Uma aventura LEGO (2014)

Por André Dick

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Nos últimos anos, Wes Anderson está acostumado a tomar como base o universo de Roald Dahl para suas histórias, principalmente no reino do stop-motion em que figura O fantástico Sr. Raposo, ao mesmo tempo em que a série Toy Story definiu a cultura dos brinquedos em movimento. Em meio a isso, mesmo o personagem de um jogo, Ralph, se revolta contra sua sina de figurar sempre como vilão, e tenta fugir ao lugar-comum. Brinquedos ou aquilo que os suscita nunca estiveram distantes das cifras e da imaginação infantil, e se vierem em 3D poderão garantir ainda mais entretenimento. Não demoraria, diante deste panorama, que se tivesse a ideia para uma própria marca de brinquedos tivesse o seu filme e, com o auxílio fundamental da Warner Bros, ela se materializou com Uma aventura LEGO, que no início deste ano superou nas bilheterias o favorito Caçadores de obras-primas, de George Clooney, e coloca o stop-motion como o seu principal trunfo, assim como em Sr. Raposo, de Anderson, constituindo-se num exemplo para futuras incursões na área. O intuito do filme, depois de sua primeira meia hora, é homenagear a cultura pop, sobretudo aquela que surge dos quadrinhos e do cinema. Mas, até certo ponto, é essa cultura que acaba criando força sobretudo junto às crianças, conseguindo fazer com que elas consigam estabelecer um diálogo entre a tecnologia em que já são inseridas desde cedo e as peças nostálgicas que lembram mais a imaginação colocada em verdadeira prova.
O início de Uma aventura LEGO parece uma homenagem a O senhor dos anéis e Star Wars, mas depois que o roteiro se fixa na figura de Emmett, o filme parece destinado mais a ser uma homenagem, em diversos tempos, à série Matrix. Emmet Brickowoski (Chris Pratt) é recebido como uma espécie de predestinado a salvar o universo ameaçado por Lord Business (com a voz de Will Ferrell), que pretende neutralizar a liberdade da criação com a descoberta de um certo Kragle.

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Depois de uma passagem por seu local de emprego – e brinquedos podem não parar de cantar por 5 horas, sobretudo se for a canção “Tudo é possível” –, ele acaba caindo numa rede de aventuras, quando Emmett conhece a Wildsyle (Elizabeth Banks), e um mago, Vitruivius (com toda a carga de sabedoria para um nome de origem latina, embora com conhecimento suficiente na área em que Emmett deve atuar), que lembra Gandalf e Obi Wan-Kenobi, com algumas mensagens que poderiam soar como as deYoda, não fosse a voz de Morgan Freeman. Atrás deles, vem o policial Good Cop/Bad Cop, ou seja, com duas faces (a boa e a ruim), uma espécie de Gollum com distintivo e com voz de Liam Neeson. Ao trio se junta Batman (Will Arnett), namorado de Wildstyle. Depois de Burton e Nolan, não surpreende que o Batman aqui só queira trabalhar com peças de montagem escuras ou cinzas e em determinado momento pode até mesmo conhecer Han Solo, Lando Calrissian e Chewbacca (num anúncio prévio para o novo filme da franquia de J.J. Abrams), reproduzindo, inclusive, uma imagem icônica de O império contra-ataca que envolve a Millenium Falcon.
Todo o filme é desenhado num fluxo de visitação a alguma fábrica da Lego ou de estúdios alternando cenários para que os personagens passem em movimento contínuo, e não estaria dizendo a verdade se não admitisse que os bonecos lembraram de quando a infância reservava sempre um tempo para a imaginação – principalmente na passagem de Uma aventura LEGO pelo velho oeste, influenciada pelo gênero do faroeste, tão em voga entre os anos 50 e 70, com um certo clima do Rango de Verbinski, mas sem esquecer por sua evolução em meio aos piratas da Middle Zealand, em que se evoca a franquia também da parceria Johnny Depp e Verbinski, Piratas do Caribe. Essas mudanças repentinas de lugar podem dialogar não apenas com o universo Lego, mas com A história do mundo (de Mel Brooks) e O sentido da vida (do grupo Monty Phyton), com a diferença de que aqui a história da humanidade se desenha com um fluxo de homenagens de vertente pop, com a colaboração das vozes dos atores para oferecer mais humanidade a todo o cenário, que em alguns momentos pode lembrar também os espaços de Tron, sobretudo na alternância entre mundos, ainda mais clara ao final. Tudo é acelerado, como se fosse parte de uma mente que, cansada de um lugar, se transporta imediatamente para outro, e o aspecto frenético pode ser uma influência clara de Edgar Wright, que fez Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, principalmente no modo que é feito a transição de uma cena para outra – quando, se a gag visual ou verbal não funciona, logo é coberta por outra, capaz de fazer esquecer a anterior, que não teria dado certo (também poderia se imaginar o personagem de Emett com a voz de Michael Cera).

