Trama fantasma (2017)

Por André Dick

Depois da distância relativamente grande entre os lançamentos de Sangue negro e O mestre, Paul Thomas Anderson voltou a filmar em seguida uma grande adaptação do livro Vício inerente, de Thomas Pynchon. Mostrando uma multiplicidade em seu estilo e deixando para trás a fase, digamos, mais popular, de Boogie Nights e Magnólia, com tramas muito mais lentas e se baseando mais na composição de poucos personagens, e não em panoramas de época ou dinastias de família, Anderson volta a um estilo mais clássico (de O mestre) em Trama fantasma.
A narrativa se passa em Londres, nos anos 50, focando no designer de moda muito respeitado pela alta sociedade Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis). Ele tem a colaboração da irmã Cyril (Lesley Manville), para coordenar seu estúdio, exatamente no lugar onde vive. Ele também possui recordações constantes da mãe. Indo para sua casa de campo, na Baía de Robin Hood, encontra, no restaurante do Victoria Hotel, trabalhando como garçonete, a jovem Alma (Vicky Krieps), por quem imediatamente se interessa. Ela passa a servir de modelo para seus vestidos e vai morar com Reynolds em Londres. Embora ela seja sensível, o designer não se mostra muito aberto a compartilhar sentimentos, além de uma frieza diária que desperta em Alma uma vontade de se afastar. Tudo parece indicar que Alma terá o destino da amada anterior de Reynolds, Johanna (Camilla Rutherford), que ele descarta logo no início.

Anderson, além de dirigir, realizou o roteiro e a fotografia, belíssima, de Trama fantasma. Com auxílio novamente da excepcional trilha sonora de Jonny Greenwood (integrante do Radiohead), ele elabora um retrato dinâmico da sociedade londrina dos anos 50 por meio de Reynolds e, como o guru de O mestre, usa o estilista para tratar de sentimentos em relação sobretudo ao mundo feminino. Trama fantasma é um retrato sobre alguém apegado à saudade pela mãe e que não consegue se afastar do mundo criativo da moda – ao qual a mãe também se dedicava – para ele próprio constituir uma família. Alma representa justamente essa lacuna e descobre a essência do personagem, manipulador e voltado apenas a si mesmo, para que possa dividir uma relação em que ele não esteja no domínio o tempo todo. A “trama fantasma” a que se refere o título está em mensagens escondidas nos vestidos que Reynolds costura, mas também à presença da mãe na casa onde vive.

É de se duvidar que exista um cineasta que trabalhe melhor a conjunção de uma narrativa e recriação de época, por meio do figurino de Mark Bridges e design de produção de Mark Tildesley, ou que consiga extrair uma atuação irretocável como a que Anderson extrai de Day-Lewis, talvez no papel definitivo de sua carreira, porém completo apenas por causa de Vicky Krieps. Esta, além de uma revelação, tem uma atuação fora de série, jogando com as qualidades opostas do personagem de Day-Lewis, mas de certo modo sendo reflexo dele.
No entanto, acreditar que o filme utiliza o visual e a atuação do elenco para esconder que não teria o que dizer é o risco do imponderável quando uma obra está aberta a avaliações. Anderson, por meio das atuações, sabe, como em O mestre, em jogar com um humor imprevisível: Reynolds e Alma entediados na festa de casamento de Barbara Rose (Harriet Sansom Harris), ou o olhar que ele lança quando ela volta a fazer barulho passando manteiga no pão são de uma plena humanidade intempestiva. Do mesmo modo, o comportamento de Alma ao notar que a grande obra do amado pode estar sendo desrespeitada, que lembra o comportamento de Freddie Quell (Joaquin Phoenix) em O mestre, ou quando em determinado momento surge o doutor Robert Hardy (Brian Gleeson).

