Deadpool 2 (2018)

Por André Dick

O grande filme de super-heróis de 2016, na opinião de grande parte do público e da crítica, foi a produção modesta de um personagem da Marvel, Deadpool. Com Ryan Reynolds em seu papel principal, ele tenta fazer o mesmo que Ben Affleck: se este passou de Demolidor a Batman, Reynolds passou de Lanterna Verde a um herói mais cômico. A continuação começou a ser planejada logo em seguida, devido ao grande sucesso de bilheteria. E o diretor do original, Tim Miller, nesse meio tempo acabou se desentendendo com Reynolds e deu lugar a David Leitch. Ele teria pretendido fazer um filme como o primeiro, simples em termos de orçamento, indo contra a vontade do ator. Leitch dirigiu anteriormente duas peças de ação destacáveis, John Wick e Atômica. Ambos têm, além de uma ação dosada, um visual muito interessante, sobretudo o segundo.

Reynolds volta a fazer aqui um bom super-herói. Mais à vontade com a carregada maquiagem que exibe quando não está com a máscara, quando aparece como Wade Wilson, ele vem conseguindo se destacar até dramaticamente, em À procura, e parece ter entendido ainda melhor o timing do humor. As grandes qualidades de Deadpool 2 se devem, como no primeiro, à sua presença. Ele já começa em grande movimento, com o herói tendo de se enfrentar bandidos. Em seguida, ele reencontra a namorada Vanessa (Morena Baccarin), e logo adiante seu melhor amigo, Weasel (T.J. Miller), que trabalha num pub.
Se o primeiro filme tinha um bom ritmo até o fim de sua primeira metade, Deadpool 2, pela utilização de cenários variados e exatamente mais grandiosidade (que teria causado o desentendimento entre Reynols e o diretor do original), é uma obra de ação que retoma elementos de um humor despretensioso, apesar de sua variedade infinita de referências ao universo cultural (particularmente engraçada a analogia entre Frozen e Yentl, filme dos anos 80 com Barbra Streisand, e a lembrança de Instinto selvagem), além de voltar a mostrar o super-herói como uma peça menos importante do universo X-Men, na mansão Xavier, levando novamente à quebra da quarta parede, em gags que funcionam em boa parte. Para que Wade possa descobrir um lado que desconhecia (o de querer uma família), ele conhece o jovem mutante Russell Collins (Julian Dennison, outra vez mostrando o talento que exibiu em A incrível aventura de Rick Baker), revoltado com o diretor (Eddie Marsan, em breve participação, mas convincente) do orfanato onde vive.

Domino, alter ego de Neena Thurman (Zazie Beetz), é a personagem que surge para acompanhar Deadpool no terceiro ato inevitavelmente voltado a cenas de ação, ainda assim melhor dosado do que aquele do primeiro filme. O interessante é que o roteiro dos mesmos autores do original, apesar de previsível, principalmente depois da entrada do vilão Cable (Josh Brolin, muito bem em uma persona maquiada, mas sem digitalização), se mostra muito superior ao primeiro, em que havia um salto do primeiro para o segundo ato sem o preparo necessário.
O filme já inicia com uma referência a uma determinada influência que Deadpool teve no universo da Marvel. Estão de volta Colossus (Stefan Kapicic) e o taxista Dopinder (Karan Soni). O diretor Tim Miller buscava contato com o humor violento de Kick-Ass, mas Leitch, por ter mais apuro visual, consegue concentrar a violência sob um ponto de vista menos impactante e verdadeiramentes engraçado. Uma passagem em que Deadpool tenta guiar uma equipe é uma das mais cômicas do cinema recente. As sequências de ação têm ritmo próprio, porém não se apresentam de maneira a investir num exagero desproporcional; privilegiam a técnica e o embate corpo a corpo, uma especialidade do diretor já demonstrada principalmente numa longa sequência de luta de Charlize Theron em Atômica. O diretor de fotografia Jonathan Sela, o mesmo desse filme anterior de Leitch, desenha uma movimentação interessante com a câmera.

No primeiro, a impressão é que a aparente crítica corrosiva apenas procurava encobrir a ideia de que todos os filmes acabam tendo elementos parecidos o vilão, a mocinha a ser resgatada, o herói abalado por sua criação. Aqui o filme brinca exatamente em cima da própria metalinguagem: “segue uma cena de efeitos especiais”. É simples e funcional, e o personagem funciona sem a autoimportância de ser aquele que critica a indústria sob um ponto de vista bem-humorado: ele já explicita que faz parte dessa mesma indústria e suas gags são bem mais discretas e verdadeiramente sarcásticas. Deadpool 2, como o anterior, ainda deve bastante ao que Homem-formiga fez com precisão e agilidade, mas tem personagens à altura de seus objetivos. Se o primeiro arrecadou um valor extraordinário nas bilheterias, talvez este segundo não chegue ao mesmo. Com quase o dobro de custo do original, visto plenamente na tela, de qualquer modo, há algo decisivamente substancial nesta peça, uma espécie de visão familiar buscada pelo super-herói em diferentes passagens, até quando está tentando ser engraçado.

