O escândalo (2019)

Por André Dick

Em 2017, as acusações de assédio de atrizes contra o produtor Harvey Weinstein acabaram tomando grande proporção, chegando também a outros nomes., alguns bastante conhecidos no círculo de Hollywood. O escândalo, de certo modo, ao mostrar as acusações contra Roger Ailes, o chefe da Fox News, em 2016, acaba dialogando com esse cenário, em que mulheres constituíram movimentos como %MeToo e Time’s Up.
O filme de Jay Roach, responsável antes por comédias como Entrando numa fria e por Trumbo, que deu uma indicação ao Oscar a Bryan Cranston, procura mostrar algumas jornalistas e apresentadoras desse canal, mais especificamente Megyn Kelly (Charlize Theron) e Gretchen Carlson (Nicole Kidman), que, sob as ordens de Roger, ingressavam na grade como figuras de destaque, a primeira principalmente e a segunda no programa Fox and Friends. Megyn, assessorada por Lily Balin (Liv Hewson) e Julia Clarke (Brigette Lundy-Paine) e casada com Doug (Mark Duplass), acaba tendo um sério contratempo depois de uma pergunta num debate ao então candidato Donald Trump.

O escândalo é uma amostra de fazer um certo cinema que se pretende de denúncia e consegue abranger uma atmosfera situada entre a vida pública e restrita aos bastidores. Ele se apoia tanto nas duas protagonistas quanto na figura da jovem Kayla Pospisil  (Margot Robbie),, não baseada exatamente numa personalidade real, que chega à emissora pretendendo, claro, conquistar seu espaço e se torna amiga de Jess Carr (Kate McKinnon). As discussões sobre posicionamentos ideológicos permeiam o roteiro bem escrito de Charles Randolph, apostando num estilo semelhante em A grande aposta, embora certamente entrecortado algumas vezes por alguns exageros expositivos. A figura de Roger, sustentada por Murdoch (Malcolm McDowell), dono da emissora, é muito bem desenhada por John Lithgow, numa interpretação excepcional, embaixo de uma maquiagem que o deixa quase irreconhecível – a maquiagem é um destaque também em Theron e Kidman, para deixá-las parecidas com as apresentadoras reais. Suas conversas com as âncoras são conflituosas, mostrando as manobras de uma emissora para conquistara audiência, até que o diretor Roach se direciona para o objetivo. E, quando ingressa em âmbito jurídico, num determinado momento, surge a advogada Susan Estrich,, em ótima atuação de Allison Janney, inserindo o filme num ambiente mais ousado.

De certo modo, O escândalo não chega a tomar uma posição como poderia se prever pela sua temática, não no sentido de reconhecer quem é a peça-chave para a denúncia, e sim para outros assuntos que correm à margem. Roach evita também entrar em algumas escolhas mais espinhosas, sem, no entanto, não deixar de explorar o drama dessas mulheres que sofreram assédio.
Charlize Theron é uma grande atriz e tem aqui seu melhor desempenho talvez desde Jovens adultos, um de seus filmes mais subestimados, fazendo uma apresentadora ao mesmo tempo fria e interessada no bem-estar dos familiares. Kidman também é excelente, tecendo uma dualidade entre certa segurança à frente das câmeras e uma necessidade de querer agradar, mas sem nunca conseguir se encaixar no que está acontecendo ao redor. E Robbie tem sua atuação mais dedicada desde O lobo de Wall Street, conseguindo se mostrar vulnerável e, ao mesmo tempo, ambiciosa. Ela tem a cena certamente mais difícil e que causa angústia no espectador, além de se apoiar bem, em alguns momentos, na atuação de Kate McKinnon, mais conhecida por ser humorista no Saturday Night Live e por sua participação no Caça-fantasmas, mais uma no elenco predominantemente feminino e de qualidade notável, alternando comédia e drama com a mesma competência.

O escândalo também se apresenta como um filme sobre a mulher num meio de comunicação e sua tentativa de conciliar a ambição corrente, a dedicação à família e seus valores pessoais e intransferíveis. O roteirista não chega a desenvolvera  ligação entre as três figuras proeminentes como poderia, deixando nas entrelinhas que elas sofreram assédio na mesma proporção, mas se mantêm a distância entre elas, não chegando a querer embarcar num movimento. É nesse ponto, talvez, que alguns considerem sua história mais atenuadora e menos motivador para o universo feminino, abdicando de maior aprofundamento, principalmente no terceiro ato.
Em termos de estilo, é editado de maneira ágil, como alguns filmes que se assemelham a ele, a exemplo de Vice, A grande aposta e As golpistas, todos com um selo de Adam McKay. Como Vice, especificamente, do ano passado, em determinados momentos acaba tratando seus temas de maneira superficial, porém nunca de maneira desinteressante. Isso é apoiado pelo brilhante design de produção e pelo figurino de Colleen Atwood (habitual colaboradora de Tim Burton), que transportam o espectador quase para dentro da emissora de televisão, com uma perspicácia também da fotografia de Barry Ackroyd (de obras como Guerra ao terror e Detroit), o que não é comum em boa parte das obras que tratam de jornalismo.

