O primeiro homem (2018)

Por André Dick

Em 2014, o diretor Damien Chazelle já havia realizado um filme considerado por muitos um clássico instantâneo, Whiplash, selecionado com surpresa entre os indicados ao Oscar principal, recebendo três estatuetas. Sua obra seguinte, La La Land – Cantando estações, veio com uma repercussão ainda mais forte, desde seu lançamento no Festival de Veneza. Com inúmeras referências a musicais antigos ou dos anos 80, apresentou uma história que podia ser considerada romântica em seu limite. Talvez ele não apresentasse nada de muito novo sobre os sonhos da cidade de Hollywood, que ganharam versões nas obras de mestres como Billy Wilder e David Lynch, mas, além de trazer canções antológicas (principalmente “City of stars”, bastante evocativa), num trabalho notável de Justin Hurwitz, tinha muito a falar da divisão entre sonho e realidade, da concretização ou não de uma pretensão artística. Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling) eram figuras que, como no cinema vendo uma sessão do clássico Juventude transviada, se dividiam entre o que pretendem ser e o que se mostrava realmente viável. Isso conferia ao filme uma camada que Chazelle tornava encantadora pela maneira como a revelava, aos poucos.

Depois do grande desempenho junto ao crítico e à pública de La La Land, recebendo seis Oscars, a nova obra do diretor, O primeiro homem, mostra a vida do astronauta Neil Armstrong (Ryan Gosling), a partir de 1961, e sua rotina com a sua primeira esposa Janet Shearon (Claire Foy), até começar a fazer parte da missão coordenada pela Nasa em direção à Lua em 1969. Esses são personagens que realmente existiram e próximos de um contexto do qual La La Land se afastava: o da tentativa de ser fiel aos fatos. Chazelle sofre uma transformação por trás das câmeras. Se em Whiplash e La La Land, ele utilizava um estilo simples e ambientes arejados, nada disso se repete em O primeiro homem.
Com uma notável tentativa estética, por meio da fotografia de Linus Sandgren, de remeter ao estilo de Terrence Malick de A árvore da vida, assim como àquele visto em Interestelar, de Christopher Nolan, e ao clássico 2001, de Kubrick – na iluminação dos capacetes dos astronautas, sobretudo –, a dicção de Chazelle quase desaparece. Temos a sensação de assistir a uma busca de estilo que ressoa uma determinada emulação de outros artistas. Chazelle não está preocupado com o sentimento, a exemplo do que víamos em La La Land, apenas com a técnica e em criar enquadramentos diferenciados. Por sua vez, a tentativa de ir à Lua se torna menos intensa e o personagem de Neil Armstrong é emblemático nesse sentido.

Não apenas desenhado com um sujeito frio e distante da família e da esposa, por causa de uma perda marcante, mal percebemos o quanto ele pouco interage com outros personagens, como seus companheiros de aventura Buzz Aldrin (Corey Stoll) e Michael Collins (Lucas Haas), além dos astronautas Ed White (Jason Clarke), Roger B. Chaffee (Corey Michael Smith) e Gus Grissom (Shea Whigham) e o diretor de operações de voo Deke Slayton (Kyle Chandler), reunindo um grande elenco. Nas cenas em que brinca com os filhos, a lembrança imediata é o estilo de Malick em A árvore da vida, porém o que o cerca é uma sensação permanente de luto.
Por isso, talvez esse sentimento se estenda ao restante da história. As reuniões na Nasa, que eram tão interessantes em Os eleitos, de Philip Kaufman, o qual certamente influenciou também Chazelle, são passageiras. A câmera de Sandgren treme como se estivéssemos num filme de guerra de Kathryn Bigelow, porém isso não guarda relação com os sonhos desses personagens. Há um verniz documental sobre um fundo de mundo de transformação, mas as duas características não se fundem como poderia. Isso tudo parece proposital por parte de Chazelle, tornando os fatos históricos preenchidos por um ar de certa insegurança e mesmo espanto (os voos dos astronautas antes da missão final são, de certo modo, assustadores, sobretudo no uso da câmera). Não há elementos retumbantes; tudo parece em suspenso, contido.