Em Trama fantasma, nunca vemos ninguém exatamente despido. Anderson também não evoca carícias entre o casal. Tudo é deixado como sugestão, contudo também porque o corpo é inalcançável: a roupa deve cobrir o corpo, assim como os sentimentos inconfessáveis. Em um momento discreto, ele tira o batom dos lábios de Alma para que finalmente possa vê-la – mas ele não deseja realmente isso, pois seria não ver apenas a si próprio. Se havia uma profusão de diálogos em Vício inerente, Anderson se concentra aqui em diálogos mínimos, pausados, e alguns inesperadamente engraçados (sobretudo quando Reynolds se sente perturbado por alguma conversa ao café da manhã). E ele aprimora momentos sutis, como aquele em que o designer está numa situação delicada e um vestido sendo refeito representa ele mesmo se refazendo.
Assim como em toda sua trajetória, Paul Thomas Anderson tem uma atração pela simetria, entretanto, se em filmes agora longínquos, como Embriagado de amor, ele apostava em travellings, aqui ele mostra Reynolds dirigindo pelas estradas do interior com uma velocidade nervosa, moderna, oposta ao seu classicismo diante dos figurinos que desenha e confecciona.

Para Anderson, este personagem, como praticamente todos de sua obra, está à margem mesmo tentando se inserir no sistema. Ele é requisitado pela alta sociedade, mas tem aversão constante a cumprir seus requisitos habituais. A sua ideia de família com a irmã, cuja imagem substitui seu pai (em uma conversa, ela o enfrenta com empenho) e tem em Manville um desempenho irretocável, é apenas para justificar seu negócio e sua arte, no entanto algo sempre está ausente. Anderson lida com o tema do amor de forma complementar à mágica ilusória de Embriagado de amor e da época dos hippies de Vício inerente: Reynolds e Alma precisam, ao que tudo indica, um do outro, porque justamente a alegria de um não é a do outro. Só parece, pois se complementam. A alimentação remete ao instinto básico, como também à infância e à vontade de ser cuidado. Na tentativa de alcançar uma harmonia, Anderson vê o ser humano predisposto a tudo, inclusive a voltar novamente no tempo e querer uma acolhida para, por um tempo, poder se esquecer de si mesmo, tendo finalmente se encontrado. Para Anderson, afinal, a proximidade triste da morte do personagem central também pode ser a alegria da proximidade materna.

Phantom thread, EUA, 2017 Diretor: Paul Thomas Anderson Elenco: Daniel Day-Lewis, Lesley Manville, Vicky Krieps, Camilla Rutherford, Harriet Sansom Harris, Gina McKee, Brian Gleeson Roteiro: Paul Thomas Anderson Fotografia: Paul Thomas Anderson (não creditado) Trilha Sonora: Jonny Greenwood Produção: Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, JoAnne Sellar, Daniel Lupi Duração: 130 min. Estúdio: Annapurna Pictures, Ghoulardi Film Company, Perfect World Pictures Distribuidora: Focus Features, Universal Pictures

Viagem a Darjeeling (2007)

Por André Dick

Viagem a Darjeeling 4

Resultado de uma viagem de Wes Anderson com Roman Coppola e Jason Schwartzman à Índia, Viagem a Darjeeling tem, desse modo, uma referência cultural amplamente discutida principalmente desde os anos 60 dos Beatles. A atmosfera psicodélica dessa década também não deixa de se reproduzir na profusão de cores despertada por esse país, à procura não de um choque entre culturas, mas uma procura pela convivência harmoniosa entre elas, assim como as mercadorias a serem carregadas na cabine de um trem e um exemplo para a tentativa de buscar um conforto espiritual. Não por acaso, o roteiro produziu a história de relacionamento entre três irmãos da família Whitman (nome simbólico): Jack (o próprio Schwartzman), Peter (Adrien Brody) e Francis (Owen Wilson). E, se apenas Brody não fazia parte do elenco natural de Anderson (até regressar no recente O grande Hotel Budapeste), não significa que ele também não seja um reflexo de outros personagens de filmes do diretor. Seu Peter é o homem que tenta buscar equilíbrio entre os exageros dos irmãos, embora também não se mostre exatamente alguém a ser seguido; na filmografia de Anderson, ele parece o tenista de Os excêntricos Tenenbaums e o filho indefinido de Steve Zissou.
Talvez o ator predileto de Anderson (sem diminuir a participação de outros), Bill Murray interpreta um homem correndo numa estação de trem, e logo vemos Peter se colocando à sua frente. Este e seus irmãos empreendem uma viagem à Índia para tentarem encontrar a mãe (Anjelica Huston), depois da morte do pai, e o objetivo também é se reconciliarem de maneira com que possam ser vistos como uma família. Viagem a Darjeeling tem como objetivo situar esses irmãos num momento-chave de suas vidas e, se pelas cores cada vez mais vivas, parece cartunesco, quase uma prévia clara de O fantástico Sr. Raposo, surge em igual intensidade o seu trabalho afetivo entre os personagens.

