Velvet Buzzsaw (2019)

Por André Dick

O diretor Dan Gilroy estreou com um filme muito bem recebido, O abutre, e em seguida fez Roman J. Israel, esq., que rendeu uma indicação ao Oscar de ator para Denzel Washington e dialogava com a atmosfera dos anos 70. Eram obras marcadas pelo estudo de personagens distintos, no primeiro caso um jornalista inescrupuloso e no segundo um advogado muito competente e em busca de maior justiça para seus clientes, embora em determinado ponto se deixasse confundir por acontecimentos. Conhecido antes dessa carreira como cineasta como roteirista, Gilroy assume novamente as duas funções em Velvet Buzzsaw, lançado no Festival de Sundance.
A história se passa em Miami, onde acompanhamos o crítico de arte Morf Vandewalt (Jake Gyllenhaal), que tem como melhor amiga e agente Josephina (Zawe Ashton). Ela trabalha para Rhodora Haze (Rene Russo), dona de uma galeria, que foi vocalista da banda de punk rock que dá título ao filme.

Mesmo tendo um namorado, Ed (Sedale Threatt Jr.), Morf se sente atraído por Josephina, e os dois já tiveram um caso anteriormente. Ela, certo dia, encontra um homem morto perto de seu apartamento, Vetril Dease, pintor de talento desconhecido. Recolhendo suas obras, resolve fazer uma parceria com Rhodora para vendê-la e com Morf para que ele escreva sobre elas.
Dois outros conhecidos de Morf, a curadora Gretchen (Toni Collette) e o artista plástico Piers (John Malkovich), ficam impressionados com o trabalho do pintor recém-descoberto. Este tem obras que são marcadas sobretudo por elementos assustadores, como se trouxessem uma energia soturna com eles, mas que acabam fascinando os frequentadores de exposições. Tudo é articulado sobre um clima de mistério, ao mesmo tempo com um certo descompromisso. A referência de Gilroy é clara: a obra de Dario Argento nos anos 70, principalmente O pássaro das plumas de cristal, que lidava com o universo das exposições de obras de arte. No entanto, Gilroy não é tão estilístico quanto o cineasta italiano, preferindo utilizar uma fotografia bastante realista, aos poucos sendo mesclada com toques de fantástico, feita pelas mãos do ótimo Robert Elswit, que trabalhou com o diretor em seus projetos anteriores e também com Paul Thomas Anderson em Vício inerente, cuja tonalidade de imagens se corresponde com algumas daqui.

Não me parece que o objetivo de Gilroy seja justamente aplicar uma sátira sobre esse universo focado, já vista algumas vezes, contudo mostrar o quanto esses personagens podem lidar com um elemento imprevisível naquilo que está pré-concebido em todos os detalhes, como as peças feitas para agradar ao público ou dialogar com ele sob qualquer ponto de vista. O alvo não é exatamente a cobiça financeira sobre obras, como plana na superfície do roteiro, e sim como esse universo é tão irreal, mesmo se sentindo muitas vezes teorizável concretamente, quanto o que começa a acontecer a partir de determinado ponto. Mesmo porque, caso contrário, ele certamente se transformaria numa espécie de autossátira, a exemplo do que vemos em instantes do brilhante The Square – A arte da discórdia. Há conversas sobre o universo da crítica que remetem a Birdman, no entanto sem a mesma consciência, a não ser no nome da banda que nomeia o filme, clara referência ao Velvet Underground, que teve a capa de um dos seus discos mais conhecidos ilustrada por Andy Warhol (aqui lembrado pela imagem de seu filme Empire, com suas mais de 8 horas de plano-sequência do prédio Empire State Building, de Nova York). Gyllenhaal estabelece uma boa parceria novamente com Russo, depois de O abutre, e sua atuação é o que de melhor tem aqui. Ele consegue se situar entre os duplos de si mesmo e o que enxerga nas obras para seu ganho pessoal e para seu respeito como crítico. O elo com Russo é essencial para que essa duplicidade se estabeleça, assim como a atuação indefinida de Ashton.