O primeiro homem é um filme levemente autocentrado e desprovido de certa emoção que faz Gravidade e Perdido em Marte, por exemplo, parecerem playgrounds de desenvolvimento de personagens – e mesmo oferece certa ausência do clima de rotina e mudança histórica encontrados em Estrelas além do tempo. E impacta a maneira como Gosling e Foy, um par de grande talento, fica às vezes sem sustentação do roteiro. Gosling parecia um ator perfeito para esse papel, no entanto seu olhar vago é muito diferente daquele que utiliza em Drive, O lugar onde tudo termina e Blade Runner 2049, nos quais possui um roteiro para trabalhar; aqui ele aparenta estar apenas entre momentos marcantes para a humanidade, mas dos quais ele se aproxima apenas por um interesse remoto e baseado em efeitos visuais muito bem realizados. Ainda assim, Gosling entrega uma atuação que ajuda O primeiro homem a não ser um filme plenamente comercial. Há uma sequência no início de choro que remete à atuação dele impecável em De canção em canção e sua presença sintetiza um certo olhar distante da humanidade.
Isso se deve muito ao roteiro de Josh Singer, que ganhou um Oscar inexplicável por Spotlight e escreveu The Post, baseado no livro de James R. Hansen, que não consegue tecer um elo real entre os personagens – principalmente de Neil com seus parceiros de voo – e faz com que Chazelle tente concentrar a expectativa e suspense nas engrenagens de um foguete indo ao espaço. O que não tinham Spotlight e The Post? Exatamente relações efetivas entre os personagens (difícil recordar, ao longo do filme, uma fala de Lukas Haas, por exemplo). A questão é que este elemento se encaixa com a proposta da narrativa, que visa exatamente um sentimento constante de deslocamento do mundo, percebido nos flashbacks e na visão que o filme entrega da vida dos filhos dos astronautas, sempre próximos de um abandono anunciado. E, nessa linha, os pátios das casas mostrados por Chazelle mesclam uma alegria e um desconforto em igual escala.

O curioso é que a missão da Nasa na Apollo 11 em direção à Lua é uma reminiscência de infância, dos sonhos de cada criança quando descobrimos que o homem chegou a ela, e teve sua transmissão ao vivo desse acontecimento. Tudo isso desperta uma grande nostalgia. O primeiro homem faz o contrário. O que ele consegue é reverter essa espécie de sonho coletivo numa espécie de conto sobre um homem solitário e como a chegada à Lua, na verdade, foi apenas uma extensão do vazio que o preenche toda a narrativa, com a trilha sonora introspectiva de Justin Hurwitz. Essa sequência do pouso (imaginamos não ser um spoiler) é um registro da secura da paisagem diante a qual Neil se mostra sempre, mesmo quando visualiza a Lua à noite no céu.
Muitas críticas avaliam que o filme de Chazelle falharia ao ser um tanto antiamericano: não é o caso, apenas não sendo patriótico ou com sentimentos retumbantes pelo êxito do país na corrida espacial, que seriam incoerentes com a figura mostrada de Neil Armstrong na narrativa, na qual o luto é definidor mesmo para um discurso de John Kennedy sobre a Lua e com um instante-chave da personagem de Foy. É, por alguns instantes, bastante profundo. O seu problema é não ser uma obra com a grandeza do acontecimento enfocado, apesar de sua parte técnica notável, deixando no espectador a sensação de que muitos elementos estavam prontos para funcionar, sem serem, ao fim, totalmente colocados em prática. O que temos ainda, porém, é uma obra bastante interessante de um gênero que não cansa de receber novos exemplares de impacto.

