Alita – Anjo de combate (2019)

Por André Dick

Com roteiro de James Cameron e Laeta Kalogridis, Alita – Anjo de combate, baseado na série de mangás criada por Yukito Kishiro, parece uma reprodução das heroínas do responsável por O exterminador do futuro. Encontrada em meio ao ferro-velho de Iron City, pelo Dr. Dyson Ido (Christoph Waltz), a ciborgue que passa a ser chamada de Alita (Rose Perez) e carrega um cérebro humano, é reconstruída. Logo, ela descobre que muitos da Terra querem chegar a Zalem (o que lembra Elysium), uma espécie de cidade tecnológica no céu da cidade, principalmente o jovem pelo qual se apaixona, Hugo (Keean Johnson). Por sua vez, Ido foi casado com Chiron (Jennifer Connelly), da qual se afastou após a morte da filha e que terá uma ligação essencial com a trama para explicar os destinos da narrativa.
Essa premissa é uma prévia do que virá: Ido, na verdade, trabalha como um guerreiro caçador, buscando peças de ciborgues à noite, no longínquo ano de 2563, até o dia em que precisa enfrentar Grewishka (Jackie Earle Haley), em relação ao qual Alita vai demonstrar sua capacidade de luta chamada “Panzer Kunst”. Nesse sentido, talvez a melhor sequência da história se passa no Kansas Bar, no qual Alita precisa enfrentar vários de sua corporação e, principalmente, uma versão atualizada de uma ameaça que já combateu.

Aos poucos, ela começa a recuperar as memórias de sua vida passada, o que faz lembrar Ghost in the shell, além de possuir uma grande influência dos mangás, com sua cultura cyberpunk, Blade Runner. Não por acaso, trata-se de uma personagem feminina bem delineada. É de praxe nas obras de Cameron: a Grace de Avatar é uma extensão daquelas heroínas que esse cineasta privilegiou em sua trajetória, desde Sarah Connor, de O exterminador do futuro, passando pela Lindsey de O segredo do abismo, Ripley, de Aliens, até a Rose, de Titanic.  Pode-se dizer, nesse sentido, que Alita – Anjo de combate, parece muito mais uma obra de Cameron do que de Robert Rodriguez, o diretor oficial. Conhecido por sua parceria com Quentin Tarantino desde Um drink no inferno, passando por Planeta Terror, Rodriguez se projetou com A balada do pistoleiro nos anos 90 e com Sin City, a adaptação estilosa dos quadrinhos de Frank Miller. Também fez algumas séries com visual kitsch (Pequenos espiões) ou excessivamente exageradas (Machete), e pode-se dizer que a elegância visual de seu novo filme também tem muita influência de Cameron. São em torno de 150 e 200 milhões de dólares muito bem aplicados.

Pode-se dizer, também, o quanto há de influência aqui, de Sucker Punch, de Zack Snyder, sobre uma menina presa numa clínica psiquiátrica que, para fugir da sua realidade, se recolhia num mundo de sonho, onde podia se livrar dos seus carrascos. Alita, pela própria maneira com que é escrita, também está dividida entre o universo em que precisa obedecer ao doutor que a recria e aquele em que se mostra poderosa, com uma competência para lutar que pode lembrar o Neo de Matrix. Nesse sentido, ao mesmo tempo, a obra das irmãs Wachowski é uma nítida inspiração visual do filme de Rodriguez, assim como o RoboCop de Paul Verhoeven, principalmente em sua violência bastante contundente em alguns trechos, pouco normal numa obra a princípio para um público infantojuvenil. As sequências no Motorball, que dialogam com Speed Racer e Jogador Nº 1 (que virou uma referência para este gênero), são, não raramente, empolgantes e filmadas com autenticidade, elemento cada vez mais raro em blockbusters.

