Dunkirk (2017)

Por André Dick

O cineasta britânico Christopher Nolan iniciou sua carreira com o curioso thriller Following e em seguida fez Amnésia, no qual a memória fragmentada atingia o personagem central e antecipava, de certo modo, Insônia, policial com Al Pacino em busca de um assassino no Alaska, abalado por não conseguir dormir em razão da claridade permanente. Se Batman begins significou o início de uma das maiores trilogias da história do cinema, O grande truque e A origem confirmaram Nolan como uma voz capaz de mesclar técnica, visão, ousadia e riscos com a montagem de um filme. Apesar de sempre se apontar uma certa exposição em seus roteiros, sua filmografia parecia prepará-lo para a obra-prima de ficção científica que é Interestelar. Para suceder uma obra desse porte, Nolan recorreu ao gênero de guerra, trazendo para as telas a batalha de Dunkirk. A história inicia em 1940, na Segunda Guerra Mundial, com a explicação de que a França está sendo invadida pela Alemanha e milhares de soldados ficam à espera do que pode acontecer em seguida na cidade litorânea de Dunkirk.

Logo Nolan foca em Tommy (Fionn Whitehead, muito bem), jovem soldado da Inglaterra, que consegue chegar, depois alguns contratempos, à praia onde estão soldados de seu país e outros aliados (franceses, belgas e canadenses). Ele fica amigo de Gibson (Aneurin Barnard), que está enterrando um amigo seu. Ameaçados por aviões da Alemanha, os homens estão desesperados na praia. Aos dois novos amigos, se junta mais tarde Alex (Harry Styles). Alheios a esse cenário, o Comandante Bolton (Kenneth Branagh) e o Coronel Winnant (James D’Arcy) avaliam a situação, e isso significa exatamente não ter ideia ou certeza a respeito do que pode afetar esses milhares de homens sob seu comando. Por alguns instantes, principalmente no número de figurantes, Dunkirk parece remeter a Patton, dos anos 70, mas o propósito de Nolan não é obviamente fazer uma sátira de guerra. Estamos, sim, diante de uma homenagem dele a um fato histórico.
Ao mesmo tempo, vários barcos são requisitados pela Royal Navy para ajudar no salvamento. Num deles, o Moonstone, está o Sr. Dawson (Mark Rylance), junto com seu filho, Peter (Tom Glynn-Carney), e o jovem George (Barry Keoghan). No caminho para Dunkirk, eles se deparam com o soldado Shivering (Cillian Murphy, um dos atores favoritos do diretor).

Finalmente, acompanhamos também os pilotos de aviões Spitfire Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden), que sobrevoam Dunkirk para tentar proteger as tropas. Os três núcleos (em terra, em água e ar) se passam em tempos diferentes, requisitando do espectador uma certa atenção para desenhar o panorama geral.
O diretor de fotografia Hoyte van Hoytema, que já havia trabalhado com Nolan em Interestelar, empresta seu talento para a captura de imagens verdadeiramente realistas, fazendo algumas vezes o filme se parecer com um documentário – e se faz notável um diálogo com o clássico de guerra Overlord, dos anos 70, um dos preferidos de Nolan. Além disso, a paleta de cores escolhidas realça o figurino dos personagens e a areia da praia (inspirada em O mestre, de Paul Thomas Anderson). Por sua vez, a trilha de Hans Zimmer empresta o aspecto grandioso à narrativa. Difícil esquecer, por exemplo, os jovens carregando um ferido em determinado momento à frente de tropas enfileiradas ou o Moonstone passando ao lado de um grande navio: é como se o mínimo, o pequeno, fosse realmente o que representa a bravura de quem adentra uma guerra.