First man, EUA, 2018 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Ryan Gosling, Claire Foy, Jason Clarke, Kyle Chandler, Corey Stoll, Ciarán Hinds, Christopher Abbott, Patrick Fugit, Lukas Haas Roteiro: Josh Singer Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: Wyck Godfrey, Marty Bowen, Isaac Klausner, Damien Chazelle Duração: 142 min. Estúdio: Universal Pictures, DreamWorks Pictures, Temple Hill Entertainment, Perfect World Pictures Distribuidora: Universal Pictures

Café Society (2016)

Por André Dick

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Escolhido para abrir o Festival de Cannes em 2016, Café Society traz mais uma vez a marca de Woody Allen, que vem fazendo um filme a cada ano, em grande regularidade. Nesta década, especialmente, ele tem colhido elogios, por obras como Meia-noite em Paris, Blue Jasmine, Magia ao luar e Homem irracional. Em Café Society, Allen parece assumir algumas características não tão visíveis. Ele sempre procura mostrar pares românticos em suas histórias, em que a mulher normalmente costuma prender o homem a uma expectativa, e aqui não é tão diferente. Allen, ainda assim, consegue inovar dentro de seu roteiro padrão.
Jesse Eisenberg faz Bobby Dorfman, que sai de Nova York, nos anos 1930, para Los Angeles, a fim de trabalhar com o tio Phil Stern (Steve Carell), casado com Karen (Sheryl Lee, com pouca chance), um agente de talentos cada vez mais reconhecido. Ele segue para lá por indicação de sua tia, Rose (Jeannie Berlin), deixando para trás sua irmã Evelyn (Sari Lennick), casada com um professor de colégio, Walt (Richard Portnow), seu pai joalheiro, Marty (Ken Stott), e sua mãe, Rose (Jeannie Berlin). Phil pede que sua secretaria Veronica/Vonnie (Kristen Stewart) apresente Los Angeles a Bobby. Ela é o contrário de todos que conhece na cidade, uma jovem que está em busca de uma vida simples.

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No entanto, quando ele demonstra interesse, ela diz que tem um namorado jornalista, Doug. Bobby continua fazendo trabalhos para o tio, frequentando festas com estrelas, enquanto tem os olhos voltados apenas para Vonnie. As conversas incluem Judy Garland, Billy Wilder, DW Griffiths, Barbara Stanwyck e James Cagney, entre outros, bastante ágeis, graças à competência habitual de Allen em mesclar fantasia e realidade, o humor judaico e referências artísticas diversas.
A partir daí, há uma surpresa na narrativa e Allen mostra as desilusões e conquistas desse casal. Também surgem com mais definição na trama um irmão gângster de Bobby, Ben (Corey Stoll), que lembra exatamente um determinado personagem de Tiros na Broadway, e Veronica Hayes (Blake Lively, a revelação de Águas rasas).
As referências do diretor ao cinema dos anos 30 são apaixonadas, com uma trilha sonora embalada pelo jazz e um trabalho espetacular de fotografia de Vittorio Storaro, que remete aos melhores momentos de O conformista, dos anos 70 (quando mostra clubes noturnos e pistas de dança), e O fundo do coração (quando algumas situações ganham colorações diferentes), um desenho de produção belíssimo de Santo Loquasto, além do figurino brilhante e minucioso de Suzy Bezinger. Várias sequências lembram igualmente New York, New York, de Scorsese, dos anos 70. Storaro ilumina as passagens filmadas em Los Angeles, com uma alegria antes captada apenas em Barton Fink (em sua porção fora do hotel), enquanto Nova York se torna mais cinza e azulada, fora de um determinado clube noturno onde a história guarda seus momentos. Se pudesse haver um correspondente direto deste filme é Era uma vez em Nova York, com a diferença de a obra de Allen ser mais despretensiosa e bem construída.

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A impressão que se tem é que, depois de sua passagem pela Europa, principalmente após Meia-noite em Paris, Allen se sente mais cuidadoso com sua parte técnica. Nos anos 70, ele fazia comédias realistas, nos anos 80 alternou obras entre o drama bergmaniano e o humor, no entanto tendo sempre Nova York como ponto de encontro, e nos anos 2000, ao filmar O escorpião de Jade e Vicky Cristina Barcelona, ou 2010, quando esteve na ensolarada Itália (em Para Roma com amor), ele se transformou num autor com toque mais europeu do que antes já se entrevia nele e o qual satirizava em Dirigindo no escuro. Claro que já aparecia um certo cuidado nas ambientações, como em Tiros na Broadway e Poucas e boas, mas nunca com a maturidade de agora e com a beleza plástica de Café Society (em diálogo direto com Meia-noite em Paris).
Com um custo de 30 milhões, alto para os padrões de Allen, é lamentável que ele não tenha retornado em boa bilheteria (arrecadou apenas 20 até agora), mesmo trazendo uma dupla (Eisenberg e Stewart) que já deu certo em outros filmes, a exemplo de Adventureland e American Ultra. Outra vez a química do casal é excelente, e Café Society deve alguns de seus melhores momentos a essa interação.
Talvez esta bilheteria também se deva ao fato de Café Society não apresentar a mesma melancolia alegre do diretor e ator, nem exatamente seu melhor bom humor. Apesar de Eisenberg se esforçar em ser um Woody Allen na tela, e ele é realmente um grande ator, e Stewart oferecer certa graciosidade à sua personagem (sendo filmada por Allen e Storaro como uma diva dos anos 30), além de estar cada vez mais desenvolta (comprovando o talento que já exibe desde O silêncio de Melinda, em 2004), o filme se mantém num plano quase decepcionado diante da vida e dos possíveis sonhos de Los Angeles.

