Pixels – O filme (2015)

Por André Dick

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Para muitos, Pixels – O filme é quase uma ofensa pessoal, uma espécie de descida perigosa a um nível de gratuidade ameaçador, embora acompanhada pela tranquilidade de ter todo o Rotten Tomatoes ao seu lado. Quer se mostrar inteligente aos amigos e familiares? Se viu, diga simplesmente que é ruim. Algumas vezes o motivo é Adam Sandler, que tem bons momentos em filmes como Embriagado de amor, Tratamento de choque, EspanglêsComo se fosse a primeira vez e Homens, mulheres e filhos, e o caminho, cada vez mais presente, de querer homenagear os anos 80 de forma contínua, neste caso os video games.
Seres extratrerrestres interpretam uma fita com imagens de jogos de video game, em que há peritos em arcade, lançada junto com uma cápsula ao espaço nos anos 80 como uma espécie de convite a uma guerra – e decidem invadir a Terra usando as mesmas imagens desses jogos, em movimento vivo e grandioso. Pode-se dizer que as crianças não se interessam por esses games dos anos 80 – bem, elas se interessam por outros, que dialogam com esse universo. O presidente Will Cooper (Kevin James) chama o seu amigo de infância, Sam Brenner (Adam Sandler), para combater essa invasão, ao lado de Ludlow Lamonsoff (Josh Gad) e Eddie Plant (Peter Dinklage). Will e Sam eram amigos desde essa década – o filme inicia exatamente em 1982, ano de E.T. – e participavam de torneios de video games, em que Plant era o inimigo a ser batido.

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Quando a terra passa a ser ameaçada, o presidente precisa mostrar serviço – pois seus índices de aprovação estão baixos – e a tenente-coronel Violet Von Patten (Michelle Monaghan) lhe serve de guia, enquanto Brian Cox é o Almirante Porter, não tão interessado na resolução de todo o problema. Nesse universo, Von Patten estabelecerá ligação com Sam, principalmente depois de compartilharem, parte a parte, frustrações amorosas. O problema é que podemos sofrer ataques não apenas de “Galaga”, como de “Centipede” e, principalmente – a imagem de marketing do filme –, do Pac-Man. A cada ataque dos alienígenas, surgem imagens de figuras ligadas à década de 80 tratando de novas fases desse jogo vivo, a exemplo de Madonna e da dupla de A ilha da fantasia.
Baseado num curta-metragem de mesmo nome, dirigido por Patrick Jean em 2010, que mostrava figuras de jogos invadindo uma cidade, dizer que a trama deste filme é estapafúrdia é investir no lugar-comum. De que os diálogos são apenas passageiros, como forma de passar o tempo, e realmente os roteiristas Tim Herlihy (responsável por um dos melhores trabalhos de Sandler, Afinado no amor) e Timothy Dowling não utilizam o conceito do filme totalmente a seu favor, também. E investir num espaço em que Pixels se transforma num exemplo de filme a ser contestado porque não seria suficientemente elaborado e sério, ainda mais. Chris Columbus, o diretor que se destacou nos anos 80, como roteirista de Os Goonies, Gremlins e O enigma da pirâmide, já mostrou talento no universo infantojuvenil, em filmes como Esqueceram de mim, Uma noite de aventuras e os dois primeiros Harry Potter, assim como o ótimo e esquecido Uma noite com o rei do rock, uma homenagem a Elvis Presley.

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Em Pixels, ele conduz tudo com tanto descompromisso que faz com que Evolução, de Jason Reitman, seja uma espécie de obra máxima da invasão alienígena. No entanto, ele tem noção de contar uma história que prende a atenção – e Pixels faz isso de modo que o espectador por vezes esquece que a trama é sustentada por uma mistura de Os caça-fantasmas com Uma aventura Lego. Os gráficos do filme são muito bons, com design de produção elaborado e ótimos efeitos especiais. Talvez pela presença do Donkey Kong – um dos personagens de games –, o filme também pareça dialogar visualmente com Detona Ralph e Scott Pilgrim contra o mundo, além do referencial Tron, com seu mundo de jogos tentando invadir o espaço real; a questão é que Pixels, sem nenhum objetivo de levar o espectador a pensar sobre elos de trama, é uma diversão. E ainda consegue suscitar uma bem-humorada crítica ao militarismo norte-americano desde Reagan e seus elos com a Inglaterra, numa óbvia brincadeira com Margaret Thatcher na figura de Jane Krakowski. Há, igualmente, em Pixels, alguns elementos que tanto contestam em filmes de Sandler, como piadas sexistas, mas este não é o ponto (nem nos anos 80 haveria interesse em destrinchar recados simbólicos na trama a esse respeito): trata-se de uma sátira aos filmes de invasão espacial e o faz com uma excelente fotografia de Amir Mokri, de Homem de aço.

