Logan Lucky – Roubo em família (2017)

Por André Dick

Depois de Magic Mike, Steven Soderbergh havia anunciado sua aposentadoria da grande tela. No entanto, ele nunca se afastou realmente dela, ajudando na produção, como diretor de fotografia e montador, de Magic Mike XXL, por exemplo. Na TV, fez Behind the Candelabra, muito bem recebido pela crítica. Diretor de algumas peças muito interessantes, principalmente Kafka, Irresistível paixão, Erin Brokovich, Traffic e Contágio, ele fez muito sucesso com uma série irregular, Onze homens e um segredo. Soderbergh é um cineasta que se especializou em adotar uma espécie de visão sobre os Estados Unidos e seus problemas, envolvendo desde o subúrbio ameaçado por grandes empresas até famílias que sofrem a ameaça da invasão das drogas por meio de seus filhos e uma espécie de alarme para os relacionamentos do futuro. No entanto, ele tem uma especial atração pelo tema do roubo, o que está presente não apenas na série referida, como em Irresistível paixão.

O mesmo acontece em Logan Lucky – Roubo em família, no qual ele volta ao ambiente que lhe agrada em especial, meio setentista, na maneira de construir a atmosfera e a narrativa, mesmo que passada nos dias atuais. No Condado de Boone, Jimmy Logan (Channig Tatum) é demitido de seu trabalho. Ex-jogador de futebol (o que faz lembrar seu personagem policial em Anjos da lei), ele está em permanente conflito com a ex-esposa Bobbie Jo (Katie Holmes), com quem tem uma filha, Sadie (Farrah Mackenzie). Também tem um irmão, Clyde (Adam Driver), veterano da Guerra do Iraque, onde perdeu parte de um dos seus braços, que trabalha num bar. Os irmãos moram numa cidade dedicada à mineração, ou seja, não se visualiza exatamente um ganho especial em dinheiro onde estão. Soderbergh não chega a elaborar esses personagens, e eles dizem muito: Clyde, por exemplo, poderia estar em Erin Brokovich e sua discussão sobre o aparato governamental por trás do destino das pessoas.

Ainda assim, a trama vai se movimentando de maneira fluida, sem que percebamos a sua estrutura algumas vezes previsível. Certo dia, Jimmy tem um plano de roubo no Charlotte Motor Speedway na Carolina do Norte, que eles vão tentar concretizar com o conhecido Joe Bang (Daniel Craig) e seus irmãos Sam (Brian Gleeson) e Fish (Jack Quaid), além da irmã de Jimmy e Clyde, Mellie (Riley Keough). Há outros personagens, que entram e saem da trama sem uma motivação clara, sem que isso os torne menos atrativos: a médica Sylvia Harrison, feita por Katherine Waterson. e o ricaço Max Chilblain, que vende bebida, feito por Seth MacFarlane (diretor de Ted), maquiado de maneira engraçada, além da agente de Hilary Swank são apenas alguns. De algum modo, todos acabam por contribuir com a narrativa, feita mais por meio de diálogos soltos do que exatamente uma estrutura preexistente sem nunca aparentar ser disperso. Logan Lucky dialoga, em certos momentos, com filmes dos irmãos Coen, a exemplo de E aí, meu irmão, cadê você? Onde os Coen se mostram um pouco mais pretensiosos, Soderbergh reduz o que poderia soar forçado, tornando mais comercial uma trama que não teria normalmente nada de comercial, remetendo, nesse caso, a Robert Altman e experimentos como Nashville e Um perigoso adeus. E as figuras femininas são um destaque: além de Waterston e Swank, Riley Keough, que apareceu em filmes underground de relevo nos últimos anos, a exemplo de Docinho da América e Lovesong, e mesmo a discreta Katie Holmes aparecem bem.

Com seu horizonte do interior dos Estados Unidos, Logan Lucky é uma mistura bem dosada entre comédia e ambientes presidiários, como era Irresistível paixão. O elenco, de maneira geral, é ótimo, principalmente Craig num papel inesperado, ainda que sem a diversão prometida pelo trailer. Tatum e Driver possuem boa química e Keough novamente chama a atenção por seu talento, mesmo que com pouca participação. Há alguns lances de emoção em família, mas nada que tome muito conta da metragem: Soderbergh está interessado em mostrar esse roubo pelos irmãos Logan, Joe e seus irmãos e o faz com uma narrativa entre a lentidão e o movimento, sem nunca tornar a narrativa pesada ou falha em seus momentos menos inspirados. Podia não ter acertado, como, especialmente, na segunda parte de sua trilogia de Onze homens e um segredo, contudo acaba sendo efetivo. Termina sendo uma das grandes diversões de 2017, um retorno inspirado de Soderbergh depois de uma quase aposentadoria, recuperando seus melhores momentos. O roteiro de Rebecca Blunt contribui muito para isso, tornando cada diálogo e situação em peças sólidas.

