The Post – A guerra secreta (2017)

Por André Dick

O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado EncurraladoTubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdidaE.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de SchindlerAmistad O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificial,  Minority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.

Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Novamente fez um drama histórico em Ponte dos espiões e uma fantasia de animação em O bom gigante amigo. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e as animações com Tintim e BFG – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.
Em The Post – A guerra secreta, Spielberg tem o intuito de revelar os bastidores de várias publicações feitas sobre segredos do Pentágono, relacionadas ao Secretário de Defesa, Robert McNamara (Bruce Greenwood), e o presidente Lyndon Johnson, que vão eclodir na gestão de Nixon, em exercício na época enfocada, início dos anos 70. A responsável pelo The Washington Post, Katherine Graham (Meryl Streep), tem uma amizade protocolar com o editor Ben Bradlee (Tom Hanks), que se envolve nessa divulgação de documentos secretos, vazados por Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) primeiramente para o New York Times. Enquanto Bradlee é casado com Antoinette (Sarah Paulson), Katherine, viúva e reservada, tenta lidar com a pressão exercida por Fritz Beebe (Tracy Letts) e Arthur Parsons (Bradley Whitford).

Com sua equipe habitual, incluindo o fotógrafo Janusz Kaminski e o músico John Williams, Spielberg não se arrisca em nenhum momento de seu novo filme. Ele inclui no elenco Hanks, seu ator preferido, e Meryl Streep, ambos em papéis que poderiam ser melhor delineados, sendo difícil encontrar neles as nuances que os temas políticos exigiriam. O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, este vencedor do Oscar por Spotlight, se sente como uma coleção de mensagens e críticas à política, como se por meio do cinema não se fizesse também política muitas vezes. Nisso, há um interesse de Spielberg pela guerra do Vietnã pela primeira vez desde os anos 70, já que parte de sua filmografia é dedicada à Segunda Guerra Mundial.
The Post se sente como uma mescla entre Todos os homens do presidente, sem nunca alcançar a mesma tensão e desenvoltura dramática, e exatamente Spotlight, mas Spielberg parece confundir fantasia e realidade: a redação do Washington Post lendo um determinado jornal de maneira ampla e irrestrita soa teatral e simétrica demais. A começar por Bradlee, todos parecem um pouco figuras ingênuas, desconhecendo o poder que tem às mãos tanto quanto os políticos. Bradlee, feito por Hanks de maneira desinteressante (algo raro em sua carreira), oscila entre certo oportunismo e depois um discurso libertário, enquanto a personagem de Streep transporta o desconhecimento sobre os temas do dia a dia da redação de jornal para um patamar de interessada por tudo o que acontece no The Washington Post. Spielberg se equivoca em diferentes momentos, abusando do tom jornalístico e depois do tom sentimental que lhe é tão caro na sua carreira e apenas não o prejudica quando é amparado por um bom roteiro, o que não acontece aqui. Talvez os momentos mais autênticos fiquem com o assistente de Bradlee, Ben Bagdikian (Bob Odenkirk, eficaz), pois parecem recordar um filme dos anos 70, principalmente quando realiza sua investigação.

The Post marca um momento decisivo na trajetória de Spielberg. Preocupado com os movimentos da história, ele parece se aproveitar de um determinado contexto para colocar o papel da imprensa em discussão, mas o faz por meio de um assunto (Guerra do Vietnã) que não necessariamente é o mesmo da atualidade. Ele parece não entender que o jogo do poder, em que se digladiam política e jornalismo, acontece desde sempre, isolando fatos que justificariam uma correspondência temporal. Seu filme não tem a urgência mesmo de um Jogos de poder, com o mesmo Hanks, porque não conta com um roteiro afiado nem personagens que não sejam apenas símbolos de uma bondade pura. Particularmente, ele poderia ter feito um retrato do que ele considera prejudicial na atualidade sem recorrer a um contexto histórico diferente, ou seja, a história mostrada passa a ser apenas metáfora de outra. Mesmo que ele possa encontrar elementos parecidos em ambos os contextos, a história tem pesos diferentes.
Hoje, há um confronto de ideologias nos Estados Unidos que reflete em debates sobre a liberdade de imprensa, mas esta, contrariada ou não, tem direito de falar o que quiser (inclusive com diversos meios e mídias) e tem o direito esclarecido de publicar os documentos oficiais que quiser, independente de perder contatos no poder. No entanto, na época de Nixon, havia algo mais: uma tentativa de ele proibir judicialmente informações ao público sobre milhares de mortes que não precisavam ter ocorrido no Vietnã. Por isso, Spielberg mescla duas discussões distintas como se fossem a mesma. Era uma tragédia, independente de estar ligada à condição da imprensa, que, de qualquer modo, se fez justa porta-voz com o vazamento. Não se convence o espectador com Bradlee colocando os pés sobre a mesa e querendo ler as milhares de páginas do Pentágono para ele próprio desencavar as matérias. Isso é tratar o espectador de maneira duvidosa. Quanto ao personagem de Streep, lamenta-se que um cineasta que enfocou o universo feminino praticamente apenas no belíssimo A cor púrpura não consiga lhe dar a ênfase necessária, porém se entende, pois seu foco sempre foram personagens de homens ou garotos. Streep não tem um bom roteiro à mão, mas sua atuação também não ajuda (sua inclusão entre as indicadas ao Oscar de melhor atriz é uma das grandes injustiças desse ano). E, quando se coloca um jornal para ser impresso, com matérias impactantes e que podem mudar a história, é estranho Spielberg usar a trilha de John Williams como se Peter Pan chegasse à Terra do Nunca. Não duvido que Spielberg não esteja brincando, mas parece.