O que mais interessa nesta obra de Gilroy é a multiplicidade de estilos que ele adota: se tudo começa como uma conversa de artista e relações que parecem lembrar um filme B, logo ele passa para um clima de suspense e tensão e, quando parece finalmente se desviar para uma espécie de análise do mundo da arte, ele entrega um caminho mais virulento e inesperado do que se costuma ver em peças de Hollywood. Esta é uma história que pode ser até estranha, como já o era a anterior de Gilroy, no entanto é justamente isso que lhe concede as maiores qualidades. Nesse sentido, talvez o espectador que julgue o debate sobre arte no filme pouco natural tende a considerá-lo mais superficial. Por outro lado, quando se considera que a mescla feito entre esse tema e os gêneros de terror e suspense se mostra notavelmente funcional, particularmente na meia hora derradeira, quando o diálogo entre o universo da arte e o desfecho para cada personagem se estabelece, é que a narrativa se mostra mais encontrada e verdadeiramente original.

Velvet Buzzsaw, EUA, 2019 Diretor: Dan Gilroy Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Toni Collette, Zawe Ashton, Tom Sturridge, Natalia Dyer, Daveed Diggs, Billy Magnussen, John Malkovich, Sedale Threatt Jr. Roteiro: Dan Gilroy Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Marco Beltrami e Buck Sanders Produção: Jennifer Fox Duração: 113 min. Estúdio: Netflix, Dease Pictures Inc. Distribuidora: Netflix

O abutre (2014)

Por André Dick

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Os filmes que avaliam criticamente o jornalismo estiveram sempre em alta desde Todos os homens do presidente e Rede de intrigas. Nos anos 80, tivemos peças excelentes, como Ausência de malícia e Nos bastidores das notícias, nos anos 90 os quase esquecidos O jornal e A testemunha ocular e mais recentemente Boa noite e boa sorte. Este ano, o filme a figurar com este tema é O abutre, que relata a história de Louis Bloom, um jovem que determinado dia, ao ver alguém cobrindo um determinado acidente, decide conseguir uma câmera de maneira ilícita e começar a trabalhar por conta própria. Como cinegrafista amador, mas com vontade de se profissionalizar, ele se torna uma espécie de rival para Joe Loder (Bill Paxton), o único cara da cidade que parece ter o mesmo interesse do que ele em captar imagens fortes, e cria uma amizade com uma produtora da TV, Nina Romina (Rene Russo), bastante interessada em violência, preferencialmente em bairros ricos. Eles se complementam e as cenas em que ficam diante da imagem de Los Angeles à noite diz muito do reflexo que ambos projetam.
Com um discurso pronto para o convencimento alheio, de que tem tudo à mão para ser um grande representante da captação de imagens violentas para o sucesso dos noticiários que se alimentam dela, Louis também acaba se mostrando alguém que se importa com um rapaz, Rick (Riz Ahmed), sem paradeiro definido. É Rick quem Bloom escolhe para que o acompanhe nas jornadas à noite, em busca de notícias e, consequentemente, de imagens, alimentado pelas mesmas informações que os policiais recebem. Ele se torna uma espécie de mensageiro daquilo que especifica o título original: da vida noturna de Los Angeles. Não por acaso, esse personagem usa óculos escuros de dia: ele se alimenta da noite e a praia para ele significa apenas a possibilidade de roubo para trocar por mercadorias que lhe interessem. Ele é Bloom como o personagem de Joyce em Ulisses, que atravessa o dia e a noite para perceber que tudo continuará indefinido.