Bombshell, EUA, 2019 Diretor: Jay Roach Elenco: Charlize Theron, Nicole Kidman, Margot Robbie, John Lithgow, Kate McKinnon, Connie Britton, Malcolm McDowell, Allison Janney Roteiro: Charles Randolph Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Aaron L. Glibert, Jay Roach, Robert Graf, Michelle Graham, Charles Randolph, Margaret Riley, Charlize Theron, AJ Dix, Beth Kono Duração: 108 min. Estúdio: Bron Creative, Annapurna Pictures, Denver + Delilah Productions, Lighthouse Management & Media, Creative Wealth Media Distribuidora: Lionsgate

Tully (2018)

Por André Dick

O universo da tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano desde o início deste século, com sua febre de produtos cada vez maior e em maior proporção. Para enfocar essa mudança, o diretor Jason Reitman fez Homens, mulheres e filhos, Reitman conserva o estilo já demonstrado em outros projetos, como Amor sem escalas e Jovens adultos, no sentido de destacar o elenco, conservando uma simplicidade na narrativa que se confunde às vezes com esquecimento de uma maior densidade no trato de personagens e situações.
Embora tenha sido recebido de outra maneira pelos filmes que realizou (exceto por Refém da paixão), Reitman não havia experimentado o fracasso financeiro e de crítica: Homens, mulheres e filhos não conseguiu arrecadar praticamente nenhum valor nos cinemas dos Estados Unidos e sofreu a mesma perseguição que os personagens dessa obra sofrem dos pais com a indicação de que sua narrativa traria uma condenação da internet, do uso de celulares, de tabletssmarthphones, vendo perigo em tudo o que a tecnologia nos apresenta.

Em Tully, seu novo filme, o foco é a maternidade. Charlize Theron, que fez Jovens adultos com Reitman, interpreta Marlo, mãe de dois filhos e grávida do terceiro. Ela é casada com Drew (Ron Livingston) e, numa visita a seu irmão Craig (Mark Duplass) e sua cunhada, Elyse (Elaine Tan), ele sugere que ela chame uma babá que passe as noites com o nenê. Marlo dá à luz a Mia, e decide atender à sugestão, pelo cansaço de ficar várias noites acordada, e daí a narrativa ser pouco diurna. Não só isso: Drew parece um robô desligado, enquanto Marlo tenta criar sua filha mais velha, Sarah (Lia Frankland) e o filho Jonah (Asher Miles Fallica) com comportamento, segundo orientação escolar, “excêntrico”, A babá que surge é Tully (Mackenzie Davis), compenetrada e que passa a ajudar, inclusive, a arrumar a casa. O roteiro do filme, assinado por Diablo Cody, que escreveu Juno e Jovens adultos para Reitman, aborda uma visão curiosa sobre a maternidade.
No início da narrativa, Reitman parece ácido como na primeira parceria com Theron, em que ela fazia uma escritora pedante de best-sellers que voltava à sua cidadezinha para tentar reconquistar um namorado de juventude, tornando a visão da mãe moderna numa superação por vezes enlouquecedora. Aos poucos, o roteiro de Cody começa a facilitar as amarras, deixando os personagens mais livres de seus discursos preestabelecidos. O afeto começa a se dar por meio de conversas sobre um programa de TV estranho e cupcakes preparados por Tully para os filhos de Marlo. Reitman sempre teve uma perícia para mostrar a rotina e, embora Tully seja menos resolvido do que Homens, mulheres e filhos no desenvolvimento dos personagens e menos underground (no bom  sentido) que Jovens adultos, possui uma empatia maior do público com os personagens.

Se Theron continua sendo uma das melhores atrizes de sua geração, Mackenzie Davis mostra que não apenas em Blade Runner 2049 rouba a cena com pouca participação: em Tully, mais do que evocar Mary Poppins, ela traz uma sensação de juventude a um ambiente coberto não pelo tédio, mas pela sensação de que algo se perdeu. Para Reitman, isso não está de acordo; sempre é possível voltar à trilha oitentista de Cindy Lauper e ao bairro onde se nasceu.
Assim como no notável Amor sem escalas, Reitman utiliza, por baixo de uma narrativa curiosamente previsível, uma discussão filosófica sobre a solidão contemporânea e a tentativa permanente de o indivíduo cuidar dos outros quando não consegue cuidar de si mesmo. Isso constitui, para Reitman, a beleza do ser humano. Marlo tem um senso de superação diante das adversidades e do fato de se sentir solitária em sua casa, mesmo cercada pelos filhos e pelo marido. No entanto, este, assim como aquele feito por Adam Sandler em Homens, mulheres e filhos, está muito mais apegado a um mundo virtual do que à realidade.