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Com uma agilidade grande na composição de peças, o filme não interrompe sua sucessão de imagens e efeitos plásticos, com uma sobreposição constante de cores fortes, não se permitindo a intervalos, e há referências a muitos filmes, mas também porque surgem, em diferentes momentos, Lanterna Verde (Jonah Hill) e Superman (Channing Tattum) – numa homenagem aos heróis da DC Comics, da Warner Bros. Parte do imaginário infantil está retratado no filme, e o herói faz parte das unidades que seguem todas as regras, com uma desenvoltura incomum para a sua construção diária de prédios. No entanto, o que Uma aventura LEGO propõe é que a imaginação terá de ser mais forte para compensar a existência deste universo, e o personagem Emmet acaba sendo o ponto-chave para o êxito: os criadores do filme conseguiram torná-lo num brinquedo com sensações críveis ligadas tanto à sua insegurança quanto ao romantismo que reserva pela rebelde Wildstyle (nisso, a voz de Chris Pratt colabora para que isso aconteça). Neste sentido, ele dialoga diretamente com um dos clássicos infantis da década de 80, A história sem fim, em que o personagem, trancado num sótão de colégio, se permitia viajar com sua imaginação pela Terra de Fantasia, com as figuras mais interessantes. É certamente o poder da imaginação que faz com que Uma aventura LEGO não se torne um encaixe desvariado de peças, mas de fato um filme que questiona até que ponto essa mesma cultura pop permite uma criação de seu próprio mundo, individual. Embora ele não consiga atingir o grau de emoção que envolve os personagens de A história sem fim, não é por falta de tentativa, de forma mais destacada em seu final, quando o humor é atenuado em prol até de uma mensagem. Possivelmente, a sua crítica corrosiva ao imaginário pré-concebido seja dirigido aos próprios criadores do brinquedo Lego – mas sem a mesma contundência, pois se trata, claro, também de uma homenagem à empresa. No entanto, é por meio desse imaginário pré-concebido que pode surgir exatamente o possível caminho de Emett, que é construir suas peças distante do manual que antecipa o que deve ser feito. Uma aventura LEGO tenta fazer o mesmo com o espectador, e este pode estar disposto ou não a aceitar a diversão oferecida.

The Lego movie, EUA, 2014 Diretores: Christopher Miller, Phil Lord Elenco: Chris Pratt, Will Ferrell, Elizabeth Banks, Will Arnett, Nick Offerman, Alison Brie, Morgan Freeman, Charlie Day, Liam Neeson Roteiro: Christopher Miller, Dan Hageman, Kevin Hageman, Phil Lord Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Produção: Dan Lin, Roy Lee, Stephen Gilchrist Duração: 104 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Animal Logic / LEGO / Lin Pictures / Warner Bros. Pictures  

Cotação 3 estrelas

Círculo de fogo (2013)

Por André Dick

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Desde o início da sua trajetória, o cineasta mexicano Guillermo del Toro sempre teve um culto em torno de sua obra. Se este era grande com O labirinto do fauno, uma das fantasias mais perturbadoras e incômodas já feitas, não necessariamente equivalente a uma qualidade percebida a cada crítica, cresceu ainda mais com os dois Hellboy, em ritmo de HQs. Depois de ser substituído por Peter Jackson na direção de O hobbit, Del Toro resolveu se dedicar a este projeto grandioso, Círculo de fogo (daqui em diante, possíveis spoilers).
Aguardado como um dos grandes blockbusters deste ano, o filme já inicia em plena ação, mostrando que, das profundezas do Oceano Pacífico, através de uma brecha assustadora, surgem os Kaijus, monstros imensos que destroem tudo à sua volta. Para combatê-los, os militares criam os Jaegers, robôs gigantes (de países diferentes), cada um deles conduzidos por dois seres humanos, conectados pela mente, a fim de impulsionar seus movimentos. A parte inicial mostra exatamente esses pilotos, os irmãos Raleigh (Charlie Hunnam) e Yanci Beckett (Diego Klattenhoff), supervisionados por Stacker Pentecost (Idris Elba). Um dos irmãos irá conhecer Mako Mori (Rinko Kikuchi), protegida de Stacker.