Logan Lucky, EUA, 2017 Diretor: Steven Soderbergh Elenco: Channing Tatum, Adam Driver, Farrah Mackenzie, Riley Keough, Daniel Craig, Katie Holmes, Charles Halford, Seth MacFarlane, Jack Quaid, Brian Gleeson, Katherine Waterston, Dwight Yoakam, Sebastian Stan, PJ McDonnell, Robert Fortner, Hilary Swank Roteiro: Rebecca Blunt Fotografia: Peter Andrews Trilha Sonora: David Holmes Produção: Gregory Jacobs, Mark Johnson, Channing Tatum, Reid Carolin Duração: 119 min. Distribuidora: Fingerprint Releasing, Bleecker Street

LEGO Batman – O filme (2017)

Por André Dick

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Depois do grande sucesso de Uma aventura LEGO, tendo na direção a mesma dupla de Anjos da lei, Cristopher Miller e Phil Lord, nada mais esperado que o regresso desses personagens em formato de peças em outro projeto. Desta vez, em LEGO Batman – O filme, o diretor Chris McKay, cocriador de Uma aventura LEGO, reúne vários personagens do universo do vigilante de Gotham City.
O filme já inicia em alto movimento, com Batman (Will Arnett) tendo de enfrentar o Coringa (Zach Galifianakis), que pretende novamente destruir Gotham, mas quer, sobretudo, ouvir do seu rival que ele é importante em sua vida. Claro que as brincadeiras com o personagem se sucedem em ritmo de fazer inveja ao primeiro longa com as peças do Lego, e aqui vai ganhando acréscimos, com os personagens de Dick Grayson (Michael Cera), que se transformará em Robin, Barbara Gordon (Rosario Dawson) e seu mordomo Alfred (Ralph Fiennes).
Barbara está assumindo a polícia de Gotham no lugar do pai Jim (Héctor Elizondo) e se prepara uma grande festa para sua posse, na qual se desenham algumas diretrizes para a polícia local (e uma é que Batman não poderá mais ser tão importante). Na festa, aparecem o Coringa, Arlequina (Jenny Slate), Duas Caras (Billy Dee Williams) e outros criminosos, surpreendentemente se entregando. Tudo isso parece um plano evidente para colocar Batman em uma situação complicada, não mais do que seu conflito permanente com Superman (Channing Tatum) e um tanto afastado da Liga da Justiça.

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McKay brinca com as principais características do herói: sua mania de resolver as questões por conta própria, a vida solitária na mansão Wayne (onde há um cinema no qual o personagem assiste a um clássico filme de Tom Cruise) e a saudade dos pais. É destacada, no entanto, a sua constante necessidade de estar afastado de todos, o que rende algumas cenas muito divertidas. De certa maneira, é uma maneira hiperbólica de ver o personagem, e Will Arnett faz um trabalho primoroso de voz. O Robin, em segundo plano, é a figura mais divertida, pois Cera sabe compô-lo por meio da voz, seguida pela do Coringa, com um trabalho notável de Galifianakis, sem parecer exagerado ou deslocado mesmo no tempo e espaço de piadas que recebe em seus diálogos, que é substancial.
De modo geral, como Uma aventura LEGO, este filme se sente como uma homenagem a muitas obras, não apenas aos de Batman, como também a King Kong, O senhor dos anéis e Harry Potter, ou seja, franquias que se consolidaram ou tentam se consolidar da Warner Bros. Há uma metalinguagem a cada instante, uma gag escondida em cada quadro, e muitas funcionam graças ao roteiro ágil. Apenas quando o filme se encaminha para a ação, e ela não deixa de homenagear a série do herói dos anos 60, há uma certa intensidade apressada que poderia ser atenuada, como fizeram Lord e Miller ao final de Uma aventura LEGO. Há muita ação e feita de maneira tecnicamente impecável, mas nisso vem embutido um certo sentido de caos, que os diretores do primeiro filme conseguiam de certo modo evitar na transição de tempos diferentes e entrada e saída de personagens diferentes, compondo um universo menos específico, mas que aqui chega a ser cansativo.
É interessante como, de modo geral, a crítica resolveu adotar um certo discurso de que aqui os personagens do universo da DC funcionariam. Mais ainda: porque mostraria um Batman menos soturno.

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Isso certamente decorre da má recepção em geral de Batman vs Superman, no ano passado, e alguns cogitaram até se não seria melhor trocar atores pelas pecinhas de Lego. Por mais que se entenda a sátira e mesmo a aversão a alguns ao universo que está iniciando da DC nos cinemas, parece exagerado focalizar neste filme como uma referência capaz de rivalizar com as visões, por exemplo, de Burton, Nolan e Snyder.
É uma diversão infantojuvenil capaz de agradar ao público adulto, feita com esmero inabitual, com uma explosão de cores fantástica, mas, acima de tudo, é uma sátira com este personagem. Tentar reduzi-lo, por outro lado, a essa sátira é evitar, naturalmente, a graça que se possa fazer em cima de suas qualidades mais soturnas. Ou seja, parece haver um encanto artificial da crítica e dos espectadores de que este seria o tom certo a ser adotado para os filmes considerados mais sérios. Enquanto LEGO Batman se sente uma obra que se sustenta por si só, é irremediavelmente composta por referências que os personagens adquiriram em sua versão dramática, e a trilha sonora de Lorne Balfe mescla os trabalhos de Danny Elfman e Hans Zimmer e Junkie XL para compor uma com tom que dá ritmo às sequências.