A grande questão é que Nolan, desta vez autor solitário do roteiro, parece ter desejado substituir a exposição verbal de seus filmes – muito interessante em Interestelar, por exemplo – pela superexposição de imagens. Destaca-se como nenhum personagem é trabalhado, com exceção talvez para Sr. Dawson, na melhor atuação de Rylance em sua carreira como ator de cinema. Os soldados estão sempre à mercê de uma ameaça para terem sua presença desenvolvida. Nesse sentido, os diálogos não importam, e sim o que pode acontecer quando um avião se aproxima ou quando há tiros na água, e pode-se dizer que é um dos filmes que melhor utilizam efeitos sonoros (de gritos humanos também) dos últimos tempos. Isso fornece uma tensão incontornável, porém até certo ponto, pois, não se sabendo quem são esses personagens exatamente, não há o devido envolvimento. Não se trata, por exemplo, da técnica usada por Terrence Malick, de desprover os personagens de diálogos: Malick compensa por sugestões visuais. Essa não é uma característica de Nolan: sua área de domínio é o cinema de impacto, e este normalmente em seu caso vem acompanhado por longas linhas de diálogos. É o que o caracteriza como diretor autoral. Isso se ausenta de maneira pontual em Dunkirk. Ele está mais interessado na imagem como documento do que como espaço para a inter-relação.

Mesmo na angústia e na tentativa de sobrevivência, o resultado soa um tanto frio por faltar exatamente seu toque clássico. Sintetizar personagens por meio de imagens não é necessariamente uma qualidade. Este pode ser o caso de Dunkirk, um filme moldado para ser grande e se ressente justamente de personagens e atuações capazes de provocar uma satisfação maior como cinema. Além disso, Nolan parece acentuar um problema já existente em A origem, um filme substancialmente melhor em cada palmo do que Dunkirk: a montagem é excessivamente confusa, jogando com três cenários e tempos em paralelo, sem haver sugestões suficientes para indicar qual é a próxima ameaça. Lee Smith tem um trabalho árduo aqui, pois a montagem é assessorada pela emoção dos personagens, que faltam a cada momento em que o espectador espera uma nova costura para as imagens sendo apresentadas. Quando há um encaixe mais claro para o espectador dessas ações fora de ordem, o filme cresce.
Essa emoção havia, por exemplo, no subestimado e muito mais clássico e padronizado Invencível, no qual os combates aéreos pelas lentas de Roger Deakins adquiriam um ímpeto realista e, ao mesmo tempo, cinematográfico. Ou mesmo no recente Até o último homem, de Mel Gibson, que, com todo seu maniqueísmo, criava uma perturbação por meio de sua figura principal em meio ao conflito de guerra. Para não falar de clássicos, a exemplo de Platoon, Nascido para matar, Apocalypse now, O franco-atirador, Além da linha vermelha O resgate do Soldado Ryan, todos com uma visão humana e histórica sobre a guerra, visualmente impressionantes e com desenvolvimento de personagens. Por outro lado, parece ser exatamente na sutileza que Nolan entrega uma visão diferenciada da guerra. Ao não dar tanta voz a esses personagens, ele universaliza as situações de perigo.


Nesse sentido, o personagem de Murphy, Shivering, se apresenta como aquele que, transtornado pela guerra, passa a agir de modo irracional. Também por meio dessa figura, Dunkirk é um filme de sobrevivência, como vem sendo divulgado, e a cada peça dele leva a um direcionamento maior rumo à emoção, mesmo que esta se sinta por vezes vazia. É uma obra simétrica, mas falta a ela a perturbação da guerra sem exatamente o predomínio documental e sua recomendação de idade impede cenas fortes, que seriam adequadas no contexto, sendo tudo excessivamente asséptico. Como uma visão conceitual e técnica da guerra, Dunkirk pode atingir em cheio; como fator do imponderável e da emoção, suas imagens soam um pouco remotas e mecânicas. Ele acaba tendo mais interesse quando cria paralelismos entre situações, como o dos jovens tentando colocar um barco em movimento e um piloto tentando sobreviver embaixo d’água. Também é interessante como Nolan coloca o heroísmo em escalas diferentes, por meio dos personagens da embarcação e dos homens nas praias de Dunkirk. No momento em que as ações em tempos diferentes se encontram e a trilha sonora de Zimmer se torna menos uma espécie de ruído e mais uma nostalgia de antigos filmes de guerra, é possível sentir na imagem de um piloto solitário o contraponto para a solidariedade humana.

Dunkirk, EUA/FRA/HOL/ING, 2017 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Tom Hardy, Mark Rylance, Cillian Murphy, Kenneth Branagh, Fionn Whitehead, Aneurin Barnard, Harry Styles, James D’Arcy, Jack Lowden, Barry Keoghan Roteiro: Christopher Nolan Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 106 min. Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Dombey Street Productions / Warner Bros.

