torna Corrente do mal num filme sobre a tentativa de o ser humano em obter a sua origem, sendo perseguido por uma culpa em formato de pesadelo. Daí a necessidade de Jay se manter distante de Paul, aquele que pode estar mais ligado à sua origem. Para Jay, é essa origem que se torna incômoda; ela pretende ter relacionamentos com pessoas que possam não aproximá-la de si mesma. A entidade que persegue Jay assume as mais variadas formas, entre elas as figuras paternas, como se ela guardasse sempre uma proximidade com sua psicologia. E esse retrato da psicologia de Jay é acentuado pelo cenário em que se passa Corrente do mal: a Detroit de Lost river, de Ryan Gosling, quase em ruínas e em parte abandonada.

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Cada vez mais se tem propensão a dizer que o terror moderno não cria sustos, apenas os anuncia de antemão para que o espectador pouco sinta. Talvez não esteja vendo terror em demasia, mas diante de Corrente do mal é difícil imaginar um espectador frio diante de espectros terríveis, os mais assustadores desde O inquilino, Poltergeist, Os outros e O sexto sentido, capazes realmente de assustar. Há também algumas sequências claramente inspiradas naquela do banheiro do quarto 237 de O iluminado, e se mostram filmadas com um cuidado notável – apagando a ideia de restringir esta obra a uma vertente indie do terror. Acompanhe-se, por exemplo, a sequência na casa de praia, que rende alguns dos momentos mais impressionantes da obra, prendendo o espectador à poltrona.
O diretor e roteirista David Robert Mitchell, responsável por um filme singelo sobre a adolescência em The Myth of the American Sleepover, possivelmente sem pretensão, realiza uma pequena obra-prima de suspense crescente, baseado principalmente numa estética exata, de movimentação de câmera ou de filmar o pano de fundo, a distância, com a ajuda da ótima fotografia de Mike Gioulakis. Por isso, apesar da presença estilística tanto de Craven quanto de Carpenter, principalmente de Halloween, acrescido de um cuidado maior com a ambientação, Corrente do mal chega, inclusive, a homenagear David Lynch na cena do cinema com cortinas vermelhas. Mitchell tem uma noção muito distinta de como filmar espaços vazios, assim como Lynch em Cidade dos sonhos e Império dos sonhos, os dois maiores filmes de terror já feitos que não querem de fato ser de terror. E, em relação à primeira fase de De Palma (Sisters, Carrie), Mitchell parece superá-lo.

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Enquanto tudo é o mais assustador possível, Mitchell emprega suspense até quando um inseto caminha num dos braços de Jay. Como este inseto, tudo é muito reduzido (os cenários, a trama) em prol de um tom crescente de medo. E arrepia muito, incontáveis vezes, embora isso dependa do espectador, e nem sempre este se encontre à vontade para admitir o quanto o terror das cenas o perturbou. Talvez uma das melhores soluções de Mitchell seja nunca explicar, de fato, o que está ocorrendo, o que se, por um lado, soa uma fuga do roteiro, acaba tendo uma grande contrapartida do espectador e da trilha sonora realmente elaborada e efetiva. Acompanha a discrição de seu ótimo roteiro a simbologia da água: Jay se banha no início do filme numa piscina, sob o olhar de garotos vizinhos, tenta reencontrar uma saída já no mar e terá a água como peça-chave num momento decisivo da narrativa. Para Mitchell, a água não apaga as lembranças do corpo. Corrente do mal, neste sentido, nunca sossega ou deixa o espectador confiante do que está vendo: ele mostra que a realidade pode ser dispersa e incômoda quando não se encontra um ponto de encontro. É interessante como ele pode apontar um desejo de dialogar com a necessidade de se ter um afeto e o que ele pode trazer em termos de compartilhamento entre pessoas. Em Corrente do mal, os jovens estão a um passo da vida adulta, e eles precisam estar preparados para carregar o que desconhecem e não têm explicação. Isso, para Mitchell, cria a mesma sensação de medo e pavor de seu filme.

It follows, EUA, 2014 Direção: David Robert Mitchell Elenco: Maika Monroe, Keir Gilchrist, Jake Weary, Lili Sepe, Daniel Zovatto, Leisa Pulido, Olivia Luccardi, Bailey Spry, Loren Bass Roteiro: David Robert Mitchell Fotografia: Mike Gioulakis Trilha Sonora: Rich Vreeland Produção: David Kaplan, Erik Rommesmo, Laura D. Smith, Rebecca Green Duração: 100 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Animal Kingdom / Northern Lights Films

Cotação 4 estrelas e meia