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Depois de algumas aulas de luta com influência oriental, a questão é se estariam ambos preparados para enfrentar o fato de que há poucos Jaegers para enfrentar a profusão de Kaijus. Esses são investigados pelo Dr. Newton Geiszler (Charlie Day), com a parceria científica de Gottlieb (Burn Gorman), arranjando alternativas em meio ao mercado de Hong Kong, em busca de Hannibal Chau (Ron Perlman, o Hellboy) – e nesta ligação há alguns bons momentos de humor, por causa principalmente de Charlie Day, que foge completamente à atmosfera do filme. Também há Chuck Hansen (Robert Kazinsky), filho de Herc (Max Martini), que implica com o personagem central.
Todos os elementos básicos estão concentrados nesta narrativa, e Círculo de fogo não escapa muito à premissa do duelo entre a humanidade e monstros que lembram tubarões ou baleias prontos a criar um transtorno inevitável para o oceano. Em meio à apresentação dos personagens, vemos uma atmosfera chuvosa, como em Godzilla (embora o filme se mostre muito mais espetacular e denso do que aquele de Emmerich, que tinha os efeitos especiais como qualidade central), além de lembrar Cloverfield (produzido por Abrams e também de pouco impacto em relação a este) e, um pouco menos, Tropas estelares (a ficção cult de Paul Verhoeven), mas, acima de tudo, com referências a quadrinhos, séries e filmes japoneses.
Del Toro é, sobretudo, um artesão que consegue focar os sentimentos dos personagens – o personagem de Raleigh (também em razão da boa atuação, embora subestimada, de Hunnam) consegue se mostrar humano na tentativa de se conectar com outra pessoa à frente de um Jaeger. Sua relação com Mori se dá inicialmente na desconfiança, mas é na descoberta de um trauma em comum é que faz com que as mentes possam se complementar para o embate final contra os monstros que podem colocar a Terra diante do apocalipse final. A maneira como esses pares adentram nos robôs para tentar guiá-los mostra toda a concepção que cerca Del Toro: cada passo e movimento representa uma grandiosidade da máquina (pode-se dizer que este filme vale para o universo dos robôs o que Jurassic Park representou para os dinossauros nos anos 90). A preparação para o cargo de piloto dessas máquinas se dá com lutas orientais, em meio a quartos, corredores e elevadores frios, como os robôs, mas com os vínculos familiares expostos.

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Mako Mori não deixa de ser uma espécie de Sonmi-451 de Cloud Atlas (inclusive, Kikuchi, de Babel, se assemelha muito à Doona Bae), sendo preparada para o combate. Por trás dos embates de Círculo de fogo, há uma quantidade de referências bíblicas: o que se teme é o Apocalipse e no futuro os irmãos dividem uma máquina, e a morte de um também é parte da morte de outro, ao contrário de um Caim e Abel; o mar é sempre tempestuosamente bíblico; anda-se dentro de um monstro como Jonas dentro da baleia; mistura-se água às lavas como uma espécie de encontro entre elementos; e, afinal, quem lidera o combate aos Kaijus é um homem de sobrenome Pentecost (ligando-o a Pentecostes).
Del Toro busca, em suas histórias, não raramente a metáfora, como em O labirinto do fauno era a imaginação da personagem central, para escapar a uma realidade áspera. No entanto, em meio a um universo robótico, ele não hesita em mostrar também as mais variadas formas de organismo que podem ameaçar a natureza, mesmo aquela feita com o material de última tecnologia.
Ainda que Del Toro não consiga fazer com que os diálogos sejam desafiadores, em se tratando da simbologia, de efeitos especiais e design, Círculo de fogo é não menos do que espetacular. Neste ano, o segundo Star Trek foi fabuloso, mas parece que Círculo de fogo é uma espécie de configuração tanto da melhor fantasia provocada por robôs e monstros gigantes quanto do pior pesadelo, pois as cenas de batalha se dão quase sempre na escuridão ou embaixo de chuva, além de remeter, mais de uma vez, à série O senhor dos anéis e, segundo dados referentes das filmagens, às pinturas de Goya e Hokusai: os robôs e os monstros possuem uma dimensão assustadora, assim como os cenários em que travam os combates não lembram maquetes ou mero CGI.

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A fotografia de Guilherme Navarro consegue atingir uma categoria essencial para os movimentos das criaturas do filme: especificamente, os interiores onde os robôs ficam em plataformas são iluminados com apuro. Del Toro demonstra sensibilidade para verter este universo de robôs e monstros para uma superprodução e consegue criar algumas cenas notáveis ao longo de sua metragem, mas com destaque especial para a primeira hora, de incessante continuidade em todos os seus elementos – a montagem de John Gilroy e Peter Amundson nunca se encontra vacilante –, talvez prejudicado pelo ato final, mais previsível.
É por isso que, ao conduzir Círculo de fogo para o espaço da fantasia mais extraordinária, Del Toro passa a se inserir entre os nomes contemporâneos que melhor lidam com este material sem reduzi-lo a um trabalho com computadores. Como Peter Jackson e Abrams, o cineasta mexicano mostra, aqui, que os anos para solucionar Círculo de fogo valeram a pena. Seu filme consegue equivaler a pretensão visual com tudo aquilo que cerca a mitologia de robôs e monstros, expandindo, como raras obras, um universo que, mais do que fantástico, proporciona uma sensibilidade imaginária ampla. Não é pouco.

Pacific rim, EUA, 2013 Diretor: Guillermo del Toro Elenco: Charlie Hunnam, Diego Klattenhoff, Idris Elba, Rinko Kikuchi, Robert Kazinsky, Max Martini, Charlie Day, Burn Gorman, Ron Perlman Produção: Jon Jashni, Mary Parent, Thomas Tull Roteiro: Travis Beacham Fotografia: Guillermo Navarro Trilha Sonora: Ramin Djawadi Duração: 131 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Legendary Pictures

Cotação 4 estrelas