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Se Adam Sandler repete seus maneirismos, ele não tem a presença a ponto de incomodar, e Kevin James se mostra mais aceitável do que em outros momentos, enquanto Monaghan, sempre menosprezada como atriz, e Dinklage (de Game of Thrones) estão muito bem. Dinklage, em especial, soa não raramente divertido. Gad, por sua vez, tenta o riso em algumas situações, mas possivelmente seja o menos adequado à história, com suas teorias da conspiração envolvendo JFK. Diante do curta-metragem que o inspirou, Pixels consegue, principalmente em sua parte final, trabalhar com uma certa visualidade que remete às misturas entre humanos e animações que a Disney tentou em outros momentos – e o mais conhecido é Uma cilada para Roger Rabbit –, inclusive tentando trazer uma figura irreal também à vida. É de se lamentar apenas que as gags não sejam tão numerosas que acompanhem os efeitos especiais fabulosos de Pixels, capazes de realmente criar um universo à parte dentro da realidade que conhecemos. Os esforços não são no sentido de Uma aventura Lego, um manancial grande de referências culturais também vertidas em diálogos ininterruptos entre os personagens, o que acaba deixando as características dos personagens pouco desenhados. Ainda assim, ele atende ao que se propõe: é, de certo modo, parte da cultura pop em movimento.

Pixels, EUA, 2015 Diretor: Chris Columbus Elenco: Adam Sandler, Kevin James, Peter Dinklage, Michelle Monaghan, Josh Gad, Matt Lintz, Brian Cox, Jane Krakowski Roteiro:  Tim Herlihy, Timothy Dowling Fotografia: Amir Mokri Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Adam Sandler, Allen Covert, Chris Columbus, Mark Radcliffe, Michael Barnathan Duração: 105 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Columbia Pictures / Happy Madison Productions

Cotação 3 estrelas e meia

 

Zodíaco (2007)

Por André Dick

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O cineasta David Fincher, depois de realizar o subestimado Alien 3, regressou com Seven, que traz Brad Pitt e Morgan Freeman, como investigadores de um serial killer. Em Seven, os diálogos não se mostram tão importantes quanto o clima mórbido, com reviravoltas e uma experiência sensorial, cercada por uma galeria de mortes inspirada nos sete pecados capitais. Fincher pinta um retrato cruel da sociedade, sobretudo impactante. Depois de Clube da luta e Vidas em jogo, ele realizou O quarto do pânico, ainda tateando, indefinido, como nesses anteriores, entre a estética e a história bem contada, mostrando uma mãe (Jodie Foster) e sua filha (Kristen Stewart), com problema de asma, presas num quarto do pânico, por causa de um assalto que acontece em sua casa. Se há problemas narrativas, Fincher trabalha de forma notável o elemento claustrofóbico.
Em Zodíaco (daqui em diante, possíveis spoilers), Fincher volta ao clima de perseguição a um psicopata de Seven com todas as doses de suspense de que é capaz e consegue solucionar o clima de O quarto do pânico de forma efetiva. Mostra isso ao começar contando a história do assassino que se autonomeia Zodíaco (ele mandava cartas para jornais, incitando a polícia e novas vítimas), mas nunca consegue ser descoberto, ao longo de anos, mesmo investigado por um policial, David Toschi (Mark Ruffalo), acompanhado de William Armstrong (Anthony Edwards), sob o comando do Capitão Marty Lee (Dermot Mulroney).

