Projeto Flórida (2017)

Por André Dick

Se o filme anterior de Sean Baker, Tangerine, teve grande aceitação, com seus elementos de estilo indie, Projeto Flórida tem conseguido uma aceitação popular e de crítica maior ainda. No entanto, depois de iniciar a temporada de premiações, embora indicado a algumas, foi quase que esquecido (no Oscar, obteve apenas a de ator coadjuvante). Isso se torna especialmente decepcionante porque se trata de uma obra que foge ao mainstrem com um cuidado cenográfico inusual no seu gênero.
Nas férias de escola, Moonee (Brooklynn Prince), de seis anos, vive com sua mãe Halley (Bria Vinaite) no Magic Castle, motel na Flórida, pintado de púrpura, muito perto do parque Disney World. O gerente do local se chama Bobby Hicks (Willem Dafoe), pai de Jack (Caleb Landry Jones, de Três anúncios para um crime, Corra!, Twin Peaks – O retorno…).

Moonee passa o dia em companhia de Scooty (Christopher Rivera), filho de Ashley (Mela Murder), e Dicky (Aiden Malik). Certo dia, depois de uma breve confusão, eles fazem amizade com Jancey (Valeria Cotto), criada pela avó Gloria (Sandy Kane).
A fotografia esplendorosa do filme é de Alexis Zabe, habitual parceiro de Carlos Reygadas em Luz silenciosa e Luz depois das trevas. Grande parte da atmosfera de Projeto Flórida – com o céu quase sempre azul, repleto de nuvens que fazem lembrar uma espécie de éden infantil – existe por causa de seu trabalho, que influenciou o de Emmanuel Lubezki, com uma movimentação elegante de câmera. Não por acaso, há cenas despretensiosas que lembram os movimentos estabelecidos por Terrence Malick para o universo infantojuvenil em A árvore da vida, com crianças correndo pela grama ou pela vizinhança atrás de casa abandonadas com vidraças para quebrar. O design de produção, inspirado em parte em Wes Anderson, traz cenários que fazem o espectador se inserir neste universo.
No entanto, o roteiro de Sean Baker e Chris Bergoch é o grande atrativo, com uma trama fina e sólida, costurando as relações entre as crianças e dessas com Halley e Bobby. Quase não se percebe a construção da trama e ela existe, o que lembra American honey, de Andrea Arnold, com seus personagens à margem e vendendo assinaturas de revistas de porta em porta no interior dos Estados Unidos. Personagens na mesma linha já apareciam em Tangerine, filme anterior de Baker, mas se fazem verdadeiramente envolventes aqui.

Não apenas a atuação elogiada de Dafoe é ótima, mas sobretudo da menina Brooklynn Prince e de Vinaite, perspicaz nos momentos certos. A presença de Prince é tão destacada que poderíamos imaginar o que faria Meryl Streep indicada a alguma premiação por The Post. Há um afeto intangível entre os personagens, mesmo que não se esclareça, e o filme possui um ambiente de solidão e, ao mesmo tempo, de acolhimento. Bobby tenta organizar o local, tentando impedir o topless de uma moradora, Gloria (Sandy Kane), ou consertando a eletricidade que as crianças ajudaram a estragar, e Dafoe entrega um papel verdadeiramente humano. Os momentos em que ele briga com Halley, por causa de aluguéis atrasados, ou com as crianças é com a necessidade e o dever de precisar manter tudo organizado, não dentro de um sistema, contudo para sua compreensão existencial, representada pela sequência em que ele precisa agir de forma vigorosa com um intruso (Carl Bradfield), que ameaça este éden infantil. A sequência em que ele espanta alguns flamingos caminhando nas redondezas do motel expõe o realismo do personagem: aquela cena é quase paradisíaca, lembrando muito as obras do mexicano Reygadas, e parecem não se inserir nessa realidade de famílias que se hospedam em lugares simples, que podem pagar com muita dificuldade.

De modo original, Projeto Flórida (nome anterior ao de Disney World) descortina um universo expondo certas dificuldades, mas extremamente otimista em sua profusão de cores e contato com o imaginário infantil proporcionado por Baker e Zabe. Em seus momentos mais profundos, a obra de Baker mostra como os adultos podem servir de espelho para as ações de uma criança, no entanto não o faz de um ponto de vista moralista: apenas mostra essa interação que se confunde com o movimento da vida e da existência das relações. É curioso que o nome da personagem principal seja Moonee, lembrando a sonoridade de Monet, e o filme se passe muitas vezes numa espécie de pintura viva, pois os figurinos parecem, por exemplo, rimar com a cor do hotel. Mesmo as tatuagens (em forma de flores) e o boné da mãe de Moonee dialogam com o cenário em torno. Baker distribui essas cores em camadas ao longo da narrativa, influenciado por peças recentes (a exemplo de Moonlight), no entanto sem nunca perder a originalidade.

De qualquer modo, embora esse cenário esteja à margem de um grande parque de diversões ela se destaca por seus elementos naturais. Há uma cena em que Moonee e sua amiga brincam diante de um campo rural com vacas que parece extraída do início de Luz depois das trevas, de Reygadas: é como se esse universo campestre representasse o verdadeiro ingresso num mundo fantasioso coberto de nuvens que dialoga com os estabelecimentos de alimentação. Algumas esculturas em forma de foguetes ao longo deste cenário lembram uma já longínqua corrida espacial. É um grande passo na carreira de Baker e dos atores aqui envolvidos. Não se sente nunca como um semidocumentário, problema em que poderia ter incorrido, e sim num retrato de um cotidiano que se movimenta como as corridas de um lado para o outro em busca de descoberta. Por isso, Projeto Flórida se destaca como um dos filmes mais belos do ano, com um aspecto humano comovente que poucas vezes se vê retratado com tanta ênfase.

The Florida Project, EUA, 2017 Diretor: Sean Baker Elenco: Willem Dafoe, Brooklynn Prince, Bria Vinaite, Valeria Cotto, Christopher Rivera, Caleb Landry Jones Roteiro: Sean Baker e Chris Bergoch Fotografia: Alexis Zabe Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Sean Baker, Chris Bergoch, Kevin Chinoy, Andrew Duncan, Alex Saks, Francesca Silvestri, Shih-Ching Tsou Duração: 111 min. Estúdio: Cre Film, Freestyle Picture Company, Cinereach, June Pictures Distribuidora: A24 Release date