Se lá isso se reproduzia numa necessidade de a sua esposa procurar outro parceiro, aqui Marlo representa uma espécie de segurança dentro da casa: ela está sofrendo, porém parece querer se manter assim, até que todos vejam a sua busca cotidiana pelo afeto entre os familiares. Reitman nunca foi um diretor distante dessas questões, desde seu popular Juno, em que um casal mais velho queria adotar o bebê de uma jovem, passando por Amor sem escalas, sobre um homem na crise de meia idade que não queria compromissos com as mulheres, uma versão masculina da personagem de Jovens adultos, até o interessante Refém da paixão, em que uma relação se estabelecia numa situação no mínimo imprevisível, e mesmo no sarcástico Obrigado por fumar, no qual um vendedor gostaria de ser exemplo para seu filho, mesmo desempenhando um papel bastante nocivo na sociedade. Os personagens de Reitman são sempre figuras à procura de uma identidade, mas Marlo, em Tully, já a possui: precisa apenas que alguém venha revelá-la de modo objetivo.
Daí a combinação empática entre Theron e Davis renda bons pontos às formas que a narrativa vai dando a cada solução ou não dos problemas. Percebe-se mais aqui e em Homens, mulheres e filhos uma necessidade de Reitman reiterar a ideia de que nos subúrbios se escondem verdadeiras emoções e figuras desejosas por um reconhecimento que Hollywood já não traz, com toda sua pompa em outras megaproduções. Tully soa, no bom sentido, um filme tão artesanal e minimalista que já se destaca como algo inesperado entre as obras lançadas hoje em dia, além de confirmar o talento do seu diretor. Talvez seja seu maior mérito, diante de todos os temas que desenvolve de maneira normal, sem nunca chamar a atenção para o fato de que decisivamente está mostrando uma boa parcela das mulheres diante do amor e do modo como ele deve ser visto, com mais ênfase, menos receio e todo o afeto possível.

Tully, EUA, 2018 Diretor: Jason Reitman Elenco: Charlize Theron, Mackenzie Davis, Mark Duplass, Ron Livingston, Elaine Tan, Lia Frankland, Asher Miles Fallica Roteiro: Diablo Cody Fotografia: Eric Steelberg Trilha Sonora: Rob Simonsen Produção: Aaron L. Gilbert, Jason Reitman, Helen Estabrook, Diablo Cody, Mason Novick, Charlize Theron, A.J. Dix, Beth Kono Duração: 96 min. Estúdio: Bron Studios, Right of Way Films, Denver and Delilah Productions Distribuidora: Focus Features

Lugares escuros (2015)

Por André Dick

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No ano passado, David Fincher adaptou com ótima recepção de público e crítica o suspense Garota exemplar, escrito por Gillian Flynn. Apesar de Flynn colaborar diretamente no roteiro, a partir de determinado momento é possível que seu estilo é substituído claramente pelo de Fincher, na maneira de conduzir a narrativa e os personagens, em parte resultando numa decepção, pois em seus projetos anteriores o diretor havia conseguido um notável equilíbrio. Pouco tempo depois (o romance original é de 2009), Flynn tem outro romance adaptado para as telas do cinema, Lugares escuros. Como em Garota exemplar, trata-se de uma trama de mistério e de indagações, relacionadas desta vez a um passado um pouco mais longínquo.
Libby Day (Chalize Theron) é sobrevivente de um massacre ocorrido em 1985, em Kinnakee, no Kansas, no qual parte de sua família terminou morta. Desde então, ela tem conseguido vários ganhos financeiros a partir desse acontecimento, seja por meio de livros, seja por meio de programas de TV, porém chega-se ao limite, e suas economias cessaram. Ela é procurada por Lyle Wirth (Nicholas Hoult), líder do Kill Club, formado por integrantes obcecados por assassinatos e crimes nunca solucionados devidamente. Lyle é dono de uma lavanderia, mas decide dar a Libby todo o custo financeiro cobrado para ela cobaborar com novas informações para saber se o que aconteceu ou não no Kansas corresponde às informações das autoridades. Segundo a mesma Libby declarou aos 8 anos de idade, tudo aconteceu da forma como relatado à época. A partir daí, Libby decide visitar o irmão acusado pelos assassinatos, condenado à prisão, Ben (Corey Stoll).