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Esses investigadores ganham a parceria de Jack Mulanax (Elias Koteas), em Vallejo, e Narlow Ken (Donal Logue), em Napa. Todos os seus crimes são cometidos sem deixar pistas: inicia-se no dia 4 de julho de 1969, em meio a festividades dos Estados Unidos, com fogos de artifício riscando o escuro da noite e a quebra com a inocência dos anos 50 e 60 – depois de os personagens pararem numa lanchonete à la American graffiti –, e o mais impactante é um à beira de um lago, quando um casal é abordado pelo criminoso que surge por trás das árvores (com o Zodíaco desenhado em sua roupa), e sua tentativa mais assustadora aquela em que aborda uma mulher na estrada.
Fincher mostra a repercussão dos assassinatos do Zodíaco no San Francisco Chronicle, com a cobertura de um jornalista alcoólatra, Paul Avery (Robert Downey Jr., excelente). Todas as tramas ganham o interesse de um cartunista do jornal, Robert Graysmith (Jack Glylenhaal, no melhor papel de sua carreira, escolhido por Fincher depois de assistir a Donnie Darko), obcecado pelo caso e pela criptografia enviada pelo Zodíaco para provocar os leitores do jornal. Trata-se de um caso quase impossível e coloca até sua mulher, Melanie (Chloë Sevigny), e seus filhos em perigo para conseguir obter novas pistas, sobretudo quando a polícia se mostra cansada com a procura sem resolução.
Graysmith se torna amigo de Avery, tentando fazer parte da investigação, e são especialmente divertidos os momentos em que o jornalista diz a seu chefe que está sendo ameaçado. Além disso, Fincher, com seus ambientes amarelados, por meio do auxílio da excelente fotografia de Harris Savides, dialoga abertamente com Todos os homens do presidente, de Alan J. Pakula, sobretudo nos debates da redação sobre como os crimes do Zodíaco devem ser abordados. Também provoca suspense a procura para desvendar a caligrafia do assassino, com um especialista, Sherwood Morrill (Phillip Baker Hall), além de haver as tentativas de um apresentador de TV, Melvin Belli (Brian Cox), em estabelecer uma ligação com o assassino pretendendo antecipar suas ações.

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Ao contrário de Seven, não temos, aqui, crimes a serem solucionados da noite para o dia, mas uma indagação que percorre anos, décadas, desde os anos 1960, entrelaçando diferentes personagens interessados ou não pelo crime. Fincher não entrega qualquer resposta, pois no fim das contas quer relatar como uma história hedionda pode perpassar a própria atemporalidade das pessoas envolvidas, que vão do ápice ao desaparecimento, ou ao contrário, em segundos. Nesse sentido, sua aproximação de Memórias de um assassino, de Joon-Ho Bong, se destaca, com a obsessão da polícia em capturar um criminoso imprevisível durante anos (o filme de Fincher apenas tem menos humor). Quando surge Arthur Leigh Allen (John Carroll Lynch), essa sensação se mostra ainda mais presente. Aos poucos, cada policial começa a imaginar que as demais investigações só podem andar se o Zodíaco for preso; é como se ele fosse um impecilho em suas vidas. Do mesmo modo, Graysmith passa a se desentender com a mulher, à medida que, mesmo com filhos, concentra seu olhar numa possível investigação pessoal, trazendo para casa telefonemas anônimos. O tempo corre para todos, mas o espectador não o vê passar na Golden Gate Bridge, apenas na construção de edifícios e na passagem de datas assinalada pelo diretor, além de na clara construção psicológica dos personagens.
A cada pista não correspondida, Fincher não mostra nenhum mistério solucionado e cenas de perseguição gratuitas, mantendo-se mais no plano da investigação em cima de materiais enviado pelo Zodíaco ao jornal de San Francisco e nos documentos de delegacias e depoimentos. Ele parece interessado, muito mais, em cada personagem do que em Seven ou qualquer outro filme – talvez pela admiração que tem com os personagens reais, pois trata-se de uma história que habitou sua infância. Está lá também sua homenagem ao cinema, quando Graysmsith encontra Toschi na sala em que é exibido Dirty Harry – com Clint Eastwood –, cuja história tem ecos de Zodíaco. Toschi sai do cinema perturbado por exatamente não conseguir solucionar o crime que lembra o do filme.