Viagem a Darjeeling 7

Viagem a Darjeeling 5

Viagem a Darjeeling 8

Enquanto Jack é o mais volúvel, tendo sido deixado pela namorada (Natalie Portman, mais destacada no curta Hotel Chevalier, que acompanha o filme), após esta lhe recomendar um caminho de espiritualidade, Peter tenta relembrar seu pai a todo momento, dizendo-se o filho favorito, e Francis fica enciumado porque ele usa o barbeador do pai: “Isso é uma herança dele; não privilégio seu”. É dele a ideia da viagem, depois de um acidente de moto, que o obriga a passar todo o filme com a cabeça quase totalmente coberta por faixas por causa dos ferimentos.
Depois de seu questionamento, há muitas coisas a acontecer em Viagem a Darjeeling, inclusive às voltas com uma atendente, Rita (Amara Kahn), e um comissário (Waris Ahulwalia), mas nenhuma delas tão importante quanto a tentativa de manter a memória familiar como uma paisagem a ser visitada quando se deseja, nos momentos mais tranquilos ou incômodos. O trem, nesse sentido, passa a ser um símbolo desse encontro: com cabines apertadas e corredores abertos à passagem da câmera de Anderson, mas dialogando com a imensidão da paisagem externa, esses corredores acabam mostrando que os personagens, seja para onde tentarem ir, não poderão escapar uns dos outros, e o encontro acaba sendo mais do que necessário: é uma imposição, precisa existir.
Após o criticado A vida marinha com Steve Zissou, Wes Anderson passou alguns anos elaborando esta obra que busca na humanidade o principal diálogo. Cada movimento de câmera, as cores evocando a Índia, com influência do cineasta Satyajit Ray, ou de filmes, como Passagem para a Índia, a tentativa de atingir uma espiritualidade, o enfrentamento da morte e o desapego são temas espalhados ao longo da obra de Anderson, mas não de forma tão intensa e despreocupada quanto em Viagem a Darjeeling.

Viagem a Darjeeling 10

Viagem a Darjeeling 14

Viagem a Darjeeling 15

A sua habitual técnica para compor cenários, com a ajuda do fotógrafo Robert D. Yeoman, a partir de locais corriqueiros, lidando com uma paleta de cores desencavada de algum livro infantil, só consegue dialogar com a tristeza dos personagens centrais quando se deparam com um momento delicado e com o pai de um menino que tentam ajudar (Irfan Khan), perdidos no meio de um lugar desconhecido. É exatamente em dado momento, quando se recupera os momentos que antecederam o enterro do pai um ano antes, que Viagem a Darjeeling se torna mais próximo de uma humanidade procurada em cada gesto. Veja-se, por exemplo, quando os irmãos estão num ônibus e são convidados a participar de uma determinada situação que tanto os coloca numa situação de mudança como faz o filme emergir de um certo ritmo aparentemente mais descompromissado para se fixar nas razões existenciais de cada um deles.
Aqui, mais do que em outros filmes seus, Anderson está preocupado em estabelecer um vínculo existencial desses personagens com o seu passado: há algo nesse passado que os afasta, mas é preciso reconhecer que sem ele não existiriam como indivíduos. Anderson aborda com tanta sutileza este tema que é interessante ver como há um crescimento em seu olhar, depois de temas tratados aqui terem sido elaborados também, com outras características, nos primeiros filmes. Em Viagem a Darjeeling, existe uma elaboração mais madura, em conjunto com a trilha sonora dos Kinks e a câmera lenta agradável. Sempre quando se coloca nos cenários que servem de passagem à sua narrativa, Anderson procura a ambientação buscada pelos irmãos.