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Ao mesmo tempo, a narrativa começa a lançar os flashbacks sobre sua vida familiar numa fazenda do interior. Nela, sua mãe, Patty (Christina Hendricks) convive com os problemas conflituosos de Ben (Tye Sheridan), aos 15 anos, e ainda Michelle (Natalie Precht) e Libby (Sterling Jerins). Esta tem um bom relacionamento com o irmão, que se vê envolvido com Diondra Wertzner (Chloë Grace Moretz) e Trey (Shanon Kook), integrantes de uma estranha seita. Decisivamente, Libby está interessada em remontar essa história como um quebra-cabeças, vendo inclusive onde entram seu pai, Runner (Sean Bridgers) e Krissi (Addy Miller), uma menina que, à época, teria acusado Ben de tê-la molestado – fazendo a notícia se espalhar por toda a escola. Há vários temas em Lugares escuros: hipotecas de fazendas, crianças ameaçadas e jovens desgovernados. E há o Kill Club, embora apenas no início, pouco explicado pela narrativa e com uma ideia severamente desperdiçada.
O diretor francês Gilles Paquet-Brenner faz uma sucessão de idas e vindas no tempo para entendermos a presença de Libby no dia do massacre, e para isso ele tem o auxílio da fotografia de Barry Ackroyd. Responsável por trabalhos de filmes com movimentação de câmera contínua, como Guerra ao terror e Capitão Phillips, Ackroyd tenta dar uma motivação a todos os momentos de Lugares escuros, com êxito em alguns momentos, e em outros nem tanto. Não há um grande alento nas imagens de Lugares escuros, mas, de algum modo, este clima oferecido pelo filme leva todos os personagens a uma espécie de afastamento da realidade.

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Tanto quanto o clube coordenado por Lyle – em mais uma boa atuação de Hoult, que também divide a cena de Mad Max com Theron –, essas figuras estão dominadas por uma faceta noturna. Libby se movimenta com dificuldade, sempre associada ao massacre, enquanto o irmão está na prisão. As lembranças da mãe não são menos pesadas, e Hendricks mais uma vez consegue atuar bem  num papel de determinado modo limitado. No entanto, é Sheridan e Moretz que conduzem o filme para o foco do mistério e se mostram mais uma vez bons atores, sobretudo Sheridan, depois de Amor bandido e Joe (uma grande falha com Nicolas Cage, quase salva por ele). Theron, por sua vez, tem uma boa presença de cena, embora seu personagem não seja muito diferente daqueles que já protagonizou: em muitos momentos, a gelidez de Libby impede o espectador de uma aproximação maior, como se ela fosse a responsável pela nave de Prometheus. Em parte, isso é necessário para o papel, contudo Theron exagera por vezes, repetindo alguns maneirismos de amargura já entrevistos em Jovens adultos; Hoult ao aparecer em cena, como em Mad Max, consegue recompor a narrativa, apesar de nunca usado como deveria.
Entende-se que Gillian Flynn teria feito um romance com acontecimentos improváveis, mas isso já transparecia em Garota exemplar, cuja parte final é próxima do desastroso. Se Paquet-Brenner não tem nem um traço do talento para o visual de Fincher, pode-se dizer que sua trama é mais árida e concentrada, ao contrário daquela apresentada em Garota exemplar.

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Esses personagens, a começar por Libby, não têm exatamente uma polidez: há um universo encoberto e mesmo sujo aqui, e Paquet-Brenner consegue retratá-lo com uma atmosfera por vezes assustadora, tendo como base a música de Gregory Tripi. Temos imagens da cidade grande e de clubes noturnos (inclusive o Kill Club) e elas não são diminuídas pelas imagens bucólicas do interior: nessas, pelo contrário, existe ainda uma ameaça maior, como se o lado campestre estivesse sempre em união com o urbano, nunca trazendo alívio aos personagens; a sua atmosfera é quase inabitável e habilmente incômoda. O espectador nunca se sente à vontade com sua variação de cenários, aparentemente sempre com o objetivo de cada um parecer preso à sua forma de agir. As improbabilidades do que acontece, reservadas a um suspense e a um thriller, não jogam o filme na vala comum; antes, fazem parte apenas do gênero, e o diretor consegue fazer uma sucessão contínua de novas informações se sobrepondo junto com a recuperação do passado. Uma pena o filme falhar em seus instantes finais, quando o diretor deixa as descobertas subentendidas e não recompõe a importância de cada personagem para o contexto. Ainda assim, Lugares escuros lança o espectador em meio a uma narrativa capaz de atrair a atenção e não aponta a necessidade de uma resolução definitiva para aquilo que aos poucos também se desmantelou na memória de Libby.

Dark places, FRA/EUA, 2015 Diretor: Gilles Paquet-Brenner Elenco: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Chloë Grace Moretz, Christina Hendricks, Tye Sheridan, Corey Stoll, Drea de Matteo, Natalie Precht, Sean Bridgers, Shannon Kook, Sheri Davis, Sterling Jerins Roteiro: Gilles Paquet-Brenner Fotografia: Barry Ackroyd Trilha Sonora: Gregory Tripi Produção: Charlize Theron, Peter Safran, Stéphane Marsil Duração: 114 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Cuatro Plus Films / Da Vinci Media Ventures / Denver and Delilah Productions / Exclusive Media Group / Hugo Productions / Mandalay Vision

Cotação 3 estrelas e meia

Mad Max: Estrada da fúria (2015)