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Numa metalinguagem sensível à obra de Fincher, mais bem solucionada do que normalmente, o diretor ainda mostra um encontro entre Graysmith e alguém que teria trabalhado com o assassino num cinema. Nele, pode-se dizer que Fincher brinca claramente com a obra de Hitchcock, quase sendo uma homenagem à parte. Mais interessante é que surge uma amizade também entre Graysmith e Toschi, e a habitual competência de Ruffalo para compor papéis cotidianos com sensibilidade cria um grande vínculo com a insistência cercada de ingenuidade de Glyllenhall.
Como em O curioso caso de Benjamin Button, A rede social e Millennium, Fincher está interessado na progressão que cada um desses personagens tem para a história e na história, deslocando-se de uma década para a outra sem nenhum sobressalto, mas como se tudo fosse atemporal. Isso ganha a colaboração da excelente trilha sonora e da fotografia de Savides. Se em seu início a estética crescia sobre o roteiro e os personagens, em Zodíaco Fincher começa a atingir o equilíbrio. Com isso, revela-se, em toda sua abrangência, a obsessão pelos detalhes e pelos personagens complexos. E ainda revela mais: um dos artesãos mais sensíveis que o cinema ofereceu nos últimos 20 anos, pelo menos.

Zodiac, EUA, 2007 Diretor: David Fincher Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch, Richmond Arquette, Bob Stephenson, John Lacy, Chloë Sevigny, Elias Koteas, Dermot Mulroney, Philip Baker Hall, David Lee Smith, J. Patrick McCormack, Adam Goldberg, James LeGros Roteiro: James Vanderbilt Fotografia: Harris Savides Trilha Sonora: David Shire Produção: Ceán Chaffin, Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer, James Vanderbilt Duração: 158 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Warner Bros. Pictures / Phoenix Pictures

Cotação 5 estrelas

 

Chamada.Filmes dos anos 2000

O fantástico Sr. Raposo (2009)

Por André Dick

Em um ensaio de Estâncias, o filósofo italiano Giorgio Agamben recorda de um texto intitulado “Moral do brinquedo”, em que o poeta Charles Baudelaire narra a visita que fez, quando criança, à casa de uma certa Madame Panckhoucke – citando as palavras de Agamben: “Ela tomou-me pela mão e juntos atravessamos muitas habitações; depois, abriu a porta de um quarto, que me proporcionou um espetáculo extraordinário e realmente fabuloso. Os muros, por estarem cobertos de brinquedos, já não eram mais visíveis. O teto desaparecia sob a florescência de brinquedos que pendiam como estalactites maravilhosas. O piso deixava apenas pequeno espaço onde pôr os pés… Por causa dessa aventura, é que não posso parar diante de uma loja de brinquedos e percorrer com o olhar a inextricável multidão das suas formas bizarras e das suas cores díspares, sem pensar na senhora vestida de veludo e de pele, que me aparece como a Fada do brinquedo”. Para Agamben, Baudelaire desenha “um misto de alegria impenetrável e de frustração estupefata, que está na raiz quer da criação artística, quer de toda relação entre os homens e os objetos”. Deslocando-se para o livro A criança e a vida familiar no Antigo Regime, de Ariés, Agamben considera que até o século XVIII a Europa adulta “procura avidamente os objetos em miniatura, as casas de boneca…” – sendo que os “historiadores de brinquedos (nas palavras de Ariés), os colecionadores de bonecas e de objetos em miniatura, encontram sempre muita dificuldade para distinguir as bonecas de brinquedo de todas as outras imagens e estatuetas […].”. Para Agamben, em outro ensaio, “O país dos brinquedos”, “o brinquedo é uma materialização da historicidade contida nos objetos que ele consegue extrair por meio de uma manipulação particular”.

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Esta manipulação particular e o encontro com uma casa de brinquedos com a avidez de um historiador é o que move Anderson, sobretudo em O fantástico Sr. Raposo, baseado numa história de Roald Dahl, autor de histórias infantis adaptadas para o cinema com grande êxito, como os dois A fantástica fábrica de Chocolate, James e o pêssego gigante, Matilda e mesmo Gremlins (cujo livro homônimo de Dahl serviu de base para o filme de Joe Dante). Desde o início, quando num travelling horizontal – que dialoga diretamente com o início de Moonrise Kingdom –, Anderson coloca o espectador numa espécie de redoma de brinquedo e, depois de mostrar o Sr. Raposo (George Clooney) e a  Sra. Raposa (Meryl Streep), roubando um galinheiro – para ela dizer que está grávida, pedindo que ele deixe a vida de ladrão e procure outro emprego –, os mostra em mudança para uma nova casa – numa árvore –, tudo lembra uma casa de bonecas. Por se tratar de raposas e texugos, tendo esquilos como transportadores de mudança, O fantástico Sr. Raposo mostra tocas e mais tocas, onde os personagens passam, cavando por vontade ou desesperados. O casal já tem um filho, Ash (Jason Schwartzman), que quer ser esportista, mas não consegue chegar ao talento do pai. Com a chegada de um primo mais ágil, Kristofferson (Eric Anderson), ele acaba ficando ressentido – sobretudo porque o primo é convidado pelo pai e pelo gambá, Kylie (Wallace Wolodarsky), para participar do roubo de galinhas a propriedades vizinhas, dos fazendeiros mais temidos de toda a história da região, Boggis (Robin Hurlstone), Bunce (Hugo Guinness) e Bean (Michael Gambon), que abrem fogo contra o Sr. Raposo. “Ele mal chegou e já ganhou máscara de bandido”, diz ele, revoltado.

