A colina escarlate (2015)

Por André Dick

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O diretor mexicano Guillermo del Toro tem como uma de suas características a imaginação ligada a diferentes gêneros associados ao fantástico. Depois de O labirinto do fauno, na verdade uma fantasia com elementos reais, enfocando a Guerra Civil Espanhola, com uma violência incomum nesse gênero, ele parece, no entanto, ter sido associado ao gênero do terror e do suspense. Se há um filme dele com elementos fortes desses gêneros é Cronos, ainda dos anos 90, e um pouco de Mutação, primeira obra que filmou em Hollywood. Esta decepção original nos Estados Unidos o levou de volta para o México, para filmar sua maior realização, A espinha do diabo. Neste filme, certamente o elemento mais assustador está em seu título, pois, na verdade, trata-se de um drama com elementos de suspense focando um orfanato também durante a Guerra Civil Espanhola. Em seguida, com seu díptico Hellboy, ele conseguiu associar seu clima fantasioso a uma história de super-herói incomum, e ainda ajudou no roteiro da trilogia O hobbit (que inicialmente também dirigiria). E mesmo em Círculo de fogo, quando ele teria fugido, segundo parte da crítica, às suas origens, ele sempre esteve de acordo com elas.
Por isso, quando se analisa que Del Toro novamente foge a muitos de seus elementos em A colina escarlate, talvez possa se colocar em desconfiança o fato de que ele quer ser um artista do terror quando, na verdade, quando se aproveitou desse gênero, sempre o mesclou com outros. A colina escarlate, portanto, vem da imaginação de um dos cineastas mais originais já vindos do México.

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O interessante é como Del Toro consegue utilizar determinados cenários assustadores para, na verdade, falar dos temas que não aparecem na superfície. Em A colina escarlate, ele mostra uma jovem, Edith Cushing, que perdeu a mãe muito cedo e deseja ser escritora. Morando com o pai, Carter (Jim Beaver, excelente), ela é cortejada por Alan McMichael (Charlie Hunnam, adequado), um médico, até que chegam à sua cidade Thomas (Tom Hiddleston) e Lucille Sharpe (Jessica Chastain). Thomas pretende que invistam num projeto ao qual se dedica há anos – e vem da Europa aos Estados Unidos a fim de escapar da falência. O pai de Edith fica desconfiado quando ele passa a ter intenções de um relacionamento com ela e coloca um detetive, Holly (Burn Gorman), para investigá-lo. A relação de Thomas com a irmã é baseada em algum mistério ligado ao passado, e, quando Lucille deve ir morar com ambos na mansão Allerdale Hall, no alto de uma colina, tudo parece ficar mais nebuloso.
A composição de Del Toro para A colina escarlate não é menos notável do que o cuidado que tinha com a fotografia em A espinha do diabo e com os efeitos especiais esplendorosos de Círculo de fogo. Esta mansão tem por baixo uma barro vermelho que os Sharpe pretendem vender – e tanto pode remeter à ameaça do lugar quanto à pena da escrita e à lacradura de cartas. O filme, nesse sentido, é sobre uma escritora que não tem nenhuma vivência exatamente real para tratar de seu romance de fantasmas, quando ainda não entende exatamente o que são as pessoas que a cercam. Quando ela se depara com uma mansão em que até mesmo o transporte da água até a banheira desperta certo pânico, ou cujas portas podem ranger a noite inteira, e ainda há um vento que pode amedrontar a noita toda, Edith parece que não depende tanto da literatura pois já está inserida nela. Por isso, talvez não seja desperdício dizer que a narrativa remete a clássicos como O morro dos ventos uivantes e a autores como Lovecraft, escritor que certamente inspirou Del Toro na transição de gêneros, e Mary Shelley, de determinada literatura gótica.