Por André Dick

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Lançado no final dos anos 70, Mad Max marcou época tanto pela visão de George Miller sobre o futuro quanto pelo ritmo e ação que ele imprimiu à narrativa, além de lançar ao estrelato Mel Gibson. Nas continuações, em 1981 e 1985, a ação continuava presente, com grandes momentos, principalmente no segundo. Não é surpresa, então, que Mad Max: Estrada da Fúria surja como um novo referencial de obra de ação, capaz de surpreender mesmo boa parcela da crítica. Que os seus minutos iniciais lembrem um trailer prolongado, também não parece um problema: George Miller, de fato, com um visual elaborado, baseando-se na fotografia de Freddie Francis feita para Duna, de David Lynch, emprega novamente um ritmo contínuo.
A história inicia com Max (Tom Hardy) sendo preso pelos War Boys e levado para a Joe’s Citadel como um doador universal. Ele tenta escapar, mas é novamente preso. Enquanto isso, o líder do lugar, Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), indica a seu povo que Imperator Furiosa (Charlize Theron), com o cabelo raspado como se fosse a Ripley de Alien 3, deve recolher uma carga de gasolina. Ela, no entanto, rapidamente muda a rota do que faria e se embrenha no deserto mais hostil, aonde ninguém costuma ir. Furiosa parece não apenas trair, como esconder o segredo: leva consigo algumas mulheres que parecem servir apenas para dar à luz a filhos, sobretudo Splendid Angharad (Rosie Huntington-Whitleley). No seu encalço, vem Nux (Nicholas Hoult, de início bastante forte), um dos War Boys, com Mad Max preso com correntes à frente do veículo (Hardy novamente escondido atrás de uma espécie de capacete). Os primeiro terço de Mad Max é simplesmente magistral, com uma perseguição extraordinária de Joe a Furiosa, e Max tendo de entrar em conflito com ela e Nux.

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Há, ao mesmo tempo, uma influência visível de Indiana Jones e o templo da perdição (no designer da caveira na montanha, das cavernas e na tribo batendo tambores), Branca de Neve e o caçador (a água sendo lançada como litros de leite ao povo no filme em que Theron era a bruxa má) e de Duna, principalmente no controle que o vilão deseja ter sobre os clãs e a água (e não mais a gasolina, como na série original). Mas há ainda dois terços de filme para que ele termine, e Miller que, além de Mad Max, fez o lamentavelmente esquecido As bruxas de Eastwick, o ótimo drama O óleo de Lorenzo e produziu o primeiro Babe e dirigiu o segundo, parece ter esquecido sua sensibilidade dramática.
Os três primeiros Mad Max tinham como sustentação a presença de Mel Gibson. Mas aqui Hardy, além de ser, como se aponta, apenas o coadjuvante, apesar de Miller querer torná-lo sofisticado, por meio de uma síntese inicial e visões atormentadas, é um ator realmente limitado (e não estaria exagerando que mesmo Channing Tatum parece ter evoluído em Foxcatcher). Fazer um filme de ação em que a personagem feminina é a principal é uma das grandes saídas de Miller, mas é curioso que o diretor considera que um filme deve carregar o nome de um personagem masculino (de uma série bastante conhecida criada por ele mesmo) porque acha que apenas assim atrairá o grande público. Se teve realmente esse objetivo, ele parece inaugurar, dentro da discussão feita sobre o filme, o que se chama de feminismo antifeminista, e cair neste plano de discussão é julgar que Miller faz algo aqui algo de real importância conceitual, quando nunca se afasta dos lugares-comuns a que a figura feminina foi conduzida em boa parte da história do cinema quando se depara com um conflito: a de que só pode ser salva e conduzida por ações de guerra e, aqui, acelerar no deserto, com o mesmo fetiche previsível de perseguição de carros e explosões que costuma ser ligado à comunidade masculina. Desse modo, apesar de ótima atriz, Theron é apagada por uma série de clichês, afastando-se daquela que é sua referência principal: a Ripley de Sigourney Weaver, uma personagem muito melhor delineada.

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Numa narrativa em que o melhor ator é Hoult (em seu primeiro grande papel no cinema depois de Um grande garoto, ainda criança), Mad Max tem um roteiro pedregoso como as rochas com as quais os carros do filme se deparam ao longo de uma perseguição sem fim no deserto. Ele não se sente coeso, e se no início o espectador não parece ter necessidade de conhecer detalhes sobre os personagens, quando Miller tenta interromper o fluxo de ação constante, no qual não apresenta suficientemente também os vilões, entrega apenas um material expositivo, com exceção de uma belíssima sequência noturna em que Miller tenta desencavar uma homenagem a O comboio do medo, de Friedkin.
As ações dos personagens acabam sendo muito vagas diante da grandiosidade que Miller entrega na parte técnica. Neste sentido, a ação não influi no plano emocional, pois não há aqui personagens com que se preocupar. Tudo é desenvolvido, nos 80 minutos finais, de maneira que parece um anticlímax – diante do início – estendido. Ou seja, Miller não conseguirá superar os momentos iniciais e, como também não possui uma história a entregar, Mad Max se sente incompleto. Há algumas one-liners sobre esperança, encaixadas por Miller na tentativa de fazer com que esses personagens não soem opacos, mas elas se sentem deslocadas quando não há uma estrutura.
O interessante é como os problemas de um filme como Mad Max são deixados de lado, ao contrário do que aconteceu com a terceira parte de O hobbit, considerado por alguns, injustamente, uma fantasia de RPG. Diante da narrativa apresentada por Miller, não há uma negativa sequer sobre sua história sem direcionamento, enquanto se diz que Jackson, no filme que fecha a sua trilogia, teria se entregue apenas a uma batalha. No entanto, Jackson, com sua fantasia menosprezada por alguns, é um designer na construção de personagens e não meramente um criador visualmente potente. O mesmo pode-se dizer de Cristopher Nolan, que, fazendo ou não blockbusters de ação, procura modular seus personagens.