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Aconselhado a não se mudar para lá, o Raposo não dá ouvidos ao advogado, Badger (Bill Murray), pois quer, afinal, seguir seu instinto de caçar galinhas, indo contra a vontade da esposa, que adora pintar plantações sob tempestades de raios (e a pintura é referência contínua de Anderson, como vemos com Sam de Moonrise Kingdom). No plano animal, o adversário é o Rato (Willlem Dafoe) – que ganha, ao longo do filme, a animação mais assustadora, sobretudo pelo tamanho que parece ter dentro dessa caixa de brinquedos movida por Anderson.
Tendo tocas como cenários e a reconstituição cuidadosa da casa da família de raposas com miniaturas condizentes, Anderson, mais ainda do que em Os excêntricos Tenenbaums ou A vida marinha com Steve Zissou, investe num imaginário propício às fábulas. Se as personagens nunca agem como personagens de uma fábula normal – as gags para adultos são muitas – , é porque Anderson investe todo o seu estilo, em pinceladas de humor também visual e uma ágil troca de diálogos, em roteiro escrito pelo diretor em parceria com Noah Baumbach (diretor de A lula e  a baleia), já estabelecida em A vida marinha com Steve Zissou. Ele chegou a competir com Up – Altas aventuras ao Oscar de melhor animação, e este filme é sem dúvida bastante semelhança com Sr. Raposo no sentido de que é mais dirigido a adultos. Anderson deseja investir sua concepção visual num stop-motion dos mais originais – correspondendo-se com alguns crustáceos filmados em noite de lua cheia por Zissou –, em que cada personagem ganha uma movimentação crível (destaca-se, por exemplo, a presença de alguns cães), colocando, para aproximar espectador e filme, os personagens falando diretamente para a câmera, com a habitual tendência de Anderson em buscar o enquadramento exato.

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Lá estão todos os elementos que vemos na filmografia “com atores” de Anderson: a família é sempre um lugar para a juventude tentar crescer da melhor forma, mesmo que ela apresente às vezes alguns valores duvidosos – o filho ficar triste porque não é convidado pelo pai a ser um “bandido”, por exemplo. Mas o pai, como um Royal Tenenbaum, que vive de enganações, e tenta deixar de escrever no jornal da cidade para ser respeitado novamente como um caçador, não deseja apenas refazer sua vida: ele não sabe exatamente o que está fazendo e, quando arrasta a todos para dentro da situação, o que lhe resta é tentar liderar uma revolução e se transformar novamente numa referência. Mas as coisas, a partir daí, já mudaram: para Anderson, no entanto, dentro ou fora da árvore – ou da caixa de brinquedos –, os personagens devem continuar sobrevivendo, mas não sem humor ou música. O fantástico Sr. Raposo é uma peça de grande apelo justamente por sua inteligência em mesclar o universo das fábulas com o da música pop (temos até mesmo uma participação de Jarvis Cocker, do Pulp, em forma de animação), sem reduzir o seu universo, com a ajuda de uma magnífica fotografia de Tristan Oliver, ocupando o cargo do colaborador habitual do diretor, Robert D. Yeoman.
É bem verdade que, por ser dirigido ou não às crianças, mais do que seus outros filmes, Anderson se arrisca, aqui, a tentar dar uma certa lição moral – no que acaba não tendo controle, perdendo, no meio do filme, alguma parte da força que existe no restante –, mas acaba se recuperando e compondo um retrato corrosivo de uma família, assim como seu referencial Os excêntricos Tenenbaums e uma meditação sobre a violência contra animais da maneira mais surpreendente que se pode imaginar e, ao mesmo tempo, brincando com golpes de artes marciais. Não é sempre que vemos raposas, texugos e gambás agindo em conjunto ou não – em Anderson, no entanto, mais do que interessante, torna-se memorável.