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Neste ponto, ele parece dialogar com um universo de sonhos não concretizados, e igualmente pouco amargo e sim otimista, mais no sentido de Blue Jasmine do que de Magia ao luar, por exemplo. Lively e Carell trazem boas atuações complementares, embora o segundo se sinta um pouco deslocado (ele substituiu Bruce Willis um pouco antes do início das filmagens) e sua ligação com o contexto nunca fique devidamente trabalhada, em razão da pressa narrativa com seu personagem. Eisenberg, sob esse ponto de vista menos afeito à carreira do diretor (que aqui atua como narrador também), mostra uma insuspeita melancolia, que faz com que tudo a seu redor se transforme em algo menos previsto do que ele gostaria, exibindo a versatilidade já exibida este ano ao interpretar o vilão de Batman vs Superman, Lex Luthor. Ele lida com um personagem que simplesmente vai amadurecendo, com a companhia de amigos como o casal Rad (Parker Posey) e Steve Taylor (Paul Schneider), sem exatamente mudar, e Allen, por meio de uma montagem ágil em todos os aspectos, emprega sua presença como aquela que imagina ser a de um jovem em plena época da depressão, com sua vontade de se transformar em alguém. Entre sonhos na capital do cinema e dedicação ao universo gângster, Café Society mostra que todos os personagens estão à procura de si mesmos. Não é algo novo na filmografia de Allen, contudo é mais denso do que poderia ser um retrato apenas bem-humorado dos anos 30.

Café Society, EUA, 2016 Diretor: Woody Alllen Elenco: Jesse Eisenberg, Steve Carell, Kristen Stewart, Corey Stoll, Blake Lively, Paul Schneider, Parker Posey, Ken Stott, Jeannie Berlin, Paul Schackman, Sheryl Lee Roteiro: Woody Allen Fotografia: Vittorio Storaro Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Duração: 96 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Gravier Productions

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Homem-Formiga (2015)

Por André Dick

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A parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de filmes com os mais variados heróis: Thor, Homem de Ferro, Capitão América. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias do Homem-Aranha continuamente, trocando o ator a cada cinco anos, quando não antes. No próximo ano, a DC Comics finalmente colocará em cena o duelo entre Batman e Superman, já visualizado nos quadrinhos de Frank Miller. No entanto, um dos heróis mais improváveis a sair dessa parceria da Marvel com Disney é outro. Enquanto Homem de Ferro, Thor e Capitão América, e ainda Hulk (que não possui ainda um filme solo com o ator atual, Mark Ruffalo), são bastante conhecidos, mesmo para quem não acompanha quadrinhos, o Homem-Formiga parecia, em primeiro lugar, não anunciar um projeto seguro. No início, foi chamado Edgar Wright para dirigi-lo. Wright é o responsável por filmes de grande humor, violência e ação, a exemplo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, principalmente em sua parceria com Simon Pegg, reproduzida também em Heróis de ressaca. É ainda Wright um dos responsáveis pelo roteiro de Homem-Formiga, ao lado de Jay Cornish, autor da história de As aventuras de Tintim, Adam McKay e Paul Rudd. No entanto, quem assumiu a direção foi o mais improvável ainda Peyton Reed. Enquanto ele possui um par de obras menos felizes (Abaixo o amor e Separados pelo casamento), também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