Viagem a Darjeeling 6

Viagem a Darjeeling 11

Viagem a Darjeeling 16

Ao contrário da profusão psicodélica, os enquadramentos de Yeoman são voltados a uma espécie de concentração do diretor em reproduzir nesta paisagem da Índia traços de uma determinada escola de cinema francesa, e o tom amarelo desencadeia cada cenário, o que pode ser destacado já em Hotel Chevalier, com os roupões utilizados por Jack e a presença de Natalie Portman. No entanto, essa aparente tranquilidade dos cenários pode sempre ser interrompida por algum acontecimento inusitado e a concentração dos Whitman em buscar sua espiritualidade nunca esquece, por outro lado, o quanto ela depende dos seres humanos que estão à volta ou foram deixados, sem intenção, para trás. E isso justamente leva a que um dos irmãos pergunte aos demais se eles, caso não fossem irmãos, seriam pelo menos amigos.
O ambiente familiar – ou a ausência dele, como para o jovem de Rushmore – é uma característica que liga todos os filmes de Anderson, mas sobretudo Os excêntricos Tenenbaums, A vida marinha com Steve Zissou e Moonrise Kingdom. Os irmãos Whitman estão viajando de trem quando precisam finalmente enfrentar uma noite no deserto, e temos uma espécie de animação humana, antecipando o Sr. Raposo, no momento em que se risca a luminosidade da fogueira em meio à escuridão. Ao acordarem, caminham com as malas do pai, em busca finalmente de um certo conhecimento sobre o lugar em que se encontram, mas ainda assim não conseguem se recuperar, pois seus pais não estão presentes. Anderson separa alguns símbolos, como os ferimentos de Jack e as malas do pai como elementos de uma jornada interior para que se descubra realmente os objetivos de cada um – o grandioso no microscópico: não se necessita de uma paisagem ou de um tigre indiano; para eles, talvez a vida exemplar esteja numa tigela de cereais. Nisso, mais do que os outros filmes de Anderson, Viagem a Darjeeling lida com a ausência simbolizada pela morte, assim como o enfrentamento real dela, na figura do outro, aqui simbolizada tanto pelo cenário quanto pela busca de uma mãe já inalcançável, mas ainda próxima e disposta a fazer dos poucos momentos que restam um sinal de cumplicidade.

The Darjeeling limited, EUA, 2007 Diretor: Wes Anderson Elenco: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Amara Karan, Camilla Rutherford, Irfan Khan, Bill Murray, Anjelica Huston Roteiro: Jason Schwartzman, Roman Coppola, Wes Anderson Fotografia: Robert D. Yeoman Produção: Lydia Dean Pilcher, Roman Coppola, Scott Rudin, Wes Anderson Duração: 91 min. Distribuidora: Fox Home Entertainment Estúdio: Scott Rudin Productions

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

Viagem a Darjeeling (2007)