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É bem verdade que as cores aqui estão mais próximas da visão que Joel Schumacher tentou trazer a este universo, com Batman eternamente, indicado ao Oscar de fotografia justamente pela contribuição de cores diversas. No entanto, LEGO Batman se movimenta sobre sentimentos reais, que não existiam no filme de Schumacher, mas se encontram em suas demais versões, inclusive na série lembrada aqui dos anos 60, com Adam West.
O roteiro, escrito nada mais nada menos do que a dez mãos (Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington), tenta reunir várias referências que são entendidas por todos ou apenas pelos fãs. Eles fizeram um bom trabalho, principalmente quando se entende que este é um universo realmente atrativo e conseguem, ainda, com outras referências, dialogar tanto com Esquadrão suicida quanto com o ainda a ser lançado Liga da Justiça, embora a longa-metragem evite o impacto que poderia ter, em razão do ato final que se estende além do tempo. Como os brinquedos da Lego, estamos lidando aqui com futuros lançamentos, independente de serem peças ou não do mesmo movimento. Divertido para alguns, para outros não, mas ainda com a tentativa de divertir.

The Lego Batman movie, EUA, 2017 Diretor: Chris McKay Elenco: Will Arnett, Zach Galifianakis, Michael Cera, Rosario Dawson, Ralph Fiennes, Mariah Carey, Jenny Slate, Billy Dee Williams, Héctor Elizondo, Conan O’Brien, Channing Tatum, Jonah Hill Roteiro: Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Dan Lin, Phil Lord, Cristopher Miller, Roy Lee Duração: 104 min. Distribuidora: Warner Bros. Pictures

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Ave, César! (2016)

Por André Dick

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Se há uma característica própria dos irmãos Joel e Ethan Coen é a sua versatilidade, capaz de alternar filmes excepcionais com outros que parecem apenas brincar com determinados temas. O filme anterior a este Ave, César! foi o mais do que superestimado Inside Llewyn Davis, recebido pelo público e pela crítica de modo muito mais entusiasmado. Talvez porque Ave, César! seja quase inclassificável, uma espécie de mistura do que os irmãos já mostraram em Barton Fink e Um homem sério com novos acréscimos. O roteiro mostra o diretor do estúdio Capitol Pictures, Eddie Mannix (Josh Brolin, excelente), que, determinado dia, tem um de seus astros, Baird Whitlock (George Clooney, divertido mais uma vez sob a direção dos Coen, como em Queime depois de ler), sequestrado, logo quando está para terminar as filmagens de Hail, Caesar!, uma reconstituição da presença de Jesus Cristo na Roma Antiga.
Os motivos para os irmãos usarem essa simbologia religiosa já estava claro em Um homem sério, mas é aqui que se torna ainda mais interessante. A narrativa segue uma linha de liberdade, mostrando cenas de filmes diferentes sendo filmadas: DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) tem uma ligação suspeita com Mannix, enquanto Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) provoca a ira do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes), e Burt Gurney (Channing Tatum) atua como marinheiro num musical que parece lembrar o Gene Kelly de Cantando na chuva. Mannix também precisa se desvencilhar de Thora e Tessália Thacker (Tilda Swinton), irmãs gêmeas e colunistas rivais.

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Além disso, ele precisa se encontrar com padres e pregadores para avaliar como seria o seu projeto sobre a vida de Cristo. Os irmãos Coen subvertem a situação mirando um certo humor de origem judaica, já vislumbrado no excelente Um homem sério, mas que aqui adquire outra carga: não por acaso, Mannix é um homem cheio de culpa e vai ao confessionário tentar se eximir de sua condição.
Passado nos anos 50 – um pouco depois do período que mostraram no noir O homem que não estava lá –, os irmãos Coen fazem uma homenagem ao cinema dessa época, enquanto satirizam tanto a indústria cinematográfica quanto as ideias comunistas que estavam se proliferando na capital do cinema. Alguns dos diálogos são extremamente saborosos, mantendo uma ideia de época e de contemporaneidade. Para os irmãos Coen, as ideias não somem, apenas mudam de forma, e não por acaso eles parecem homenagear aqui três cineastas: Billy Wilder (de Crepúsculo dos deuses), David Lynch (de Cidade dos sonhos) e Wim Wenders (Estrela solitária), principalmente na figura do astro que interpreta caubóis.
Essa metalinguagem sobre o universo do cinema é vinculada, na narrativa dos Coen, à questão da fé pessoal e no uso de pessoas para estruturar uma ideia de estúdio, cuja finalidade é ajudar a movimentar a indústria. No entanto, como bons roteiristas, os Coen nunca se negam a ver uma fresta de sátira nesse comportamento, não levando a sério nenhuma das questões, sem, contudo, desprezá-las. As figuras do caubói, a princípio ingênua, e do ator que interpreta César com um overacting terrível, ajudam a manter o filme dos Coen numa área de questionamento, assim como o comportamento de Mannix.

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A oposição entre a claridade e a escuridão se mostra não apenas no tempo em que se passa – durante um dia – como na narrativa dividida em atos de filmagens, que trazem uma atmosfera maravilhosa que se contrapõe à vida real. Enquanto transcorre o mccarthismo, os Coen não se incomodam em mostrar exatamente um grupo de roteiristas com uma ligação estabelecida imediatamente com Moscou – quase um lado subversivo do que mostraram no roteiro politicamente correto de Ponte dos espiões, mais próximo de Barton Fink. Em vez de tecerem observações filosóficas sobre o livro referencial sobre o capitalismo, eles preferem atuar numa frente que lembra mais a sátira de David Cronenberg ao sistema financeiro, em Cosmópolis. E, apesar de o filme nunca cair no ridículo, como Queime depois de ler, ele brinca com a espionagem de maneira corrosiva.
Impressiona como os diretores conseguem imprimir, por meio desses personagens às vezes sem uma ligação clara, uma notável agilidade à narrativa, junto com a ideia de que não sabemos quando estamos ou não encenando, ou a partir de que ponto não fazemos parte de uma obra maior. Ao mostrar astros agindo de maneira estranhamente ingênua em seus passos “reais”, há uma outra visão sobre o mundo que está sendo descortinado.
Com mais um trabalho de fotografia belíssimo de Roger Deakins, Ave, César! ainda apresenta uma das melhores reconstituições de época, sob o auxílio de Jess Gonchor, e um figurino belíssimo de Mary Zophres. E, ao contrário de algumas peças recentes dos diretores, principalmente o melancólico Inside Llewyn Davis, Ave, César! se alegra em mostrar peças de humor dentro de seu roteiro. Ele consegue captar, em várias camadas, a atmosfera de um período do melhor modo.