 

No coração do mar (2015)

Por André Dick

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O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de Splash, Cocoon, Willow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da Vinci, O Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repete em No coração do mar, o filme sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.
Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti, Howard apresenta a história de Thomas Nickerson (Breendan Gleeson), casado com (Michelle Fairley) que recebe, num momento de depressão e financeiramente difícil, o escritor Herman Melville (Ben Wishaw, fazendo ecoar seu papel em Cloud Atlas) para contar a história do baleeiro Essex, que partiu em viagem nos anos 1850 da cidade de Nantucket. Ou seja, o filme não é uma adaptação direta de Moby Dick, livro de Melville que serviu de referência para outros inúmeros livros ou filmes sobre o confronto entre homens e animais (do mar ou da terra).

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Em torno de três décadas antes, Nickerson (agora Tom Holland) fazia parte desse baleeiro, sob o comando de George Pollard (Benjamin Walker, excelente), um capitão inexperiente que recebe o confronto direto de Owen Chase (Hemsworth), cujo melhor amigo, Matthew Joy (Cillian Murphy), se encontra a bordo, e muito mais tarimbado nas funções que precisa exercer em alto-mar. No entanto, eles precisam entrar em acordo para que o serviço seja bem feito e possam voltar com bastante especiaria de baleia para terra. Alguns meses mais tarde, eles percebem que quase não há baleias, indo parar no Equador, onde são alertados sobre uma determinada cachalote branca. Isso é o ponto de partida para a história de Melville, que já se tornou conhecida, por meio de seu capitão Ahab, que enfrenta a cachalote em alto-mar. Escusado será dizer que o barco Essex será perseguido como se houvesse um embate contra outro ser humano, plenamente consciente de que deve se vingar. Esse é o mote dessa grande história.
Por meio de uma fotografia excelente de Anthony Dod Mantle, já responsável pelas tomadas de corrida de Rush, que concede ao filme uma textura de filme antigo, mais propriamente dos anos 50. No coração do mar cresce ainda mais por causa de sua imponência na parte de efeitos especiais e efeitos sonoros. São notáveis as sequências de perseguição da baleia ao Essex, e este é construído de maneira verossímil. Há algumas alternativas previsíveis na narrativa de Howard, mas em nenhum momento o filme se apresenta como montado às pressas como costuma acontecer com grande parte dos blockbusters: ele tem uma grande proximidade com fatos que poderiam a princípio chocar não fossem símbolos exaustivos de como pode uma sobrevivência se antecipar à vida, assim como o referencial Invencível.

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Também é notável a reconstituição de época (junto com os figurinos), mesmo que em alguns momentos haja uma determinada aparência falsa no conjunto; no entanto, parece-me proposital, por Howard exatamente querer recuperar o clima de cinema antigo já constatado na fotografia de Dod Mantle. Não são raras as vezes em que imaginamos assistir a um filme clássico, cujo relevo lembra um álbum antigo. A obra de Howard se sente como um grande painel de época, variado e profuso – e determinadas sequências possuem uma beleza plástica poucas vezes vistas no cinema. Em alguns momentos, há diálogos com a maneira como Peter Jackson filmou as cenas em alto-mar no seu King Kong, em outros, como já apontado, Howard convoca elementos do documentário Leviathan, principalmente ao mostrar o voo de gaivotas, e há um eficiente uso das cores vermelhas (da violência contra a baleia) e verdes (do mar e dos olhos dos personagens e da própria cachalote). Howard sempre esteve muito interessado no tema da viagem e do confronto do homem com seus próprios limites, como em Apollo 13, Um sonho distante ou mesmo na fantasia Willow. Em Uma mente brilhante e A luta pela esperança, Russell Crowe representava homens lutando contra suas possibilidades e impossibilidades, e nesse sentido Owen Chase é um típico personagem de sua filmografia.

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Na verdade, se aqui Howard consegue extrair interpretações competentes do elenco, como de praxe, ele se esmera ainda mais em se aproximar de um lado mais grave: o ser humano em busca de uma temporada de caça acaba se voltando contra si próprio para sobrevivência. Howard consegue indicar esse desespero humano, sobretudo ao mostrar como os homens do baleeiro faziam para extrair as especiarias e depois o que devem fazer para se manterem vivos.
Hemsworth tem se mostrado um dos astros mais interessantes desde seu surgimento em Star Trek e Os vingadores. Em No coração do mar, mais uma vez ele revela uma emoção que consegue captar seu susto diante da situação de enfrentar um mistério da natureza querendo destruir a navegação da qual faz parte. Ele faz parte de um ótimo elenco de apoio, incluindo Whishaw, Gleeson e Cillian Murphy. Holland, o próximo Homem-Aranha, tem uma participação não exagerada e competente o suficiente para tornar seu personagem como a continuação de uma linhagem de baleeiros.