Por André Dick

Viagem a Darjeeling 4

Resultado de uma viagem de Wes Anderson com Roman Coppola e Jason Schwartzman à Índia, Viagem a Darjeeling tem, desse modo, uma referência cultural amplamente discutida principalmente desde os anos 60 dos Beatles. A atmosfera psicodélica dessa década também não deixa de se reproduzir na profusão de cores despertada por esse país, à procura não de um choque entre culturas, mas uma procura pela convivência harmoniosa entre elas, assim como as mercadorias a serem carregadas na cabine de um trem e um exemplo para a tentativa de buscar um conforto espiritual. Não por acaso, o roteiro produziu a história de relacionamento entre três irmãos da família Whitman (nome simbólico): Jack (o próprio Schwartzman), Peter (Adrien Brody) e Francis (Owen Wilson). E, se apenas Brody não fazia parte do elenco natural de Anderson (até regressar no recente O grande Hotel Budapeste), não significa que ele também não seja um reflexo de outros personagens de filmes do diretor. Seu Peter é o homem que tenta buscar equilíbrio entre os exageros dos irmãos, embora também não se mostre exatamente alguém a ser seguido; na filmografia de Anderson, ele parece o tenista de Os excêntricos Tenenbaums e o filho indefinido de Steve Zissou.
Talvez o ator predileto de Anderson (sem diminuir a participação de outros), Bill Murray interpreta um homem correndo numa estação de trem, e logo vemos Peter se colocando à sua frente. Este e seus irmãos empreendem uma viagem à Índia para tentarem encontrar a mãe (Anjelica Huston), depois da morte do pai, e o objetivo também é se reconciliarem de maneira com que possam ser vistos como uma família. Viagem a Darjeeling tem como objetivo situar esses irmãos num momento-chave de suas vidas e, se pelas cores cada vez mais vivas, parece cartunesco, quase uma prévia clara de O fantástico Sr. Raposo, surge em igual intensidade o seu trabalho afetivo entre os personagens.

Viagem a Darjeeling 7

Viagem a Darjeeling 5

Viagem a Darjeeling 8

Enquanto Jack é o mais volúvel, tendo sido deixado pela namorada (Natalie Portman, mais destacada no curta Hotel Chevalier, que acompanha o filme), após esta lhe recomendar um caminho de espiritualidade, Peter tenta relembrar seu pai a todo momento, dizendo-se o filho favorito, e Francis fica enciumado porque ele usa o barbeador do pai: “Isso é uma herança dele; não privilégio seu”. É dele a ideia da viagem, depois de um acidente de moto, que o obriga a passar todo o filme com a cabeça quase totalmente coberta por faixas por causa dos ferimentos.
Depois de seu questionamento, há muitas coisas a acontecer em Viagem a Darjeeling, inclusive às voltas com uma atendente, Rita (Amara Kahn), e um comissário (Waris Ahulwalia), mas nenhuma delas tão importante quanto a tentativa de manter a memória familiar como uma paisagem a ser visitada quando se deseja, nos momentos mais tranquilos ou incômodos. O trem, nesse sentido, passa a ser um símbolo desse encontro: com cabines apertadas e corredores abertos à passagem da câmera de Anderson, mas dialogando com a imensidão da paisagem externa, esses corredores acabam mostrando que os personagens, seja para onde tentarem ir, não poderão escapar uns dos outros, e o encontro acaba sendo mais do que necessário: é uma imposição, precisa existir.
Após o criticado A vida marinha com Steve Zissou, Wes Anderson passou alguns anos elaborando esta obra que busca na humanidade o principal diálogo. Cada movimento de câmera, as cores evocando a Índia, com influência do cineasta Satyajit Ray, ou de filmes, como Passagem para a Índia, a tentativa de atingir uma espiritualidade, o enfrentamento da morte e o desapego são temas espalhados ao longo da obra de Anderson, mas não de forma tão intensa e despreocupada quanto em Viagem a Darjeeling.