Do mesmo modo, o vilão Vector, feito por um inusitado (pois conhecido por papéis mais melodramáticos) Mahershala Ali, é uma extensão do que os burocratas maléficos dos filmes de Cameron podem fazer, o que acontece desde o tempo em que roteirizou Rambo II e dirigiu O exterminador do futuro 1 e 2, Aliens – O resgateTrue lies e O segredo do abismo. Apesar de boa parte de sua trama ser sobre um romance entre adolescentes, Alita nunca perde o seu foco, o de mostrar um universo fantástico abalado pela tentativa de o ser humano querer atravessar os caminhos da criação e se tornar o olhar vigilante de qualquer tipo de sistema. Rodriguez aplica de maneira muito consciente um certo estilo que demonstrou sobretudo em Sin City, convertendo imagens fantásticas num realismo bastante ameaçador, sem, aqui, no entanto se desviar para uma homenagem a uma época específica (no caso daquele, do cinema noir) e aproveitando o elenco talentoso do melhor modo, inclusive Waltz num momento muito bom, sem recorrer tanto a alguns de seus maneirismos, e Ali (este, se ganhar o Oscar de coadjuvante com Green Book, soma, com Waltz, quatro estatuetas desta categoria apenas na última década), além de uma emocional Connelly. Os intérpretes jovens, Salazar (com sua captação de movimentos), e Johnson, também são plausíveis, assim como Haley. É justamente a figura de Alita, mistura entre humano, animação e ciborgue, que torna o filme eficiente em todos os aspectos. Ela traz, ao mesmo tempo, um discurso, suas lembranças e uma vontade de superação que não torna o roteiro numa peça apenas funcional, como poderia, e sim bastante reflexivo.

Alita – Battle Angel, EUA, 2019 Diretor: Robert Rodriguez Elenco: Rosa Salazar, Christoph Waltz, Jennifer Connelly, Mahershala Ali, Ed Skrein, Jackie Earle Haley, Keean Johnson Roteiro: James Cameron, Laeta Kalogridis Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: Tom Holkenborg Produção: James Cameron, Jon Landau Duração: 122 min. Estúdio: 20th Century Fox, Lightstorm Entertainment, Troublemaker Studios, TSG Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

Pequena grande vida (2017)

Por André Dick

O filme mais recente de Alexander Payne foi lançado no Festival de Veneza, sendo, a partir de então, considerado de longe seu pior trabalho. O cineasta nunca chegou a ter entusiastas no meio da crítica, apesar dos Oscars de roteiro adaptado por Sideways e Os descendentes, mas sempre teve inegável respeito e um público admirador. Pequena grande vida se passa num futuro não muito distante, no qual Paul Safranek (Matt Damon), um terapeuta ocupacional, é casado com Audrey (Kristen Wiig), em Omaha. Trata-se de um típico casal classe média, como Payne mora em Eleição, com intenções de uma nova vida. Paul poderia ser também o escritor ébrio de Sideways, o viúvo de As confissões de Schmidt, o herdeiro de Os descendentes. São personagens que carregam uma certa melancolia, uma vontade de verem suas vidas de forma diferente, no entanto barrados em algum momento pela impossibilidade.

Os Safranek resolvem fazer parte de um projeto de miniaturização, em que os humanos são reduzidos a poucos centímetros, depois de reencontrarem um casal de amigos que seguiu o caminho, Dave Johnson (Jason Sudeikis) e Carol (Maribeth Monroe). Com a intenção de viverem uma vida melhor, eles se inscrevem no programa, criado pelo cientista norueguês Jørgen Asbjørnsen (Rolf Lassgård). O objetivo do programa é reduzir os gastos em alimentação para a humanidade e fugir do aquecimento global. No dia da entrevista, o casal está nervoso e precisa se separar antes de verem completa a transformação. E esta se mostra no mínimo excêntrica: os seres humanos parecem bolachas em micro-ondas, que, ao invés de crescerem, diminuem.
Chegando inicialmente a uma casa que lembra a de alguma fábula, em Leisureland, Paul se torna um atendente de telemarketing e vai morar num apartamento bem menor do que antevia seu sonho inicial, enquanto precisa lidar com seu vizinho Dušan (Christoph Waltz), que tem como empregada a ativista política vietnamita Ngoc Lan Tran (Hong Chau) e como melhor amigo Joris Konrad (Udo Kier). A questão é que ele percebe que esse microcosmo tem as mesmas particularidades (econômicas, sociais) da vida normal que vivia antes: Leisureland não passa de Omaha em estado minúsculo. Dušan é a própria representação disso. E Lan Tran mostra numa espécie de periferia que recorda a população esquecida pela ventilação em O vingador do futuro, de Paul Verhoeven, num condomínio interno com luzes futuristas que evoca algo de Terry Gilliam.