In the heart of the sea, EUA, 2015 Diretor: Ron Howard Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Tom Holland, Cillian Murphy, Michelle Fairley Roteiro: Charles Leavitt Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Roque Baños Produção: Brian Grazer, Edward Zwick, Joe Roth, Paula Weinstein, Will Ward Duração: 121 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Cott Productions / Enelmar Productions, A.I.E. / Imagine Entertainment / Roth Films / Spring Creek Productions / Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 4 estrelas

Transcendence – A revolução (2014)

Por André Dick

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Quando foi anunciada a estreia de Wally Pfister, diretor de fotografia dos filmes de Cristopher Nolan, com Johnny Depp, à frente de uma grande produção, logo se criou uma grande expectativa. Talvez seja esta mesma expectativa que tenha feito o estúdio colocar Transcendence – A revolução um pouco antes das estreias de verão, como se fosse um blockbuster destinado a arrecadar milhões. Com grande prejuízo nas bilheterias e um rastro de críticas em parte bastante negativas, o filme de Pfister não conseguiu criar uma empatia direta, mesmo com seu elenco: além de Depp, Morgan Freeman e Rebecca Hall, para citar apenas os principais. Filmes de ficção científica com fundo filosófico dificilmente conseguem, de qualquer modo, atrair uma grande bilheteria, independente de seus objetivos: é quando a ficção se mescla com cenas de movimento contínuo que o gênero costuma crescer em todos os sentidos – e se tiver espaçonaves e batalhas espaciais quanto mais melhor. E é importante não esquecer: Godzilla foi um grande sucesso de bilheteria e mesmo elogiado por grande parte da crítica estrangeira, mesmo sendo o filme que, de fato, é.
Daí não ser uma surpresa que Transcendence tenha sido recebido com tanta desconfiança, além, claro, de que sua história não estava interessada em puxar os elementos mostrados para o lado espetacular da questão, preferindo se manter com uma certa reserva e um certo tom de onirismo ao longo de sua narrativa. Esta mostra um cientista, Will Caster (Johnny Deep), casado com Evelyn (Rebecca Hall), que, quando está fazendo uma palestra sobre a inteligência artificial, descobre a existência do grupo Revolutionary Independence From Technology (RITF). Ao mesmo tempo, há a presença do agente do FBI Donald Buchanan (Cillian Murphy), acompanhado do cientista do governo Joseph Tagger (Morgan Freeman), investigando a história. Caster tem o objetivo de retornar de maneira a princípio inacreditável: ele tenta transferir sua consciência para um computador. Tendo o apoio da mulher, mas a desconfiança de seu melhor amigo, Max Waters (Paul Bettany), Caster tentará se tornar uma espécie de humano habitando um sistema de informática, quase uma versão masculina do Ela de Spike Jonze.