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Esta influência de Reed e Wright, com humor, é a principal chamada de Homem-Formiga. Scott Lang (Paul Rudd) é um prisioneiro. Depois de liberado, quem o recebe de volta à vida é o amigo Luis (Michael Peña). Para infelicidade de Lang, ele tem planos de novos assaltos, com a ajuda dos amigos Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). Eles certamente formam algo que se assemelha a um trio pouco inclinado a invadir propriedades sem chamar a atenção. O personagem principal pretende rever a convivência com a  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), mas se depara com a antiga mulher, Maggie (Judy Greer, a mãe preocupada com os filhos dos filmes do verão norte-americano, a julgar também por Jurassic World), e o seu novo marido, o policial Paxton (Bobby Cannavale), que exigem dele um emprego e o pagamento da pensão. Ao mesmo tempo, Darren Cross (Corey Stoll) está fazendo experimentos, iniciados tempos atrás com Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) está à frente ainda da empresa que era dele e cujo desaparecimento da mulher ainda é um mistério. Cross não é alguém certamente confiável, pois está tentando reproduzir um experimento iniciado por Pym com partículas, a fim de criar o Yellowjacket, e o destino colocará Lang no rumo desses acontecimentos.
Diferente dos demais heróis da Marvel, o passado de Lang e o interesse que provoca é justamente por sua habilidade em roubos, em burlar sistemas a princípio invioláveis. Ao contrário dos demais, como o de Stark em revolucionar a tecnologia, ou Thor com seu entorno de disputa pelo poder de Asgard, ele pretende, por meio da possibilidade de ser o Homem-Formiga, em conseguir novamente ver a filha. Também não se transforma como esses heróis com um poder externo ou interno a ele, nem é picado por um inseto antes de adquirir poderes, nem é um cientista como Banner ou Stark. Ele simplesmente aceita usar o uniforme de Homem-Formiga e aprender a lidar com uma tropa de insetos, que ficam gigantes perto dele.

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Não estamos diante de Tropas estelares, de Paul Verhoeven, com sua compulsão por bílis de monstros; Homem-Formiga é para um público infantojuvenil. Ele tem diálogos maiores com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente 25 anos depois, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia Homem-Formiga, tem seus méritos – na maneira como mostra, por exemplo, o herói em meio aos insetos num jardim caseiro. Ainda assim, a produção de Reed não se sente descartável, como muitos blockbsusters. Particularmente, mesmo que se considere Capitão América 2 uma grande conquista da Marvel, acompanhada por Guardiões da galáxia, Homem-formiga me pareceu o filme de herói solo mais interessante desta leva. Ele tem uma composição que parece acessível e pouco original, mas consegue lidar com a fórmula de maneira muito eficiente, não apenas em razão dos efeitos especiais excelentes, como também por causa do elenco e do design de produção situado entre o tecnológico e o caseiro (a moradia de Pym ou da filha de Lang, com um trem que trará uma das cenas-chave da produção, como já se vê no trailer). Do mesmo modo, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus flashbacks, certamente um acréscimo de Edgar Wright, cujas histórias trazem certamente esse elemento, principalmente em Chumbo grosso e Scott Pilgrim. E há as referências à S..H.I.E.L.D. e à Hydra, assim como a participação de um dos personagens já vistos anteriormente em Capitão América e Os vingadores.
Talvez seja a simplicidade de Reed em lidar com elementos pouco originais e ainda contar com um elenco tão interessante que torna Homem-Formiga numa diversão superior ao que se espera. O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes mais subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto e As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, sem efetivamente conseguir, e depois o professor de As vantagens de ser invisível.