Com elementos de ficção científica notáveis e um design de produção de Stefania Cella que justifica seus quase 70 milhões de dólares de orçamento, Pequena grande vida é a comédia mais original do ano, mas uma comédia nos moldes de Payne: com um fundo existencial humano muito belo, elementos de transição dramáticos e aqui imprevisíveis. Quem souber o que vai acontecer na história depois de 20 minutos certamente tem spoilers dele.
Como apreciador da filmografia de Payne, já estava preparado para a decepção depois das considerações inciais sobre o projeto. Não é nenhuma surpresa, mas Pequena grande vida se enquadra naquela seção de filmes que passam a ser vistos de forma injusta mesmo por quem os aprecia. Diante de críticas de todos os tipos, o público em geral costuma querer fazer parte da mesma recepção e, enquanto procura por qualidades em obras indicadas ao Oscar mesmo quando elas não existem como apontado pela maioria ou existem por meio de um marketing prévio, procura apenas por falhas naquelas apontadas (literalmente) como menores. Pequena grande vida foi o selecionado como uma das decepções de 2017, mesmo porque os filmes de Payne sempre são cotados (e indicados) ao Oscar.

A fotografia de Phedon Papamichael sabe capturar o mundo em miniatura de maneira plasticamente bela, assim como Damon, Waltz e sobretudo Chau (revelada em Vício inerente) entregam ótimas atuações. Damon, que esteve em outro filme bastante subestimado no ano passado, Suburbicon, está especialmente no momento de sua carreira que melhor recorda a autenticidade de interpretação revelada em Gênio indomável, há mais de duas décadas, enquanto Waltz não se apresentava tão eficiente desde Django livre. Se alguns momentos do terceiro ato não chegam a ser desenvolvidos como poderia – e o humor se mescla com o drama por vezes de maneira estranha –, o conceito desenvolvido por Payne não vai no sentido óbvio: de que o dinheiro não definiria esse personagem de Paul, nem visualiza exatamente uma Era da Aquarius para a humanidade se sentir menos culpada.
De modo geral, existe aqui e na filmografia de Payne uma necessidade de validar o sentimento humano. No seu filme anterior a este, Nebraska, víamos um senhor de terceira idade tentando reaver um pouco de autoestima, mas, principalmente, de valores familiares até então dispersos pelo tempo. Conforme Payne, o que importa em Pequena grande vida é o tamanho das ações, independente do universo em que se esteja, e pensar no extraordinário não necessariamente modifica mais do que pensar no que está ao alcance e necessidade imediatos. Muito se comenta que o roteiro foca uma classe média nos Estados Unidos eternamente descontente; isso parece uma brincadeira diante da visualização do filme. Não se trata de um Querida, encolhi as crianças com fundo mais sério, e sim uma grande obra injustamente recepcionada até agora como comum. Uma obra profundamente humana por causa do estilo de Payne, sempre em movimento e sem fixar maneirismos.

Downsizing, EUA, 2017 Diretor: Alexander Payne Elenco: Matt Damon, Christoph Waltz, Hong Chau, Kristen Wiig, Udo Kier Roteiro: Alexander Payne e Jim Taylor Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Rolfe Kent Produção: Mark Johnson, Alexander Payne, Jim Taylor Duração: 135 min. Estúdio: Ad Hominem Enterprises Distribuidora: Paramount Pictures

A lenda de Tarzan (2016)