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Enquanto isso, Max é perseguido por  Bree (Kate Mara), o líder do RIFT, e, na medida em que terá de se decidir em trair Caster ou segui-lo, e do mesmo modo continuar fiel à imagem de sua amiga, Max se tornará um personagem deslocado pelos acontecimentos.
Caster quer ainda mais: criar no deserto um lugar em que as pessoas possam ir se tratar, com ganhos envolvendo a a biologia, a tecnologia e as nanotecnologias. Estão aí todos os elementos de uma ficção científica de interesse, e Pfister os trabalha com cuidado. No início, dispondo os personagens em cena, já é possível sentir uma certa atmosfera melancólica, inusitada neste tipo de filme. Os personagens estão em contato uns com os outros, mas ao mesmo tempo parece haver um afastamento.  E, se a trama oferece a impressão de andar lenta demais, é mais porque Transcendence, embora pareça, não segue o ritmo da maioria dos blockbusters, preferindo se concentrar na relação entre Caster e Evelyn. Esta é baseada no conhecimento científico e nas descobertas, mas não consegue nunca ganhar corpo porque ambos os personagens se situam e se comportam como pessoas deslocadas. Na verdade, eles parecem sempre estar em sonhos ou transições de energia, como o da internet, nunca em lugares fixos ou determinados. O quarto de Caster e Evelyn, por exemplo, é um exemplo de lugar que aparenta ser acolhedor, mas esconde os conflitos do casal deixados em vida. O fato de se fazer o upload da consciência de Caster para um computador não significa, para Evelyn, que ele de fato exista, mas que pode ser ameaçador e dominador como a rede da internet em que ele pretende sobreviver e se espalhar.
Não é por acaso, neste sentido, que Transcendence, a partir de sua segunda metade, prefira mostrar a tentativa de Caster criar uma comunidade no meio do deserto, na cidadezinha de Brightwood. As imagens de Transcendence neste deserto são ao mesmo tempo vagarosas e contemplativas, sugerindo um espaço-tempo indefinido e lembram as do início do filme 2010 – O ano em que faremos contato, quando o sol está nascendo em frente a placas de energia solar. A direção de arte do filme de Hyams tem semelhanças com a do filme de Pfister, sendo que esta é ainda mais elaborada e evoca sempre um sentimento de solidão e afastamento do mundo. O cenário dialoga com a tentativa de Caster é soar como um deus capaz de regenerar – ou de transcender, conforme o título – toda a humanidade à sua volta. Como Caster, Depp está num limite tênue entre a apatia e a frieza tecnológica, mas talvez seja uma necessidade de não soar como seus personagens ligados aos filmes de fantasia, enquanto Hall demonstra o talento já mostrado em outros filmes, compondo uma mulher situada entre o mundo experimental e a preocupação de lidar com algo que pode fugir ao controle.

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Dentro do que se propõe, ele cumpre o que Pfister organiza com a lentidão de sua narrativa, sem nenhum momento estridente de ação no sentido em que o cinema vem se moldando nos últimos anos. Embora haja elementos de filmes de Nolan, sobretudo de A origem, sobretudo numa certa confluência entre a bela trilha sonora de Mychael Danna (As aventuras de Pi), fotografia de Jesse Hall (The spectacular now) e diálogos, fazendo com que esses soem o tempo todo dispersos ou vagando pelo espaço pelo qual a narrativa se move, os personagens parecem estar sempre conversando com computadores, como se a consciência humana tivesse sido deslocada para esse compartimento, e há imagens de grande sensibilidade, sobretudo quando mostra o corpo como uma coleção de partículas, em contraste com as tormentas que surgem. Transcendence consegue muito mais empregar uma elegância por meio de seu trabalho de fotografia e diálogos breves e soltos, com o apuro de uma montagem não linear, mas que ao longo da narrativa se torna mais confusa e mais evocativa. É interessante como Pfister, por exemplo, mostra os ambientes da universidade, de maneira asséptica, e dos laboratórios e corredores em que Caster passa a trabalhar com as nanotecnologias com a mesma luminosidade de Apichatpong Weerasethakul em Síndromes e um século, assim como é compreensível que o início do filme antecipe o seu final, como uma rede ligada a outra, em que os pontos devem se conectar. Mais ainda é a maneira como Pfister filma, no início, uma gota-d’água num lugar-chave para o casal – e essa gota antecipará a verdadeira transcendência, numa imagem sobretudo elaborada, fixando-se também na semelhança com o campo de placas de energia em Brightwood, que lembram girassóis voltados para o céu. Pfister certamente não está conduzindo a humanidade, em seu filme, a uma fuga dos compromissos modernos e contemporâneos por meio dos computadores, mas vendo a base desse sentimento pela consciência artificial. Neste sentido, Transcendence é um filme que, mais do que pontos bastante interessantes a serem discutidos, foge a qualquer traço de simples filme comercial, daí sua maior originalidade e aquilo que equivale a seu título.