The Post, EUA, 2017 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Michael Stuhlbarg Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: John Williams Produção: Steven Spielberg, Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal Duração: 115 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, 20th Century Fox, Participant Media, Pascal Pictures, Star Thrower Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

 

Jogo perigoso (2017)

Por André Dick

Adaptado de um livro de Stephen King, Jogo perigoso é um lançamento recente da Netflix, dirigido por Mike Flanagan, o mesmo do terror Hush. Se há alguns anos os livros de King não eram tão adaptados com tanta frequência, como nos anos 80 e 90, parece que em 2017 houve uma retomada das transposições para o cinema de obras do autor, a começar por It – A coisa, um dos grandes sucessos do ano. King tem uma variedade de histórias que vão desde a descoberta da juventude (Conta comigo), passando por homens lutando para escapar ao ambiente da cadeia (Um sonho de liberdade) até peças com o terror mais denso (O iluminado, para citar apenas um dentre vários).
Com uma premissa muito simples, Jogo perigoso mostra um casal, Jessie Burlingame (Carla Gugino) e Gerald (Bruce Greenwood), um advogado, indo para sua casa de férias no Maine. Eles querem revitalizar o casamento e, para isso, Gerald tem a ideia de algemar as mãos de sua esposa à cama. O marido já não sente a mesma atração pela mulher e fingir que ela é uma desconhecida parece despertar nele um desejo mal explicado. O que poderia ser uma espécie de Instinto selvagem em forma de diálogo teatral logo se transforma num pesadelo, não apenas para Gerald como para Jessie.

Se o espectador está interessado em boas atuações, encontrará com certeza em Gugino e Greenwood presenças de qualidade em cena. Ambos conseguem desenvolver, principalmente no início, uma boa química, pela maneira como a história é contada, de maneira ágil. No entanto, isso não é o suficiente para sustentar o roteiro. Se a ida deles para a casa afastada é precedida pelo encontro com um cachorro abandonado à beira da estrada (ao qual Gerald, em determinado momento, vai se referir como “cujo”, que é o nome de outra obra de King adaptada para o cinema, num filme assustador de 1983) e lembre um pouco o clima de Violência gratuita, de Michael Haneke, parece que tudo que cerca essa cena misturando sexo e recordações desagradáveis não é tão bem dosada quanto poderia ou o diretor Flanagan imagina. Há uma base para discussão sobre o matrimônio e sobre a intimidade bastante interessante e mesmo inusual no cinema norte-americano, no qual a fantasia se mistura com a agressão física, contudo a expectativa logo vai se desaparecendo com o tratamento irregular e os diálogos distribuídos de maneira mais plana.

Excessivamente calcado em flashbacks (nos quais Flanagan traz Henry Thomas, atuando de forma estranha, talvez pela dificuldade do papel, também para o espectador, para quem se acostumou a assisti-lo em filmes como E.T.), o filme desliza por temas arriscados e seu tom nunca se sente sólido. Ele parte de um início em que o foco é o “jogo” de Gerald para escolher no passado a forma de explicar o presente e guiar a personagem central, com resultados duvidosos. Isso porque parece que o passado de Jessie, por pior que seja, pode sugerir em algum momento o jogo do marido (será ele até o momento antes em que o conhecemos alguém diferente?) e sua superação, sob um novo castigo. Por um lado, trata-se de uma ideia até interessante e podemos ver nesse aspecto uma circularidade da personagem, uma espécie de confronto dela com seus incômodos psicológicos mais graves, contudo a maneira com que se revela acaba sendo um pouco tortuosa para o espectador. Flanagan não consegue oferece o devido crescendo no sentido de desvendar e desmontar cada personagem, embora a atriz Chiara Aurelia se mostre excepcional numa participação de grande relevância para a trama.

Flanagan não tem uma direção criativa, preferindo utilizar a simbologia de uma eclipse para definir a personagem central. É excessivamente expositivo por meio dessa imagem, não deixando para o espectador qualquer tentativa de desvendar algo. Essa opção tomada é lamentável porque principalmente Gugino (um destaque em Watchmen e Sucker Punch, duas obras de Snyder) oferece uma atuação que, com um roteiro melhor e numa obra com melhor narrativa, seria propícia a indicações a prêmios. Nesse ponto, é talvez o filme mais comum em termos de produção da Netflix, não apenas porque utiliza poucos cenários, de acordo com o livro, como também pelo acabamento do eclipse em desacordo visualmente com o restante do design de produção, parecendo sempre algo à parte da trama. Jogo perigoso é também mais assustador do que dramático em algumas cenas, mas termina com um epílogo terrível, um dos piores do cinema recente. Quando Flanagan pretende acentuar o mistério ao redor de uma trama em parte bastante realista, chegando a um momento em que o espectador precisa enfrentar uma determinada imagem, acaba se perdendo, e de certo modo o espectador percebe que antes a trama já não se mostrava com a força devida. É esse final, de qualquer modo, que define a decepção: tão calculado quanto expositivo, mesmo Gugino vê sua atuação até então irretocável ser prejudicada pela direção de Flanagan.