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Se Miller parece tornar o difícil em algo fácil de ser assistido, seus recursos se esgotam rapidamente, como filmar homens pendurados em varas pulando de um caminhão para outro, ou motos voando por cima de caminhões ou descendo encostas imensas, não exatamente como um recurso narrativo, mas como algo incrível, inclusive de ser feito: no momento em que se vê essas cenas, parece haver a ilusão de um filme extraordinário, pela dificuldade na filmagem – e, não se deve enganar, há muito CGI disfarçado aqui. Essas são características de filmes como O exterminador do futuro 2, de James Cameron, que marcou época nos anos 90 e, mesmo com toda sua grandiosidade, não consegue em nenhum momento superar o primeiro filme da série, com seu visual de futuro realizado com maquetes precárias. Desse modo, fazer uma ode elogiosa apenas à parte técnica de Mad Max é ignorar de maneira máxima o que sustenta o cinema. Nisso tudo, por outro lado, não se deve esquecer que este Mad Max tenha um trabalho primoroso no uso de cores, no qual o azul do céu contrasta com o laranja ou amarelo do deserto e as explosões em vermelho dialogam com o cabelo de uma das mulheres que fogem, assim como há rimas visuais entre o azul do dia e o da noite em razão da fotografia de John Seale (habitual colaborador de Miller, Peter Weir e Anthony Minghella, tendo ganho o Oscar por O paciente inglês).
É uma pena que Miller não construa tudo em acordo com algo que poderia expandir a mitologia de Furiosa e de Max: os personagens sentem-se como artifícios de uma mensagem em que mesmo Miller não parece acreditar. Em nenhum momento, há qualquer conflito existencial realmente autêntico e as figuras não se afastam de rótulos, bastante consideráveis há trinta anos atrás, quando o primeiro Mad Max saiu. Há, nela, uma busca apenas de contentar o grande público, e ocasionalmente influenciar nas bilheterias. E, ao não expor já no título, que Imperator Furiosa é a grande personagem Miller perde a oportunidade de fazer aquilo que imagina por meio das cenas de ação: inovar. Miller, na verdade, por mais que não pareça, nunca saiu de 1979. Isso é realmente se afastar totalmente de Mad Max original: uma série despretensiosa, divertida, mas ainda assim permanente. Neste sentido, se este Mad Max é o filme de ação do futuro, talvez o melhor seja apenas olhar pelo retrovisor.

Mad Max: fury road, AUS/EUA, 2015 Diretor: George Miller Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult, Rosie Huntington-Whiteley, Zoë Kravitz, Riley Keough, Nathan Jones, Hugh Keays-Byrne Roteiro: Brendan McCarthy, George Miller, Nick Lathouris Fotografia: John Seale Trilha Sonora: Junkie XL Produção: Doug Mitchell, George Miller, P. J. Voeten Duração: 120 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Kennedy Miller Productions / Village Roadshow Pictures

Cotação 2 estrelas e meia

 

Jovens adultos (2011)

Por André Dick

Jovens adultos 5

A parceria de Jason Reitman com Diablo Cody iniciada em Juno – um filme que não corresponde à sua repecussão – ganhou um segundo capítulo neste filme menos comentado, que passou rapidamente por nossos cinemas, mas é dramaticamente (com elementos de humor) muito superior: Jovens adultos. Não era de se esperar muito de uma história relativamente limitada, sobre uma escritora de livros juvenis (que publica numa coleção), Mavis Gary (Charlize Theron). Quando passa por um período sem conseguir criar e de rotina de troca de homens em sua vida, ela recebe a mensagem de um ex-namorado, que acabou de ter uma filha. Morando em Minneapolis, ela decide voltar para Mercury, Minnesota, sua cidadezinha de origem, a fim de reencontrá-lo. O antigo namorado se chama Buddy Slade (Patrick Wilson) e, além de ser pai, está muito bem casado com Beth (Elizabeth Reaser). Por sua vez, Mavis anda com um cachorrinho em sua pequena bolsa e destrata a todos que encontra à sua frente, pois se considera, acima de tudo, uma escritora best-seller.
No entanto, na coleção em que ela escreve, seu nome aparece quase num rodapé e ela, na verdade, está querendo um acerto de contas com o seu passado. O que poderia ser uma trama juvenil ou simplesmente bem-humorada transforma-se num drama agridoce, por meio do talento de Reitman em lidar com personagens fora do contexto, o que já mostrou tanto em Juno, de forma menos exemplar, quanto no interessante Obrigado por fumar (em que imperava o politicamente incorreto) e no excelente Amor sem escalas, seu melhor filme ao lado deste até o momento. Reitman está interessado numa espécie de retrato do americano que pensa ter obtido um sucesso descomunal quando precisa voltar às suas raízes para entender que não atingiu exatamente o que queria.