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Como o Homem-Formiga, ele consegue lidar com um aspecto bem humorado, no entanto sem querer repetir Robert Downey Jr. Ao seu lado, Michael Douglas consegue um bom papel, sem chamar atenção demais, equivalendo a Stanley Tucci em Capitão América na esperança de ter escolhido a pessoa certa para efetuar o que precisa, enquanto Evangeline Lilly tem uma composição agradável. Stoll é um vilão também plausível e há uma cena de ameaça num banheiro masculino que remete àquela do RoboCop dos anos 80. Além disso, o trio de amigos de Lang consegue ser interessante para o fluxo da narrativa.
Impressiona como Reed consegue utilizar todos esses elementos, junto com o elenco, na realização de um filme que coloca uma ideia a princípio apenas curiosa em um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo das formigas e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto e mesmo quando ele precisa contar com a ajuda dos insetos para entrar nos lugares mais imprevistos, com o auxílio da fotografia excepcional de Rusell Carpenter, que recebeu um Oscar por Titanic, lembrado num determinado momento da trama. Do mesmo modo, Reed desenha essas sequências com uma agilidade grande, ao colocar o humor como válvula de escape. Neste sentido, Homem-formiga chega àquele limite muito difícil de ser traçado, entre um filme apenas meramente divertido e realmente bem feito; ele se inclina com êxito para a segunda característica.

Ant-man, EUA, 2015 Diretot: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Michael Douglas, Corey Stoll, Evangeline Lilly, Michael Peña, Bobby Cannavale, Judy Greer Roteiro: Adam McKay, Edgar Wright, Joe Cornish, Paul Rudd Fotografia: Russell Carpenter Trilha Sonora: Christophe Beck Produção: Kevin Feige Duração: 117 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Big Talk Productions / Marvel Enterprises / Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

Lugares escuros (2015)

Por André Dick

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No ano passado, David Fincher adaptou com ótima recepção de público e crítica o suspense Garota exemplar, escrito por Gillian Flynn. Apesar de Flynn colaborar diretamente no roteiro, a partir de determinado momento é possível que seu estilo é substituído claramente pelo de Fincher, na maneira de conduzir a narrativa e os personagens, em parte resultando numa decepção, pois em seus projetos anteriores o diretor havia conseguido um notável equilíbrio. Pouco tempo depois (o romance original é de 2009), Flynn tem outro romance adaptado para as telas do cinema, Lugares escuros. Como em Garota exemplar, trata-se de uma trama de mistério e de indagações, relacionadas desta vez a um passado um pouco mais longínquo.
Libby Day (Chalize Theron) é sobrevivente de um massacre ocorrido em 1985, em Kinnakee, no Kansas, no qual parte de sua família terminou morta. Desde então, ela tem conseguido vários ganhos financeiros a partir desse acontecimento, seja por meio de livros, seja por meio de programas de TV, porém chega-se ao limite, e suas economias cessaram. Ela é procurada por Lyle Wirth (Nicholas Hoult), líder do Kill Club, formado por integrantes obcecados por assassinatos e crimes nunca solucionados devidamente. Lyle é dono de uma lavanderia, mas decide dar a Libby todo o custo financeiro cobrado para ela cobaborar com novas informações para saber se o que aconteceu ou não no Kansas corresponde às informações das autoridades. Segundo a mesma Libby declarou aos 8 anos de idade, tudo aconteceu da forma como relatado à época. A partir daí, Libby decide visitar o irmão acusado pelos assassinatos, condenado à prisão, Ben (Corey Stoll).

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Ao mesmo tempo, a narrativa começa a lançar os flashbacks sobre sua vida familiar numa fazenda do interior. Nela, sua mãe, Patty (Christina Hendricks) convive com os problemas conflituosos de Ben (Tye Sheridan), aos 15 anos, e ainda Michelle (Natalie Precht) e Libby (Sterling Jerins). Esta tem um bom relacionamento com o irmão, que se vê envolvido com Diondra Wertzner (Chloë Grace Moretz) e Trey (Shanon Kook), integrantes de uma estranha seita. Decisivamente, Libby está interessada em remontar essa história como um quebra-cabeças, vendo inclusive onde entram seu pai, Runner (Sean Bridgers) e Krissi (Addy Miller), uma menina que, à época, teria acusado Ben de tê-la molestado – fazendo a notícia se espalhar por toda a escola. Há vários temas em Lugares escuros: hipotecas de fazendas, crianças ameaçadas e jovens desgovernados. E há o Kill Club, embora apenas no início, pouco explicado pela narrativa e com uma ideia severamente desperdiçada.
O diretor francês Gilles Paquet-Brenner faz uma sucessão de idas e vindas no tempo para entendermos a presença de Libby no dia do massacre, e para isso ele tem o auxílio da fotografia de Barry Ackroyd. Responsável por trabalhos de filmes com movimentação de câmera contínua, como Guerra ao terror e Capitão Phillips, Ackroyd tenta dar uma motivação a todos os momentos de Lugares escuros, com êxito em alguns momentos, e em outros nem tanto. Não há um grande alento nas imagens de Lugares escuros, mas, de algum modo, este clima oferecido pelo filme leva todos os personagens a uma espécie de afastamento da realidade.