Gerald’s game, EUA, 2017 Diretor: Mike Flanagan Elenco: Carla Gugino, Bruce Greenwood, Henry Thomas, Carel Struycken, Kate Siegel, Chiara Aurelia Roteiro: Jeff Howard e Mike Flanagan Fotografia: Michael Fimognari Trilha Sonora: The Newton Brothers Produção: Trevor Macy Duração: 103 min. Estúdio: Intrepid Pictures Distribuidora: Netflix

À procura (2014)

Por André Dick

À procura

Para quem este ano foi alertado de todas as maneiras para filmes terríveis, sempre na linha de um determinado consenso preestabelecido, estamos agora diante do que seria o Transcendence do gênero policial, À procura. O filme estreou no Festival de Cannes sob vaias este ano, o que não comprova exatamente se será problemático, pois outras grandes produções saíram do evento do mesmo modo, como o mais novo de David Cronenberg, enquanto Adeus à linguagem, de Godard, foi ovacionado. E é justo que haja uma avaliação do que o cineasta produziu antes e agora, no caso o diretor egípcio naturalizado no Canadá Atom Egoyan recebeu o Grande Prêmio do Júri em Cannes com a obra, bastante considerada, Um doce amanhã e teve outros destaques nos anos 90, como Exótica e Calendário. Aqui ele se volta a um gênero do qual se espera suspense e agentes à caça de psicopatas. Tudo isso tem um nome: movimento, ação, reviravoltas e de preferência nenhum sentimento exatamente incômodo para o espectador.
Em À procura, a narrativa se concentra na menina Cassandra (Peyton Kennedy quando criança e Alexia Fast quando jovem), que tem nove anos de idade e faz patinação no gelo, seguida de perto por seus pais, Matthew (Ryan Reynolds) e Tina (Mireille Enos). Enquanto a mãe trabalha na área da limpeza de hotéis, o pai é paisagista, no norte do Canadá. Certo dia, ele a deixa no banco de trás da sua caminhonete para comprar tortas numa loja à beira da estrada – quando ele volta, ela já desapareceu, vítima de um grupo que pratica crimes contra a criança, também pela internet. No entanto, essas informações não são passadas ao espectador de maneira linear, como é bastante comum na trajetória de Egoyan: ao mesmo tempo que mostra essa situação, ele já revela o que se passa anos depois dela, apresentando suas consequências. Há também uma equipe de investigadores, com Jeffrey (Scott Speedman) e Nicole (Rosario Dawson) à frente, e o vilão Mika (Kevin Durand).

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Ao contrário de cineastas como David Fincher e no ano passado Dennis Villeneuve, Egoyan nunca teve nenhum apreço pelo suspense de fato. Isso pode ser um erro mortífero em alguns casos, mas é interessante que desde o início À procura dá preferência a personagens que reagem à mesma situação em tempos diferentes – e o quanto, na verdade, eles estão, como mostram as paisagens do filme, fotografadas de maneira minuciosa por Paul Sarossy, congelados, sem nenhum tipo de movimento para saírem do lugar. As cataratas do Niágara que aparecem em algumas sequências como pano de fundo de gravações em vídeo mostram essa passagem do tempo, que os personagens não conseguem sentir. Para quem aprecia o suspense policial nos moldes de Zodíaco e mesmo Os suspeitos, possivelmente desgostará de À procura, que se concentra em cada situação mostrada, não em revelar quem é o vilão – uma vez que o filme já inicia mostrando ele – ou mesmo em reviravoltas (não necessariamente surpreendentes).
Alguns desses personagens têm suas vidas filmadas pelo sequestrador de Cassandra, e esta em determinado momento – não se sabe com certeza, pois Egoyan dificilmente explica as motivações de cada um – parece estar imersa na perturbação do psicopata. Egoyan torna as coisas bastante difíceis e mexe com o psicológico do espectador quando, mesmo ele sabendo que as coisas podem ser mais previsíveis, não consegue também desatar os nós da trama, pois o comportamento dos personagens não é normal em nenhum momento. Diante do sequestro, não se entende por que a menina serve como um ponto de apoio para Mika em vigiá-los por meio de câmeras, a fim de notar o sofrimento marcado por essa passagem de tempo, nem como ela consegue lidar com o universo musical para esquecer a realidade à sua volta ou aceitar que seja envolvida no mesmo crime cometido contra ela – a não ser que se pense numa possível Síndrome de Estocolmo. Os filmes de sequestro, e não por acaso o roteiro e o vilão de À procura dialogam com a peça A flauta mágica, de Mozart, costumam esconder a figura negativa, enquanto aqui ele logo se mostra, embora Durand esteja algumas notas acima do tom; Egoyan apresenta também os policiais agindo de maneira confusa, impondo, no caso de Jeff, por exemplo, uma necessidade de criar redes mirabolantes em sua mente sobre o comportamento do pai de Cassandra.