Viagem a Darjeeling 10

Viagem a Darjeeling 14

Viagem a Darjeeling 15

A sua habitual técnica para compor cenários, com a ajuda do fotógrafo Robert D. Yeoman, a partir de locais corriqueiros, lidando com uma paleta de cores desencavada de algum livro infantil, só consegue dialogar com a tristeza dos personagens centrais quando se deparam com um momento delicado e com o pai de um menino que tentam ajudar (Irfan Khan), perdidos no meio de um lugar desconhecido. É exatamente em dado momento, quando se recupera os momentos que antecederam o enterro do pai um ano antes, que Viagem a Darjeeling se torna mais próximo de uma humanidade procurada em cada gesto. Veja-se, por exemplo, quando os irmãos estão num ônibus e são convidados a participar de uma determinada situação que tanto os coloca numa situação de mudança como faz o filme emergir de um certo ritmo aparentemente mais descompromissado para se fixar nas razões existenciais de cada um deles.
Aqui, mais do que em outros filmes seus, Anderson está preocupado em estabelecer um vínculo existencial desses personagens com o seu passado: há algo nesse passado que os afasta, mas é preciso reconhecer que sem ele não existiriam como indivíduos. Anderson aborda com tanta sutileza este tema que é interessante ver como há um crescimento em seu olhar, depois de temas tratados aqui terem sido elaborados também, com outras características, nos primeiros filmes. Em Viagem a Darjeeling, existe uma elaboração mais madura, em conjunto com a trilha sonora dos Kinks e a câmera lenta agradável. Sempre quando se coloca nos cenários que servem de passagem à sua narrativa, Anderson procura a ambientação buscada pelos irmãos.

Viagem a Darjeeling 6

Viagem a Darjeeling 11

Viagem a Darjeeling 16

Ao contrário da profusão psicodélica, os enquadramentos de Yeoman são voltados a uma espécie de concentração do diretor em reproduzir nesta paisagem da Índia traços de uma determinada escola de cinema francesa, e o tom amarelo desencadeia cada cenário, o que pode ser destacado já em Hotel Chevalier, com os roupões utilizados por Jack e a presença de Natalie Portman. No entanto, essa aparente tranquilidade dos cenários pode sempre ser interrompida por algum acontecimento inusitado e a concentração dos Whitman em buscar sua espiritualidade nunca esquece, por outro lado, o quanto ela depende dos seres humanos que estão à volta ou foram deixados, sem intenção, para trás. E isso justamente leva a que um dos irmãos pergunte aos demais se eles, caso não fossem irmãos, seriam pelo menos amigos.
O ambiente familiar – ou a ausência dele, como para o jovem de Rushmore – é uma característica que liga todos os filmes de Anderson, mas sobretudo Os excêntricos Tenenbaums, A vida marinha com Steve Zissou e Moonrise Kingdom. Os irmãos Whitman estão viajando de trem quando precisam finalmente enfrentar uma noite no deserto, e temos uma espécie de animação humana, antecipando o Sr. Raposo, no momento em que se risca a luminosidade da fogueira em meio à escuridão. Ao acordarem, caminham com as malas do pai, em busca finalmente de um certo conhecimento sobre o lugar em que se encontram, mas ainda assim não conseguem se recuperar, pois seus pais não estão presentes. Anderson separa alguns símbolos, como os ferimentos de Jack e as malas do pai como elementos de uma jornada interior para que se descubra realmente os objetivos de cada um – o grandioso no microscópico: não se necessita de uma paisagem ou de um tigre indiano; para eles, talvez a vida exemplar esteja numa tigela de cereais. Nisso, mais do que os outros filmes de Anderson, Viagem a Darjeeling lida com a ausência simbolizada pela morte, assim como o enfrentamento real dela, na figura do outro, aqui simbolizada tanto pelo cenário quanto pela busca de uma mãe já inalcançável, mas ainda próxima e disposta a fazer dos poucos momentos que restam um sinal de cumplicidade.

The Darjeeling limited, EUA, 2007 Diretor: Wes Anderson Elenco: Owen Wilson, Adrien Brody, Jason Schwartzman, Amara Karan, Camilla Rutherford, Irfan Khan, Bill Murray, Anjelica Huston Roteiro: Jason Schwartzman, Roman Coppola, Wes Anderson Fotografia: Robert D. Yeoman Produção: Lydia Dean Pilcher, Roman Coppola, Scott Rudin, Wes Anderson Duração: 91 min. Distribuidora: Fox Home Entertainment Estúdio: Scott Rudin Productions

Cotação 4 estrelas e meia