Fantastic Mr. Fox, EUA, 2009 Diretor: Wes Anderson Elenco: George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray, Jason Schwartzman, Owen Wilson, Michael Gambon, Helen McCrory, Roman Coppola, Brian Cox, Wallace Wolodarsky, Robin Hurlstone, Hugo Guinness, Jarvis Cocker Roteiro: Wes Anderson, Noah Baumbach Fotografia: Tristan Oliver Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Wes Anderson, Allison Abbate, Jeremy Dawson, Scott Rudin Duração: 87 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: American Empirical Pictures / Twentieth Century Fox Film Corporation / Blue Sky Studios / Indian Paintbrush / Twentieth Century Fox Animation

Cotação 4 estrelas

 

Rushmore (1998)

Por André Dick

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Depois da boa recepção de Bottle Rocket, Wes Anderson voltou a se reunir com Owen Wilson – que não marca aqui a sua presença como ator – para terminar o roteiro de Rushmore (no Brasil, intitulado Três é demais), iniciado ainda pelos dois na universidade, tendo como personagem central Max Fischer (Jason Schwartzman). Além de uma parceria com Wilson, este filme mostra uma espécie de autobiografia de Anderson, reconhecido em seu colégio como autor de peças de teatro e mostra o objetivo de dialogar com as obras de Roald Dahl, sua referência artística maior e do qual adaptaria O fantástico Sr. Raposo, sob a produção da Touchstone (ligada à Walt Disney).
Max é um jovem de 15 anos que estuda na Rushmore (com locações em St’Johns School, onde o cineasta estudou) e logo no início se percebe o fluxo de Os excêntricos Tenenbaums na aula expositiva. Ele tem algumas manias, como admirar Herman Blume (Bill Murray), um grande empresário da cidade na área de aço, e nutre uma paixão escondida pela professora Rosemary Cross (Olivia Williams).
A cortesia de Wes Anderson está em cada movimento de Rushmore, mas ainda mais na maneira como enfoca Max, dividido entre ser uma mente privilegiada e uma mente rigorosamente solitária, deslocado em meio a seus colegas de escola e mais interessado em discutir sobre modos de comportamento com o diretor, Nelson Guggenheim (Brian Cox). Anderson o coloca como um miniadulto, ao mesmo tempo apaixonado por aquários e peixes (um pré-Steve Zissou e de acordo com seu sobrenome) e interessado em escapar de sua rotina, mesmo que seja encenando uma peça sobre a Guerra do Vietnã (uma evidente referência a Apocalypse now, com uma metalinguagem realmente bem resolvida).

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A amizade de Max com Herman é baseada no fato de que este precisa ter um ponto de referência que seus filhos gêmeos não lhe trazem, enquanto aquele precisa ter um finciamento para construir um aquário gigantesco em Rushmore. Filho de um barbeiro, Bert (Seymour Cassel), ele também regressa às origens, mas parece ter um certo incômodo em reencontrá-la, muito por causa da ausência da mãe, que se pronuncia discretamente num determinado momento, sem que Anderson precise lançar para fora um certo drama capaz de mobilizar a história. Anderson revela, mais do que em Bottle Rocket, a carga de seu estilo, lançando várias situações em que o personagem se sente deslocado e, mais ainda, a estranheza do comportamento de Max, quando tenta conquistar Rosemary se utilizando das atitudes mais estranhas, principalmente numa biblioteca.
Schwartzman, sobrinho de Francis Ford Coppola e filho de Talia Shire (a Adrian casada com Rocky Balboa), é realmente um grande ator e costuma ser subestimado – particularmente sua presença em Maria Antonieta e Huckabees – A vida é uma comédia é de grande eficácia, o mesmo valendo para sua participação em Scott Pilgrim contra o mundo e no recente Walt nos bastidores de Mary Poppins. Enquanto em Viagem a Darjeeling ele faria um intelectual e um escoteiro em Moonrise Kingdom, novamente, aqui Schwartzman consegue encenar uma grande interpretação, sobretudo no seu embate amigo com Blume. Capaz de misturar o ar de quem possui realmente 15 anos, mas com uma expectativa de se apresentar como o mais preparado numa reunião estudantil ou de negócios, Schwartzman passa ao espectador a ideia de que é uma referência, embora falha, bastante confiável, mesmo com suas atitudes às vezes intempestivas.