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Como nos demais trabalhos dos irmãos Coen, as atuações têm uma rara qualidade, não apenas de Brolin e Clooney, mas dos coajduvantes, como Johansson e Channing Tatum (praticamente numa participação especial), mas principalmente Alden Ehrenreich e Fiennes, num dueto memorável. Ainda assim, o maior êxito do filme parece ser o de sua montagem – feita pelos próprios diretores –, ao mesmo tempo aberta e cuidadosa, com os personagens entrando e saindo de cena sem cansar o espectador. Os personagens funcionam num plano simbólico, ao contrário daqueles de Inside Llewyn Davis,  e as imagens permitem uma leitura da história do cinema, independente do seu desenvolvimento. Por toda a narrativa se passar em basicamente num dia de filmagens, é possível ver os personagens e a história com a luminosidade da manhã. Tudo isso auxiliado por uma espécie de surrealismo da realidade, principalmente quando George Clooney vestido de César caminha por um corredor enquanto uma senhora usa um aspirador, ou quando o caubói grava uma de suas cenas montando um cavalo. Na verdade, ao contrário do que ele diz em outra produção para divulgar seu nome, nada é simples neste filme que entra facilmente na lista de obras-primas dos diretores.

Hail, Caesar!, EUA, 2016 Diretores: Joel Coen e Ethan Coen Roteiro: Ethan Coen e Joel Coen Elenco:  Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Scarlett Johansson, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Tilda Swinton, Jonah Hill, Christopher Lambert, Frances McDormand Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Eric Fellner, Ethan Coen, Joel Coen, Tim Bevan Duração: 106 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: Mike Zoss Productions / Working Title Films

Cotação 5 estrelas

 

O destino de Júpiter (2015)

Por André Dick

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Se os irmãos Andy e Lana Wachowski têm uma qualidade inegável é que eles sabem produzir, por meio de seus filmes, bastante polêmica. Depois de Matrix, qualquer título deles tem a qualidade de despertar o mesmo ânimo antes da estreia. No entanto, depois, seja com Speed Racer ou Cloud Atlas, embora haja uma variedade de críticas, normalmente são recebidos com certa decepção. Nunca há o mesmo impacto causado por Matrix – e mesmo as continuações dessa referência dos anos 90 foram recebidas com desconfiança. Ainda assim, os filmes considerados falhos dos irmãos são realmente interessantes: o visual e a inspiração nos quadrinhos de Speed Racer são bem trabalhados e Cloud Atlas consegue ser uma ficção científica que arrisca lidar com vários temas em conjunto. E difícil duvidar do talento de uma dupla cuja estreia é Ligadas pelo desejo, uma mistura de suspense e obra noir.
No ano passado, O destino de Júpiter era visto previamente como um fracasso antecipado de bilheterias e teve seu lançamento adiado pela Warner Bros em muitos meses, para uma possível melhora em seu acabamento e um substancial corte na metragem – ou talvez porque fosse confundido com outros filmes mais imediatos da temporada. Ele parece ser um pouco resultado desse limite entre o gênero de ficção científica e as produções de super-heróis.
Sua história já indica isso. Tudo inicia com um homem, Maximilian Jones (James D’Arcy), observando as estrelas e conhecendo a futura esposa Aleksa (Maria Doyle Kennedy) em São Petersburgo. Algum tempo demais, com a mulher já grávida, ele decide que sua filha se chamará Jupiter. Em poucos minutos, já mostra que ela cresceu (agora Mila Kunis) com familiares russos em Chicago e trabalha limpando casas. Com o desejo de comprar um telescópio, ela atende a um pedido do seu primo Vladie (Chute Gurry), enquanto, num momento delicado, surge Caine Wise (Channing Tatum).