Deadpool 2, EUA, 2018 Diretor: David Leitch Elenco: Ryan Reynolds, Josh Brolin, Morena Baccarin, Julian Dennison, Zazie Beetz, T.J. Miller, Brianna Hildebrand, Jack Kesy Roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick, Ryan Reynolds Fotografia: Jonathan Sela Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Simon Kinberg, Ryan Reynolds, Lauren Shuler Donner Duração: 119 min. Estúdio: Marvel Entertainment, Kinberg Genre, The Donners’ Company Distribuidora: 20th Century Fox

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Deadpool (2016)

Por André Dick

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O grande filme de  super-heróis de 2016, na opinião de grande parte do público e da crítica, foi a produção mais modesta de um personagem da Marvel, Deadpool. Com Ryan Reynolds em seu papel principal, ele tenta fazer o mesmo que Ben Affleck: se este passou de Demolidor a Batman, Reynolds passa de Lanterna Verde a um herói mais cômico. Trata-se de um projeto que circulou por alguns anos, sem que a distribuidora quisesse investir nele. Tudo aparenta, no entanto, ser parte de um grande marketing, à medida que o filme foi lançado sem grande propaganda, quase de surpresa. Quando se viu, o grande atrativo foi justamente saber de que obra se tratava. Ela não é para crianças nem exatamente para pessoas que não são especialmente fãs do personagem, mas, de algum modo, funcionou de maneira extraordinária.
Ao contrário de sua atuação em Lanterna verde, Reynolds faz aqui um bom super-herói, mesmo com suas limitações conhecidas. Ele já havia se mostrado um ótimo ator no menosprezado À procura, e parece que aqui aposta suas fichas para se desvencilhar da ideia de que é um ator sem acerto cômico. As grandes qualidades de Deadpool se devem à sua presença. E o filme começa muito bem, com Deadpool contando a sua história particular, desde o fato de ser um sujeito que lida com problemas alheios, Wade Wilson. até conhecer uma prostituta, Vanessa (Morena Baccarin), que se torna sua namorada.  Seu melhor amigo, por sua vez, trabalha num pub (TJ Miller), onde coordena um grupo de apostas.

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É difícil não tratar do que leva o personagem a se transformar num super-herói – e parte dessa transformação lembra a de Wolverine, pois parte do mesmo programa, chamado Arma X, embora este seja mais solucionado em termos de ritmo, pelo menos no início, envolvendo um sujeito que faz recrutamento (Jed Rees). O grande vilão acaba se tornando um personagem que participa de sua criação, Ajax, junto com Angel Dust (Gina Carano). Nesse meio campo, ele vem a ter procurado com Colossus (Stefan Kapicic) e Negasoic Teenage Warhead (Brianna Hildebrand). E encontra, para ajudá-lo em sua ação, o taxista Dopinder (Karan Soni). O diretor Tim Miller acelera a narrativa, buscando contato, principalmente, com o humor violento de Kick-Ass, mesmo que sem o mesmo mau gosto de Vaughn para extrair imagens pretensamente originais de uma coleção de assassinatos. E tem como correspondência também o recente Kingsman. Visualmente, Deadpool, por uma questão pessoal, é deplorável: ele emula com competência a câmera lenta de Matrix, mas não dá qualquer importância ao design de produção e a fotografia é excessivamente monocromática. Nesse sentido, ele poderia ter sido uma espécie de Scott Pilgrim se tivesse um diretor realmente talentoso por trás.
A questão é que, depois de um início trepidante, o grande problema é a tentativa de o filme ser bem-humorado. Isso vai além do limite e prejudica sua boa parte dramática, sobretudo ao início, quando Reynolds desempenha o papel do melhor modo, associado a uma bela atuação de Baccarin, sem apelar para o exagero e acompanhando a comicidade do parceiro de cena com rara graça. Entende-se que não é possível seguir nesta linha porque, afinal, o herói tem outro estilo, entretanto sua aparência depois de ser adotada pelo programa é certamente assustadora para quem precisa ser reconhecido pelo público. A partir disso, o que poderia ser dramático se transforma em piadas a Sinead O’Connor, Limp Bizkit, a série X-Men etc. Há algumas boas gags, prejudicadas pela necessidade de reiterar uma crítica corrosiva aos filmes de super-heróis, mas que sobrevive dela a todo custo.

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A impressão que os roteiristas tiveram é de que, havendo uma autossátira, o filme se tornaria melhor. Nesse sentido, o herói brinca frequentemente com o pouco orçamento do filme. Há uma quebra da quarta parede, com o personagem se dirigindo diretamente à câmera. Isso seria certamente risível se não fosse apenas uma maneira de dizer, de forma diferente, que Deadpool abraça o mainstream como todos os filmes de super-heróis, ou seja, sua aparente crítica corrosiva apenas procura encobrir a ideia de que todos os filmes acabam tendo os mesmos elementos: o vilão, a mocinha a ser resgatada, o herói abalado por sua criação. É um pouco constrangedor Reynolds satirizar sua própria carreira, como se de fato, em meio a brilhos esparsos, como em À procura, ela nunca se concretizou de fato. De algum modo, por meio da sátira, Deadpool quer adquirir uma autoimportância que não teria, pelo menos claramente. Pode-se dizer que o filme acaba crescendo para o espectador que realmente gosta do estilo do personagem e a maneira com que foi filmado. No entanto, a graça com outros filmes da Marvel é apenas uma extensão do que Homem-formiga fez com mais precisão e agilidade, além de contar com melhores personagens. Embora as cenas de ação sejam muito bem feitas, com certa violência que afastou o público mais infantil, o roteiro e o vilão de Deadpool são absolutamente planos, sem nenhum acréscimo. Que este filme tenha sido recebido como uma grande novidade e colhido uma bilheteria histórica é uma grande surpresa: ele merece por sua primeira parte, não tanto pela segunda, resultando numa diversão moderada.

Deadpool, EUA, 2016 Diretor: Tim Miller Elenco: Ryan Reynolds, Morena Baccarin, Ed Skrein, Gina Carano, TJ Miller, Stefan Kapicic, Brianna Hildebrand Roteiro: Paul Wernick, Rhett Reese Fotografia: Ken Seng Trilha Sonora: Junkie XL Produção: Kevin Feige, Lauren Shuler Donner, Simon Kinberg Duração: 106 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Marvel Enterprises / Marvel Studios / Twentieth Century Fox Film Corporation

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