Por André Dick

A lenda de Tarzan.Filme 4A última adaptação do personagem de Tarzan, criado por Edgar Rice Burroughs, havia sido Greystoke – A lenda de Tarzan, o rei da selva, nos anos 80, com Cristopher Lambert no papel principal e grande êxito dramático e de recriação da atmosfera selvagem, com macacos criados por Rick Baker, mestre da maquiagem. Era inevitável que uma história mais moderna do personagem, em meio à tecnologia atual, se rendesse a muitas cenas de efeitos especiais. Desde os trailers, isso já era esperado em A lenda de Tarzan, nova empreitada do competente David Yates, responsável por quatro filmes da saga Harry Potter, inclusive o seu melhor (particularmente) As relíquias da morte – Parte 1, e de Animais fantásticos e onde habitam, que estreará no final do ano, baseado também em J.K. Rowling.
Tendo à frente do elenco Alexander Skarsgård (mais conhecido pela participação em Melancolia, de Von Trier) como o herói, Yates prefere partir de um conceito interessante: ele trata Greystoke como uma espécie de primeira parte dessa obra, recuperando flashbacks que lembram o filme de Hugh Hudson. Como explica o início do filme, o Congo foi dividido entre a Bélgica e o Reino Unido. Como a Bélgica está num estado de falência, seu rei, Leopoldo II, envia Léon Rom (Cristoph Waltz) para conseguir diamantes preciosos de Opar, e ele vai tocando a vegetação africana como quem está prestes a destruí-la de fato. A expedição dele é cercada pelo Chefe Mbonga (Djimon Hounsou), numa sequência capaz de evocar o encontro da tripulação do barco petrolífero com a tribo indígena da Ilha da Caveira do King Kong de 1976, que lhe faz um determinado pedido para que não seja morto.

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Enquanto isso, Tarzan já está perfeitamente adaptado à sociedade, como Jack Clayton III, Lorde Greystoke, casado com Jane Porter (Margot Robbie), e recebe um convite do presidente do Congo para visitar o país, por meio do primeiro-ministro da Inglaterra (Jim Broadbent). George Washington Williams (Samuel L. Jackson), dos Estados Unidos, deseja que Greystoke aceite o convite porque acredita que os planos da Bélgica é escravizar o povo do Congo. No entanto, parece mais uma emboscada. Yates escolhe um tom quase descompromissado para seu filme, fazendo lembrar, sob um ângulo positivo, produções de uma certa infância já perdida no tempo e bastante nostálgica. Há, não raramente, uma sucessão de acontecimentos que parecem dar justificativa apenas para o próximo passo. Se Tarzan entra em conflito com Jane, pois não a quer na empreitada, logo o roteiro opta por mostrar esse ambiente como, ao mesmo tempo, acolhedor e ameçador. A chegada de Tarzan ao Congo é um sinal claro disso. Os flashbacks servem não apenas para contar o passado de Tarzan, como também o de Jane, quando foi ao Congo com o pai que ensinava inglês, e se no início parecem atrapalhar a narrativa, com o andamento servem quase como um complemento a Greystoke. A partir daí, Yates opta em fazer de Tarzan uma espécie de libertador do Congo, com todas as cenas de ação a que se tem direito.

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Em relação a Greystoke, este A lenda de Tarzan se sente um filme pleno de aventura, sem a mesma tentativa de estabelecer o personagem como uma figura antropológica. Ainda assim, é claro, por trás dos temas de escravidão, que se trata de um personagem que une o que se considera civilização e o primitivo, sem que se saiba onde um começa exatamente e onde outro termina. E Clayton, abalado por não poder ter tido ainda um filho com Jane, tem sua infância traumática recuperada – seu encontro com crianças se mostra não como um ensinamento de como viver na selva, mas sim um desejo de reencontrar a infância. Em paralelo, Jane ensina num museu sem deixar de sentir que o passado de outro lugar distante lhe interessa mais.
A primeira preocupação com esta releitura do personagem se concentra em sua naturalidade ou não. Perto de Greystoke, é visivelmente um filme moderno. No entanto, mesmo apurado tecnologicamente, ele consegue ser mais eficiente na reconstituição do que outros, e se há uma cena específica com elefantes que lembra Mogli – O menino lobo, grande sucesso de Favreau deste ano, ele consegue ser superior à reconstituição dos primatas do que os dois últimos Planeta dos macacos.
As belezas naturais se mostram ao longo da navegação do barco de Rom – que podem lembrar, em parte, Fitzcarraldo, em parte Aguirre, ambos de Werner Herzog, com um grande acerto na fotografia de Henry Graham. Em se tratando do elenco, se Skarsgård é levemente contido, funcionando nas cenas de ação e menos dramaticamente, Robbie consegue fazer uma Jane interessante, e Waltz se mostra mais uma vez um vilão capaz de sustentar a trama – e já é o terceiro seguido dele, antecipado pelo de Grandes olhos e 007 contra Spectre –, mas é Samuel L. Jackson que funciona de maneira decisiva, uma grande variação em seus papéis recentes, embora seu roteiro não seja muito expansivo.