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Tanto quanto o clube coordenado por Lyle – em mais uma boa atuação de Hoult, que também divide a cena de Mad Max com Theron –, essas figuras estão dominadas por uma faceta noturna. Libby se movimenta com dificuldade, sempre associada ao massacre, enquanto o irmão está na prisão. As lembranças da mãe não são menos pesadas, e Hendricks mais uma vez consegue atuar bem  num papel de determinado modo limitado. No entanto, é Sheridan e Moretz que conduzem o filme para o foco do mistério e se mostram mais uma vez bons atores, sobretudo Sheridan, depois de Amor bandido e Joe (uma grande falha com Nicolas Cage, quase salva por ele). Theron, por sua vez, tem uma boa presença de cena, embora seu personagem não seja muito diferente daqueles que já protagonizou: em muitos momentos, a gelidez de Libby impede o espectador de uma aproximação maior, como se ela fosse a responsável pela nave de Prometheus. Em parte, isso é necessário para o papel, contudo Theron exagera por vezes, repetindo alguns maneirismos de amargura já entrevistos em Jovens adultos; Hoult ao aparecer em cena, como em Mad Max, consegue recompor a narrativa, apesar de nunca usado como deveria.
Entende-se que Gillian Flynn teria feito um romance com acontecimentos improváveis, mas isso já transparecia em Garota exemplar, cuja parte final é próxima do desastroso. Se Paquet-Brenner não tem nem um traço do talento para o visual de Fincher, pode-se dizer que sua trama é mais árida e concentrada, ao contrário daquela apresentada em Garota exemplar.

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Esses personagens, a começar por Libby, não têm exatamente uma polidez: há um universo encoberto e mesmo sujo aqui, e Paquet-Brenner consegue retratá-lo com uma atmosfera por vezes assustadora, tendo como base a música de Gregory Tripi. Temos imagens da cidade grande e de clubes noturnos (inclusive o Kill Club) e elas não são diminuídas pelas imagens bucólicas do interior: nessas, pelo contrário, existe ainda uma ameaça maior, como se o lado campestre estivesse sempre em união com o urbano, nunca trazendo alívio aos personagens; a sua atmosfera é quase inabitável e habilmente incômoda. O espectador nunca se sente à vontade com sua variação de cenários, aparentemente sempre com o objetivo de cada um parecer preso à sua forma de agir. As improbabilidades do que acontece, reservadas a um suspense e a um thriller, não jogam o filme na vala comum; antes, fazem parte apenas do gênero, e o diretor consegue fazer uma sucessão contínua de novas informações se sobrepondo junto com a recuperação do passado. Uma pena o filme falhar em seus instantes finais, quando o diretor deixa as descobertas subentendidas e não recompõe a importância de cada personagem para o contexto. Ainda assim, Lugares escuros lança o espectador em meio a uma narrativa capaz de atrair a atenção e não aponta a necessidade de uma resolução definitiva para aquilo que aos poucos também se desmantelou na memória de Libby.

Dark places, FRA/EUA, 2015 Diretor: Gilles Paquet-Brenner Elenco: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Chloë Grace Moretz, Christina Hendricks, Tye Sheridan, Corey Stoll, Drea de Matteo, Natalie Precht, Sean Bridgers, Shannon Kook, Sheri Davis, Sterling Jerins Roteiro: Gilles Paquet-Brenner Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Gregory Tripi Produção: Charlize Theron, Peter Safran, Stéphane Marsil Duração: 114 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Cuatro Plus Films / Da Vinci Media Ventures / Denver and Delilah Productions / Exclusive Media Group / Hugo Productions / Mandalay Vision

Cotação 3 estrelas e meia