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Os Wachowski misturam essa trama – para que as duas se completem – com a de três filhos da Casa de Abrasax, uma dinastia que comanda a Terra, ou seja, Balem (Eddie Redmayne), Kalique (Tuppence Middleton) e Titus (Douglas Booth), que estão atrás de Jupiter. Caine e Jupiter encontrarão Dtinger Apini (Sean Bean) e o capitão Diomika Tsing (Nukking Amuka-Bird) e tudo poderá se transformar numa ópera espacial, mesclado a uma mistura entre história da Roma Antiga (Titus, Balem) e nomes que evocam algum humor (Jupiter Jones ou Caine, para não dizer logo “canine”, uma mistura entre humano e lobo mais parecido com um fauno da mitologia).
Desde o início, O destino de Júpiter não fica a dever para suas principais inspirações: os quadrinhos de ficção científica dos anos 30, os mesmos que envolvem Flash Gordon. E quando se vai ao filme, percebe-se que os Wachowski continuam entre os raros cineastas que ainda querem construir um universo à parte. Mas, ao contrário de seus filmes anteriores, esse visual não marca pela originalidade. Enquanto em Matrix, Speed Racer e Cloud Atlas, havia uma elaboração criativa de cenários, desta vez tudo se sente um pouco emprestado: nos cenários das naves, a Matrix Cloud Atlas; no planeta distante, a Thor e O senhor dos anéis; numa seção de burocracia espacial, a Brazil – O filme; e mesmo a trilha de Michael Giacchino, uma das qualidades para dar ênfase às cenas de ação, têm correspondência direta com a da segunda trilogia de Star Wars. E O destino de Júpiter prova, novamente, a originalidade de algumas ficções dos anos 80 (Flash Gordon, Duna) que, quando lançadas, enfrentaram críticas. São referências que devem se moldar a uma nova criatividade, o que, infelizmente, acontece apenas em parcelas. Isso, em termos dos Wachowski, é uma surpresa. Eles mantêm o cuidado com o acabamento, inclusive com os figurinos e os efeitos especiais espetaculares, no entanto é visível que eles tentaram tornar seu cinema mais acessível, embora continuem interessados em teorias.

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Depois de Cloud Atlas, a sua obra-prima, isso soa como uma tentativa de eles não terem o desejo de ser ligados a temas considerados intimistas. Eles querem tornar as críticas aos seres humanos num plano declaradamente pop, além de forçadas por um determinado discurso contra o consumismo que pode ser revertido ao se constatar que a obra custou em torno de 200 milhões de dólares, com o uso do 3D (prejudicial por tirar as cores originais, o que é essencial no gênero da fantasia) para aumentar as bilheterias. Há traços nisso de autoria, no entanto não é o que eles têm de mais interessante: os Wachowski, de certo modo, menosprezam seu próprio talento ao lançar um filme que tenta fazer do humor sua seriedade. Nesse sentido, por um lado, ele tem um certo descompromisso, mas não o bastante para deixar de se levar a sério. Em alguns momentos, eles enveredam claramente pela sátira, porém há algo na engrenagem que não funciona, e eles recuam. Não é como o caminho adotado pelo Flash Gordon dos anos 80, em que o ator que vivia o herói, Sam Jones, realmente fazia humor com sua inexpressividade e os cenários (realmente originais) complementavam sua presença. Além disso, é difícil acompanhar as linhas escritas pelos Wachowski, tornando a família russa de Jupiter num elemento à parte.
Este é um detalhe que dificulta a ligação do espectador com os personagens: os personagens parecem carregados de uma despretensão e, ao mesmo tempo, de frases expositivas, que lidam com várias teorias ligadas ao surgimento da Terra e, consequentemente, a Jupiter Jones, a abelha-rainha da grande colmeia sideral. Pode-se imaginar quantos momentos realmente temos os personagens tratando das próprias situações pelas quais passam: todos eles estão dominados por discursos, que remetem a vários conceitos extraídos de programas de TV, livros e quadrinhos, mas, principalmente, de Eram os deuses astronautas?. Isso, inegavelmente, poderia trazer uma certa inteligência à base do roteiro, no entanto fica deslocado quando se tenta enveredar por momentos de humor sem o equilíbrio necessário, que acabam destoando do que aparenta ser sério.

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E a questão seria, também, quais as indicações feitas pelos Wachowski a Eddie Redmayne para que ele compusesse o vilão. Com uma participação visivelmente diminuída pela sala de montagem, Redmayne compõe um vilão severo, mas procurando por vida e, certamente prejudicado pelo roteiro, ele se lança na única saída: o overacting mais complicado. Ele se sente como a tragédia personificada da vilania; exagerado ou não, Redmayne parece levar todas as suas falas com uma seriedade assustadora, de fazer tremer as cadeiras do cinema, mesmo que seja com sussurros. É interessante como, diante dele, mesmo Channing Tatum é beneficiado com algumas falas bem-humoradas, como aquela em que faz perguntas ao amigo Dtinger sobre dívidas passadas ou simplesmente por sua falta de expressão chega a despertar algum divertimento. Desse roteiro, o melhor beneficiado é Booth, com ironia de um lorde na medida exata, e, mesmo com pouca participação, Bean também se mostra presente. Entretanto, Mila Kunis parece outra escolha problemática: os Wachowski teriam aqui um papel para Natalie Portman, ainda que certamente lembrasse sua personagem de Thor. Kunis nunca parece de fato estar em seu papel. No entanto, a escolha do elenco talvez não repercutisse em algum resultado.
O que mais se lamenta no filme dos Wachowski é o quanto ele tem um potencial em movimento, com o mesmo montador Alexander Berner e o diretor de fotografia John Toll, de Cloud Atlas, com todas as cenas de ação bem filmadas – uma batalha nos céus de Chicago parece ser a melhor – e, ainda assim, se ressente de um traço emocional para que possa fazer uma diferença. A sensação é que o filme entretém, mas é difícil encontrar nele algo a mais além das imagens. O cinema dos Wachowski ser genuíno e sincero dentro de suas possibilidades mostradas em Cloud Atlas não parece lhes dar o direito de negarem o próprio talento: eles tinham tudo, aqui, para colocar em ação uma homenagem decisiva ao cinema de ficção científica. Embora possa ser visto daqui a alguns anos como um cult, ou mesmo melhorar numa versão mais longa, O destino de Júpiter se sente como uma obra que continua visivelmente inacabada.