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Este roteiro muito mais sugestivo do que colocado em palavras foi assinado em parceria de Del Toro com Matthew Robbins, já colaboradores em MutaçãoNão tenha medo no escuro, e de um dos próximos projetos do cineasta mexicano, Pinóquio. Robbins ganhou o prêmio de melhor roteiro em Cannes com Louca escapada, o primeiro filme oficial de Spielberg (uma vez que Encurralado foi feito para a TV), além de ter participação não creditada nos escritos de Contatos imediatos do terceiro grau, E.T., e ter dirigido dois cults na década de 80, O dragão e o feiticeiro e O milagre veio do espaço. Possivelmente seja de Robbins – é característica desses projetos – a fluência do roteiro de A colina escarlate e sua capacidade de, por meio de um desenho de produção gigantesco de Thomas E. Sanders (Drácula de Bram Stoker) e que insere o espectador no cenário retratado, além da fotografia elaboradíssima de Dan Laustsen (que havia trabalhado com o diretor em Mutação), também desenhar uma camada psicológica para os personagens.
Desde o início, com Lucille Sharpe interessada em casulos de mariposas, é possível entender que A colina escarlate, também pela personagem central ser jovem, está nessa mansão para que conheça a maturidade para a qual apenas a literatura não poderia transportar. É interessante, nesse sentido, como a sugestão de uma aproximação com Thomas depende sempre de alguma fantasia com alguém que pode ser o escolhido. O próprio figurino e o cabelo da personagem passam a sugerir uma determinada inocência e dependência, quando no início do filme ela se mostra independente, inclusive da aproximação de Alan. A personagem de Lucille representa certamente a ameaça que representa a iminência do relacionamento – e em determinado momento ela estende um livro que Edith nega.

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O vemelho de sangue depois da tosse pode não ser exatamente a tuberculose que levava os poetas românticos – e sim a maldade humana. Ou seja, a personagem de Edith, por causa da atuação de Mia Wasikowska – uma atriz que encadeou alguns grandes trabalhos, em O duplo, Mapas para as estrelas e Madame Bovary, depois do início hesitante em Alice no país das maravilhas –, tem uma transformação interessante ao longo da história. E a partir de determinado momento ela parece ter o mesmo dilema da personagem Jane Eyre, curiosamente também interpretada por Wasikowska numa adaptação recente.
O que se destaca, porém, é a maneira como Del Toro dispõe o lugar, com os quartos na parte de cima, a cozinha no térreo e folhas e neve que não param de adentrar nesse lugar, como se ele não pudesse segurar a natureza, assim como cada um dos personagens não pudesse esconder as suas diferentes faces. E, finalmente, há o porão enigmático, onde Edith tentará descobrir o mistério que cerca a mansão e se reproduz nos irmãos Sharpe. Esses ambientes são preenchidos principalmente pela figura de Lucille, numa atuação excepcional de Jessica Chastain, mesmo depois de um início indefinido em razão do sotaque acentuado, e Tom Hiddleston e seu talento habitual se equilibra entre as duas performances femininas com naturalidade. Afinal, o filme é sobre o embate entre duas mulheres: uma que sobrevive de um certo passado que pode ser glorioso, ligado a esta mansão, a outra uma mulher que procura a independência e a literatura como forma de subsistir em meio a um mundo em que os homens se reúnem ao redor da mesa para decidir sobre as novas invenções que devem ganhar espaço. Para Del Toro, a maioria dos homens são fantasmas que tentam sobreviver de uma tradição, e a mudança pode ser exatemente a convivência com os outros. Ele aponta isso com a culpa ligada a um passado em que a perda é, por um lado, da natureza e, por outro, pela loucura. Quando o cineasta trabalha com imagens como se fossem símbolos – Edith caminhando pela casa escura com um candelabro atrás da infância que parece ter perdido ameaçada por fantasmas, o barro vermelho querendo sair à superfície, o fantasma como uma ameaça ao longe –, A colina escarlate chega ao que mais imaginava: é resultado de um diretor que entende substancialmente da fantasia e de temores humanos que podem existir nela.