Transcendence, EUA, 2014 Diretor: Wally Pfister Elenco: Johnny Depp, Morgan Freeman, Rebecca Hall, Paul Bettany, Kate Mara, Cillian Murphy, Cole Hauser, Clifton Collins Jr. Roteiro: Jack Paglen Fotografia: Jess Hall Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Andrew A. Kosove, Annie Marter, Broderick Johnson, Kate Cohen, Marisa Polvino Duração: 119 min. Estúdio: Alcon Entertainment / Straight Up Films

Cotação 4 estrelas

 

A origem (2010)

Por André Dick

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O diretor Christopher Nolan, da nova franquia de Batman, costuma ser visto como um designer que arrisca mudanças no meio cinematográfico, desde Amnésia. Embora não aprecie especialmente Amnésia, é em A origem que fica claro como ele faz seus filmes: uma montagem vertiginosa, na qual ele imagina delinear os personagens, com muitos efeitos especiais de qualidade e um roteiro hermético. Ou seja, Nolan tem uma maneira de dirigir e montar um filme: as peças são demasiadamente montadas, para, enfim, se ter uma ideia do todo quase sempre apenas ao final, ou, às vezes, isso também não acontece. Não se pode esquecer seu filme Insônia, em que, a fim de lidar com a mesma temática do comportamento humano guiado por uma sensação de fadiga, a mesma de Amnésia, tínhamos Al Pacino com os olhos reticentes a cada cena, na caça de um psicopata. A caçada no gelo de Insônia é uma espécie de prenúncio para o que viria a se concretizar, com toda a força, em A origem – tendo seu estilo atenuado em filmes feitos para maiores plateias, como a trilogia Batman (de qualidade) e O grande truque, em que iniciava seu estilo de montagem que se reproduziria no segundo Batman e neste A origem.
Fala-se que Terrence Malik, mas é claro que estamos falando de realizadores diferentes: Malick vê uma saída na natureza, enquanto Nolan deseja imaginar a imaginação humana como um labirinto. Neste filme, ele pretende fazer o espectador entrar em vários estágios de um sonho. Sua concepção, porém, é mais voltada a dois filmes de Steven Spielberg dos anos 2000, Inteligência artificial e Minority Report. Este segundo, principalmente, possui um tom mais sombrio e pessimista. Baseado numa história de Philip K. Dick, tem sua localização no ano de 2054, em Washington, onde precogs, que se parecem com clones, ficam embaixo d’água e antecipam crimes que serão cometidos, adiantando os  culpados à polícia. Até que um crime tem uma origem desconhecida, podendo ser o chefe dos policiais (Tom Cruise), que passa a ser perseguido por outro (Colin Farrell).

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Tem pontos interessantes: a perseguição de pequenas aranhas-robôs, por exemplo, entrando em apartamentos a fim de verificar a identidade de cada um por meio do olhar; as fugas de Cruise em meio a naves; elementos policiais tradicionais em meio à trama. Mas definitivamente não parece que Spielberg está aqui em bom momento. Ele parece habitar um futuro de pesadelo (como em Inteligência artificial), e quer deixar claro que se trata de um mundo profundamente devastado em todos os sentidos. Isso faz com que não haja simpatia pelo personagem principal, prejudicando o interesse pela trama em si. Em A origem, de Nolan, este futurismo de Spielberg, baseado na literatura de K. Dick, se converte numa espécie de charada para os sonhos de Freud, mas a concepção parece ser a mesma: os personagens de Nolan lembram os clones que ficam embaixo da água de Minority Report reportando a um futuro, com a diferença de que invadem os sonhos alheios a fim de conseguir informações secretas. Nolan deseja focalizar exatamente uma espécie de memória dos sonhos, que pode existir para antecipar qualquer ação a ser realizada.
DiCaprio é Dom Cobb recebe a proposta de um cliente, Saito (Ken Watanabe), de entrar num sonho de Robert Fischer (Cillian Murphy), a fim de implantar uma ideia (“inception” do título original) que o levará a dividir a herança de seu pai, Maurice (Pete Postlethwaite). Esta equipe é formada por Arthur (Joseph Gordon-Levitt), Ariadne (Ellen Page), recomendada por Miles (Michael Caine), mentor de Cobb e pai-de-lei,  Eames (Tom Hardy), que assume a forma de outras pessoas em sonhos, e Yusuf (Dileep Rao), que formula as drogas para que se tenha acesso aos níveis diferentes de sonhos e ao subconsciente.