Jupiter ascending, EUA, 2015 Diretores: Andy Wachowski e Lana Wachowski Elenco: Mila Kunis, Channing Tatum, Eddie Redmayne, Douglas Booth, Sean Bean, Tuppence Middleton, Doona Bae Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Andy Wachowski, Lana Wachowski Duração: 127 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 2 estrelas e meia

 

Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo (2014)

Por André Dick

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Depois de sua estreia no Festival de Cannes de 2014, Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo tem feito uma trajetória à altura do que se esperava para uma obra de Bennett Miller, o mesmo de Capote e O homem que mudou o jogo, filmes com atuações memoráveis de Philip Seymour Hoffman (que lhe rendeu o Oscar) e Brad Pitt e Jonah Hill, respectivamente. Miller sempre esteve preocupado com o discurso referente aos Estados Unidos – e foi assim que construiu seu início de trajetória e foi premiado como melhor diretor em Cannes. Mas Foxcatcher traz uma história, embora sobre esportes, como O homem que mudou o jogo, muito diferente: há algo nele que tenta se estabelecer para longe do discurso que adota em sua narrativa.
Baseado em fatos reais, já no início vemos os dois personagens vitais para a narrativa, os irmãos Mark (Channing Tatum) e Dave Schultz (Mark Ruffalo), treinando luta greco-romana. Mark  vive solitário, enquanto David tem mulher, Nancy (Sienna Miller) e filhos. Depois de ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1984, Mark ainda vai a colégios tentar incentivar crianças a adotarem o esporte. Certo dia, o milionário John Du Pont (Steve Carell) o procura. Ele pretende treiná-lo para que possa competir nas Olimpíadas de Seul em 1988, e Mark precisa ir morar na sua mansão, chamada Foxcatcher e afastada de tudo. Du Pont é um indivíduo que vai se mostrando cada vez mais estranho – sempre em busca de um domínio sobre os esportistas que treina, no grupo que denomina também Foxcatcher, e por meio dos quais não quer descontentar sua mãe Jean (Vanessa Redgrave). No entanto, ele não consegue obter a participação de Dave, com quem Mark consegue treinar no seu máximo. Esta é uma história aparentemente excepcional e chama a atenção como Miller no início obtém uma transformação dos atores, principalmente Tatum, que sempre pareceu um ator intruso, e tem aqui, na primeira hora, seu melhor momento no cinema.

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Depois dessa primeira hora interessante, Foxcatcher passa a criticar o patriotismo americano muitas vezes de maneira deslocada, como se quisesse adotar um tom de autoimportância – mas filmes não são bons porque são patrióticos ou antipatrióticos, e o de Miller atesta isso. Se no início Du Pont representa a chance do “sonho americano” ser concretizado, aos poucos a sua mansão vai adquirindo uma ambientação mais fúnebre, com o cenário sempre cinza, o céu encoberto, como se os personagens estivessem num universo à parte, em que não pudessem nunca se sentir felizes, e a relação de Du Pont e Mark vai se intensificando com um comportamento misterioso e não solucionado por Miller em nenhum momento. De todos os motivos, o principal no fundo é o seguinte: Du Pont poderia ser feliz, mas não é, porque carrega os males da América, a ganância, o desejo de superar qualquer outro. E carrega a tradição de sua família, o peso de sua vida. Há uma crítica a este “sonho americano” sobretudo porque Du Pont não é exatamente o que mostra ser, repetindo isso várias vezes em seu helicóptero para que o espectador não esqueça. De qualquer modo, o filme está sempre em busca da quebra de ritmo dos personagens, e a passagem dos anos nunca fica muito clara, fazendo com que não seja bem calculada por Miller, pelo menos para o êxito da trama. Para isso, Miller se apoia no trabalho de fotografia de Greig Fraser, que fotografa o filme com os mesmos tons que adotou para o bosque de Branca de Neve e o caçador, desta vez como se estivessem infiltrados numa espécie de pesadelo e não de fábula.
Os personagens de Foxcatcher em nenhum momento esboçam uma tranquilidade ou um alívio; não raramente, servem como símbolos do que o diretor pretende dizer, e isso vem acontecendo muito desde O homem da máfia, também com Pitt: a sociedade norte-americana não pode mais ser salva, e é isso que Foxcatcher tenta reafirmar a cada instante. Se há uma espécie de glorificação do esporte nos Estados Unidos, Miller alerta para o fato de que ele pode esconder apenas seres tristes e autoconcentrados. As lutas, mesmo nas Olimpíadas, parecem não representar o esporte, sendo apenas uma antecipação para um cortejo fúnebre. O sentimento em relação ao filme pesa como chumbo, com o objetivo de fazer o espectador se sentir claustrofóbico em meio a todas as situações mostradas, sem nunca conseguir se aproximar de suas figuras. Enquanto criticam Angelina Jolie pela direção “conservadora” de Invencível, Miller ganhou em Cannes e foi indicado ao Oscar por um estilo que tenta emular o de cineastas europeus e produções da Nova Hollywood dos anos 70, porém naquela época era sinal de termos Michael Cimino, um criador de atmosferas poucas vezes visto.