Crimson Peak, EUA, 2015 Diretor: Guillermo del Toro Elenco: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston, Charlie Hunnam, Jim Beaver, Burn Gorman, Leslie Hope, Doug Jones, Jonathan Hyde, Bruce Gray, Emily Coutts Roteiro: Guillermo del Toro, Matthew Robbins Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Fernando Velázquez Produção: Callum Greene, Guillermo del Toro, Jon Jashni, Thomas Tull Duração: 119 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Legendary Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

 

Círculo de fogo (2013)

Por André Dick

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Desde o início da sua trajetória, o cineasta mexicano Guillermo del Toro sempre teve um culto em torno de sua obra. Se este era grande com O labirinto do fauno, uma das fantasias mais perturbadoras e incômodas já feitas, não necessariamente equivalente a uma qualidade percebida a cada crítica, cresceu ainda mais com os dois Hellboy, em ritmo de HQs. Depois de ser substituído por Peter Jackson na direção de O hobbit, Del Toro resolveu se dedicar a este projeto grandioso, Círculo de fogo (daqui em diante, possíveis spoilers).
Aguardado como um dos grandes blockbusters deste ano, o filme já inicia em plena ação, mostrando que, das profundezas do Oceano Pacífico, através de uma brecha assustadora, surgem os Kaijus, monstros imensos que destroem tudo à sua volta. Para combatê-los, os militares criam os Jaegers, robôs gigantes (de países diferentes), cada um deles conduzidos por dois seres humanos, conectados pela mente, a fim de impulsionar seus movimentos. A parte inicial mostra exatamente esses pilotos, os irmãos Raleigh (Charlie Hunnam) e Yanci Beckett (Diego Klattenhoff), supervisionados por Stacker Pentecost (Idris Elba). Um dos irmãos irá conhecer Mako Mori (Rinko Kikuchi), protegida de Stacker.

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Depois de algumas aulas de luta com influência oriental, a questão é se estariam ambos preparados para enfrentar o fato de que há poucos Jaegers para enfrentar a profusão de Kaijus. Esses são investigados pelo Dr. Newton Geiszler (Charlie Day), com a parceria científica de Gottlieb (Burn Gorman), arranjando alternativas em meio ao mercado de Hong Kong, em busca de Hannibal Chau (Ron Perlman, o Hellboy) – e nesta ligação há alguns bons momentos de humor, por causa principalmente de Charlie Day, que foge completamente à atmosfera do filme. Também há Chuck Hansen (Robert Kazinsky), filho de Herc (Max Martini), que implica com o personagem central.
Todos os elementos básicos estão concentrados nesta narrativa, e Círculo de fogo não escapa muito à premissa do duelo entre a humanidade e monstros que lembram tubarões ou baleias prontos a criar um transtorno inevitável para o oceano. Em meio à apresentação dos personagens, vemos uma atmosfera chuvosa, como em Godzilla (embora o filme se mostre muito mais espetacular e denso do que aquele de Emmerich, que tinha os efeitos especiais como qualidade central), além de lembrar Cloverfield (produzido por Abrams e também de pouco impacto em relação a este) e, um pouco menos, Tropas estelares (a ficção cult de Paul Verhoeven), mas, acima de tudo, com referências a quadrinhos, séries e filmes japoneses.
Del Toro é, sobretudo, um artesão que consegue focar os sentimentos dos personagens – o personagem de Raleigh (também em razão da boa atuação, embora subestimada, de Hunnam) consegue se mostrar humano na tentativa de se conectar com outra pessoa à frente de um Jaeger. Sua relação com Mori se dá inicialmente na desconfiança, mas é na descoberta de um trauma em comum é que faz com que as mentes possam se complementar para o embate final contra os monstros que podem colocar a Terra diante do apocalipse final. A maneira como esses pares adentram nos robôs para tentar guiá-los mostra toda a concepção que cerca Del Toro: cada passo e movimento representa uma grandiosidade da máquina (pode-se dizer que este filme vale para o universo dos robôs o que Jurassic Park representou para os dinossauros nos anos 90). A preparação para o cargo de piloto dessas máquinas se dá com lutas orientais, em meio a quartos, corredores e elevadores frios, como os robôs, mas com os vínculos familiares expostos.