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É um movimento também trazido por Alexander Payne em filmes como Sideways. Neste, havia o escritor Miles Raymond (Paul Giamatti), que não conseguia publicar o que considerava sua obra joyciana e, não conseguindo, sai numa jornada por vinícolas com seu amigo que vai se casar. Ao contrário de Mavis, Miles era comedido de inseguro. O que não significa que Mavis também não o seja. Ao chegar na cidade, ela vai para um pub, onde encontra Matt Freehauf (Patton Oswalt), que foi agredido nos tempos de colégio porque ele seria gay – deixando-o com cicatrizes incuráveis e muletas. Sabendo do objetivo de Mavis de terminar com o casamento de Buddy, Matt se coloca como intermediário, mas apenas para mostrar seu entendimento da questão. Incapacitada de se resolver como adulta – a personagem central não consegue visitar os próprios pais na visita à cidadezinha –, ela encontra em Matt um diálogo baseado em bebidas e monstros pintados no quarto. É como se ele representasse o que ela não consegue ser: uma pessoa que conseguiu, enfim, se despir do posto de rainha da escola para, de fato, tornar-se um sucesso como autora – com o nome escondido – de livros infantojuvenis. Mas como se ela não consegue entender as mais simples relações?
Jovens adultos vai de encontros em bares a hotéis com garrafas de Coca-Cola jogadas no colchão, contudo é muito mais do que um pretenso aroma de cigarros ou cheiro de esmalte que a personagem usa a determinada altura, em determinados tons. Mavis, na verdade, parece ser o retrato da mulher que se aproxima dos 40 anos estando presa à juventude e às conquistas da escola, mas pode esconder mais do que isso. A personagem que Charlize interpreta com vigor – sendo seu melhor papel até hoje, pelo qual foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz – tem uma instabilidade muito bem trabalhada ao longo do filme, desde o momento em que acorda (com o pijama da Hello Kitty), liga a TV, para se abastecer um pouco de cultura fútil, até o momento em que busca alguma comida fast food para ouvir possíveis conversas capazes de inspirá-la a escrever. Quando pretende reconquistar o namorado, passa por um salão de beleza, faz aplique nos cabelos e tenta recuperar o ar juvenil, entretanto apenas ela acredita que não está mais velha e estranha; para ela, todos os outros estão estendendo o tapete como se ela ainda fosse a rainha do colégio, e ainda a invejam por isso, já que conseguiu sair e fazer sucesso na cidade grande.

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Não parece sem sentido que Reitman a coloque sempre num ponto de vista juvenil, como as fitas cassete que carrega, remetendo também a uma fuga para a adolescência eterna. Reitman consegue mesclar a faceta patética da sua personagem com uma espécie de ressentimento que ela deixa claro, como na apresentação da banda da mulher do antigo namorado,  a quem tenta convencer a beijá-la mais tarde, e na meia hora final, certamente num tour de fource de Charlize, capaz, ao mesmo tempo, de fazer o espectador rever o seu comportamento ao longo do filme e, mesmo diante de sua incapacidade para o enfrentamento, tentar vê-la numa condição melhor, o que não é, porém, o objetivo de Reitman, pois o filme está longe de ser previsível.
Não se trata de nenhum retrato superficial de uma determinada idade, mas um retrato bastante considerável da natureza de Mavis, capaz de se ampliar em boas doses de ironia e vontade de esquecer o que aconteceu. Estamos diante de vários temas, mas o mais subentendido é, sem dúvida, o alcoolismo, e a maneira como a personagem precisa enfrentá-lo para tentar entender a cidade de onde veio. Trata-se de uma personagem que adentra uma loja de roupas para bebê com a mesma falta de vigor com que ergue a garrafa de Coca-Cola quando acorda com os cabelos desgrenhados, mas, ao tentar mudar diante do espelho, imagina recuperar o que perdeu. Trata-se, portanto, de um papel que deve ser desempenhado de dentro para fora, e as expressões que Theron coleciona ao longo da narrativa, assim como sua inesperada amizade com Matt, cada um tentando recuar no tempo para tentar fazer com que caia no esquecimento, transformam o que poderia ser um roteiro superficial em algo mais humano e próximo do verdadeiro afeto.