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Depois de um início bastante promissor, mesmo surpreendente, Steve Carell, ao longo do filme, tenta equilibrar a prótese em seu nariz colocando sua cabeça para trás em poltronas, sofás e cadeiras, indo nisso boa parte da energia para compreender seu personagem. Aos poucos, é possível perceber que não há um minuto de espontaneidade na sua interpretação, baseada de modo fundamental no Don Corleone de O poderoso chefão, sobretudo pelos gestos mínimos e pela maneira de olhar as pessoas sem necessariamente falar, como se estivesse ameaçando. O espectador muitas vezes se sente intimidado e fica surpreso de ver o mesmo ator de O virgem de 40 anos e Amor a toda prova com um ar tão grave e comedido – a pergunta é onde estaria esse ator antes e a resposta certamente seria: em algum lugar onde não estivesse pensando em ser indicado ao Oscar. Carell é um excelente ator, mesmo com elementos dramáticos, como já mostrou em Pequena miss Sunshine, Um divã para dois e Procura-se um amigo para o fim do mundo, mas o excesso de destaque dado a ele também prejudica o filme, pois é difícil ver qualquer naturalidade em seu comportamento: o ator é mecânico em suas variações e sentimentos em relação aos demais personagens, tentando evidenciar que está representando uma persona e de como ela seria difícil de ser reproduzida. Tatum e Ruffalo poderiam oferecer essa tonalidade mais humana (ambos estão muito bem), no entanto Miller os emprega de maneira equivocada no terceiro ato, longo e monocórdio, como se tudo estivesse antecipando o clímax moral a ser atingido pelo diretor. Em vez de analisar também a relação entre os irmãos, a parcela certamente mais sensível do filme, Miller quer apenas destacar sua crítica ao sistema.
Foxcatcher, nesse sentido, é melancólico como a atuação propositadamente grave de Carell: não há nada no filme que busque compreender esses personagens, pois Miller está interessado exclusivamente nessa crítica ao establishment norte-americano. No entanto, ele, ao mesmo tempo, duvida da inteligência do espectador, colocando constantemente símbolos dos Estados Unidos: bandeiras, águias etc. para onde quer que sua câmera aponte. Esta crítica adquire, aos poucos, um tom de impropriedade, e mina toda a estrutura do roteiro, que já carece de entendimento e desenvolvimento.
Os personagens estão à deriva porque Miller, na verdade, como um diretor de dentro da indústria, não quer se comprometer: ele deixa o terceiro ato todo de Foxcatcher transcorrer em silêncio e comportamentos ambíguos porque não quer assumir de fato o seu discurso. Ele parece ter certo receio de chocar o espectador com alguma revelação que possa abalar o público a que se destina – predominantemente norte-americano – e esconde seus personagens por trás de silêncios que, ao contrário do que vemos nos filmes que inspiram Miller, os europeus, não dizem substancialmente algo de importante. O que mais Foxcatcher consegue ser é uma infalível isca para o Oscar: ele teve cinco nominações (melhor direção, ator, ator coadjuvante, roteiro original, maquiagem e cabelo), mas não a principal, de melhor filme. Talvez Foxcatcher se sinta excluído por pensar dizer alguma verdade incômoda sobre a sociedade dos Estados Unidos; mais provável é que se trata de um filme infelizmente pouco marcante. É Miller quem ao final gostaria de estar gritando: “USA! USA!”. Afastado de tudo e de todos, Du Pont tem as mesmas características deste cinema, que se afasta do espectador para tentar ser diferente, mas carrega consigo todos os clichês imaginados. E quer soar poderoso, mesmo que não seja mais do que parte do mundo, nem mais nem menos.

Foxcatcher, EUA, 2014 Diretor: Bennett Miller Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Vanessa Redgrave, Sienna Miller, Anthony Michael Hall Roteiro: Dan Futterman, E. Max Frye Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Mychael Danna, Rob Simonsen Produção: Anthony Bregman, Bennett Miller, Jon Kilik, Megan Ellison Duração: 130 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures / Likely Story / Media Rights Capital

Cotação 2 estrelas e meia

 

Terapia de risco (2013)

Por André Dick

Terapia de risco.Filme

Há alguns anos, o diretor Steven Soderbergh vem comentando sobre o interesse em se aposentar, apesar de ser um dos cineastas mais produtivos de Hollywood. Desde 2011, ele realizou, entre outros, A toda prova, Contágio, Magic Mike, Behind the Candelabra (exibido no último Festival de Cannes) e este Terapia de risco. Conhecido por sua multiplicidade, capaz de fazer filmes esteticamente diferentes, como Traffic, e ganhar no mesmo ano o Oscar de melhor diretor pelo linear Erin Brockovich, passando por aqueles destinados aos multiplex, como a série Onze homens e um segredo, até os dois filmes sobre Che Guevara, Soderbergh talvez seja o que mais pretende: uma incógnita. Não é exatamente Terapia de risco que vai ajudar a esclarecer sua trajetória, iniciada com uma Palma de Ouro em Cannes por sexo, mentiras e videotape. O que se destaca é como ele, aqui, traz elementos que o assemelham a David Fincher. Com os filtros amarelados, as lâmpadas fosforescentes, abajures bem situados e o céu sempre ameaçando com temporais, e ainda com Rooney Mara no elenco (ela fez Millennium), Terapia de risco parece um suspense que parte de Hitchcock, mas com a maneira de filmar de Fincher.
Mara interpreta Emily Taylor, que recebe o marido, Martin (Channing Tatum, com a disponibilidade de atuação de quem está em visita às filmagens), depois de anos na cadeia, de volta à sua casa. Ela parece apresentar, no entanto, um quadro depressivo. Depois de tentar o suicídio, é atendida por um psiquiatra, Jonathan Banks (Jude Law), que, interessado no seu histórico, resolve tratar seu caso com atenção, receitando alguns remédios e indo consultar sua psiquiatra anterior, Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones). No início, eles parecem ajudá-la, inclusive a retomar seu relacionamento com o marido, até o dia em que, sem nenhuma explicação, acontece uma reviravolta. Imagina-se que o comportamento de Emily seja explicado pelo remédio recomendado para tratamento, o fatídico Ablixa, capaz de, ao mesmo tempo, despertar a sexualidade e causar sonambulismo. Banks começa a se ver prejudicado tanto no trabalho quanto com sua família, com a mulher, Deirdre (Vinessa Shaw), e um filho. Depois de um início trepidante e indefinido, Soderbergh vai apresentando os personagens e seus conflitos, a sua busca pela melhora através do tratamento, mas a questão é saber até que ponto tudo segue realmente a ordem que se imagina. Soderbergh, nesse ponto, estaria fazendo uma crítica à indústria farmacêutica ou às pessoas que dela se utilizam? Terapia de risco acaba sendo uma concentração interessante, em doses controladas, de um thriller que vai tomando forma, ficando grande, interessante, até optar em ter vários direcionamentos.