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Blume é um típico empresário que gostaria de se livrar da sua família e de seus filhos gêmeos, sobretudo quando seus interesses se voltam para a mesma professora Cross que tanto encanta Max, e este duelo vai criar alguns dos momentos mais interessantes do filme, do mesmo modo que mostra, cada vez mais, as atitudes patéticas de cada um. Isso porque Blume a princípio tenta desestimular Max a criar esta paixão em seu universo, quando, por outro lado, escondido atrás de árvores ou com um cigarro quase caindo do canto de sua boca, pretende fazer o mesmo: conquista-la de qualquer forma. Esta ligação implícita é informada a Max por Dirk Calloway (Brian Mason), que tenta se vingar dele por haver rumores de que sua mãe teria um caso com o amigo.
Em nenhum outro filme de Wes Anderson, possivelmente nem no recente O grande Hotel Budapeste, há uma aura de melancolia como existe em Rushmore, e é certamente o seu filme menos múltiplo em se tratando de cores. A fotografia é do habitual colaborador de Anderson, Robert D. Yeoman, e a trilha sonora mistura diversas vertentes, mas já assinala o estilo do diretor – e podemos perceber o quanto ele busca o complemento da personalidade de cada personagem por meio das canções.
O uso de uma certa visão de fábula infantil sem sons de animais se encontra ao longo de sua narrativa, mas certamente Anderson, aqui, tenta empregar uma questão existencial mais baseada num certo cinema francês de Jaques Tati e com a fotografia e o tratamento dado por Alain Resnais no magistral Meu tio da América, que já abrigava sua mescla de cor vermelha com o amarelo de uma nostalgia amarga e perdida no tempo, irrefreável em suas mudanças. Também vemos, embora sem o mesmo impacto demonstrado depois, a função e o desejo de constituir uma família, principalmente quando se perdem as referências mais imediatas, que provocam a solidão dos personagens.

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Anderson igualmente desenvolve a questão de um adolescente modificar o universo adulto à sua volta, sem fazer a mínima força para tanto, mas inserindo-se pouco a pouco nas escolhas desses personagens. Quando Max precisa ir estudar em Grover Cleveland High, ele conhece uma menina que passa a admirá-lo, Margaret Yang (Sara Tanaka), mas sua admiração incondicional pela antiga professora se mantém como sua proximidade do universo teatral. É impagável a sequência em que Max conhece o namorado de Rosemary, Peter Flynn (Luke Wilson) e tenta travar um embate de ideias – e ligeiramente o filme pode lembrar o humor cáustico de Clifford revestido por toda a densidade que nos habituamos a ver no cinema de Anderson. Rushmore, neste sentido, além de preservar esse contraste entre resquícios da infância e mundo adulto reserva, na verdade, o marco da passagem para a constituição de uma personalidade. Assim como víamos na estreia de Anderson, o pretenso humor e o tom mais leve esconde uma profundidade: é claro que, ao nos aproximarmos sem atenção, o que vem sempre à superfície do cinema de Anderson é um certo descompromisso e personagens vistos até mesmo como superficiais, mas isso é quando não se percebe o que ele fala dos personagens por meio exatamente de um humor enviesado, nunca direcionado a uma determinada finalidade de fazer o espectador sorrir; ele sempre fica num limite tênue entre o patético e o drama interior que não pode ser extravasado, caso contrário parecerá exagerado e mesmo piegas. É exatamente o que acontece quando vemos Max Fischer no início e ao final: o espectador pode acompanhar um personagem em crescimento, reencontrando o outono e o verão de si próprio. Isso é mais do que uma realização de Anderson, como também uma amostra evidente de sua sensibilidade.

Rushmore, EUA, 1998 Diretor: Wes Anderson Elenco: Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams, Seymour Cassel, Brian Cox, Sara Tanaka, Mason Gamble, Stephen McCole, Luke Wilson Roteiro: Owen Wilson, Wes Anderson Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Eddie Phillips, Kenny Pickett, Mark Mothersbaugh Produção: Owen Wilson, Wes Anderson Duração: 93 min. Estúdio: Touchstone Pictures

Cotação 4 estrelas e meia