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Essa confusão do sistema que poderia ajudar a descobrir onde está Cassandra afeta não apenas a busca, como também coloca os pais numa sucessão de conflitos e de afastamento, com cobranças amargas principalmente de Tina em relação a Matthew. Ou seja, mesmo a dupla de investigadores, que no início se mostra um tanto rival e com o tempo inicia laços familiares, parece estar imobilizada pelas próprias obsessões: enquanto Jeffrey tenta capturar os criminosos lançando contra eles uma busca incessante, a investigadora tenta se recuperar de questões traumáticas em sua vida. Neste sentido, o psicopata lida com esses personagens como se estivesse perto deles e filmasse seu dia a dia. Para Mika, o que importa neles é justamente colocá-los sempre presos à situação causada por ele, por isso não importam as mudanças de estação. Todos os personagens, deliberadamente, acabam caindo nesta teia armada, em que cada lembrança pode significar também o que pode ocorrer no futuro, uma vez que as paisagens continuam iguais, assim como o comportamento de cada um. Em À procura, os vídeos não servem para a procura de figuras desaparecidas: eles servem para lidar com uma dor – a dos pais – presente de forma contínua, independente de lugar, e são registrados como um presente. Não existe aqui uma ruptura: o diretor Egoyan coloca os personagens em momentos diferentes ao longo de 8 anos, e mostra como a natureza deles está ligada à mesma espera, lidando com isso de maneira a colocar o espectador com uma espécie de sentimento agonizante. Nessas idas e vindas de tempo, há não raramente algumas lacunas de roteiro, mas a base da proposta de Egoyan continua presente.
Em relação a Um doce amanhã, considerado ainda a grande obra do diretor, embora não tenha o ritmo necessário, À procura tem vários detalhes semelhantes: a necessidade de a família reunir todo sentimento e aproximação, mas sobretudo as paisagens invernais do Canadá. No entanto, parece que em seu novo filme Egoyan consegue fazer um trabalho mais detalhado na movimentação de imagens, assim como acerta na escolha do elenco. Ator com sérios problemas para desenvolver personagens, Ryan Reynolds tem aqui a interpretação de sua carreira: a maneira como ele se mostra ao espectador é cortante; em intensidade próxima, embora não igual, estão Dawson, Speedman e Enos. Esse elenco é uma grande pista para o filme se mostrar não exatamente como um thriller nos moldes de Hollywood, mas como uma análise do comportamento humano diante de uma situação trágica de abuso infantil e de sequestro. As imagens, desde o início de À procura, devem ser lidas, e apenas aparentemente querem evocar Fargo, dos irmãos Coen – há algo mais embaixo dessa superfície, e quando vemos uma das personagens saindo de uma festa onde teve de lidar com seu passado Egoyan nos mostra um parque de diversões à noite, como se ela estivesse ainda na noite imposta por A flauta mágica, de Mozart. E quando o diretor ingressa no clímax de seu filme, já podemos saber de antemão a resolução, no entanto não sabemos o que se esconde por trás disso tudo: À procura indica que a vida continuará praticamente a mesma para todos os envolvidos, mas que não existe a saída da infância quando há um trama desse porte. O que permanece é apenas a falta de resolução de tudo que poderia ser resolvido, e como o quebra-cabeças de À procura anuncia: não há o fio da meada. E, se há, ele pode ser puxado.

The captive, CAN, 2014 Diretor: Atom Egoyan Elenco: Ryan Reynolds, Scott Speedman, Rosario Dawson, Mireille Enos, Kevin Durand, Alexia Fast, Peyton Kennedy, Bruce Greenwood Roteiro: Atom Egoyan, David Fraser Fotografia: Paul Sarossy Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Atom Egoyan, Jennifer Weiss, Simone Urdl, Stephen Traynor Duração: 112 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Ego Film Arts / The Film Farm

Cotação 4 estrelas

O lugar onde tudo termina (2013)

Por André Dick

O lugar onde tudo termina

Quando acompanhamos Ryan Gosling se dirigindo a uma tenda de circo, sendo parado por algumas crianças em meio a um cenário de parque de diversões, para entrar num globo da morte, temos a sensação de estarmos vendo um instante de Drive, em que ele interpretava o misterioso motorista – principalmente pela câmera acompanhar sua visão. Aos poucos, no entanto, com o mesmo olhar melancólico e seu drama pessoal, Gosling anuncia que O lugar onde tudo termina é um drama que trata da paternidade como Drive não chegou a tratar, apesar de elementos da trama também o levarem a isso. Ele se chama Luke Glanton, trabalha como mociclista e descobre que teve um filho, com um antigo caso, Romina (Eva Mendes, num momento especialmente bom), que mora na cidade de Schenectady, Nova Iorque, embora ela já esteja envolvida com Kofi (Mahershala Ali). Sem a permissão de Romina, Luke insiste em reatar a ligação e fica na cidade, onde, com seu talento como motociclista, faz amizade com o dono de uma oficina, Robin (Ben Mendelsohn), que o aponta como um talento – depois de se conhecerem numa corrida involuntária num bosque das redondezas da pequena cidade. Luke é um indivíduo perfeitamente enquadrado na filmografia de Derek Cianfrance, que já havia dado a Gosling o papel de Namorados para sempre, com Michelle Williams. Mas é ainda mais: Gosling, o melhor ator de sua geração, ainda que ultimamente criticado por repetir papéis (e Caça aos gângsteres contribuiu para isso), consegue traduzir a tragédia desse personagem às voltas com a tentativa de, afinal, exercer a função de pai da família, mesmo que todas as coisas pareçam dizer o contrário. Para isso, está sempre na lanchonete de Romina tentando oferecer ajuda para o filho.