Terapia de risco

O elenco é apto para isso. Jude Law parece ter saído diretamente de Closer e, embora não apresente a mesma interpretação de Anna Karenina, uma surpresa em sua trajetória, consegue desenvolver bem seu psiquiatra. O mesmo se diz para as coadjuvantes Catherine Zeta-Jones (que trabalhou com Soderbergh em Traffic e na série Onze homens e um segredo) e Vinessa Shaw. Rooney Mara, no entanto, não consegue repetir sua atuação excelente de Millennium, e parece pouco encaixada no papel, também porque o roteiro dá alguns saltos de comportamento e extrai o clímax de cada cena a partir da parte final. Isso tira um pouco a consistência de algumas passagens de Terapia de risco. No entanto, trata-se de uma atriz que tem presença de cena. Desde sua participação inicial em A rede social, ela certamente é uma persona excêntrica, talvez à espera de um roteiro que, como o de Millennium, possa extrair o seu potencial.
O que mais se destaca em Terapia de risco (daqui em diante, possíveis spoilers) é sua aproximação com outros filmes do gênero, que retrata a relação entre psiquiatra e paciente. Já vimos o mesmo em Instinto selvagem e Desejos, dos anos 90, que acabaram, de alguma maneira, expandindo suas referências para o gênero no universo contemporâneo. Soderbergh abraça os caminhos do gênero, e, ao deixar os personagens, em determinados momentos, flutuando, torna sua finalidade menos oportuna. Em termos de atmosfera, de qualquer modo, também pela influência visível de Fincher, há uma espécie de atração, de clima indefinido entre os personagens, como o em que vemos em alguns filmes de Soderbergh, principalmente os despretensiosos, como Irresistível paixão (com George Clooney e Jennifer Lopez) e O desinformante (com Matt Damon). O diretor consegue atrair o espectador para sua narrativa sobretudo no meio do filme, em seu núcleo, quando o comportamento dos personagens mantém sempre um mistério incômodo, assim como a trama policial que se estabelece.

Terapia de risco.Filme 2

Ao mesmo tempo em que essa trama se estabelece, de qualquer modo, Soderbergh vai se desinteressando pela questão da crítica à indústria farmacêutica, tornando os remédios mais como uma espécie de motivação para a ameaça e mesmo para desvendar uma verdade, e criando comportamentos que se justificam apenas para o espectador – nesse sentido, os personagens agem como se representassem para a plateia, e não conforme tenderiam a agir, dentro do filme (como a cena em que Emily, numa festa, se observa no espelho). Todos os personagens, de certo modo, estão inseridos nessa utilização do medicamento, com a finalidade certa ou errada. O diretor considera que a parte interessante do seu thriller são as reviravoltas a partir do uso dele, deixando de lado a discussão sobre a ética e o comportamento de quem lida com a medicina e com o equilíbrio orgânico de seus pacientes. Não que esse fosse o caminho mais adequado, mas, diante da maneira como o filme se apresenta em sua metade final, possivelmente teria uma abrangência mais interessante. Nesse sentido, alguns personagens, como o de Victoria Siebert, não chegam a ser desenvolvidos de maneira a provocar uma tensão maior e ressente-se, nesse sentido, justamente de uma metragem maior, tão importante para Fincher. Para que se crie uma história de suspense, e haja descobertas pouco a pouco, é preciso de tempo para que se analise o que viu. Os efeitos colaterais são sentidos, e a parte final nega o que Soderbergh constrói com competência nas duas primeiras partes. Não torna Terapia de risco dispensável, mas menos interessante do que poderia.

Side effects, EUA, 2013 Direção: Steven Soderbergh Elenco: Jude Law, Rooney Mara, Catherine Zeta-Jones, Channing Tatum, Vinessa Shaw, Polly Draper, David Costabile Roteiro: Scott Z. Burns Produção: Gregory Jacobs, Lorenzo di Bonaventura, Scott Z. Burns Fotografia: Peter Andrews Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 114 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Di Bonaventura Pictures / Endgame Entertainment

Cotação 3 estrelas