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Mako Mori não deixa de ser uma espécie de Sonmi-451 de Cloud Atlas (inclusive, Kikuchi, de Babel, se assemelha muito à Doona Bae), sendo preparada para o combate. Por trás dos embates de Círculo de fogo, há uma quantidade de referências bíblicas: o que se teme é o Apocalipse e no futuro os irmãos dividem uma máquina, e a morte de um também é parte da morte de outro, ao contrário de um Caim e Abel; o mar é sempre tempestuosamente bíblico; anda-se dentro de um monstro como Jonas dentro da baleia; mistura-se água às lavas como uma espécie de encontro entre elementos; e, afinal, quem lidera o combate aos Kaijus é um homem de sobrenome Pentecost (ligando-o a Pentecostes).
Del Toro busca, em suas histórias, não raramente a metáfora, como em O labirinto do fauno era a imaginação da personagem central, para escapar a uma realidade áspera. No entanto, em meio a um universo robótico, ele não hesita em mostrar também as mais variadas formas de organismo que podem ameaçar a natureza, mesmo aquela feita com o material de última tecnologia.
Ainda que Del Toro não consiga fazer com que os diálogos sejam desafiadores, em se tratando da simbologia, de efeitos especiais e design, Círculo de fogo é não menos do que espetacular. Neste ano, o segundo Star Trek foi fabuloso, mas parece que Círculo de fogo é uma espécie de configuração tanto da melhor fantasia provocada por robôs e monstros gigantes quanto do pior pesadelo, pois as cenas de batalha se dão quase sempre na escuridão ou embaixo de chuva, além de remeter, mais de uma vez, à série O senhor dos anéis e, segundo dados referentes das filmagens, às pinturas de Goya e Hokusai: os robôs e os monstros possuem uma dimensão assustadora, assim como os cenários em que travam os combates não lembram maquetes ou mero CGI.

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A fotografia de Guilherme Navarro consegue atingir uma categoria essencial para os movimentos das criaturas do filme: especificamente, os interiores onde os robôs ficam em plataformas são iluminados com apuro. Del Toro demonstra sensibilidade para verter este universo de robôs e monstros para uma superprodução e consegue criar algumas cenas notáveis ao longo de sua metragem, mas com destaque especial para a primeira hora, de incessante continuidade em todos os seus elementos – a montagem de John Gilroy e Peter Amundson nunca se encontra vacilante –, talvez prejudicado pelo ato final, mais previsível.
É por isso que, ao conduzir Círculo de fogo para o espaço da fantasia mais extraordinária, Del Toro passa a se inserir entre os nomes contemporâneos que melhor lidam com este material sem reduzi-lo a um trabalho com computadores. Como Peter Jackson e Abrams, o cineasta mexicano mostra, aqui, que os anos para solucionar Círculo de fogo valeram a pena. Seu filme consegue equivaler a pretensão visual com tudo aquilo que cerca a mitologia de robôs e monstros, expandindo, como raras obras, um universo que, mais do que fantástico, proporciona uma sensibilidade imaginária ampla. Não é pouco.

Pacific rim, EUA, 2013 Diretor: Guillermo del Toro Elenco: Charlie Hunnam, Diego Klattenhoff, Idris Elba, Rinko Kikuchi, Robert Kazinsky, Max Martini, Charlie Day, Burn Gorman, Ron Perlman Produção: Jon Jashni, Mary Parent, Thomas Tull Roteiro: Travis Beacham Fotografia: Guillermo Navarro Trilha Sonora: Ramin Djawadi Duração: 131 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Legendary Pictures

Cotação 4 estrelas