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Esta obra de Cianfrance não seria apenas interessante se assistida sem as informações que levam a desvendar suas surpresas, mas porque o drama de Luke é uma espécie de diálogo aberto com o drama do policial Avery Cross (Bradley Cooper), que acabou de ser pai e passa por um momento delicado no departamento de polícia da cidade, onde se vê às voltas com amizades não muito confiáveis (uma delas, Deluca, interpretada por Ray Liotta, especializando-se neste papel de ameaça), sob o olhar do promotor (Bruce Greenwood, sempre uma presença marcante) e do pai, Al (Harris Yulin), que trabalha como juiz e a quem recorre para decidir o que pretende fazer.
A maneira como Avery tem a desconfiança de sua mulher, Jennifer (Rose Byrne) corresponde àquela que Luke tem da mãe de seu filho. Mas os papéis dialogam porque o conflito é o mesmo, e Cianfrance consegue apresentá-lo com sutilezas de um diretor que vem se especializando em narrativas com personagens a princípio rotineiros, mas cujas implicações existenciais se tornam próximas de um gênero grandioso. Esses são personagens que vivem na mesma cidade, em situações diferentes, de criações diferentes, mas que se deparam, em algum momento, com o que pode transformar suas vidas. Suas decisões põem em risco não apenas a si mesmos, mas também suas famílias, e o dinheiro passa a significar não apenas uma sobrevivência, mas um sinal de que algo pode estar se complicando e às vezes é preciso dar o recuo necessário, para que não se chegue ao limite. E, em alguns momentos, eles se fecham e acrescentam uns aos outros sem que se perceba o movimento que foi feito para que isso aconteça.

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O lugar onde tudo termina, a partir de determinado momento, passa a tratar de questões que dizem respeito não apenas a seus personagens, como a todo um contexto de poder e castas mantendo sua posição, e isso não tem exatamente um traço que conduz à lição de moral, mas serve como uma observação do estado de coisas que envolve os personagens e uma permanência de questões ligadas à infância. Essas questões se ligam à paternidade, e envolvem dois jovens, AJ (Emory Cohen) e Jason (Dane DeHaan), que acabam se conhecendo na escola e logo ficam próximos, por meio do uso de drogas e, se participam da sequência menos surpreendente do filme, não deixem de explorar o potencial da narrativa e não tornam a duração (140 minutos) excessiva.
O roteiro, assinado por Cianfrance em parceria com Ben Coccio e Darius Marder, introduz algumas reviravoltas, mas é exatamente a direção, em combinação com a fotografia impecável de Sean Bobbitt, que coloca O lugar onde tudo termina como uma das produções mais sensíveis que o cinema norte-americano produziu recentemente. Nele, o cenário da cidade tem um papel fundamental. Cercada de bosques, com estradas que parecem se perder, sobretudo depois de algumas cenas de ação, ela guarda uma espécie de tranquilidade nervosa, por meio de seus personagens, e os neons das lanchonetes se misturam a uma trilha dos anos 80, sem fazer com que se volte a esta época. Há um incômodo nessa paisagem tranquila que parece chegar aos personagens, e tanto Luke quanto Romina tentando reatar o relacionamento ao mesmo tempo vivem nesse lugar sem poderem se distanciar, assim como parece provocar um tédio no grupo que tenta dominar o departamento de polícia. É também neste cenário que os pais tentarão dar uma dedicação a seus filhos, longe dos problemas que puderem existir, mas onde exatamente se confundirá o papel de cada um.
Cianfrance deposita sua principal expectativa na ligação interna entre esses personagens, fazendo com que o espectador veja o personagem de Gosling em cada um deles, mesmo quando não está presente em cena. Mas isso não diminui o impacto da atuação de todo o elenco, sem exceção, e Bradley Cooper se mostra aqui ainda mais adequado do que na sua jogada psiquiátrica de O lado bom da vida, além da dupla de jovens, Emory Cohen e Dane DeHaan, mostrar uma atuação irretocável. Mendes e Byrne, como as mulheres desamparadas neste universo em que os homens tentam dominar todas as funções, conseguem, cada uma, apresentar uma insegurança sensível, e apenas se lamenta que Byrne e Mendelsohn não apareçam tanto. Mas em O lugar onde tudo termina – e isso é difícil no cinema contemporâneo – os atores não tentam chamar atenção para sua presença. Quando os personagens crescem, é sempre em função da história e dos elementos que podem fazer para que ele se torne, mesmo com algumas repetições, num filme de absoluta beleza.