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Jake Gylenhaal chama a atenção como este papel leva sua maneira de interpretar discreta a um extremo contrário: ele é a figura principal de O abutre, e o filme, consequentemente, se baseia nele e seus freqüentes exageros e nervosismo. Ele mostrava o contrário este ano com O homem duplicado, quando, com suas características de interpretação, Gyllenhaal desenhava um perfil interessante de alguém com dupla personalidade. Mas, se lá o roteiro era um enigma, aqui ele procura a mudança em seu físico (seus olhos nunca lembraram tanto os da irmã, e igualmente boa atriz, Maggie) e a tentativa de introduzir uma maneira de falar diferente. Depois de um início um pouco mal resolvido, com personagens servindo mais como exemplos de corrupção e de ambição do que como seres independentes, O abutre tem uma hora final digna de um verdadeiro thriller urbano – e é quando a atuação por vezes exagerada de Gyllenhaal adquire um ar verdadeiramente dramático e ele toma conta da tela, sobretudo quando se vira para o parceiro de empreitada fazendo promessas fantásticas de como conseguirão, juntos, alavancar a produtora de que se diz dono. Cogita-se mesmo uma indicação ao Oscar para Gyllenhaal – ele já foi indicado ao Globo de Ouro –, o que indica como parte da crítica gosta de atuações em ritmo de overacting, quando o ator já se mostrou muito competente em momentos mais discretos.
Ele já parece começar o filme como Jack Torrance, mas impressiona como Gyllenhaal leva o personagem a uma condição diante da qual o espectador teme a reação e em relação ao qual imagina sempre – e não seria diferente diante do seu comportamento – o pior. É uma atuação sem dúvida, a partir de determinado momento, muito competente e bem resolvida dentro de suas linhas com cargas dramáticas mais acentuadas alternadas com humor invariavelmente pesado e sem grande alívio para quem assiste. As risadas que o personagem de Gyllenhaal provoca são nervosas em sua maior parte, e às vezes ele se sente como um coelho que não consegue sair da sua toca de dia porque pretende rever as cenas que colheu para o noticiário e se aproveitar mais uma vez da tragédia alheia. Trata-se de um homem que não tem a menor ideia do quanto seus movimentos envolvem a ética ou o respeito aos acontecimentos fatídicos.

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Gyllenhaal cresce com as ótimas atuações tanto de Russo quanto de Riz Ahmde. Mas, de algum modo, os personagens que eles interpretam, assim como o de Bill Paxton, são apenas notas de rodapé para o desempenho de Gyllenhaal, e isso termina por, paradoxalmente, reduzir o filme a um retrato direto e não tão complexo, pois não são fornecidas subtramas capazes de ampliar o seu escopo. Todos os personagens são conduzidos por Bloom, assim como este é conduzido pela noite e pela iluminação que sai da sua câmera, sempre em busca de novos fatos, inclusive para configurá-los à sua maneira.
O que incomoda em O abutre é justamente achar que está definindo algo quando, com o mínimo de crítica, todos sabem o que cerca o jornalismo sensacionalista. Se alguns jornalistas estão pouco preocupados com os humanos que retratam, tampouco Gilroy está preocupado com seu espectador e coloca as ideias de maneira muito clara, sem deixar que ele pense sobre o que está vendo; apenas se certifique e assine embaixo, sem contestação. Com uma narrativa até determinado ponto plana e sem grandes reviravoltas, O abutre às vezes é simplista na maneira como coloca suas ideias, assim como não apresenta nada de realmente original em seu tema, embora o diretor Dan Gilroy às vezes se mostre como alguém que oferece realmente algum olhar novo, embora nunca caia na simples manipulação de, por exemplo, um 15 minutos. Trata-se da estreia na direção do roteirista de O legado Bourne, Gigantes de aço e The fall, e O abutre vem sendo recebido como uma das grandes obras do ano (foi escolhido como um dos dez melhores filmes do ano pelo American Film Institute), indicado a vários prêmios e talvez leve satisfação mais ao espectador que não espera tanto dele. E junto com as sequências de ação, que lembram não apenas o recente Drive, de Refn, como também sua inspiração original, The driver, de Walter Hill, Gilroy consegue potencializar ainda mais a fotografia de Robert Elswit, que joga com as luzes com a mesma competência que já mostrou inúmeras vezes ao longo de sua carreira exitosa. Esse é o maior mérito de O abutre, junto com a atuação de Gyllenhaal: ele captura de maneira perfeita a noite de Los Angeles, assim como evita mostrar esses personagens à luz do dia porque justamente seu habitat é uma noite contínua, sem intervalos para o alívio.

Nightcrawler, EUA, 2014 Diretor: Dan Gilroy Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Riz Ahmed, Bill Paxton, Kevin Rahm, Ann Cusack Roteiro: Dan Gilroy Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Lancaster, Jake Gyllenhaal, Jennifer Fox, Michel Litvak, Tony Gilroy Duração: 117 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Bold Films

3 estrelas e meia