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Trata-se de uma narrativa engenhosa, criativa e com potencialidade, cercada por exposição maciça de efeitos especiais (excelentes), mas com um viés artístico – que pode ser tanto interessante para alguns, quanto bastante cansativo para outros – e um jogo com a psicologia do personagem central, Cobb, sem o devido interesse, pelo menos não aquele dado por Nolan a Bruce Wayne em Batman begins, o melhor episódio da franquia dirigida por ele. Durante os seus sonhos, Cobb costuma encontrar sua esposa já desaparecida, Mal (Marion Cotillard), e costuma visualizar, sobretudo numa praia idílica, seus dois filhos brincando – a mesma imagem que dá início ao filme. E Cobb, não por acaso, é o nome do assaltante do primeiro filme de Nolan, Following.
O que se destaca, depois de uma perseguição a Peter Browning (Tom Berenger), o padrinho de Fischer, também dominado por Eames, é uma longa sequência de uma van caindo num rio, enquanto entramos e saímos do estado onírico dos personagens; a invasão a uma fortaleza no gelo; Arthur num corredor com gravidade zero enfrentando inimigos (e por pouco ele não lembra David Bowman) e remissões ao que se chama de limbo, onde os personagens, mesmo dentro dos sonhos, podem estar feridos. Mas não esqueçamos: trata-se de um filme sobre os sonhos e, enigmáticos em Lynch, passam a ser aqui lições de arquitetura. Ou seja, vale mais o contexto do que a narrativa do filme em si. Nolan tem sempre uma concepção pré-determinada para sua trama, nunca deixando uma abertura adequada para que o espectador respire: é como aquela cidade, no início do filme, se desdobrando sobre a personagem de Ariadne (ou com os objetos se espatifando no ar, numa sequência esplendorosa). Além das óbvias influências desta fase dos anos 2000 de Spielberg, A origem remete, por meio de seu pião, aos enigmas de 2001.

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No entanto, Nolan não se baseia, como Kubrick, no conceito apenas como referência artística: ele deseja também adaptar seu simbolismo a uma espécie de metáfora pop. Esta faceta pop contrasta, em parte, com o peso expositivo do roteiro de sua própria autoria, sobretudo quando Cobb decide montar sua equipe e são dadas a ele inúmeras argumentações sobre a arquitetura simétrica do trabalho a ser realizado. Toda esta exposição, ao mesmo tempo em que expõe uma complexidade, um atrativo, extrai a energia de alguns diálogos e das situações; tudo parece excessivamente calculado, e os personagens se movem de maneira racional até o limite. Da metade para o final, quase não há emoções ressoando entre eles, apenas ideias conceituais de Nolan, algumas brilhantes (como a analogia entre a queda da van, da neve de uma montanha e a subida de um elevador).
Com a atuação ainda indefinida de DiCaprio, escondido por uma série de projeções, tanto do seu passado com sua esposa quanto com seu projeto saturado por sonhos, A origem não se desvencilha do fato de que possui uma montagem ao mesmo tempo vertiginosa e tortuosa em seu propósito de não deixar brechas para que o espectador considere de que não sairá satisfeito ou com enigmas dispersos, conduzindo-o ao entendimento de que a obra se torna justamente complexa por não deixar quase nada de modo claro. Montado como um grande puzzle de peças, de forma às vezes desordenada e mesmo confusa, assim como os edifícios que se desdobram ou aqueles atingidos por um oceano magnífico, com a trilha sonora competente de Hans Zimmer, a extraordinária fotografia de Wally Pfister (a descoberta maior de Nolan) e uma direção de arte não menos do que brilhante de Huy Hendrix Dyas, A origem se ressente exatamente de um certo onirismo capaz de dar mais sensibilidade aos personagens, que passam pelo roteiro como se fossem exatamente executivos da corporação Rekall. Assim como a eles não é permitido um sonho real, ao espectador não resta senão a possibilidade de acompanhá-los numa espécie de simetria encaixada e, senão previsível, pelo menos de fadiga onírica. Ainda assim, em meio às teorias e à exposição, Nolan consegue realizar uma obra instigante e cujo maior mérito é alcançar um terreno ainda pouco explorado da humanidade, com o auxílio de uma notável equipe técnica e algumas imagens realmente inesquecíveis.

Inception, EUA/Reino Unido, 2010 Direção: Christopher Nolan Elenco: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postlethwaite, Michael Caine Roteiro: Christopher Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Emma Thomas Duração: 148 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Legendary Pictures / Syncopy / Warner Bros

Cotação 3 estrelas e meia