The place beyond the pines, EUA, 2013 Diretor: Derek Cianfrance Roteiro: Ben Coccio, Darius Marder, Derek Cianfrance Elenco: Ryan Gosling, Bradley Cooper, Bruce Greenwood, Eva Mendes, Ben Mendelsohn, Rose Byrne, Ray Liotta, Emory Cohen, Dane DeHaan Produção: Alex Orlovsky, Jamie Patricof, Lynette Howell, Sidney Kimmel Fotografia: Sean Bobbitt Trilha Sonora: Mike Patton Duração: 140 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Electric City Entertainment / Hunting Lane Films / Pines Productions / Sidney Kimmel Entertainment / Silverwood Films / Verisimilitude

Cotação 4 estrelas e meia

 

Além da escuridão – Star Trek (2013)

Por André Dick

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Em 1979, os produtores pediram ao diretor Robert Wise um Jornada nas estrelas – O filme mais comercial, na linha de Guerra nas estrelas; Wise não fez isso e até hoje o filme é lembrado por ser uma tentativa de reproduzir 2001, a obra-prima de Kubrick, com efeitos visuais que utilizaram boa parte do orçamento milionário. Mas, em seguida, vieram as continuações (quatro delas nos anos 80), que, ao contrário do primeiro, fizeram mais sucesso e apontaram um caminho de maior divertimento – sobretudo o segundo, com o antológico Ricardo Montalban como Khan, e o sexto e derradeiro desfecho pelas mãos de Nicholas Meyer.
No final da década passada, o diretor J.J. Abrams conseguiu trazer de volta os personagens da série Star Trek, criada por Gene Roddenberry, que havia tido o último filme de cinema no início dos anos 90. Privilegiado por retomar algumas séries, a julgar também pelos dois mais recentes Missão impossível (o terceiro e subestimado dirigido por ele) e o próximo Guerra nas estrelas, Abrams, tanto no primeiro Star Trek quanto neste segundo, Além da escuridão – Star Trek, apresenta seus traços como autor, a partir de uma criação alheia. É precipitado, a partir daí, considerar que o novo Star Trek seja apenas mais um blockbuster com ação frenética. Como em outros filmes seus, mesmo em Super 8, que homenageia as turmas dos anos 80, sobretudo a de Os Goonies, há, por trás da ação frenética, personagens e motivações. Assim, embora Abrams esteja em voga, seria injusto colocar sua presença no cenário como prejudicial ou excessiva. Capaz de mesclar a compreensão de fantasia de Spielberg, George Lucas e Peter Jackson, ele consegue sempre atingir a dramaticidade por meio de peças que parecem simplesmente estrondosas.

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Como o primeiro filme da nova franquia, Além da escuridão, junto com a ação, aprimora o senso de humor em meio a um discurso político, que não pende para o exagero, mas se equilibra dentro da narrativa com algumas referências. Se no primeiro explosões de planetas, fugas de monstros, viagens no tempo justificavam uma grande celebração do encontro dos personagens, inclusive remetendo à sua infância, e os atores se entregavam a isso de forma despretensiosa, mas, ao mesmo tempo, fazendo dos diálogos afiados um ponto claro para a empreitada, nesta continuação, os personagens precisam enfrentar um dilema referente a matar ou prender um criminoso.
O início é nada menos do que espetacular (e parece que As aventuras de Tintim já tem companhia como o filme que melhor utilizou o 3D nos últimos anos), levando, em seguida, os personagens a uma sala de reuniões em que é discutido um ataque terrorista feito por John Harrison (Benedict Cumberbatch), em Londres. A Enterprise precisa novamente partir em missão e o almirante Marcus (Peter Weller, excelente), da Frota Estelar, dá a ordem para que isso aconteça. Ele ordena que a Enterprise leve um misterioso armamento, a fim de ser lançado, se necessário, num determinado planeta (qualquer diálogo com a perseguição a Bin Laden no Afeganistão e Paquistão não seria mera coincidência, mas o filme, de forma acertada, não se fundamenta nessa analogia externa).
Enquanto James T. Kirk teve um passado problemático e foi levado para a Enterprise pelo capitão Christopher Pike (o convincente Bruce Greenwood), tendo com ele uma dívida de confiança, que se acentua aqui, Spock é um vulcano que recorre à humanidade para contrabalançar suas dúvidas existenciais e o interesse amoroso pela oficial Uhura (Zoe Saldana). Nesta continuação, a humanidade de Spock é posta novamente em prova, e a arrogância de Kirk se coloca como uma esperança em reencontrar seu amigo, ao mesmo tempo em que é testado seu respeito por Pike. Desde o início espetacular, Spock conclui que a tripulação vale mais do que sua vida, mas, para Kirk, ele deve entender justamente o contrário, de que um amigo deve ser salvo sem que isso constitua um adendo para relatórios burocráticos. Por sua vez, Uhura precisa ser testada em seus conhecimentos, para que a harmonia da Terra não seja ameaçada, assim como deve traçar uma compreensão maior diante da desistência romântica de Spock.