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Yates utiliza esse elenco demarcando cenas de ação em acréscimo a flashbacks e nunca deixando o ritmo esmorecer. Ele tem um olhar para os detalhes e os conflitos nunca se sentem sem tensão, principalmente naqueles em que Tarzan enfrenta macacos ou quando há um determinado estouro de animais em direção a uma cidade. Se o filme não chega a ser um triunfo épico – e duvido que tenha sido sua pretensão –, ele possui uma contundência e leveza, ao mesmo tempo que expõe seus argumentos sobre a invasão do homem branco na selva. É, sem dúvida, uma história anticolonialista, assim como Greystoke mostrava a falência da aristocracia e uma necessidade de voltar ao habitat natural. Entende-se que às vezes A lenda de Tarzan possa ser visto como uma caricatura dessa tentativa de invasão e de exploração, jogando os temas um atrás do outro sem uma maior reflexão. Por outro lado, o que no início soa apenas como um jogo político para despertar uma conquista pode, ao final, tomar um nascimento verdadeiro. Num blockbuster comum, inevitavelmente poderia ser visto de maneira enviesada, porém no filme de Yates soa mais comovente.

The legend of Tarzan, EUA, 2016 Diretor: David Yates Elenco: Alexander Skarsgård, Margot Robbie, Christoph Waltz, Samuel L. Jackson, Djimon Hounsou, Jim Broadbent Roteiro: Adam Cozad, Craig Brewer Fotografia: Henry Braham Trilha Sonora: Mario Grigorov Produção: Alan Riche, David Barron, David Yates, Jerry Weintraub, Mike Richardson Duração: 110 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Dark Horse Entertainment / Jerry Weintraub Productions / Riche Productions / Village Roadshow Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

 

007 contra Spectre (2015)

Por André Dick

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Alguns anos depois de 007 – Operação Skyfall, Sam Mendes relutou em voltar à franquia de James Bond, mas, convencido pelo estúdio, rodou mais este 007 contra Spectre. Segundo boa quantidade de admiradores do personagem, ele não deveria tê-lo feito, ou seja, teria sido melhor ele ter deixado sua marca apenas no anterior. Se a franquia com Daniel Craig no papel do agente britânico está em seu quarto filme, e Skyfall é considerado o melhor, seguido por Cassino Royale, deve-se admitir que este novo empreendimento está muito longe de ser o fracasso que quiseram transformá-lo. Pelo contrário, desde seu início no Dia dos Mortos na cidade do Novo México, quando James Bond está atrás de Marco Sciarra (Alessandro Cremona), e antes seduz uma latina para, então, partir de vez ao serviço programado, e o embate se dá num helicóptero, 007 contra Spectre se transforma no filme mais sólido do herói desde 007 – A serviço secreto de sua majestade, o único filme protagonizado por George Lazenby de uma série que já contou, entre seus atores, com Sean Connery, George Moore, Timothy Dalton e Pierce Brosnan.

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Daniel Craig sempre fez o James Bond mais bruto da história e aqui acontece o mesmo: a sua ação, desde o início, não é exatamente pela conversa mais ponderada, e sim pela ação da arma. Por isso, talvez M (Ralph Fiennes) queira desativar a sua função, o que Bond não considera, à medida que conta com a ajuda de Q (Ben Wishaw) e Moneypenny (Naomie Harris), em momentos de humor que estavam no mínimo ausentes em 007 – Operação Skyfall e sempre fizeram parte do personagem. Sua ida de Londres para Roma marca um dos grandes momentos da série, quando ele precisa encontrar a mulher de Sciarra, Lucia, feita por uma ótima Monica Bellucci (embora em papel diminuto), e depois se depara com uma seita que nada fica a dever para aquela de De olhos bem fechados, de Kubrick.
Eis um dos melhores momentos da trajetória de Sam Mendes: a construção de suspense dessas cenas desencadeia um 007 realmente mais soturno, mesmo em relação ao anterior, por causa também da fotografia notável de Hoyte Van Hoytema (de Interestelar e Ela), que rende uma das melhores cenas de perseguição. Que o 007 de Skyfall já lidava com traumas do passado do personagem e sua relação com M era, sem dúvida, uma conquista de Mendes e também do diretor de fotografia Roger Deakins, neste parece que o espectador consegue entrar na mente de Bond, como em determinado momento do filme, vendo seus temores. Isso fica claro numa sequência-chave em que ele encontra um determinado homem que o levará à personagem de Madaleine Swann. Que Léa Seydoux não está tão à vontade neste papel, é determinante para que se torne uma das bond girls mais discretas da história. No entanto, tal atitude não extrai de sua presença enigmática uma ponte com o passado do agente, capaz de explicar não apenas o filme, como também os capítulos anteriores, junto com Franz Oberhauser (Christoph Waltz), ou seja, há um espectro rondando 007 realmente, ritmado pela trilha de Thomas Newman, que aproveita temas clássicos dando uma roupagem de suspense.

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O que mais torna o James Bond de Craig interessante desde Cassino Royale é seu equilíbrio entre a força incalculável e uma certa vulnerabilidade em qualquer confronto que precisa enfrentar – e da qual o espectador não sabe se sairá bem, desde o momento em que acaba tomando um whisky de forma descuidada em Cassino Royale. Ainda assim, essa vulnerabilidade é que estabelece o personagem como um ser humano e não meramente um agente secreto capaz de defender as cores da Rainha da Inglaterra desde sua origem.
Mendes, de maneira sugestiva, coloca os momentos iniciais numa claridade que serão ofuscados pela noite tanto da Inglaterra quanto de Roma, onde se dará o início dos eventos que levarão ao grande confronto, e durante a narrativa vai alternando lugares escuros com lugares claros dependendo das motivações estarem evidentes ou não para Bond. Há um enigma em 007 contra Spectre que não havia nos filmes anteriores de Craig e dificilmente foram tratados em algum momento. Sam Mendes é um cineasta irregular, mas muito interessante, capaz de ter se consagrado já no início de carreira com Beleza americana e sucedendo a trajetória com filmes que mostram os recantos escuros da América, a exemplo de Estrada da perdição, Soldado anônimo e Foi apenas um sonho, além de seu singelo Distante nós vamos, irrealizado filme sobre um casal querendo criar laços entre si e com os outros. Em todos esses filmes, Mendes mostra a fragilidade das relações, no entanto sempre oferece uma espécie de segunda chance a seus personagens.

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Num determinado encontro com Madeleine, a claridade do vagão de trem não chega a iluminar por completo uma cena que certamente vai desencadear algo muito remoto e escondido dentro de cada um desses personagens, além da ameaça de Mr. Hinx (Dave Bautista). É como se David Fincher estivesse fazendo um capítulo da franquia de 007, e não por acaso, mesmo pela presença de Craig, temos indícios da presença de Millennium na maneira como as paisagens são enquadradas, embora Rooney Mara seja mais participativa do que Seydoux e estabeleça uma parceria mais convincente com o ator. O ritmo empregado por Mendes traz um equilíbrio entre as paisagens espetaculares e as ações, com uma elegância incomum, já entrevista em Operação Skyfall, mas que chega ao ápice neste filme. Sua necessidade de mostrar James Bond como uma figura complexa, sempre ligado a uma questão familiar, é uma das saídas mais interessantes do período da série em que Daniel Craig está à frente. Mendes, com isso, nunca o mostra como um agente voltado apenas para sua missão, e sim como uma figura com virtudes e falhas. Desse modo, 007 contra Spectre é uma peça de alta tensão, feita realmente com a dedicação dada a um filme de Bond e que alterna cenários distintos como a naturalidade de quem muda o figurino do personagem central.

Spectre, Reino Unido, 2015 Diretor: Sam Mendes Elenco: Daniel Craig, Christoph Waltz, Léa Seydoux, Ben Whishaw, Naomie Harris, Andrew Scott, Monica Bellucci, Ralph Fiennes, Dave Bautista Roteiro: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson Duração: 148 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: B24 / Columbia Pictures / Eon Productions / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / United Artists

Cotação 4 estrelas e meia

 

Grandes olhos (2014)

Por André Dick

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Nos últimos anos, sobretudo depois de sua versão para O planeta dos macacos e de sua adaptação para a Disney de Alice no país das maravilhas, tem existido uma aversão geral a novos filmes de Tim Burton, sobretudo quando há uma comparação com aqueles que o tornaram conhecido na década de 80 (Os fantasmas se divertem e Batman) e na década de 90 (Edward mãos de tesoura, Ed Wood e A lenda do cavaleiro sem cabeça). Nesse meio tempo, no entanto, Burton fez alguns muito interessantes, mesmo aprovados de maneira quase unânime (Peixe grande), tendo sido Sombras da noite – em mais uma contestada parceria com Johnny Depp – e Frankenweenie, uma versão em desenho animado do clássico curta de 1984, os mais recentes.
Grandes olhos, como em toda a trajetória do diretor, realmente vale por toda sua criação de ambiente: a reconstituição de época e os figurinos são excelentes, mas tem ainda a atuação de Amy Adams. Em termos visuais, apesar do colorido, é o que mais lembra Ed Wood – uma das obras mais acertadas do diretor – e um pouco Peixe grande. Burton trouxe de volta o diretor de fotografia com quem trabalhou em Sombras da noite, o bastante talentoso Bruno Delbonnel, de O fabuloso destino de Amélie Poulain, Across the universe e Inside Llewyn Davis. É ele o principal responsável por situar tão bem o filme nas décadas de 50 e 60 e, se o orçamento do diretor desta vez era de filme quase independente, mesmo na esteira da companhia dos Weinstein, o que se vê na tela é um cuidado meticuloso (neste campo, é o grande esquecido do Oscar este ano, ao lado de Invencível). Não raramente, por se tratar de um filme envolvendo a pintura, sente-se que Grandes olhos é uma coleção não apenas de belas imagens, mas de pinturas, desde as casas de bairro com jardins verdejantes do início – remetendo a Edward mãos de tesoura – até as estradas, clubes noturnos e parques de domingo. No entanto, Burton e Delbonnel também querem retratar, no meio dessa claridade de uma América sendo descoberta, um pouco da escuridão desses personagens a princípio iluminados.

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Talvez o espectador se surpreenda mais com Grandes olhos se não tiver muitos detalhes da história, baseada em fatos reais. A história da pintora Margaret Ulbrich (Amy Adams), que sai de casa com sua filha, Jane (Delaney Raye), para tentar a carreira em San Francisco, traz consigo um retrato interessante sobre como um(a) artista pode ser subjugado. Ela conhece outro pintor, Walter Keane (Cristoph Waltz) quando está mostrando seus trabalhos num parque. Ameaçada pelo ex-marido, ela se casa com Walter e se torna Margaret Keane. Walter se mostra um homem educado e atencioso, querendo mostrar o trabalho da esposa primeiro a um expositor de galeria Ruben (Jason Schwartzmann), depois nos fundos de um clube noturno, administrado por Enrico Banducci (Jon Polito). De um trabalho considerado estranho, a obra de Margaret passa a ser vista como algo realmente original, atraindo a atenção de um crítico, Dick Nolan (Danny Huston), além de milionários e políticos estrangeiros. Quando perguntada por que desenha olhos grandes e tristes em todas as suas figuras humanas, Margaret remete à sua infância – e é nisso que se baseia boa parte da obra de Tim Burton e a excelente atuação de Amy Adams.
O roteiro de Scott Alexander e Larry Karaszewski – os mesmos de Ed Wood – trabalha com preconceito baseado no sexo e em rótulos que a sociedade aceita comovida, como a ideia de pintar figuras com grandes olhos ter vindo da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo que as pinturas são aceitas, há um afastamento de Margaret de sua amiga DeAnn (Krysten Ritter) e se perde o limite entre criação e fama, à frente ou atrás dos bastidores. Embora os diálogos não sejam tão eficientes, há boas referências a rótulos dos artistas da época em que a história se passa (todos parecem ter ido a Paris) e à aceitação (ou não) da mulher no meio artístico.

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Burton utiliza Cristoph Waltz para eliminar a carga dramática que poderia haver com um papel que ele já encarnou outras vezes. Aqui ele não se sai tão bem, no entanto a direção de Burton é eficiente e acaba, por baixo de toda a luz do filme e seus cenários coloridos, revelando um pouco da complexidade dos personagens principais, mesmo que eles não pareçam afetados por uma emoção especial (o filme concorreu ao Globo de Ouro de melhor filme de comédia, embora também não se enquadre exatamente no gênero). O tom adotado por Burton é claramente proposital, e fundamentalmente ele mostra como Keane tinha uma predisposição a ser um autopromover, além de oferecer detalhes que correspondem, segundo relatos, ao seu perfil. É curioso como os momentos mais melancólicos estejam sempre associados à realização das pinturas, e os “grandes olhos” representassem justamente isso. O ateliê de pintura de Margaret, antes ao sol no início do filme, com pessoas sendo desenhadas diante de paisagens belas, se torna uma espécie de lado escuro da personagem, por um motivo que vai se revelando ao longo do filme.
Ao mesmo tempo que a obra de Margaret chega à luz dos holofotes da fama, por outro lado, a arte vai ficando impregnada de culpa, de mentiras e por um caminho difícil de ser aceito. Se no início Margaret mostra suas pinturas num parque ao lado da igreja, depois ela tenta se confessar, e a claridade do início se contrapõe ao segredo do confessionário, mostrando a personagem culpada por encobrir uma verdade. São estes detalhes que possivelmente atraíram a atenção de Burton e, quando se vê as pinturas de Keane, com a expressão dos olhos, entende-se por que o cineasta, que começou como um diretor de animações (no curta Vincent), se interessou pela história: há algo bastante melancólico nessas pinturas e traços que remetem à sua animação A noiva cadáver. Para que o filme não seja confundido com um drama, pois a história tem elementos de absurdo que talvez não fossem revertidos da melhor maneira sob o ponto de vista mais discreto, Burton lança essa luz solar sobre os cenários, o que se confunde com a natureza em que os Keane se abrigam.

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Há uma discussão relevante sobre a propriedade de uma criação e Burton, e do mesmo modo não nega uma certa sátira a Andy Warhol, um artista que confundiu, em sua arte, o que seria cópia ou criação, embora exclusivamente dentro do campo artístico. É Warhol o principal ponto para se definir alguns caminhos de Grandes olhos – e a arte de Keane chegou a influenciar outros artistas reconhecidamente pop, inclusive a capa do disco Reality, de David Bowie. Ainda, Burton consegue, num momento excelente, num supermercado, mesclar a imagem de Margaret à frente de embalagens de produtos – que seriam essenciais para a composição da obra de Warhol – a seu encontro com figuras humanas exatamente com grandes olhos, conjugando a arte com o plano onírico ou de culpa diante da verdade que realmente esconde.
Terence Stamp surge como um crítico bastante agressivo das obras de Keane, enxergando todas como arte barata. Toda sua postura, de certa maneira, dialoga com alguns personagens de Os fantasmas se divertem e sua predisposição a discutir esculturas estranhas. No entanto, Burton não chega a adotar um discurso sobre a arte e as concepções possíveis que ela abrange, nem mesmo em relação à influência que Keane pode ter tido realmente no meio artístico. Ou seja, em nenhum momento o filme se afasta de sua proposta inicial, de contar a história de uma estranha relação entre os Keane, ajudado pelo elenco coadjuvante excelente, embora não apareça tanto. De algum modo, Grandes olhos também lembra do início da carreira de Burton, em As grandes aventuras de Pee-wee, saudado anos depois de seu lançamento como uma obra original. Nesta sua estreia em longas em 1985, Burton lançava um personagem num meio em que tudo afinal existia para terminar em arte. Como esta obra, talvez Grandes olhos seja mais reconhecido daqui a alguns anos também: é um filme à primeira vista superficial, mas repleto de arte e do modo de se contar histórias.

Big eyes, EUA, 2014 Diretor: Tim Burton Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Krysten Ritter, Jason Schwartzman, Danny Huston, Terence Stamp, Madeleine Arthur, Delaney Raye Roteiro: Larry Karaszewski, Scott Alexander Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Larry Karaszewski, Lynette Howell, Scott Alexander, Tim Burton Duração: 106 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Electric City Entertainment / Silverwood Films / Tim Burton Productions / The Weinstein Company

Cotação 3 estrelas e meia