Young Adult, EUA, 2011 Diretor: Jason Reitman Elenco: Charlize Theron, Patton Oswalt, Patrick Wilson, Elizabeth Reaser Produção: Diablo Cody, Lianne Halfon, Mason Novick, Jason Reitman, Russell Smith, Charlize Theron Roteiro: Diablo Cody Fotografia: Eric Steelberg Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 94 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Denver and Delilah Productions / Indian Paintbrush / Mandate Pictures / Mr. Mudd / Right of Way Films

Cotação 4 estrelas

 

Branca de Neve e o caçador (2012)

Por André Dick

Este filme baseado no conhecido conto de fadas dos irmãos Grimm tem o mérito de não ser desigual, ou seja, a narrativa nunca se desloca para um lugar não esperado. Daí, em parte, o filme ser interessante e previsível. Desde crianças, sabemos o que cerca a história de Branca de Neve: a bruxa má, a maçã envenenada, um caçador e os sete anões. O diretor estreante Ruppert Sanders se apega a essa estrutura clássica, mas lança contra a visão idílica dos estúdios Disney um contexto medieval bastante pesado – e em muitos momentos soturno. Ou seja, os personagens do mal querem provar que realmente são do mal (a começar pela bruxa, interpretada por Charlize Theron, e seu irmão, feito pelo ótimo Sam Spruell), indo contra a vida a princípio cômoda de Branca de Neve (Kristen Stewart, em bom momento, como aquele que vimos em Na natureza selvagem e The runaways), filha do rei que será deposto exatamente pela bruxa.
O início, com uma cena de batalha que emula a primeira de Gladiador, tem um ritmo bastante rápido – e o filme tem uma agilidade notável até em torno de 30 minutos, quando a personagem chega à Floresta Negra, onde quase ninguém entra. Neste momento, Sanders adota uma opulência visual que remete aos melhores momentos de O senhor dos anéis – série a que o filme deve bastante, em seu visual e mesmo tentativas de humor – e Willow – filme semiesquecido com produção de George Lucas. Daí, quando o caçador vem a mando da bruxa tentar prendê-la, o filme se alça a uma tentativa de criar um enlace entre os dois, no que o diretor é bem-sucedido em parte: o caçador, feito por Chris Hemsworth (que faz o Thor), tem um contraponto mais leve nessa fantasia, mas não combina com a Branca de Neve cândida, que esteve durante boa parte da vida presa numa torre. Tirando esse detalhe, o filme encadeia boas sequências que resultam no encontro com os oito anões (a princípio), entre os quais está Bob Hoskins (em bom momento), quando todos vão para um ambiente que mescla O senhor dos anéis e mesmo Labirinto (o filme pop para crianças dos anos 80, com David Bowie) e Alice no país das maravilhas (afinal, Burton é um mestre na direção de arte). Sanders presta reverência a esses contos de fadas, e é o único momento em que o filme caminha para um ar meio inocente e ingênuo. Claro que a bruxa má quer acabar com esse esteio de filme, e Charlize está preocupada em mostrar que é uma atriz que mereceu o Oscar (por Monster). Mas ela está exagerada e caricata – quase fazendo o filme se perder completamente nos momentos em que está em cena. Suas caretas de desprezo e de contrariedade não chegam a colaborar no andamento da narrativa. E um par menos pretensioso – Kristen e Chris Hemsworth –, além dos atores que fazem os anões, consegue manter o ritmo que ia se perdendo, pois não quer afirmar sua presença.
Boa parte do êxito de Branca de Neve e o caçador reside neste contraponto e na belíssima fotografia de Greig Fraser – emulando a todo instante O senhor dos anéis, porém com cenas de batalha eficazmente detalhadas (sem mostrar, por outro lado, muita violência), que devem, como já se disse, a Gladiador – e mesmo a Cruzada e Robin Hood, todos filmes de Ridley Scott (mais lentos do que este, embora com imagens parecidas, sobretudo em certa fotografia de florestas e praias). Para um diretor estreante e para uma história que não renderia um filme tão efetivamente bem conduzido, Branca de Neve e o caçador fica na linha de boas obras de fantasia já feitas – o que é um mérito para uma produção que poderia não ser levada a sério.

Snow White and the Huntsman, EUA, 2012 Diretor: Rupert Sanders Elenco: Kristen Stewart, Chris Hemsworth, Charlize Theron, Ian McShane, Toby Jones, Nick Frost, Ray Winstone, Sam Claflin, Sam Spruell, Bob Hoskins, Eddie Marsann, Lily Cole Produção: Sam Mercer, Palak Patel, Joe Roth Roteiro: Hossein Amini, Evan Daugherty Fotografia: Greig Fraser Duração: 129 min.  Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Roth Films / Universal Pictures

Cotação 3 estrelas e meia