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Temos novamente Chris Pine como Kirk, desta vez menos pretensioso, e Zachary Quinto, como Spock, que apenas aparenta não ter insegurança e mostra estar à altura de Leonard Nimoy, e ambos os atores parecem, também pela experiência, mais à vontade e convincentes, principalmente Pine. É essa amizade com desentendimentos, mas com sensibilidade, que dá força a um conflito que poderia ser no máximo repetitivo e traz o interesse novamente pela série, apoiado também no elenco coadjuvante: o ator que faz Leonard McCoy, Karl Urban, por exemplo, é ótimo, assim como Anton Yelchin, no papel do navegador Chekov, e Simon Pegg, especialmente, como Scotty, acompanhado da estranha criatura do primeiro, cuja inexpressividade chega a ser divertida. Mais do que em Missão impossível III e Super 8, é em suas versões de Star Trek que Abrams comprova sua habilidade à frente dos atores e dá espaço decisivo a cada um para o desenvolvimento da narrativa, contrabalançando a ação e os diálogos. E é o personagem de Scotty que vai lembrar a Kirk que a Enterprise serve para explorações espaciais, e não para armamentos alimentares, indicando que Abrams guarda um discurso de paz. Não há, aqui, nenhuma opressão dos interrogatórios de Maya em A hora mais escura; é um Star Trek com fundo pós-11 de setembro, ainda assim realçando a mitologia da série, com a criação de cenários grandiosos, cuja sensação, para os olhos, nunca é excessiva (como na segunda trilogia de Star Wars). Também o novo vilão de Star Trek, ao contrário do romulano Nero (Eric Bana) do filme anterior, é mais complexo, em razão, também, de Benedict Cumberbatch ter um desempenho notável.
Críticas apressadas têm concluído que o filme, por um lado, não respeita a mitologia da série original e, por outro, a segue em excesso, com referências múltiplas. Há ainda aquelas que julgam o filme simplesmente oco (natural, à medida que Prometheus, no ano passado, também foi considerado). É mais interessante se comparar este Star Trek com as grandes continuações de ficção, a exemplo de O império contra-ataca. Ele consegue ao mesmo tempo remeter ao original, de 2009, e apresentar acréscimos dramáticos de vigor, sem circunscrever os personagens num determinado limite, ou seja, faz exatamente o que deveriam trazer as continuações. O roteiro de Alex Kurtzman, Damon Lindelof e Roberto Orci não tem excessos, e cria surpresas na medida apropriada. Mesmo sem a nostalgia de Super 8, e talvez por causa disso, Abrams vê o espaço sideral como extensão da humanidade – não à toa, a referência ao pai de Kirk (Chris Hemsworth) é trazida sempre à lembrança, por ter salvo uma nave em perigo, e por isso colocam tanta expectativa em seu filho, do mesmo modo que Spock coloca expectativa na permanência da sabedoria de seus ancestrais (e há uma surpresa, novamente, nesse sentido). Desta vez, Kirk não é apenas mais alguém querendo ser capitão de uma espaçonave, e sim alguém que pretende ter uma liderança referencial em relação aos demais, além de conseguir entregar a confiança necessária para que cada um realize seu trabalho da melhor maneira, mesmo sob pressão. Com um olhar impressionante para cenas de ação, a partir dos efeitos visuais e sonoros não menos que excelentes, e uma afinidade com a bela direção de arte, Abrams compõe uma espécie de aventura ritmada em cima das peças de composição de Michael Giacchino. Estamos longe de uma nova tentativa de 2001 que Robert Wise apresentou no belo Jornada das estrelas – O filme (1979). Mas Abrams, mesmo que não agrade a todos, consegue humanizar os personagens de modo intenso, sem simplificá-los. Seu novo Star Trek, como o êxito do anterior já antecipava, é espetacular.

Star Trek Into Darkness, EUA, 2013 Direção: J.J. Abrams Roteiro: Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Roberto Orci Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Alice Eve, Simon Pegg, Anton Yelchin, John Cho, Leonard Nimoy, Bruce Greenwood, Peter Weller Produção: Alex Kurtzman, Bryan Burk, Damon Lindelof, J. J. Abrams, Roberto Orci Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: Michael Giacchino Duração: 129 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Bad Robot / Kurtzman Orci Paper Products / Paramount Pictures / Skydance Productions

Cotação 5 estrelas

O voo (2012)

Por André Dick

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Demasiada carga leva o diretor Robert Zemeckis, depois de receber o Oscar de melhor filme e diretor por Forrest Gump em vez de Tarantino e seu Pulp Fiction. Zemeckis é, antes de tudo, um artesão descoberto por Steven Spielberg sobretudo depois de sua joia Febre da juventude, em homenagem aos Beatles, e que nos anos 80 voltou a capturar parte da juventude e da infância na trilogia De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, projetos de ponta. Se depois de Forrest Gump, o diretor só voltaria a acertar novamente em Contato e Náufrago, dedicando-se por um tempo a animações um tanto desajeitadas (como O expresso polar e Beowulf), desta vez ele retoma a agilidade da ação exibida em seus melhores momentos nos anos 80 e 90 em O voo, o filme que também marca a maior atuação de Denzel Washington desde Dia de treinamento, pelo qual recebeu o Oscar de melhor ator.
Ele interpreta Whip Whitaker, um piloto de avião movido a drogas, cocaína e álcool, principalmente (daqui em diante, possíveis spoilers). Inicia-se o filme com ele dividindo a cama com uma aeromoça, Katerina Márquez (Nadina Velazquez), colega de trabalho, num hotel perto de um aeroporto. Com voo marcado para a manhã, Whitaker não parece tão alterado como deveria, apesar do copiloto, Ken (Brian Geraghty), e de outra aeromoça, Margaret (Tamara Tunie), perceberem algo estranho. Depois de enfrentar uma tempestade na decolagem, o percurso fica mais tranquilo, até o surgimento de um problema técnico. Zemeckis filma esta sequência com perícia, colocando o espectador no meio de uma manobra arriscada para Whitaker tentar salvar sua tripulação. Com o feito realizado, ele acorda numa cama de hospital, sendo logo cercado por policiais e por Charlie (Bruce Greenwood), amigo que trabalha no Sindicato. No hospital, além de receber a visita do amigo traficante Harling Mays (John Goodman, divertido), ele conhece Nicole (Kelly Reilly), cuja ação na primeira parte divide as atenções com as manobras de Whitaker. É esse encontro entre os personagens que Zemeckis pretende filmar e o que o personagem precisa perder para que haja um reencontro com a sua fazenda de infância. Diante do seu estado físico e emocional, ele precisará explicar, com a ajuda do advogado Hugh Lang (Don Cheadle), como conseguiu pilotar se estava sob efeito de drogas. E, aos poucos, como o personagem de Tom Hanks, em Náufrago (com o qual O voo, não só pelo diretor, tem semelhanças, também por seu início), ele irá valorizar determinadas coisas para as quais não dava importância.

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A princípio, O voo está situado num limiar entre a investigação de um acidente e a procura de provas, de ambos os lados, do sindicato e da National Transportation Safety Board (NTSB), que investiga a ação dos pilotos, para se provar ou negar determinadas situações examinadas, e a compreensão de que o personagem de Washington tem problemas alcóolicos que o imobilizam tanto diante de uma nova relação quanto com sua família, que não deseja vê-lo. Parece ser apenas uma recorrência a velhos clichês, mas Zemeckis não verte isso de maneira fácil e o personagem sendo um piloto de avião não se apresenta de maneira tão óbvia. O diálogo entre Whitaker, Nicole e um jovem acometido pelo câncer na escadaria do hospital é especialmente bem construída, com suas peças sendo jogadas aos poucos, até que se convença o espectador sobre cada personagem. No meio de toda sua situação pessoal trágica, encontra-se a crença ou não em Deus e na religiosidade.
Whitaker tenta convencer a todos que só ele poderia realizar a manobra feita e que dependeu apenas de si mesmo, sem nenhuma ajuda divina. Os laudos técnicos lhe dão razão. Mas como Whitaker pode entrar numa reunião de alcóolicos anônimos se ele, na verdade, se considera um herói inatingível, capaz de superar tudo o que pode ser crença pessoal, mesmo independente da religião? É esta medida que o roteiro de John Gatins, indicado ao Oscar, faz de maneira sensível. Neste sentido, O voo não está centrado apenas numa cena jurídica, que pode inocentar ou culpabilizar o personagem central, e sim numa cena de dilemas, ética e crença naquilo que não pode ser rapidamente entendido e no vício que não pode ser enfrentado sem o enfrentamento pessoal e do que ele mesmo próprio acredita (lamenta-se que, nesta etapa, a participação de Kelly Reilly diminua).

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Washington atua de modo excepcional como Whitaker, revelando minúcias e relutâncias de um verdadeiro personagem, pois O voo é um estudo sobre seus movimentos e sobre sua percepção da realidade. Ele é um ator completo num momento especialmente talentoso: seu trabalho com o olhar, demonstrando sua insegurança e angústia, e, ao mesmo tempo, sua raiva contida, é apenas para grandes performances. Num ano com Day-Lewis e Phoenix em grande forma, Washington mostra que não fica nada a dever, construindo um personagem enigmático. Não se trata exatamente de um personagem exatamente confiável, mas com falhas, com problemas na relação com o filho e a ex-mulher e na sua dificuldade de lidar com o que deve ser revisto na sua passagem pelo avião antes do acidente, o que faz com que o espectador se aproxime dele – e em momentos cruciais passe a querer que ele de fato consiga se estabelecer de forma mais equilibrada, sem que isso soe afetado. Sua tentativa de se inserir no meio político para tentar fugir de suas responsabilidades e suas relações atribuladas com o advogado que tenta representá-lo do melhor modo, e no entanto é ignorado quase sempre em cena, são algumas das características que se inserem no trabalho de Zemeckis para demonstrar que na verdade estamos diante de um personagem absolutamente solitário, mas por seu próprio desinteresse em se modificar diante de seu passado.
Lamenta-se apenas que O voo não desenvolva alguns relacionamentos e personagens da melhor forma e insista, ao final, com uma espécie de mensagem para tudo o que aconteceu, menosprezando um pouco a compreensão do espectador e sua liberdade de imaginar que o personagem de Whitaker não é um molde feito para indicar determinados caminhos ou não. Este final é apontado, de fato, como seu grande problema. No entanto, não apaga o que vem antes: O voo é um filme dramático, com ótimo elenco, capaz de prender a atenção e mesmo apresentar uma discussão interessante por trás de sua narrativa.

Flight, EUA, 2012 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo, Nadine Velázquez, Tamara Tunie Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis Roteiro: John Gatins Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Duração: 138 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Paramount Pictures / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia